Enquanto alguns cantavam , os outros conversavam alvoroçadam ente; era um a confusão com pleta. Tholom y ès interveio:
– Vam os parar de falar assim , ao acaso, apressadam ente. Se querem os ser deslum brantes, vam os pensar um pouco. Muita im provisação esvazia bestam ente o espírito. Cervej a que corre não cria m usgo. Senhores, nada de pressa. Vam os dar um pouco de m aj estade a esta com ilança; com am os lentam ente, apressem o-nos devagar. Calm a, senhores. Olhem a prim avera; se chegar antes da hora, está perdida, pois o frio a m atará. O excesso de zelo põe a perder os pessegueiros e os dam asqueiros. O excesso de zelo tira toda a graça dos bons j antares. Nada de afobação, senhores! Grim od de la Rey nière é da m esm a opinião que Talley rand.
[138]
O grupo não deixou de protestar.
– Tholom y ès, deixe-nos em paz – disse Blachevelle.
– Abaixo o tirano! – exclam ou Fam euil.
– Bom barda, Bom bance e Bom boche! – gritou Listolier.
– O dom ingo foi feito para a gente se divertir – replicou Fam euil.
– Estam os sóbrios – acrescentou Listolier.
– Tholom y ès – disse Bachevelle –, vej a só a m inha calm a.
– Mas você é o próprio Marquês de Montcalm .
Esse m edíocre j ogo de palavras fez o efeito de um a pedra lançada a um charco. O Marquês de Montcalm era então um realista fam oso. Todas as rãs se calaram .
– Am igos – exclam ou Tholom y ès, com a eloquência de quem retom a o poder –, acalm em -se. Não é preciso m uita bulha para acolher esse trocadilho caído do céu. Nem tudo o que a sorte nos proporciona é necessariam ente digno de entusiasm o e de respeito. O trocadilho é o esterco que se desprende do espírito. Caia onde cair a m om ice, e o espírito, após desfazer-se de um a bobagem , se perde novam ente no éter. A m ancha esbranquiçada que se arrebenta de encontro ao rochedo não im pede o condor de voar. Longe de m im qualquer insulto ao trocadilho! Honro-o na proporção de seus m éritos, nada m ais.
Tudo o que há de m ais augusto, de m ais sublim e e de m ais encantador na hum anidade, talvez até além da hum anidade, é feito com j ogos de palavras.
Jesus Cristo fez um trocadilho sobre São Pedro; Moisés, sobre Isaac; Ésquilo, sobre Polínice; Cleópatra, sobre Otávio. Notai que o trocadilho de Cleópatra precedeu à batalha de Actium , e que, sem ele, ninguém m ais se lem braria da cidade de Tory ne, palavra grega que significa concha.[139] Isso posto, volto à m inha exortação. Meus irm ãos, repito: nada de anim osidades, nada de excessos;
portanto, nos chistes, m uita alegria, espalhafato e calem burgos. Ouçam -m e, que tenho a prudência de Anfiaraus e a calvície de César.[140] É preciso um lim ite para os trocadilhos. Est modus in rebus.[141] É preciso um lim ite para os j antares. Vocês, m inhas m eninas, adoram torta de frutas; não abusem . É indispensável bom -senso e arte, m esm o em se tratando de tortas. A glutoneria castiga o guloso. Gula punit Gulax. A indigestão está encarregada por Deus de pregar m oral ao estôm ago. E, guardem o que eu vou dizer, cada um a de nossas paixões, m esm o o am or, tem um estôm ago que não se deve em panturrar. Em tudo é necessário escrever a tem po a palavra finis; quando, então, há urgência, é indispensável trancar o apetite, encarcerar a fantasia e pôr-se cada um num cárcere. Sábio é aquele que é capaz de trancafiar-se no m om ento preciso.
Podem confiar em m im , pois, pelo que dizem m eus exam es, j á estudei um pouco de direito, e sei a diferença que existe entre um a questão encerrada e um a questão pendente. Já defendi um a tese em latim , sobre a m aneira por que era aplicada a tortura em Rom a, no tem po em que Munatius Dem ens era Questor do Parricida,[142] pois, pelo que m e parece, vou-m e doutorar e nem por isso se conclui que eu precise ser com pletam ente im becil. Recom endo-lhes m oderação nos desej os. Isso é tão verdade com o m e cham o Félix Tholom y ès. Feliz de quem , no tem po exato, tom a um a resolução heroica e abdica, com o o fizeram Sila e Orígenes![143]
Favourite ouvia-o com profunda atenção:
– Félix! – disse ela –, que nom e m ais lindo! Gosto tanto dele. É latim . Quer dizer Próspero.
Tholom y ès prosseguiu:
– Quirites, gentlemen, caballeros, m eus am igos! Querem ficar
com pletam ente isentos de apetites, querem abster-se do leito nupcial e enfrentar o am or? Nada m ais sim ples. Eis a receita: lim onada, m uito exercício e trabalhos forçados; m atem -se, carreguem pedras, não descansem ; vigiem continuam ente;
deliciem -se com salitre e tisanas de nenúfares; saboreiem em ulsões de papoulas e agnus-castus; acrescentem a tudo isso um a dieta severa até desm aiar de fom e;
banhos frios, e m ais ainda cintos de ervas, aplicações de chapa de chum bo, loções com licor de Saturno e fricções com água e vinagre.
– Prefiro um a m ulher – disse Listolier.
– A m ulher! – continuou Tholom y ès –, desconfiem dela. Desgraçado de quem se abandona a um coração volúvel de m ulher! A m ulher é pérfida e inconstante. Detesta a serpente por ciúm e de profissão. A serpente é a m aior concorrente ao seu com ércio.
– Tholom y ès – gritou Blachevelle –, m as você está bêbado!
– Protesto! – respondeu Tholom y ès.
– Então, fale algum a coisa alegre – retrucou Blachevelle.
– Está bem – respondeu Tholom y ès.
E, enchendo novam ente o copo, levantou-se:
– Glória ao vinho! Nunc te, Bacche, canam![144] Perdão, senhoritas, isso é espanhol. E a prova, señoras, ei-la aqui: tal povo, tais barris. A arroba de Castela contém dezesseis litros; o cântaro de Alicante, doze; o alm ude das Canárias, vinte e cinco; o quartim das Baleares, vinte e seis; e as botas do Czar Pedro, trinta. Viva o grande Czar e sua bota, m aior ainda que ele! Minhas senhoras, um conselho de am igo: iludam -se com seus coleguinhas se isso lhes parece agradável. Am ar é o m esm o que iludir-se. Esses nam oricos não foram feitos para se agacharem e se em brutecerem com o se fossem um a criada inglesa com calos nos j oelhos. Não;
eles devem ser alegrem ente inconstantes! Já disseram que errar é próprio do hom em ; pois eu digo que errar é próprio do am or. Minhas senhoras: am o-as a todas. Ó Zéphine! Ó Joséphine! Você é sim pática, m as seria m ais bonita se não estivesse de perfil. Seu rosto bonito dá im pressão de que alguém , por descuido, fez dele um a alm ofada. Quanto a Favourite, ó ninfas, ó m usas! Um dia Blachevelle atravessava o riacho da Rue Guérin-Boisseau quando viu um a m oça bonita, de m eias brancas arregaçadas deixando ver-lhe as pernas. O prólogo agradou-lhe e Blachevelle se apaixonou. Era Favourite. Ó Favourite de lábios j ônios! Havia um pintor grego cham ado Euforion, cognom inado o pintor dos lábios. Som ente ele seria digno de retratar esses lábios. Ouça! Antes de você não existia criatura algum a digna desse nom e. Você foi feita para receber a m açã com o Vênus ou para com ê-la com o Eva. Em você é que se inicia toda a beleza.
Falei agora m esm o de Eva; você é que a criou. Merece, pois, a patente de invenção da m ulher bonita. Ó Favourite; pare de elogiá-la porque passo da poesia à prosa. Há pouco você falava de m eu nom e. Isso m e enterneceu; m as, quem quer que sej am os, desconfiem os dos nom es, que eles tam bém se enganam . Cham o-m e Félix e não sou nada feliz. Os nom es são grandes m entirosos. Não devem os aceitar cegam ente as inform ações que nos dão. Seria um grande erro escrever a Liège para com prar rolhas e a Paul para pedir luvas. Miss Dahlia, eu, em seu lugar, cham ar-m e-ia Rosa. É preciso que a flor tenha perfum e e que a m ulher sej a espirituosa. Nada direi de Fantine: é um a sonhadora, abstrata e extrem am ente sensível; um fantasm a com form as de ninfa e o pudor de um a freira que se desencam inha com o costureira, m as se refugia nas ilusões, cantando, rezando, contem plando o céu sem saber bem o que vê nem o que faz, e com os olhos no céu passeia por um j ardim onde há m ais passarinhos do que realm ente existem ! Ó Fantine, convença-se de que eu, Tholom y ès, sou um a ilusão. Mas ela não m e ouve, a loura filha das quim eras! Enfim , ela é toda frescor, suavidade, j uventude, doce clarão m atinal. Ó Fantine, digna de cham ar-se m argarida ou pérola, você veio do m ais belo oriente. Senhoras, um ar-segundo conselho: não se casem ; o casam ento é um enxerto: pode dar certo e pode não dar. Não corram esse risco. Ora bolas! Que estou, afinal, cantando? Estou falando à toa. As m oças, quando se trata de casar, são incuráveis, e nada que nós, os
sábios, lhes disserm os im pedirá que essas fabricantes de coletes e de borzeguins deixem de sonhar com um m arido carregado de diam antes. Enfim , sej a; m as, m inhas belas, guardem o que lhes digo: vocês com em açúcar dem ais. É esse, m ulheres, o seu único defeito: com er doces. Ó sexo roedor, cuj os belos dentes adoram o açúcar, prestem atenção: o açúcar é um sal. Todo sal é secante e o açúcar o m ais secante de todos os sais. O açúcar absorve os líquidos do sangue;
daí a coagulação e, depois, a solidificação; daí a tuberculose nos pulm ões; daí a m orte. É por isso que a diabete é quase que o lim ite da tísica. Deixem de m astigar açúcar e viverão m ais tem po. Volto-m e agora para os hom ens:
senhores, conquistem o m ais que puderem . Roubem , sem rem orsos, as vossas enam oradas. Em questões de am or, não há am igos. Onde houver m ulher bonita, haj a luta aberta. Não deem quartel; com batam sem piedade! Um a m ulher bonita é um casus belli, um flagrante delito. Todas as invasões da história foram determ inadas pelas saias. A m ulher é o direito do hom em . Rôm ulo roubou as sabinas; Guilherm e, as saxônicas; César, as rom anas. O hom em que não é am ado paira com o um abutre sobre as am antes dos outros; e, quanto a m im , lanço a todos esses pobres coitados que são os viúvos a sublim e proclam ação de Bonaparte ao exército da Itália: – Soldados, vocês carecem de todo o necessário.
O inim igo o tem de sobra.
Tholom y ès fez um a pausa.
– Respire um pouco – disse Blachevelle.
Ao m esm o tem po, Blachevelle, acom panhado por Listolier e Fam euil, com ar de com paixão, entoou um a dessas canções im provisadas, feitas das prim eiras palavras que vêm à cabeça, com rim as ricas ou sem rim a nenhum a, sem sentido algum , com o os gestos das árvores e o barulho do vento, nascidos do fum o dos cachim bos, e dissipando-se com ele. Vej am com que estrofe o grupo respondeu à arenga de Tholom y ès:
Les pères dindons donnèrent De l’argent à un agent Pour que Mons. Clermont-Tonnerre Fût fait Pape à la Saint-Jean;
Mais Clermont ne put pas être Fait Pape, n’étant pas Prêtre;
Alors leur agent rageant Leur rapporta leur argent.[145]
Mas isso não conseguiu acalm ar o im proviso de Tholom y ès, que esvaziou o copo, encheu-o novam ente e recom eçou.
– Abaixo a sabedoria! Esqueçam tudo o que eu lhes disse. Não vam os ser nem hipócritas, nem prudentes, nem sisudos. Brindo à alegria; sej am os alegres!
Com pletem os nosso curso de direito com loucuras e com idas. Digesto e indigestão. Que Justiniano sej a o m acho e Ripaille a fêm ea![146] Alegria nas
profundezas! O m undo é um diam ante enorm e! Eu sou feliz! Os pássaros são adm iráveis. Que festa universal! O rouxinol é um Elleviou grátis.[147] Eu te saúdo, ó verão! Ó Luxem bourg! Ó Geórgicas da Rue Madam e e da Allée de l’Observatoire! Ó soldados sonhadores! Ó em pregadas encantadoras que, enquanto cuidam das crianças, se divertem esboçando outras novas! Com o m e agradariam os pam pas das Am éricas se não houvesse as arcadas de Odéon.
Minha alm a esvoaça pelas florestas virgens e pelas savanas. Tudo é belo. As m oscas zum bem na luz. O sol, com um espirro, criou os colibris. Abraça-m e, Fantine!
Mas enganou-se, e abraçou Favourite.