3. Tradução de Letras de Música
3.5. Traduções cantáveis
3.5.1. O Princípio do Pentatlo de Peter Low
3.5.1.4. Ritmo
Este critério apresenta o maior desafio para o tradutor, pois o seu cumprimento é a parte mais importante de todo o Pentatlo. O ritmo de uma canção não apresenta tanta flexibilidade como os outros critérios: o sentido pode ser alterado ligeiramente sem trair muito o TP, mas se o objetivo do TC é ser cantado, o tradutor é obrigado a respeitar o ritmo da melodia (o compasso, os acentos, a duração das notas, etc.) (Low, 2017, p. 78). O ritmo é certamente mais importante que a rima, pois nem todas as canções rimam, mas todas têm ritmo (Low, 2017, p. 103). Uma boa tradução cantável necessita de ser feita de acordo com o ritmo da canção.
A técnica mais simples, e mais usada, para respeitar o ritmo da canção consiste em manter o mesmo número de sílabas: na maior parte das canções, cada sílaba de cada palavra da letra corresponde a uma nota musical da melodia; isto permite que a letra seja cantada com o mesmo ritmo da melodia. Logo, o ritmo pode ser respeitado se o tradutor fizer com que cada verso contenha o mesmo número de sílabas no TP e no TC
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(Low, 2017, p. 96). Segundo Judi Palmer, “the number of syllables contained within the word in translation must be identical to the number of syllables in the original” (Palmer, 2013, p. 23), e Johan Franzon chama à correspondência entre notas e sílabas “the minimum requirement of singability” (Franzon, 2008, p.3 92).
Em português, na música e na poesia, o número de sílabas de um verso costuma ser contado até à última sílaba tónica – por exemplo, o verso “Heróis do mar, nobre povo” tem sete sílabas, pois “-vo” não é contado; contudo, existe alguma flexibilidade neste aspeto, e tanto letristas como tradutores podem fazer sílabas finais átonas corresponder a notas acentuadas se acharem apropriado.
Quando a tradução de um verso contém menos sílabas do que o seu equivalente no TP (algo que acontece raramente quando a LC é o português, mas mais frequentemente quando é o inglês), o tradutor pode escolher palavras mais longas (embora isso possa comprometer o critério de naturalidade), repetir uma palavra ou segmento frásico, ou adicionar uma palavra ou segmento frásico novo; esta adição deve ser, obviamente, algo relacionado com o resto do TC, tal como algo que esteja subentendido no texto original, ou apenas palavras menores cuja adição não faça especial diferença ao conteúdo semântico do texto; por exemplo, a palavra “butterflies” (três sílabas) pode ser curta demais para traduzir a palavra “borboletas” (quatro sílabas), pelo que o tradutor poderá optar antes por “the butterflies” ou “these butterflies” (Low, 2017, p. 96). Uma outra opção consiste em introduzir um melisma – uma secção da canção onde uma única sílaba da letra corresponde a duas ou mais notas musicais: neste caso, em vez de adicionar mais uma sílaba, o tradutor poderia fazer a sílaba “-flies” de “butterflies” corresponder às notas a que correspondem as sílabas “-le” e “-tas” de “borboletas”.
Quando o problema do TC é ter sílabas a mais, o tradutor pode optar por omitir palavras (tal como adjetivos, ou artigos e pronomes cuja omissão não torne a frase gramaticamente incorreta) ou por substituir uma palavra ou segmento frásico por algo mais curto que se adeque à letra (Low, 2017, p. 96): por exemplo, na dobragem em português europeu do filme de animação The Hunchback of Notre Dame (1996), a canção “The Bells of Notre Dame” (cujo título é uma frase repetida ao longo da letra94)
94http://www.metrolyrics.com/the-bells-of-notredame-lyrics-disney.html (consultado a 27 de junho de
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passa a ser “O Som de Notre Dame”95; nesta frase, é essencial manter “Notre Dame”
(uma referência à igreja onde a maior parte da ação do filme toma lugar), mas a referência específica a “the bells” (que tem duas sílabas, mas cuja tradução literal, “os sinos”, tem três) não é essencial, pelo que foi substituída por “o som”96. Um TP que
contenha um melisma fornece uma boa oportunidade para introduzir mais sílabas (fazendo assim com que cada nota do TC corresponda a uma sílaba, omitindo por isso o melisma) (Low, 2017, pp. 100-101). Uma canção de andamento lento, onde a maior parte das notas demoram algum tempo a serem cantadas, fornece também alguma flexibilidade ao tradutor: uma sílaba do TP cantada durante vários segundos pode ser transformada em duas sílabas cantadas um pouco mais rapidamente no TC.
Apesar desta conservação do número de sílabas ser uma técnica prática, existem casos em que o tradutor pode fazer pequenos ajustes ao numero de sílabas. Muitos compositores profissionais fazem ajustes à letra ou às notas da melodia para que as duas se ajustem melhor uma à outra, e segundo Peter Low, “Clearly, musicians do not all see the rhythmic details as sacrosanct.” (2017, p. 101). Manter o número de sílabas é uma boa linha de orientação e pode ser altamente desejável, por exemplo, no caso de cânticos religiosos (cuja intenção é a de serem cantados por coros amadores, beneficiando por isso de versos com uma métrica uniforme), mas não é estritamente essencial se os cantores e músicos não se importarem com um pequeno ajuste aqui e ali. De facto, se o tradutor trabalhar em conjunto com o compositor e/ou com os músicos que vão interpretar o TC, e se houver essa possibilidade, podem ser feitos ajustes às notas da melodia bem como à letra da canção (Low, 2017, pp. 101-102).
Outro aspeto que pode beneficiar tanto o ritmo como a cantabilidade do TC consiste em manter as mesmas palavras (pelo menos algumas) nas mesmas notas, ou, alternativamente, manter os mesmos sons nas mesmas notas. Esta prática é extremamente difícil de cumprir sem ignorar o critério do sentido, e não é de todo essencial, mas existem casos em que, por pura coincidência, esta prática pode ser efetuada de maneira a auxiliar o ritmo e a cantabilidade (Low, 2017, pp. 87, 97): por exemplo, tanto “to fly” como a sua tradução literal, “voar”, contêm duas sílabas e o som
95https://www.youtube.com/watch?v=264geMXIbD8 (consultado a 27 de junho de 2017, 18:02) 96 Este é um exemplo interessante, pois nesta letra, a frase refere-se ao som dos sinos que ecoa por
Paris, o que significa que tanto “o som” como “the bells” deixa algum conteúdo verbal subentendido; o que está subentendido num está explícito no outro.
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tónico [a], pelo que o tradutor pode escolher fazer as alterações necessárias ao resto do verso para garantir que as duas expressões correspondem às mesmas notas – por exemplo, numa tradução cantável da canção “I Believe I Can Fly” (1996), do cantor americano R. Kelly97, o tradutor pode tentar fazer a palavra “voar” corresponder às
mesmas notas que “can fly”. Em certos casos, o tradutor pode escolher alterar algum do conteúdo semântico exclusivamente para este efeito: por exemplo, a frase principal (e o título) da canção “I Won’t Say I’m In Love”, do filme Hercules (1997), foi traduzida para “Eu Nem Sei Se É Amor”98, que não é uma tradução exata do conteúdo verbal do original,
mas usa a palavra “sei” na mesma sílaba (e nota musical) de “say”; estas palavras não têm o mesmo significado, mas são homófonas, e usá-las na mesma nota garante um maior grau de cantabilidade ao TC99.