Além de Florestan Fernandes, outro pesquisador que se destaca no projeto UNESCO foi Roger Bastide, um pesquisador francês que veio para o Brasil como integrante da missão francesa que participou da fundação da USP e que aqui permaneceu por dezessete anos. Entre as pesquisas que realizou destaca-se o trabalho junto com Florestan Fernandes, sob o patrocínio da Unesco.
Segundo PEIXOTO (2001), Roger Bastide teve uma formação heterodoxa, o que possibilitou que o autor transitasse livremente pelas mais diversas áreas do conhecimento e estabelecesse cruzamentos inusitados para sua época, como exemplo, ciências sociais com arte, folclore com psicanálise e com história e se interessasse por temas pouco canônicos para a sociologia do seu tempo. Como exemplo, a vida mística, o imaginário, o sonho, a loucura, o sagrado, a memória e a poesia, permitindo flagrar o perfil híbrido do pesquisador e o caráter multidisciplinar de uma obra, em boa parte dedicada ao Brasil.
PEIXOTO (2000. p 20) afirma, ao recuperar a natureza múltipla dessa ampla produção, ser possível elucidar como nela convivem, de modo nem sempre apaziguado, distintas orientações; no entanto, alerta que estas características não devem ser lidas como ecletismo, mas como absoluta ausência de preconceitos teóricos, o que permitiu a ele transitar em meio a distintas tradições, realizando junções às vezes surpreendentes.
De fato, pode-se perceber que seus primeiros interesses no Brasil giram em torno da preocupação com manifestações artísticas populares, com ênfase na contribuição negra e na estética do candomblé em uma busca da África no Brasil. Segundo a autora,
“Portanto, no interior do esquema explicativo de Bastide, a apreensão do mundo africano joga o intérprete obrigatoriamente para a compreensão da relação entre negros e brancos, no contexto da sociedade multirracial e pluricultural. Por isso mesmo é possível pensar sua obra brasileira como construída em um conjunto sincopado cuja marcação é dada pela alternância entre os pólos: decantação da
idas e vindas, do todo para as parte e daí de volta à totalidade”. PEIXOTO. (2001, p.9).
Para PEIXOTO (2000), a procura do mundo africano no Brasil na obra de Bastide significa entre outras coisas pensar o Brasil como termo mediador em uma relação tríade que envolve Brasil, África e Europa, ou mestiços, negros e brancos. Neste processo o folclore, o barroco e a literatura permitem a Bastide olhar para o país a partir de trama sincrética, isto é, da concorrência desigual entre os dois sistemas culturais: o branco/europeu e sua intenção de destrinçar as íntimas relações existentes entre negro e brancos na sociedade brasileira, pautada por múltiplas aproximações e afastamentos.
Para a autora (2000, p.96), a procura de ilhas africanas no Brasil é inseparável da análise das relações que se estabelecem com a sociedade brasileira mais ampla: o exame da África e, antes de tudo, esforço de compreensão das relações África/Brasil, tanto quando se trata de perscrutar as marcas africanas em território brasileiro, como no momento em que o intérprete se volta para pensar a presença do Brasil na África.
De acordo com MAIO (1997a), é característico de seu pensamento: uma visão matizada do preconceito racial em São Paulo, revelando que o fenômeno permeia tanto pretos quanto brancos no contexto das diversas classes sociais; crença na ideologia da democracia racial como responsável pelo emaranhado de comportamentos característicos dos brasileiros face ao preconceito de cor; interpretação da ideologia tradicional das relações raciais no Brasil, ora como falsa consciência, ora como expressão dos valores constituídos de determinada identidade coletiva.
Em seu trabalho para a UNESCO ele investigou o preconceito racial tanto em grupos brancos como entre os que agrupavam homens de cor.
Investigou as famílias tradicionais e detectou que elas mantiveram a ideologia da velha ordem escravista; pesquisou os imigrantes e percebeu que os sírios são mais endogâmicos, que os portugueses cultuariam a auto-imagem de serem abertos ao intercurso étnico e que os italianos teriam a imagem mais negativa sobre o negro.
Com relação à pesquisa realizada sob o patrocínio da UNESCO e com a colaboração de Florestan Fernandes, PEIXOTO (2000) coloca que trata de pensar o
racial. Sendo assim, nos dois capítulos escritos por Bastide (“Manifestações do Preconceito de Cor” e “Efeito do Preconceito de Cor”), analisa o preconceito tendo por base as atitudes e comportamentos de brancos e negros, de acordo com o seu pertencimento e diferentes grupos e classes sociais. Antes de tudo, Bastide mostra que é necessário observar que a industrialização e a urbanização da cidade de São Paulo não significam rompimento com o passado; pelo contrário, subsistem partes inteiras da antiga sociedade tradicional e, neste contexto, a sociedade atual se caracteriza pelo choque de valores, dos velhos (dos tempos da escravatura) com os novos e a democracia racial impede as manifestações demasiado brutais, disfarça a raça sob a classe, limita os perigos de um conflito aberto e possibilita “um preconceito velado, “que nem sempre ousa dizer o seu nome, e a formação de barreiras ‘ ocultas’ que segregam e discriminam”.PEIXOTO (2000, p.190).
Em síntese, trabalhando de perto com o nível dos valores das ideologias, em sua relação permanente com a estrutura social, Bastide “discute o descompasso existente nos ritmos das mudanças nos dois níveis; as alterações de ordem estrutural conhecem um movimento mais acelerado do que aquele observado no plano das mentalidades”. PEIXOTO (2000, p.191).
Lendo os textos produzidos pelo sociólogo francês para o projeto da Unesco, PEIXOTO (2000) percebeu que o tom otimista não encontra eco em suas formulações, mesmo que ele considere notável a maior aceitação dos negros pelas novas gerações – o que revela uma mudança positiva de mentalidade – e que afirme na introdução da obra, não ser a vida dos negros brasileiros uma “ perpétua tragédia”. Para Bastide, o preconceito de cor não se reduz a um problema de classe social, e o mito da democracia racial, por sua vez, é nomeado e problematizado de modo explícito. Em se tratando da forma como encara os nexos entre o “novo” e o “velho” na sociedade brasileira, o matiz da análise é dado pela persistência dos elementos da sociedade tradicional no mundo moderno, e não pela mudança, do mesmo modo que nas análises sobre o folclore. Em síntese.
“O que se depreende da leitura dos textos de Bastide sobre folclore e sobre relações raciais aqui examinados – e de vários
críticos em diversas fases de sua obra”. PEIXOTO (2000, p.195).
Acerca da definição do preconceito enquanto um elemento de classe ou de raça, MAIO (1997a) destaca que Bastide procurou observar até que ponto é possível discernir um preconceito de cor independente do de classe e, mesmo percebendo que italianos pobres demonstraram preconceito contra os negros da mesma classe social, o autor não crê ser a cor uma variável independente. Ele se refere a uma competição étnica no seio do proletariado composto por uma mesma classe social que não cancelaria o preconceito de cor, mas se tornaria um elemento na luta econômica. Para MAIO, é importante salientar que Bastide acreditava no deslocamento do preconceito de cor para o de classe.
Como a maioria dos autores que se debruçaram sobre os estudos do negro brasileiro, Bastide também não escapou de buscar compreender a complexidade da miscigenação, o que fica bem claro em “Brasil Terra de Contraste” 1978, onde ele coloca de forma clara que as relações sexuais entre negros e brancos não significaram ausência de preconceito, posição que está expressa quando ele afirma que “a sexualidade destrói sem dúvida o preconceito de cor, quebra as barreiras entre as raças, unindo no mesmo abraço amoroso o branco e a negra, mas o preconceito insinua-se insidioso mesmo nesta união, no sadismo do senhor abusando de sua escrava, na preferência outorgada à mulata sobre a negra”.BASTIDE (1978, p.14)
Ou mesmo quando se referindo a uniões entre negros e brancos, para ele um processo evidente da política da arianização.
“Em primeiro lugar, toda a demografia está marcada pela mesma política de arianização que domina os aspectos sociais do país, conseqüência de sua democracia racial. As uniões entre gente de cor diferente, quer se processem pelos laços matrimoniais, quer fora deles, quer tomem a forma legal ou a forma costumeira da ‘ amigação’, encaminham-se para o branqueamento progressivo, pois o negro une-se à mulata escura, o mulato escuro à mulata clara, e esta por sua vez ao branco, de modo que os filhos de tais uniões são cada vez mais claros e acabam por se integrar no grupo dos
Para Bastide, entre as motivações para a fusão das raças, está o desejo da mulher de ter filhos mais claros que ela, para “ melhorar o sangue” , não por renegar a cor escura, mas por amor materno, pois sabe que é mais fácil ao mulato do que ao negro puro subir na escala social, ser recebido nos salões e a valorização da “moreninha”, isto é, da mulatinha clara; pode-se dizer que todo o folclore amoroso, desde os tempos coloniais, está concentrado em torno desta valorização. Ou nos termos do autor,
“O Brasil forja respostas especiais pra problemas que lhe são especiais. A resposta mais original é, sem dúvida, a que oferece ao problema racial. Há no país a fusão de todas as raças numa só, em que todavia o contingente branco aumenta cada vez mais. Por isso, em geral, dois termos são utilizados para designá-lo: mestiçagem ou arianização do Brasil. Trata-se, todavia , de um único fenômeno: a mestiçagem é o processo, a arianização é o efeito. BASTIDE (1978,p. 249).
Para BRAGA (1996, p.165-166), Bastide forneceu diversas contribuições para uma compreensão do problema racial no ciclo de estudos da UNESCO. Dentre elas podemos citar: apontou as várias contradições acerca da existência do preconceito tanto entre os negros como os brancos; distinguiu a presença de uma visão idealizada de democracia racial no Brasil; percebeu a necessidade de recorrer à análise da ausência de comportamentos para compreender as manifestações do preconceito racial; visualizou que em todos os níveis o preconceito racial não se apresenta explicitamente, mas na ausência de um sistema de reciprocidade nas relações entre brancos e negros; finalmente, que o preconceito de cor muitas vezes se aproxima do preconceito de classe.
3- COSTA PINTO E AS RELAÇÕES DE RAÇA NUMA SOCIEDADE EM