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RUMO À BAHIA

No documento CAUSOKA5 (páginas 144-147)

Outros muitos meses são passados. Januário Garcia já é um trapo de gente, depois de uns 35 anos de caçada implacável. Mas anda, caminha sem parar, a pé ou a cavalo, sem rota determinada, quase sem destino. Contava agora somente com o acaso, deus fortuito e que aliás, nunca lhe faltara. Ignorava completamente o paradeiro de Bento da Silva.

Arqueado, quase trôpego, porém não vencido, caminha Januário, por trilho poeirento, distante algumas léguas de Vila Rica. Era uma tardinha de junho. Uma esperança guiava-lhe os passos para o norte, talvez à Bahia, quem sabe? Olhava para os lados, de momento a momento, até onde alcançava sua vista cansada. Muito ao longe, quase no alto da serra, avistou uma

choupana de aparência miserável, nas imediações de um mato fechado. Achou estranho uma morada tão mal situada, mas uma fumacinha a desprender-se da tosca chaminé acenava-lhe acolhedoramente. Januário, meio perdido naquele mundão, esfomeado e alquebrado, tomou a resolução de aproximar-se e solicitar abrigo.

Dando à porta o popular “ô de casa”, foi atendido por um velho sujo, maltrapilho, porém falante, delicado e de aparência bondosa. Alegou Januário sua condição de viajante perdido, e pediu agasalho por uma noite, mesmo a troco de pagamento. O morador ofereceu seus módicos préstimos, porém expondo sua condição de um quase miserável. Ali vivia caçando onças e catando ervas e raízes, para serem vendidas nas cidades. Convidou Januário a entrar, passando a queixar-se de suas dificuldades, a distância imensa de lugares civilizados, etc. Mesmo assim, repartiu irmamente as provisões e cedeu-lhe uma tarimba coberta de capim para o repouso de um corpo dolorido. Disse-lhe ainda que dado o lugar deserto em que morava, estava saudoso de conversar com alguém e de trocar idéias. Descreveu suas habilidades como caçador e como curandeiro. Só não explicou porque vivia só e em lugar tão ermo. As horas foram passando, a confiança mútua aproximava-os, quase surgindo daí uma amizade. Januário preparou modestas provisões de viagem e sentou-se no terreiro, aquecendo-se ao sol agradável daquela manhã, pois a noite havia passado. Aproxima-se a hora da despedida, o sol já os aquecera, e, bem dispostos, entre as baforadas do fumo bom que Januário trouxera, começou o morador a contar a sua história. Tudo ele relatou. Foi uma confissão completa. De certo ponto em diante, Januário Garcia não teve mais dúvidas: estava ali o último dos assassinos. Continha-se a custo, para não demonstrar a sua emoção. A cabeça baixa, olhos semicerrados, o pensamento longe... Nem mais ouvia bem. Revia, sim, a cena aterrorizante: o irmão pendurado como se

fora um criminoso, na forca, e tirada a pele como a uma rês, no matadouro.

Para ali viera, aditou por fim Bento da Silva, para evitar a perseguição de um tal Januário Garcia, que havia já exterminado seis dos irmãos Silva — só ele agora restando. Voltou-se para Januário, e quando esperava uma palavra de apaziguamento a seu revivido remorso e seu temor, suspeitou nas feições conturbadas do viajante que o vingador estava ali . Januário Garcia não mais se conteve e, alto e firme, com o braço estendido, quase alcançando o seu interlocutor, exclamou:

— Januário Garcia está na sua frente, Bento da Silva. E no calor vingança:

— Chegou também a tua vez! Teus seis irmãos matei-os como quem mata cães... a prova está aqui (disse, enquanto exibia as seis orelhas). Só a tua me falta. Mas hoje ela tem que vir completar a coleção.

Bento da Silva, aterrorizado, mal ouvia tudo aquilo. Parecia-lhe um sonho. Um pesadelo horrível. Nem uma palavra lhe saíra dos lábios. Convicto e indefeso, ante a implacável justiça, apenas esperava a sua sentença...

Januário continuou:

— Deste-me agasalho na tua casa e não me traíste. Quero dar-te uma prova do meu reconhecimento. Caminha! E quando tiveres contado cem passos, atirarei. Se eu errar, estarás livre. Se acertar, terei completado a minha vingança.

Bento, numa última tentativa, ainda pediu perdão. Estava arrependido, ousou dizer. Já houvera padecido muito.

— É inútil. Vai-se cumprir o nosso destino. Caminha... Replicou inexorável o vingador.

E enquanto caminhava o condenado, Januário ainda lhe disse, no terrível prelibar da vingança:

— Agora é a vez de João Garcia! Logo mais intimou:

— Conta mais alto!

E a voz ia contando lentamente, espaçando aqueles momentos o mais que pudesse. Estavam ali sós naqueles ermos, a justiça e o crime... Um, implacável na sua justiça, o outro, na esperança última, que só a vida extingue.

— Cem

Disse por fim Bento da Silva, por certo a sua última palavra. E, ao mesmo tempo que firmava os primeiros passos de fuga, alcançou-o, na pontaria certeira, a carga toda de um tiro! Caiu por terra, no baque surdo de massa desgovernada. E de há pouco era cadáver. O vingador, cortando-lhe uma orelha, ajuntou-a às outras, e, ajoelhando-se e levantando as mãos para o céu, chamou por seu irmão João Garcia, declarando-lhe que estava vingado, que a justiça tarda mas não falta...

Pode-se bem avaliar agora o caráter, a força de vontade inquebrantável de que era dotado Januário Garcia. Para vingar o ultraje feito a seu irmão, à família e à memória de seu pai, havia consumido a mocidade em longas caminhadas, incertas e cheias de perigo. E o certo é que nesse propósito consumiria a vida toda, se necessário fosse...

CAPÍTULO VIII

No documento CAUSOKA5 (páginas 144-147)

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