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2 A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS: UMA LENTE PARA

2.5 Robótica educacional: conceitos e perspectivas

Podemos perceber e compreender com base na leitura dos tópicos anteriores, neste capítulo, que a humanidade sempre esteve e estará desbravando novos caminhos, cujos desejos perpassam pelas inquietações em encontrar respostas para a curiosidade humana.

O encontro ou a chegada da robótica na educação não pode ser visto apenas do ponto de vista da criação de uma ferramenta didática para o professor aplicar em suas aulas, mas também deve ser vista numa perspectiva histórica (OLIVEIRA, 2019). É sabido que muitas transformações ocorreram na sociedade e, evidentemente, dentro da escola também ocorreram transformações. Assim, a robótica educacional é compreendida como uma tecnologia que foi construída de forma histórica.

A humanidade já passou por diversas transformações em muitos setores. Atualmente, uma dessas transformações parece ganhar mais adeptos e força para continuar impactando na vida escolar. Estamos falando da robótica, o impacto da robótica nos processos educativos dentro da escola, estamos falando do fenômeno das representações sociais da robótica educacional para os professores do Ensino Fundamental na rede pública de ensino da cidade do Natal-RN.

Na educação, o uso das tecnologias educacionais vem escalando de forma vertical nas últimas décadas e a robótica ocupa um lugar importante na relação entre o ensino e a aprendizagem com o uso dessas tecnologias na Educação Básica no Brasil, sendo na rede privada o uso maior que na rede pública, porém nessa última o uso da robótica parece estar superando a timidez apontada por alguns estudos (CAMPOS, 2011 ; CASTRO, 2008).

O uso da RE na Educação Básica é fortemente utilizado na rede de ensino privada, diferentemente da rede pública, na qual poucas escolas a utilizam em seu currículo e mesmo quando a utiliza ainda é vista, em boa parte, como um uso específico para fins de profissionalização. Apesar disso, há alguns professores que têm o interesse em explorar esse campo de possibilidades de contribuições relevantes para o processo de ensino e aprendizagens (CAMPOS, 2011 ; SILVA, 2010).

Diante desse cenário, alguns aspectos são relevantes na hora de aplicar a robótica educacional na escola pública, ou seja, é preciso organizar a formação dos professores, custo dos equipamentos, organização do espaço físico para as aulas e a aquisição de materiais pedagógicos elaborados que auxiliem o trabalho dos professores e alunos nas tarefas que envolvem a robótica, sobretudo criar condições para entenderem o que é robótica educacional e como utilizá-la (SILVA, 2010).

Nessa perspectiva, percebemos um caminho com grandes desafios para as escolas públicas e, principalmente, para os professores envolvidos diretamente com

essa tecnologia, tornando, assim, a representação social da robótica educacional ainda camuflada ou talvez invisível aos olhos da ciência e de pesquisadores no campo da Teoria das Representações Sociais.

Esse estudo não se trata apenas de uma tecnologia educacional escolhida para ser investigada, mas também das pessoas que a utilizam e a representam em sua trajetória de vida pessoal e profissional. Ou seja, procuramos conhecer e analisar as correlações que esse fenômeno estabelece para o grupo de professores pesquisados. Portanto, a fim de melhor localizarmos o campo dessas representações sociais iremos conhecer alguns conceitos acerca da robótica educacional.

A robótica aplicada na educação recebeu algumas denominações que possuem sentidos equivalentes e sequer causaria uma dispersão semântica em seu uso, isso porque segundo alguns estudos científicos no Brasil e no mundo a própria comunidade escolar apresenta uma diversidade de denominações para dar sentido aos mesmos aspectos da robótica no que tange ao uso, à finalidade, às metodologias e aos materiais referentes à robótica na escola. Não há exatamente um consenso para qual denominação seria a correta (CAMPOS, 2011).

Em alguns estudos trata-se da robótica educativa, para outros robótica pedagógica e em outros robótica educacional. Para nossa pesquisa escolhemos o termo robótica educacional e isso não quer dizer que as demais denominações estão equivocadas ou que não caberiam nesse estudo, mas no nosso entendimento a expressão robótica educacional nos remeteu a uma compreensão mais ampla do uso dessa tecnologia na educação. Assim, elencamos quatro fatores que contribuíram para essa escolha, a saber:

1. Organização de uma escrita coerente e coesa. Acreditamos que se utilizássemos todas as denominações isso poderia causar certa confusão semântica ou talvez muitas distrações na leitura nesta dissertação;

2. Referências de estudos científicos publicados19 acerca da utilização da robótica na escola. A maioria dos estudos científicos utiliza a denominação robótica educacional, o que nos parece soar mais familiar e conhecido pela comunidade acadêmica;

19 ZILLI, 2004 ; CASTRO, 2008 ; MAISONETTE APUD CASTRO, 2008 ; SILVA, 2009 ; AROCA, 2012 ; ARAÚJO, 2013 ; FERNANDES, 2013 ; SÁ, 2013; SÁ, 2016 ; REIS, 2017 ; FERNANDES, 2017.

3. O uso do adjetivo educacional empregado ao substantivo robótica, nos faz perceber que amplia e potencializa o alcance do uso da robótica tanto nas dimensões do ensino e da aprendizagem, como nas relações que professores e alunos podem desenvolver dentro e fora das salas de aulas com a RE; 4. Por se tratar de um estudo no campo da Teoria das Representações Sociais,

no qual se procura perceber e compreender as diversas correlações existentes das representações sociais de um objeto com os sujeitos pesquisados, essa denominação se encaixa melhor na proposta teórico- metodológica do referido estudo. Já os outros termos, educativa e pedagógica, passam uma compreensão de uso mais pontual dentro da escola, isto é, a utilização da robótica educativa ou pedagógica estaria limitada, possivelmente, a sala de aula e, nesse sentido, não alcançaria outros aspectos do cotidiano dos professores que a utilizam. Nessa perspectiva, criaria um cenário de atuação individual, uma divisão cartesiana de conhecimentos e, talvez, do sentimento de não pertencimento ao grupo de professores, o que dificultaria a pesquisa, já que o estudo das representações sociais sempre se refere a um grupo e nunca a um indivíduo.

No início do século XXI, com o advento da robótica na educação brasileira, começam a surgir alguns conceitos sobre a robótica educacional e que têm sido compartilhados em diversas pesquisas de mestrado e doutorado, bem como em artigos científicos até os dias atuais por diferentes departamentos de estudos de muitas universidades pelo Brasil.

É mister ressaltar que, de acordo com a revisão literária realizada, encontramos alguns conceitos relacionados à robótica educacional e até mesmo quando utilizamos os termos robótica pedagógica e robótica educativa os conceitos eram idênticos. Assim, apresentamos esses conceitos sobre a robótica na educação.

Percebemos que nos estudos relacionados, na citação direta abaixo, a definição da RE nos mostra uma compreensão mais voltada para a aplicação de conhecimentos já prontos ao invés de utilizar a referida tecnologia como meio para o professor organizar e trabalhar assuntos curriculares. A noção da RE é compreendida como um:

Termo utilizado para caracterizar ambientes de aprendizagem que reúnem materiais de sucata ou kits de montagem compostos por peças diversas, motores e sensores controláveis por computador e softwares que permitam programar de alguma forma o funcionamento dos modelos montados. Em ambientes de robótica educacional, os sujeitos constroem sistemas compostos por modelos e programas que os controlam para que funcionem de uma determinada forma (ZILLI, 2004, p. 39; CASTRO, 2008, p. 16; AROCA, 2012, p. 9; ARAÚJO, 2013, p. 12; FERNANDES, 2013, p. 9; SÁ, 2013, p. 9-10; SÁ, 2016 p. 13; REIS, 2017, p. 14).

Este conceito acerca da robótica educacional é, frequentemente, citado em diversos artigos, dissertações e teses, cuja referência da citação é um site denominado Dicionário Interativo de Educação Brasileira (DIEB) que já não existe mais com essa nomenclatura, mas sim pelo site Educa Brasil20 – informação para a formação, o qual faz menção ao antigo DIEB, cujas publicações são gratuitas, interativas e online, onde se publicam e mantém verbetes, com suas respectivas definições, do universo da educação.

Desse modo, podemos perceber que se trata de um conceito que diz muito sobre o que é a robótica e pouco sobre o que é a robótica educacional. Ao citar ambientes de aprendizagem, compreendemos que os autores se remetem a escola como não sendo o único local em que se aprende e, dessa maneira, a definição se torna difusa para os propósitos da organização didática escolar. Ademais, ao se tratar de como os sujeitos procedem para aprender a robótica, podemos deduzir que a abordagem estaria voltada para o âmbito da educação profissionalizante, pois devem seguir os modelos para que tudo ocorra da forma correta. Assim, podemos pensar e deixar uma questão em aberto para refletirmos ao longo deste capítulo: qual seria o percurso pedagógico que um conceito de robótica educacional poderia indicar?

Segundo Maisonette apud Castro (2008), existe outra visão que ajuda a definir a robótica educacional diferente do que foi citado anteriormente. A RE pode ser compreendida como o domínio de mecanismos eletrônicos por meio do computador, tornando-o uma máquina capaz de interagir com o espaço em que se encontra e realizar ações programadas por um software, no qual o programador elaborou por meio dessas trocas.

Para Silva (2009, p. 31), a robótica educacional é “O ambiente de aprendizagem em que o professor ensina ao aluno a montagem, automação e controle de dispositivos mecânicos que podem ser controlados pelo computador”.

Em Fernandes (2017, p. 9), encontramos a seguinte definição de robótica educacional: “Pode-se definir a robótica educacional como um ambiente de aprendizagem composto por artefatos manipuláveis providos de sensores, motores, processadores e um software de computador”.

Partindo desses conceitos acima, compreendemos que tais noções corroboram com a primeira noção que apresentamos sobre a robótica educacional. Todas estas noções parecem-nos se referir à prática da robótica na escola como um processo de domínio técnico sobre a máquina, ou seja, é necessário, apenas, saber como construir e programar um robô. Além disso, percebe-se que nessas conceituações o aluno assumiria o papel de sujeito passivo em que recebe os conhecimentos acabados e prontos para serem usados, exatamente, como foram repassados, seguindo os modelos de montagem.

Mais uma vez estamos diante de visões acerca de processos de aquisição de conhecimentos sobre a robótica no campo da educação profissionalizante, cujos entendimentos metodológicos acabaram de alguma maneira migrando para o campo do Ensino Fundamental e Médio. Isso é um alerta para percebermos que os conceitos e as práticas que há em um campo de conhecimentos de ensino nem sempre são aplicáveis de forma direta sobre outro.

Dito isto, inferimos que o uso da robótica na educação deve ser estimulante tanto para os alunos quanto para os professores, uma vez que há um encantamento pelas cores, pelo design que vai surgindo nas montagens do robô, sobretudo, pela programação do robô. Isto é, professores e estudantes podem demonstrar grande interesse pelos robôs e com isso o grau de atenção e colaboração nas atividades melhora, tornando a aula mais prazerosa no aspecto da aprendizagem (CASTRO, 2008 ; SILVA, 2010).

Outrossim, a interdisciplinaridade21 de saberes que a robótica educacional proporciona é ampla, porque consegue agregar os conhecimentos da Física, Matemática, Geografia, História, Arte, entre outros, com noções de programação,

21

Para Fazenda (1991), a interdisciplinaridade é a atitude diante do conhecimento, que implica em mudança de postura frente à questão do saber e da vida, e se faz em parceria que propicia cooperação, trabalho, diálogo entre as pessoas, entre as disciplinas e entre formas de conhecimento.

mecânica, design, etc. Dessa maneira, não predominam apenas os conceitos disciplinares da área da robótica, o que caracterizaria um ensino profissionalizante.

Em Silva (2009), encontramos uma definição de robótica educacional que se propõe explicar que:

[...] a robótica educacional é uma denominação para o conjunto de processos e procedimentos envolvidos em propostas de ensino- aprendizagens que tomam os dispositivos robóticos como tecnologia de mediação para a construção do conhecimento. Ou seja, quando nos referimos a robótica educacional, estamos falando tanto dos artefatos tecnológicos, como do espaço físico onde são desenvolvidas as ações, ambos agregados a uma proposta pedagógica que possibilita a aplicação de metodologias do uso da robótica educacional no processo de ensino-aprendizagem, incluindo conteúdos transversais (SILVA, 2009, p. 32).

Percebemos que nesse conceito encontramos um entendimento mais amplo dos demais que foram citados. Mais uma vez queremos reiterar que não temos a pretensão de afirmar se os conceitos são verdadeiros ou falsos nas pesquisas científicas realizadas, esse não é o objetivo deste estudo. Muito pelo contrário, queremos demonstrar as nuances dos entendimentos sobre a aplicabilidade da robótica na educação que findam contribuindo para a elaboração de conceitos e noções de forma histórica. Dessa maneira, é possível perceber que diversas definições possam coexistir no mesmo campo de estudo sobre o mesmo fenômeno investigado.

No entanto, a definição apresentada por Silva (2009) é a que melhor apresenta e explica o fenômeno da robótica educacional, uma vez que nessa noção considera-se o que é mais precioso no campo da educação escolar: as propostas pedagógicas. Além disso, as reflexões propostas com base nessa definição nos ajudam a encontrar reflexões acerca daquela questão anterior.

Nesse sentido, escolhemos esse conceito como o referencial do nosso entendimento sobre robótica educacional nessa pesquisa. Ou seja, todas às vezes que abordarmos o objeto da robótica educacional nesta dissertação, estamos apontando para esse entendimento sistemático, planejado e organizado que a educação escolar se propõe ao inserir uma tecnologia em sua rotina.

Essa organização didática que os professores realizam é o que ajudará os alunos a potencializarem as diferentes experiências e aprendizagens com a robótica educacional (ORTOLAN, 2003). Nessa perspectiva, os professores podem criar um

ambiente pedagógico que estimule e favoreça as trocas de experiências, as descobertas e as superações dos desafios, assim como favoreça para o próprio docente os momentos de autocrítica e autoavaliação sobre o que ele planejou e como ele está conduzindo a utilização da robótica em suas aulas, principalmente em face as problematizações que se revelam diante das interações dos alunos com o objeto.

Diante do que foi discutido acerca de alguns conceitos sobre a RE, ponderamos a necessidade de atentar para as práticas pedagógicas que são planejadas e ministradas pelos professores quando utilizam a RE em suas aulas. Se o uso da RE for limitado aos manuais de montagem para que os alunos repitam o que estão neles ou nas condições determinadas pelo docente, estaremos observando o consumo de um produto que o próprio aluno poderia adquirir em uma loja e, assim, fazê-lo em casa ou em outro ambiente. Mas se o uso da RE usar das fronteiras que demarcam os limites do que é possível ser feito para aproximar os erros e as dúvidas das novas experiências, estaremos observando o uso da RE de maneira desafiadora em que todos os envolvidos necessitarão usar o máximo de suas habilidades para aprender de forma integrada (ORTOLAN, 2003).

Em outras palavras, o ambiente da robótica educacional parte do pressuposto da existência do docente, aluno e materiais que propiciam a montagem de mecanismos programáveis. Ainda pressupõe-se a interação entre professores e alunos com esses materiais produzindo novas experiências, caracterizando, desse modo, um ambiente pedagógico que enriquece e diversifica a construção do conhecimento. Fazer o que o professor pede continua sendo importante, mas com o uso da RE torna-se um breve ponto de partida e não um caminho inteiro já definido.

Para compreender melhor sobre a criação de um ambiente como esse, se faz necessário tomar como base teórica os estudos desenvolvidos por Seymour Papert sobre a teoria construcionista que proporcionou e demarcou, de uma vez por todas, a consolidação da robótica na escola.