Agora, vamos relembrar que ao apresentarmos no cap´ıtulo 2 os argumentos que tradicionalmente s˜ao avan¸cados em favor de se consi- derar as entidades quˆanticas como sendo n˜ao-indiv´ıduos, tivemos que come¸car rotulando as part´ıculas, vetores e espa¸cos de Hilbert. Isto ´e, no argumento padr˜ao para se sustentar a n˜ao-individualidade das entida- des quˆanticas, come¸camos por rotular as part´ıculas e cont´a-las! Ent˜ao, devemos discutir com cuidado que tipo de papel os r´otulos de part´ıculas como 1 e 2 desempenham naqueles argumentos. Obviamente, eles ser- vem para nos garantir que estamos tratando com duas part´ıculas, mas o que mais se segue da´ı? Bem, vamos come¸car com a afirma¸c˜ao de car- dinalidade, que ´e nossa principal preocupa¸c˜ao aqui. Se estivermos de acordo com a an´alise acima da contagem e atribui¸c˜ao de cardinalidade apresentada na se¸c˜ao 4.1, parece que o mero fato de que estamos tra- tando com duas part´ıculas ´e o suficiente para nos garantir que ambas as part´ıculas tem alguma forma de individualidade, seja conferida por alguma forma de teoria de feixes, seja por uma identidade primitiva. De acordo com esta an´alise, ainda, os r´otulos s˜ao consequˆencias simples da individualidade e do processo de contagem associado a ela. No caso dos feixes, a pr´opria possibilidade de rotularmos est´a fundamentada em alguma qualidade espec´ıfica que cada part´ıcula deveria possuir para garantir a contagem; no caso da identidade primitiva, apesar de que a rotula¸c˜ao n˜ao desempenha um papel epistemol´ogico, n˜ao nos dando nenhum modo de efetivamente identificar qual objeto ´e qual, a pr´opria possibilidade em princ´ıpio ´e garantida metafisicamente pela identidade primitiva de cada item.
Ent˜ao, assumindo esta maneira de se ver a contagem, a con- sequˆencia para a Concep¸c˜ao Recebida ´e muito simples: desde o come¸co, o discurso sobre a n˜ao-individualidade parece mal-motivado, pois con- ceitualmente a pr´opria possibilidade de falarmos de um n´umero definido de entidades pressup˜oe a sua individualidade (esta ´e a conclus˜ao ex- pressa em Jantzen (JANTZEN, 2010)). De fato, a inferˆencia parece ser t˜ao simples que dever´ıamos ter sido mais c´eticos quando come¸camos a rotular as part´ıculas para apresentar o argumento anterior sobre mecˆanica quˆantica e n˜ao-individualidade. N˜ao t´ınhamos discutido ante- riormente que a rotula¸c˜ao, como uma possibilidade metaf´ısica, j´a faz as mesmas pressuposi¸c˜oes que a contagem, i.e., que as entidades rotuladas e contadas devem de alguma forma ser indiv´ıduos? Os r´otulos, como um resultado do procedimento de contagem, carregam peso metaf´ısico se a contagem deve ser tomada em seu sentido tradicional.
Este tipo de an´alise j´a foi conduzida por Redhead e Teller em (REDHEAD; TELLER, 1991) e em (REDHEAD; TELLER, 1992). De acordo com estes autores, o primeiro ponto a ser reconhecido ´e que n´os n˜ao rotulamos as part´ıculas propriamente, claro, mas antes vetores repre- sentando estados para as part´ıculas, de modo que falar em rotular part´ıculas ´e apenas uma fa¸con de parler para abreviar o discurso. Ainda, segundo eles, ´e precisamente o uso de produtos tensoriais de espa¸cos de Hilbert rotulados para representar os espa¸cos de estados das part´ıculas que ´e inconveniente para os nossos prop´ositos metaf´ısicos de nos comprometermos com n˜ao-indiv´ıduos, ou pelo menos, com entida- des que n˜ao podem propriamente receber r´otulos. De fato, eles dizem, dever´ıamos reconhecer que a rotula¸c˜ao pressup˜oe metafisicamente o que eles chamam de uma Individualidade Transcendental de Rotula¸c˜ao (LTI abreviadamente), um princ´ıpio de individua¸c˜ao que d´a conta do fato de que os itens os possuindo podem ser, entre outras coisas, rotulados e contados. Esta LTI ´e um termo gen´erico para fazer referˆencia `a uma te- oria de feixes ou identidade primitiva de um modo gen´erico, sem ter que se preocupar com as idiossincrasias de cada uma destas abordagens.2
Agora, Redhead e Teller sugerem que este comprometimento com LTI n˜ao significa o fim da Concep¸c˜ao Recebida, mas ´e apenas um sinal de que devemos mudar para um formalismo alternativo mais adequado para este tipo de entidades, o Formalismo dos Espa¸cos de Fock, que n˜ao se baseia em r´otulo, e ainda assim garante o n´umero de part´ıculas bem determinado em cada estado.
Mas esta sugest˜ao, entre algumas das dificuldades que ela certa- mente enfrenta (ver French e Krause (FRENCH; KRAUSE, 2006, pp.193- 197) para algumas das cr´ıticas), parece nos levar de volta ao problema com o qual come¸camos: aparentemente n˜ao precisamos mais de r´otulos, mas ainda temos um cardinal associado com estas part´ıculas. A quest˜ao que surge ent˜ao ´e: como esta atribui¸c˜ao de cardinais deve ser enten- dida? Se a mesma an´alise tradicional expressa acima for empregada, voltamos precisamente para a Individualidade Transcendental de Ro- tula¸c˜ao que Redhead e Teller gostariam de evitar com sua proposta. Parece que n˜ao ´e o suficiente mudar para um formalismo de espa¸co de Fock, devemos prestar aten¸c˜ao tamb´em `a outra caracter´ıstica da
2De fato, Redhead e Teller se referem a teorias de feixes e a teorias de substrato.
Esta ´ultima difere significativamente da doutrina da identidade primitiva em muitos aspectos; entre eles, poder´ıamos mencionar que o te´orico do substrato geralmente est´a comprometido com alguma forma da tese de composi¸c˜ao ontol´ogica, e considera que os substratos sejam um ingrediente extra no indiv´ıduo, enquanto que os te´oricos da identidade primitiva n˜ao est˜ao comprometidos com estes tipos de teses. Estas diferen¸cas, todavia, n˜ao afetam nosso argumento aqui.
Individualidade Transcendental de Rotula¸c˜ao, aquela que nos garante que ´e precisamente LTI que alegadamente nos assegura que podemos contar as cole¸c˜oes dos objetos. Ainda, o formalismo de espa¸cos de Fock pode ser visto como desenvolvido a partir do formalismo dos espa¸cos de Hilbert, de modo que ele pressup˜oe a contagem usada na formula¸c˜ao deste ´ultimo (no cap´ıtulo 6 veremos uma cr´ıtica adicional de Muller e Saunders, sustentando que a contagem ´e apenas uma consequˆencia do aparato formal, mas ´e absolutamente desprovido de peso ontol´ogico).
Como uma primeira sugest˜ao a ser considerada contra esta di- ficuldade, pode ser proposto que cole¸c˜oes de part´ıculas quˆanticas pos- suem apenas uma cardinalidade, mas n˜ao um n´umero ordinal atribu´ıdo a elas (ver Toraldo di Francia (FRANCIA, 1998, p.27)). Esta proposta ´e interessante porque ela identifica o n´ucleo do problema como sendo a no¸c˜ao de contagem e sua consequente atribui¸c˜ao de um ordinal. Ent˜ao, a proposta consiste em manter ambas as no¸c˜oes separadas. Mas, ape- sar de esta ser uma ideia interessante, ela ainda deixa a atribui¸c˜ao de cardinais sem uma explica¸c˜ao. Al´em disso, esta estrat´egia n˜ao parece encarar o desafio proposto pelo problema com o qual estamos tratando aqui: como atribuir cardinais sem o procedimento padr˜ao de contagem e sem assumir alguma forma de LTI. Deixaremos a discuss˜ao deste tipo de alternativa para outra ocasi˜ao, e tentaremos tratar de cardinalidade e contagem de modo relacionado. Ent˜ao, a pr´oxima sugest˜ao que imedi- atamente vem em mente ´e que ao inv´es de tentarmos negar que cole¸c˜oes de n˜ao-indiv´ıduos tem alguma caracter´ıstica que por sua vez exigiria que eles fossem indiv´ıduos, dever´ıamos fornecer uma maneira alterna- tiva de se entender a contagem e a atribui¸c˜ao de cardinalidade, de modo que estas no¸c˜oes n˜ao estejam vinculadas com a identidade e a indivi- dualidade (Lowe (LOWE, 2003, p.77) tamb´em sugere que a separa¸c˜ao entre a contagem e a individualidade ´e conceitualmente poss´ıvel; de fato, sugere que para o benef´ıcio da clareza conceitual destas quest˜oes, elas devem ser mantidas separadas).
Uma destas propostas que n´os levaremos em considera¸c˜ao no nosso trabalho foi avan¸cada por Domenech e Holik em (DOMENECH; HOLIK, 2007). Estes autores trabalharam no aparato conceitual da te- oria de quase-conjuntos. Vamos apresentar sua abordagem de maneira informal e discuti-la na pr´oxima se¸c˜ao. Faremos tamb´em uma pequena digress˜ao sobre algumas de suas teses concernindo o status da teoria de quase-conjuntos e a ado¸c˜ao da quase-cardinalidade como uma no¸c˜ao primitiva.
4.3 QUASE-CARDINAIS SEGUNDO DOMENECH E HOLIK
Em seu trabalho A discussion on particle number and quantum indistinguishability (ver (DOMENECH; HOLIK, 2007)),3 G. Domenech
e F. Holik propuseram uma defini¸c˜ao de quase-cardinais na teoria de quase-conjuntos que trata apenas com q-sets finitos. Listamos, como se segue, aquelas que consideramos serem as trˆes principais teses destes autores neste trabalho:
1. segundo eles, a defini¸c˜ao que prop˜oem mostra que, pelo menos quando tratamos apenas com q-sets finitos, n˜ao ´e necess´ario in- troduzirmos a no¸c˜ao de quase-cardinal como um s´ımbolo primi- tivo obedecendo a determinados axiomas, conforme tem sido feito nas apresenta¸c˜oes usuais da teoria (ver, por exemplo, French e Krause (FRENCH; KRAUSE, 2006, cap.7), e tamb´em o cap´ıtulo 3). Isto ´e, existe uma solu¸c˜ao alternativa ao problema concernindo a introdu¸c˜ao de quase-cardinais na teoria Q que ´e mais econˆomica que a usual;
2. eles sugerem que a defini¸c˜ao apresentada por eles pode ser vista como um primeiro passo na formula¸c˜ao de uma vers˜ao da teo- ria permitindo que alguns q-sets permane¸cam sem um quase- cardinal associado. Atrav´es desses q-sets, seria poss´ıvel repre- sentar alguns sistemas que ocorrem na f´ısica quˆantica relativista, viz. aqueles sem um n´umero de part´ıculas bem determinado. De acordo com os autores, isto poderia ser um primeiro passo para nos ajudar a superar uma inadequa¸c˜ao da teoria Q conforme ela ´e formulada usualmente, j´a que os axiomas empregados para os quase-cardinais nos garantem que todo q-set tem um quase- cardinal, n˜ao permitindo assim a existˆencia dentro da teoria deste tipo de sistema;
3. sua defini¸c˜ao deveria capturar um sentido espec´ıfico da no¸c˜ao de contagem, tomada como um procedimento f´ısico efetivo que pode ser realizado em laborat´orio. Ou seja, uma das motiva¸c˜oes para a defini¸c˜ao vem de procedimentos que podem ser realizados fisicamente, e a ideia ´e que a formaliza¸c˜ao capture esta motiva¸c˜ao. Vamos deixar a discuss˜ao da tese 3 para o final do cap´ıtulo, por- que ela trata de quest˜oes metaf´ısicas muito interessantes que n˜ao quere- mos come¸car a introduzir nesta se¸c˜ao especificamente. Vamos come¸car
3Quando fizermos men¸c˜ao ao trabalho de Domenech e Holik sem citar nenhuma
discutindo a tese 1, que ´e realmente uma das grandes novidades no tra- balho de Domenech e Holik e uma contribui¸c˜ao das mais interessantes ao estudo da teoria de quase-conjuntos e sua aplica¸c˜ao. Realmente, a defini¸c˜ao da no¸c˜ao de quase-cardinais apresenta tantas dificuldades que uma defini¸c˜ao, mesmo que bastante complicada, j´a representa um avan¸co significativo neste tipo de estudo. Vejamos brevemente alguns motivos para estas dificuldades.
Conforme mencionamos anteriormente diversas vezes, nas for- mula¸c˜oes usuais de Q, para garantir que todo q-set possui um quase- cardinal associado, ´e o procedimento padr˜ao empregar um s´ımbolo de fun¸c˜ao un´aria qc acompanhado de axiomas espec´ıficos para esta no¸c˜ao (por exemplo, aqueles que apresentamos no cap´ıtulo 3). Talvez esta seja a maneira mais direta e simples de se resolver o problema de como as- sociar cardinalidade a q-sets contendo m-´atomos como elementos. Con- forme vimos anteriormente, o conceito de quase-cardinal ´e geralmente assumido como primitivo pois em Q n˜ao podemos empregar os proce- dimentos usuais de defini¸c˜ao de cardinais, como por exemplo o padr˜ao `
a la von Neumann, que define o cardinal de uma cole¸c˜ao como o me- nor ordinal inicial equipolente ao conjunto (ver as defini¸c˜oes relevantes em (FRAENKEL; BAR-HILLEL; LEVY, 1984)). Neste caso particular, para aplicarmos esta defini¸c˜ao a um q-set contendo m-´atomos indistingu´ıveis ter´ıamos que ter uma boa ordem definida sobre este q-set e coloc´a-la em correspondˆencia um a um com um ordinal. A primeira dificuldade em se fazer isto, conforme j´a foi comentado anteriormente, ´e que n˜ao podemos definir uma boa ordem sobre um q-set cujos elementos s˜ao m-´atomos indistingu´ıveis, pois a pr´opria defini¸c˜ao de uma rela¸c˜ao de boa ordem exigiria que o conceito de identidade estivesse definido para os elementos da cole¸c˜ao sendo bem ordenada, algo que n˜ao ´e poss´ıvel para casos envolvendo m-´atomos. Ainda, n˜ao podemos estipular uma correspondˆencia um a um entre um q-set qualquer e um ordinal, pois a pr´opria no¸c˜ao de correspondˆencia um a um, al´em de envolver a rela¸c˜ao de identidade na sua defini¸c˜ao, somente pode ser introduzida razoavel- mente na formula¸c˜ao usual de Q com a ajuda do pr´oprio conceito de qc. Assim, j´a que estamos tentando definir precisamente a no¸c˜ao de quase-cardinalidade, ela n˜ao pode estar dispon´ıvel anteriormente para n´os. Como se vˆe, n˜ao parece haver nenhuma maneira simples de definir precisamente a no¸c˜ao de quase-cardinalidade e ent˜ao, a afirma¸c˜ao de que esta no¸c˜ao pode ser definida mesmo diante de todas as dificuldades deve ser vista como um grande resultado.
De fato, Domenech e Holik sugerem que este tipo de aborda- gem ao problema pode nos fornecer mais do que uma simples solu¸c˜ao
a um problema t´ecnico. De acordo com eles, a introdu¸c˜ao da quase- cardinalidade como uma no¸c˜ao primitiva em Q acaba por introduzir uma limita¸c˜ao na teoria: existem, na teoria quˆantica, alguns agrega- dos de part´ıculas que n˜ao podem ser representados na teoria de quase- conjuntos quando ela ´e formulada deste modo (ver (DOMENECH; HOLIK, 2007, pp.858-859)). Mais precisamente, a afirma¸c˜ao ´e que a introdu¸c˜ao do conceito de quase-cardinais como um conceito primitivo acaba por dotar todos os q-sets com um quase-cardinal, e ´e precisamente esta caracter´ıstica que acaba por limitar o poder representativo da teoria de quase-conjuntos, pois impede que sejam representados sistemas de part´ıculas cujo n´umero de part´ıculas n˜ao est´a bem definido, e isto pela simples raz˜ao de que q-sets sem um cardinal associado s˜ao imposs´ıveis dentro da teoria formulada deste modo. O exemplo paradigm´atico de uma situa¸c˜ao em que isto ocorre s˜ao os casos de sistemas quˆanticos que n˜ao est˜ao em um autoestado do operador n´umero de part´ıculas, uma situa¸c˜ao bastante comum na mecˆanica quˆantica relativista. Ent˜ao, de acordo com Domenech e Holik, garantir que todo q-set possui um quase- cardinal ´e ir longe demais quando se tem em mente os fundamentos da f´ısica. Seguindo esta discuss˜ao, segue-se que ´e razo´avel a grande im- portˆancia atribu´ıda para a tese 2, e podemos ver claramente sua rela¸c˜ao com a tese 1: j´a que queremos que alguns q-sets permane¸cam sem um quase-cardinal associado, e j´a que isto parece imposs´ıvel de se obter quando adotamos a no¸c˜ao de quase-cardinal como no¸c˜ao primitiva na teoria de quase-conjuntos (mas, ver adiante), uma solu¸c˜ao razo´avel pa- rece consistir em buscarmos definir a no¸c˜ao de quase-cardinal, fazendo isto de modo que alguns q-sets falhem em ter uma quantidade bem definida de elementos. Basicamente, junto com a tese 3 exposta acima, este ´e o programa desenvolvido em (DOMENECH; HOLIK, 2007).
Antes de considerarmos a proposta feita pelos autores para de- senvolver alguns aspectos deste de programa de pesquisa e come¸car a apresentar solu¸c˜oes para algumas das caracter´ısticas de Q que podem ser indesej´aveis em alguns contextos, ´e interessante mencionar aqui que a principal motiva¸c˜ao para os primeiros desenvolvimentos da teoria de quase-conjuntos sempre foi a mecˆanica quˆantica n˜ao-relativista. Claro, French e Krause tamb´em j´a ensaiaram os primeiros passos para o tra- tamento da teoria quˆantica de campos dentro do aparato conceitual da teoria de quase conjuntos em (FRENCH; KRAUSE, 2006, cap.9). Mas, apesar disso, foi a teoria n˜ao-relativista que forneceu as primeiras mo- tiva¸c˜oes para o desenvolvimento dos quase-conjuntos. Ent˜ao, mesmo quando desejamos tentar acomodar em Q algumas das caracter´ısticas da teoria quˆantica de campos, devemos lembrar que este ´e praticamente
um novo projeto de pesquisa, que dever´a fazer as modifica¸c˜oes conveni- entes na teoria Q que, como dissemos, n˜ao foi projetada tendo-se estes objetivos em mente. Certamente, Domenech e Holik est˜ao certos em afirmar que algumas modifica¸c˜oes devem ser buscadas caso desejemos tratar adequadamente de sistemas da teoria quˆantica relativista. To- davia, como dissemos, isto n˜ao deve ser imputado como um defeito da teoria pois, a princ´ıpio, ela n˜ao foi desenvolvida para tratar deste tipo de sistemas.
Domenech e Holik prop˜oem a introdu¸c˜ao do conceito de quase- cardinais como uma no¸c˜ao definida, sem que necessitemos considerar esta no¸c˜ao como um s´ımbolo primitivo. Vejamos agora, informalmente, como eles motivam a sua defini¸c˜ao e como podemos explicar sem muito rigor os procedimentos que ser˜ao formalizados posteriormente na teoria de quase-conjuntos. Esta discuss˜ao nos interessa pois, em particular, ela est´a diretamente relacionada com o problema com o qual come¸camos, qual seja, como propor uma defini¸c˜ao de contagem que n˜ao pressupo- nha a identidade. O n´ucleo da defini¸c˜ao proposta por estes autores ´e baseado na ideia de que podemos apresentar um procedimento de acordo com o qual ´e poss´ıvel eliminar elementos de uma cole¸c˜ao um por um, at´e que a cole¸c˜ao esteja vazia no caso em que seja finita. Isto ´e, dado um q-set n˜ao-vazio A, podemos, usando os recursos de Q menos qc (e mais dois axiomas espec´ıficos introduzidos por eles), tirar de A aquilo que contaria intuitivamente como um ´unico elemento de A, e depois disso verificar se o q-set obtido deste modo, que vamos chamar A0, est´a vazio ou n˜ao. Se A0 ´e o q-set vazio, sabemos ent˜ao que A tinha apenas um elemento. Por outro lado, se A0 n˜ao ´e vazio, basta repetirmos o procedimento tirando mais um elemento dele. Mais uma vez, verificamos se o q-set obtido deste modo, chame de A00, ´e ou n˜ao vazio. Se for vazio, paramos por aqui, e sabemos que A tinha ape- nas dois elementos; se n˜ao for vazio, prosseguimos eliminando mais um elemento. O procedimento segue deste modo. Em alguns casos, para alguns q-sets, o procedimento eventualmente chegar´a no q-set vazio em um n´umero finito de repeti¸c˜oes destes passos, mas em outros casos o procedimento poder´a ser repetido um n´umero indefinido de vezes e nunca alcan¸camos o q-set vazio. Duas possibilidades resultam da´ı: o q-set considerado pode ser esvaziado em um n´umero finito de passos, e dizemos que ele ´e finito por defini¸c˜ao, ou ent˜ao n˜ao podemos esvazi´a-lo atrav´es destes procedimentos, e dizemos que o q-set ´e infinito.
Vamos tratar de cada um dos casos separadamente. Na pri- meira possibilidade, aplicamos a um q-set A um procedimento que por hip´otese eventualmente atingir´a o q-set vazio, nos dando, de acordo
com a terminologia de Domenech e Holik, uma cadeia descendente do seguinte tipo:
∅ ⊆ . . . ⊆ A00⊆ A0⊆ A,
onde A0 denota o q-set que resulta de A ao eliminarmos dele “apenas um” elemento (A0 ´e chamado um descendente direto de A na termino- logia dos autores), e o mesmo vale para A00 com rela¸c˜ao a A0, etc. Na segunda possibilidade, a cadeia descendente ser´a tal que, n˜ao importa quantos elementos de A retiremos dos q-sets formando cada membro da cadeia, n´os nunca alcan¸caremos o q-set vazio em qualquer n´umero finito de passos, e as cadeias ter˜ao a seguinte forma:
. . . ⊆ A00⊆ A0⊆ A.
Nestes casos, o q-set n˜ao ter´a nenhum quase-cardinal associado a ele. Para as cadeias descendentes do primeiro tipo, aquelas que atin- gem o q-set vazio em um n´umero finito de passos, os autores mostram