CAPÍTULO I - JUVENTUDE POPULAR URBANA: OPRESSÃO E RESISTÊNCIAS
2.1. Rolezinhos no Brasil: expressões e significados
Os rolezinhos não surgiram do nada, mas estavam relacionados a uma conjuntura nacional de mobilizações sociais de insatisfação popular, ocorridas em junho de 2013, conhecidas como “Jornadas de junho”, “Movimentos de junho” e/ou “Manifestações dos vinte centavos”. As mobilizações foram impulsionadas pelos protestos nacionais do Movimento Passe Livre - MPL, composto basicamente pela juventude, que reivindicava através do mote do não aumento da tarifa do transporte público, o direito à cidade. De fato, a juventude do MPL não é a mesma que vai ocupar massivamente os shoppings em dezembro, pois o perfil geral da primeira é de jovens universitários organizados em movimentos sociais e partidos políticos, sendo o da segunda de adolescentes, provavelmente secundaristas, considerando a faixa etária, em busca de diversão, consumo e socialização. Mas ambas tinham uma reivindicação em comum: o direito de viver a cidade.
A juventude participante dos rolezinhos em São Paulo e, adianta-se, em Natal (RN), possui características comuns: são jovens em sua maioria negros, provenientes de camadas populares e moradores de comunidades periféricas. A respeito disso, vejamos a análise de Machado e Scalco (2014, p. 02), ainda no artigo “Rolezinhos: marcas, consumo e segregação no Brasil”:
Recentemente, o fenômeno conhecido como rolezinho ganhou ampla visibilidade nacional e internacional. Trata-se de adolescentes das periferias urbanas que se reúnem em grande número para passear, namorar e cantar funk nos shopping centers de suas cidades. O evento causou apreensão nos frequentadores e, consequentemente, fez com que alguns proprietários dos estabelecimentos conseguissem o direito na justiça de proibir a realização dos rolezinhos, barrando o acesso dos jovens. Deste então, emergiu um amplo debate sobre a ferida aberta da segregação racial e social na sociedade brasileira, uma vez que a maioria desses jovens é composta por negros e pobres.
Nesse trecho, as autoras ressaltam que esse fenômeno reacendeu a discussão sobre segregação racial e social no país. Mas, por que a ida de grupos de jovens da periferia a esses estabelecimentos causou grande inquietação na sociedade brasileira? Sobre isso, a especialista em antropologia social com ênfase
nos temas de violência social, cidadania e segregação espacial, Teresa Caldeira (2014, p.13) em artigo intitulado “Qual a novidade dos rolezinhos?”, ressalta:
Desde os primórdios das cidades modernas, circular por circular, andar em grupos (sobretudo de homens jovens), dar uma volta, ou dar um rolê, são atividades que acabam sendo escrutinadas e, no limite, criminalizadas, a não ser que os protagonistas (em geral homens) pertençam a grupos privilegiados. O maior esforço das polícias nas cidades industriais nascentes era controlar as “desordens”, os crimes sem vítimas, principalmente a vadiagem [2]. Desde então, circular por circular, simplesmente desfrutar o espaço público das cidades em grupos, são práticas que geram apreensão e atraem a presença da polícia. Causam desordem. Não é de estranhar, portanto, que rolezinhos, esses encontros de grande número de jovens em shopping centers simplesmente para curtir e se divertir, venham gerando tanta ansiedade e repressão em São Paulo e pelo Brasil afora.
O incômodo tanto das elites como dos setores médios na circulação dos moradores das periferias pelo espaço público também é apontado por Machado e Scalco (2014, p.11):
A marginalidade tem assumido múltiplas faces na história do Brasil, mas há algo de estrutural: ela é vista como algo fora do lugar, uma massa de vagabundos. Nos anos 1970, Durham (1987) e Oliveira (2003), já mostravam que, na história do país, criou-se a imagem de um Brasil moderno e desenvolvido, e de um outro, arcaico e subdesenvolvido. É possível ainda acrescentar: um, branco e de elite, outro, negro nas periferias. Esses "dois Brasis" não se tocam, mas, quando isso acontece, o primeiro lado usa de suas armas mais poderosas: a força policial.
Tanto Machado e Scalco quanto Caldeira enfatizam a postura repressiva e higienista adotada pelas elites e pelo Estado no trato com as classes populares no que se consolidou, ao longo da história do Brasil, numa tentativa de restringir a circulação desses sujeitos ao espaço onde habitam, com a criação de muros invisíveis que cristalizam a segregação social e racial, criando um legado de marginalização para a população negra e oriunda dos bairros populares.
Desse modo, para Caldeira (2014), a ideia de “dar um rolê” não é algo novo, surgido do nada. Mas uma prática que vem ocorrendo há acerca de vinte anos por parte dos jovens das periferias paulistas. Dessa forma, ela destaca que:
Fazer uma genealogia dos rolezinhos significa retraçar as conexões entre um desejo crescente de jovens das periferias de circular pela cidade, a proliferação de várias formas de produção cultural — como o rap, o grafite, a pixação, o break e, mais recentemente, o funk — e modos alternativos de mobilidade, como o parkour, o skate e o motociclismo, todos com raízes fortes nas periferias urbanas [4]. Enquanto o resto da cidade se fechava atrás de muros a partir dos anos 1980 e sobretudo nos anos 1990, os jovens das periferias não apenas fizeram da circulação uma forma de lazer associada a diversas produções culturais como, sobretudo, transformaram sua experiência de viver nas periferias em diversas formas de produção cultural e de intervenção no espaço urbano. (CALDEIRA, 2014, p.14)
As expressões culturais destacadas pela autora, principalmente o rap, o grafite e a pixação têm como característica comum a contestação social:
Os artistas envolvidos nesses gêneros culturais situam‑se nas periferias urbanas e expõem suas precariedades, a violência cotidiana, a constante repressão policial, o racismo do dia a dia. Eles articulam uma voz poderosa e complexa que simultaneamente afirma seu pertencimento a esse universo sempre descrito em termos distópicos como um espaço de precariedade e desespero e tenta transformar o que é pejorativo e ofensivo em fonte de dignidade (...). Não é de se estranhar que agressividade e um claro antagonismo de classe e de raça sejam marcas dessa produção. (CALDEIRA, 2014; p.14-15)
A partir dessa análise a autora defende que o ato de circular e ocupar os espaços públicos e semipúblicos (ex.: shopping center) é também para esses jovens “experimentação, transgressão, prazer e risco” (CALDEIRA, 2014; p. 15). No entanto, a provável novidade dos rolezinhos que os diferencia dessas outras formas de expressões culturais têm sido sua proximidade com o funk ostentação, estilo musical que, diferentemente do rap, tem reproduzido um ideal de consumo como um fim em si mesmo, o que tem relacionado intrinsicamente os rolezinhos ao consumo. Caldeira (2014, p.17) vai ser bastante certeira ao pontuar que:
Os rolezinhos atuais e o funk ostentação revelam não apenas quanto já mudou a estrutura de consumo popular, como também os desejos de que esse continue a se expandir. Apesar do pânico
gerado pela ameaça de rolezinhos nos shoppings de elite, é significativo que a maioria tenha ocorrido nos shoppings das periferias. Há vinte anos, esses shoppings não existiam. Agora, estão por toda parte e talvez sejam a melhor prova da expansão do consumo de massas que ocorreu nas últimas duas décadas. Muitas de suas lojas são as mesmas que se encontram em shoppings em áreas mais ricas da cidade. Seus frequentadores são moradores das periferias, famílias, crianças, adultos e, e claro, jovens, para os quais os shoppings são um espaço fundamental de lazer. São também de todas as raças. Embora não haja dúvidas de que o racismo continue enraizado na sociedade brasileira, também não há dúvidas de que a situação social dos afrodescendentes tem mudado e que eles igualmente fazem parte da circulação e do consumo ampliado que vem transformando o cotidiano dos moradores das periferias.
Entretanto, a expansão do consumo de massas não significa democratização dos espaços, inclusive dos próprios estabelecimentos de consumo. Como bem trata Machado e Scalco (2014, p.10-11):
Um dos pontos altos da midiatização dos rolezinhos foi a sua capacidade de trazer à tona o debate da segregação social e espacial e da desigualdade, especialmente a partir do momento em que o critério para barrar a entrada de jovens nos shoppings centers passou a ser completamente aleatório, calcando-se na classe e na cor. A força policial foi usada para que se cumprisse a ordem judicial de proibição dos rolezinhos e isso foi amplamente legitimado pela população (...). Em suma, os negros da periferia estavam sendo uma vez mais vítimas de um apartheid velado a la brasileira (nesse caso, nem tão velado assim).
Partindo do já esboçado e retomando as discussões do capítulo I, sobre as contradições inerentes a inclusão através do consumo em meio ao ideário neoliberal, reforça-se o entendimento dos jovens participantes dos rolezinhos estarem situados numa categoria que podemos nomear de consumidores marginais, ou seja, assim como as classes abastadas são alvo dos apelos publicitários e midiáticos para adquirirem bens de consumo, as classes populares também o são. Todavia, os ambientes onde esses sujeitos “podem” consumir devem ser aqueles que não ultrapassem as fronteiras invisíveis da segregação espacial. De modo que, uma vez que a juventude rolezeira rompe com essas fronteiras, “impondo” sua presença de forma impactante dado o poder de
mobilização desses jovens, principalmente pelas redes sociais, gera-se incômodo por parte daqueles preocupados em manter a ordem e com isso manter também os muros imaginários que separam os detentores de prestigio social, os tão mencionados midiaticamente de cidadãos de bem, daqueles ditos como diferentes, inferiores cultural e socialmente.