the British Isles, p. 510.
188 “As alegações de que arrasto em mar aberto esgotou qualquer
estoque pesqueiro, e que os barcos de arrasto foram obrigados permanentemente a deixa-los por conta de tal exaustão, são [...] desprovidas de fundamento”. Tradução livre de: “The allegations that trawling in the open sea has exhausted any trawling grounds, and that trawlers have been obliged permanently to leave any trawling ground on account of such exhaustion, are […] devoid of foundation”. GREAT BRITAIN. House of Commons. Report from commissioners, p. 678.
189 Tradução livre de: “We have carefully considered the complaints
brought by fishermen of different classes against one another, and we are of opinion that none of these complaints are of sufficient gravity to render special legislation necessary or desirable”. GREAT BRITAIN. House of Commons. Report from commissioners, p. 675.
rivalizavam com as embarcações de arrasto, haveria um conflito de interesses declarado, o que afetou diretamente as conclusões de Cleghorn. Por esse raciocínio, as recomendações restritivas contidas no relatório eram cientificamente injustificadas. Esse foi o maior esforço para invalidar o uso do conceito sobrepesca, deslocando a discussão sobre os efeitos da pesca do campo científico para o político. Esse fato, à época, desqualificava a preocupação de Cleghorn, considerada mera opinião parcial, fundada no interesse dos pescadores artesanais e de arenque190.
Ainda conforme o relatório da Primeira Comissão Real de Pesca, a expansão da indústria pesqueira era estratégica, visto que o incremento das capturas representava fonte de renda para os pescadores, bem como supriria a demanda alimentar da crescente população urbana:
A pesca com rede de arrasto é, de longe, o maior e mais contínuo fornecimento de peixe, com exclusão do arenque, para os principais mercados deste país; que certas variedades de peixes, tais como linguado e solha, não poderiam ser amplamente fornecidas por qualquer outra modalidade de pesca; que envolve o maior capital, que emprega o mais numeroso corpo de pescadores, que está menos sujeita ao controle do tempo e que obtém os maiores retornos de peixes na proporção do trabalho e do capital empregados191.
190 SMITH, Tim D. Scaling Fisheries, 1855-1955. p. 78.
191 Tradução livre de: “Fishing by the use of the beam-trawl is the of
by far the greatest and most progressive supply of fish, other than herring, to the principal markets of this country; that certain descriptions of fish, such as soles and plaice, could not be largely supplied by any other mode of fishing; that it engages the largest capital, employs the most numerous body of hardly fishermen, is the least under the control of the weather, and obtains the greatest returns of fish for the labour and capital employed”. GREAT BRITAIN. House of Commons. Report from commissioners, p. 678.
Essa defesa da industrialização pesqueira não foi surpresa à época, especialmente por ter sido apresentada por Caird, Huxley e Lefevre. Enquanto Caird era matemático, destacado industrial do ramo da tecelagem e mecenas de pesquisas científicas (como a expedição Transantártica Imperial – posteriormente conhecida como Endurance – de Sir Ernest Shackleton à Antártida, de 1914 a 1916) 192, Lefevre era advogado e parlamentar Whig193. Portanto, não surpreende que
ambos apresentassem argumentos técnicos justificando o máximo estímulo à industrialização da pesca.
Utilitariamente, a pesca de arrasto e industrial era a solução viável para suprir a demanda alimentar britânica; eventuais prejuízos naturais eram plenamente aceitáveis, até porque tais perdas não eram consideradas tão significativas em termos biológicos. Portanto, para os membros da Comissão, “qualquer restrição sobre esta modalidade de pesca [arrasto] seria equivalente à diminuição do fornecimento de peixe; por enquanto, não há razão para esperar benefício presente ou futuro desta restrição” 194.
Mas, para a defesa e apresentação científica das conclusões da Comissão Real de Pesca, foi determinante a participação do biólogo T.H. Huxley. À época, Huxley já era um respeitado pesquisador na Inglaterra 195 , conhecido como Darwin’s
192 JOY, John Lawrence. The growth and development of trades
and manufacturing in St. John’s, 1870–1914. 1977. 221f. Dissertação (Mestrado em História) – Memorial University of Newfoundland, St. John’s, 1977.
193 EVERSLEY, Baron George Shaw-Lefevre. Gladstone and
Ireland. Charleston: Biblio Bazaar, 2011. p.15.
194 Tradução livre de: “Any restriction upon this mode of fishing
would be equivalent to a diminution of the supply of fish; while there is no reason to expect present, or future, benefit from that restriction”. GREAT BRITAIN. House of Commons. Report from commissioners, p. 675.
195 “Dos comissários, apenas Huxley, que era considerado ‘um
homem profissional’, foi remunerado, ao patamar £3 por dia para 104 dias de trabalho. Baird e Shaw Lefevre eram membros do Parlamento e, portanto, não elegíveis para a remuneração”. Tradução livre de: “Of the Commissioners, only Huxley, who was considered 'a professional man', was remunerated - at the rate of £3 a day for
Bulldog 196 por defender publicamente e divulgar o evolucionismo. Sua crescente credibilidade acadêmica foi transferida para seus argumentos técnicos; por isso, as conclusões do relatório repercutiram para além da comissão e praticamente invalidaram a ideia de sobrepesca em toda a biologia marinha. Assim, as conclusões de Huxley nos trabalhos da comissão marcaram a ciência pesqueira até a primeira metade do Século XX, quando ainda era referência nos Estados Unidos:
Mas, enquanto Huxley tinha de fato temperado suas observações, o que seria lembrado era a ideia de que as grandes populações de peixes marinhos eram inesgotáveis. O historiador Jennifer Hubbard sugeriu que o prestígio de Huxley era tamanho que inspirou os cientistas pelos 50 anos seguintes, que depositaram sua fé em Huxley ao invés [de acreditarem] na crescente evidência de que os recursos pesqueiros foram de fato se esgotando. Demorou até 1930 para que cientistas da Europa e da América do Norte compilassem evidências suficientes para comprovar que a pesca não só pode afetar a abundância de peixes marinhos, mas poderia também reduzir a abundância de determinadas unidades populacionais ao ponto de que seu rendimento potencial fosse reduzido197.