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3. Tradução de Letras de Música

3.5. Traduções cantáveis

3.5.1. O Princípio do Pentatlo de Peter Low

3.5.1.2. Sentido

O critério de sentido lida com a transferência do conteúdo semântico do TP para o TC. No caso de traduções cantáveis, esta transferência nem sempre (ou raramente) é feita na perfeição. Para se respeitar o ritmo, a cantabilidade, a naturalidade e a rima de uma canção, costuma ser necessário fazer-se alterações ao seu conteúdo semântico. Em outros tipos de tradução (incluindo traduções literais de letras), seria impensável, por exemplo, substituir “St. Paul” por “carcanhol”, ou traduzir “shooting star” apenas por “estrela” (omitindo “cadente”)93, mas em traduções cantáveis estas alterações são

necessárias. A alteração do conteúdo semântico de uma letra resulta numa “pontuação” mais baixa no critério de sentido, mas pode ser necessária para preencher os requisitos dos outros critérios (Low, 2017, p. 87): a alteração de “St. Paul” para “carcanhol” auxilia a rima, e a omissão de “cadente” permite que não se exceda o número de sílabas do verso. Ronnie Apter e Mark Herman são da mesma opinião, argumentando que “(…) in order to fit the music, a singable translation must sacrífice some literality, some meaning.” (Apter & Herman, 2016, p. 14).

A maior parte das alterações semânticas necessárias para garantir a cantabilidade consistem na omissão de elementos verbais, ou na sua substituição por outros elementos verbais que não são uma tradução direta, mas que estão relacionados semanticamente com os elementos originais. Para substituir um determinado elemento verbal, o tradutor pode escolher um outro elemento que tenha uma relação de sinonímia imperfeita (por exemplo, traduzir “depressed” por “triste”, em vez de por “deprimido”), hiperonímia (“pigeon” por “pássaro”) ou hiponímia (“tree” por “pinheiro”) com o elemento original, ou que esteja no mesmo grupo semântico (“daisy” por “rosa”) (Low, 2017, p. 87). Desde que o termo escolhido não esteja demasiado afastado semanticamente do termo original, deverá ser aceitável no contexto de uma tradução cantável; Peter Low ilustra este conceito com uma metáfora do arco e flecha: “you don’t need to hit the bull’s-eye, you do have to hit the board.” (Low, 2017, p. 81).

O facto de a letra de uma canção estar associada a uma composição musical significa que, por vezes, certas palavras da letra são associadas a notas específicas da

93 Exemplos retirados, respetivamente, das traduções cantáveis das canções “The Pirates Who Don’t Do

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melodia. Durante o processo de tradução, é comum para o tradutor (de qualquer tipo de texto) alterar a ordem das palavras de uma frase, quer seja devido a uma escolha estética ou apenas para seguir as normas de estrutura sintática da LC. Contudo, existem casos na tradução de letras em que uma determinada palavra está intimamente ligada a uma nota (ou conjunto de notas) da melodia, e é pedido ao tradutor (pelo cantor, pelo compositor, pelo encenador, etc.) que essa relação se mantenha inalterada no TC (Apter & Herman, 2016, p. 38). Isto aplica-se particularmente a nomes próprios (especialmente de personagens ou dos locais onde se passa a ação, no caso de letras narrativas) (Apter & Herman, 2016, p. 40), a elementos humorísticos (pois um texto humorístico necessita de ser contado na ordem certa e com o timing certo) (Apter & Herman, 2016, pp. 230- 231) e letras que expressam emoções fortes (por exemplo, uma canção que expresse raiva pode incluir um termo insultuoso no seu clímax musical, por isso a sua posição deve ser mantida numa tradução cantável) (Apter & Herman, 2016, p. 233). É também importante ter em conta quais as notas que são mais predominantes na melodia (tal como as notas mais longas, ou cantadas num volume mais alto) e tentar fazê-las corresponder às palavras “importantes” do TC – ou seja, palavras com valor semântico, como substantivos e verbos, em vez de classes com valor sintático, como pronomes e determinantes (Apter & Herman, 2016, p. 38). Joseph Addison (1672-1719), ensaísta e poeta britânico, descreve a má utilização desta regra:

It oftentimes happen’d likewise, that the finest Notes in the Air fell upon the most insignificant Words in the Sentence. I have known the word And pursu’d through the whole Gamut, I have been entertain’d with many a melodious The, and have heard the most beautiful Graces Quavers and Divisions bestow’d upon Then, For and From; to the eternal Honour of our English Particles. (citado em Apter & Herman, 2016, p. xxvi)

3.5.1.3. Naturalidade

O conceito de naturalidade refere-se à capacidade de fazer o TC parecer um texto que foi criado espontaneamente na LC, por um letrista, um poeta, ou por um artista musical (no caso de letras de canções), e não por um tradutor (Low, 2017, p. 88). A

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naturalidade foi já discutida acima no capítulo 3.3. “O processo de traduzir letras”, onde foi feita a distinção entre “overt translations” (traduções óbvias, que usam linguagem pouco natural) e “covert translations” (traduções que observam as normas da LC, e podem por isso passar por textos originais).

A naturalidade é incluída como um dos critérios do Pentatlo de Low pois é de grande importância em traduções cujo objetivo é serem cantadas. Um texto escrito contra as normas da LC (por exemplo, por usar termos demasiado formais ou técnicos, ou por usar uma estrutura sintática inconvencional) pode fazer com que seja difícil para o cantor transmitir as emoções pretendidas pela letra. A “overt translation” de uma letra é também inconveniente para os ouvintes, pois uma linguagem inconvencional requer esforço adicional para ser percebida, afetando assim a experiência de audição da canção (Low, 2017, p. 88).

Uma tradução cantável pode cumprir os requisitos do critério de naturalidade se respeitar as normas da LC e se usar um registo semelhante ao do TP: na maior parte das canções, que têm um caráter expressivo, emocional ou narrativo, este registo é relativamente informal, usando palavras curtas de uso comum (Low, 2017, pp. 67, 88).

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