O leitor, sem dúvida, j á adivinhou que o Sr. Madeleine é o próprio Jean Valj ean.
Já perscrutam os bastante as profundezas dessa consciência e é chegado o m om ento de continuarm os a exam iná-la. Não o fazem os sem em oção ou estrem ecim ento. Nada existe de m ais terrível que esse tipo de contem plação. Os olhos do espírito não podem encontrar em nenhum lugar nada m ais ofuscante, nada m ais tenebroso que o hom em ; não poderão fixar-se em nada m ais tem ível, m ais com plicado, m ais m isterioso e m ais infinito. Existe um a coisa que é m aior que o m ar: o céu. Existe um espetáculo m aior que o céu: é o interior de um a alm a.
Fazer o poem a da consciência hum ana, fosse em bora a propósito de um só hom em ou do m ais m iserável dos hom ens, seria o m esm o que fundir todas as epopeias num a epopeia superior e definitiva. A consciência é o caos das quim eras, das am bições e das tentações; a fornalha dos sonhos, o antro das ideias de que tem os vergonha; é o pandem ônio dos sofism as, o cam po de batalha das paixões. Experim entem , em certas horas, penetrar através da face lívida de um ser hum ano que reflete, olhar no seu íntim o, observar sua alm a e exam inar essa escuridão. Ali, sob o aparente silêncio, há com bates de gigantes com o em Hom ero, batalhas de dragões e hidras e nuvens de fantasm as com o em Milton, visões de espirais com o em Dante.[166] Que coisa m ais som bria é esse infinito que todo hom em leva em si m esm o, pelo qual desesperadam ente m ede os desej os do seu cérebro e as ações da sua vida!
Alighieri, certa vez, encontrou diante de si um a porta sinistra que o fez parar, hesitante. Eis que tam bém nós agora nos defrontam os com um a porta que provoca em nós os m esm os sentim entos. Em todo caso, entrem os.
Pouca coisa deverem os acrescentar ao que o leitor j á conhece de tudo o que aconteceu a Jean Valj ean depois da aventura do pequeno Gervais. A partir daquele m om ento, com o j á vim os, tornou-se outro hom em . O que o Bispo
desej ou fazer dele, ele próprio o fez. Foi m ais que um a transform ação, foi um a transfiguração.
Ele conseguiu desaparecer, vendeu os talheres do Bispo, guardando com o lem brança som ente os dois castiçais, andou de cidade em cidade, atravessou toda a França, chegou a Montreuil-sur-Mer, teve a feliz ideia de que j á falam os, fez tudo o que está narrado nas páginas anteriores, chegou a tornar-se irreconhecível, inacessível, e, j á estabelecido em Montreuil-sur-Mer, feliz por sentir a própria consciência arrependida de seu passado, e a prim eira parte de sua existência desm entida pela segunda, vivia pacificam ente, tranquilo e confiante, não tendo m ais que dois pensam entos: esconder o próprio nom e e santificar a própria vida;
escapar dos hom ens e voltar para Deus.
Esses dois pensam entos estavam tão estreitam ente ligados em seu espírito que form avam um a única coisa; am bos eram igualm ente im periosos e inquietantes, dom inando suas m ínim as ações. De ordinário, estavam de acordo para regular a conduta de sua vida, atraíam -no para a obscuridade, tornavam -no bom e sim ples, aconselhando-lhe as m esm as coisas. Entretanto, às vezes, punham -se em luta entre si. Nesses casos, com o devem lem brar-se, o hom em que toda Montreuil-sur-Mer cham ava de Sr. Madeleine não hesitava em sacrificar a prim eira à segunda, a própria segurança à virtude. Assim , a despeito de todo o seu cuidado e prudência, guardava ainda consigo os castiçais do Bispo, pusera luto pela sua m orte, cham ava e interrogava todos os pequenos saboianos que passassem , tom ara inform ações sobre as fam ílias de Faverolles e salvara a vida do velho Fauchelevent, apesar das inquietantes insinuações de Javert. Parecia até, com o j á fizem os notar, que ele pensava, a exem plo de quantos foram sábios, santos e j ustos, que suas prim eiras obrigações não eram para consigo próprio.
Todavia, é preciso que o digam os, nada de sem elhante ainda lhe havia acontecido. Jam ais as duas ideias que governavam esse infeliz hom em , cuj os sofrim entos estam os contando, travaram luta tão encarniçada. Ele o com preendeu confusa m as profundam ente desde as prim eiras palavras ditas por Javert ao entrar em seu escritório. No m om ento em que pronunciou de m odo tão estranho aquele nom e que ele havia tanto tem po tinha sepultado, tom ou-se de espanto, enervado pela sinistra bizarria de seu destino, e com esse espanto sentiu o trem or que precede os grandes desabam entos; curvou-se com o um a árvore à aproxim ação da tem pestade ou com o um soldado pronto para o com bate. Sentiu caírem -lhe sobre a cabeça som bras cheias de raios e relâm pagos. Ao ouvir Javert, seu prim eiro pensam ento foi correr, denunciar-se, livrar Cham pm athieu da prisão e fazer-se prender; isso foi tão doloroso e pungente com o um corte na carne viva; m as, depois, essa im pressão passou e ele disse: – Vej am os! Vej am os!
– Reprim iu esse prim eiro m ovim ento de generosidade e recuou diante do heroísm o.
Sem dúvida, seria m uito bonito se, depois das santas palavras do Bispo, depois de tantos anos de arrependim ento e abnegação, em m eio a um a penitência tão adm iravelm ente com eçada, esse hom em , m esm o diante de tão terrível conj untura, não tivesse hesitado um instante e tivesse continuado a m archar com o m esm o passo em direção a esse precipício aberto em cuj o fundo estava o céu;
seria m uito bonito, m as não foi assim . É bom que nos inteirem os do que acontecia no íntim o dessa alm a, e só poderem os dizer coisas que realm ente a atorm entavam . O que o fez pensar, logo de início, foi o instinto de conservação;
m ais que depressa ele m udou o rum o das próprias ideias, sufocou as próprias em oções, considerou a presença de Javert, o que era grande perigo, recom pôs todas as suas resoluções com a segurança de quem está aterrorizado, ficou atordoado sobre o que deveria fazer e retom ou a calm a com o o lutador que torna a pegar o escudo.
Passou todo o resto do dia nesse estado; turbilhão no seu íntim o e com pleta tranquilidade exterior; não tom ou, com o se poderia dizer, “m edidas conservadoras”. Tudo estava ainda confuso e em baralhado em sua m ente; sua indecisão era tal que não conseguia perceber distintam ente nenhum a ideia; e ele m esm o não poderia dizer nada de si, a não ser que acabava de receber um grande golpe.
Com o era de hábito, foi fazer sua visita a Fantine, prolongando-a por instinto de bondade, certo de que assim devia agir, recom endando-a às irm ãs, caso devesse ausentar-se da cidade. Sentia vagam ente que talvez fosse preciso ir a Arras e, sem estar absolutam ente decidido a fazer essa viagem , convenceu-se de que, com o estava livre de qualquer desconfiança, nada havia de inconveniente em ser testem unha do que iria acontecer. Alugou o tílburi de Scaufflaire, de m odo a estar preparado para qualquer eventualidade.
Jantou com m uito apetite.
Recolhendo-se ao quarto, pôs-se a m editar.
Exam inou a situação e achou-a extraordinária, tão extraordinária que, em m eio a seus pensam entos, im pelido por não sei que im pulso de ansiedade quase inexplicável, levantou-se da cadeira e trancou a porta com o trinco. Cuidava para que ninguém m ais entrasse. Entrincheirava-se contra algum a possibilidade.
Um m om ento antes, havia apagado o candeeiro. Incom odava-lhe os olhos.
Julgava que alguém poderia vê-lo.
Quem ? Onde?
Infelizm ente, o que ele tinha intenção de expulsar do quarto j á havia entrado, os olhos que ele queria cegar encaravam -no fixam ente: era a sua consciência.
A consciência, isto é, Deus.
Entretanto, nos prim eiros m om entos, conseguiu iludir-se; teve um sentim ento de segurança e solidão; fechando o trinco da porta, sentiu-se im penetrável;
apagando as luzes, sentiu-se invisível. Então, concentrou-se em si m esm o, apoiou os cotovelos na m esa, escondeu a cabeça entre as m ãos e pôs-se a pensar em m eio às trevas:
“Onde estou? Será que não estou sonhando? Que foi que m e disseram ? É m esm o verdade que vi esse tal de Javert e que ele m e falou desse m odo? Quem é Cham pm athieu? Então ele se parece com igo? Será possível? Quando penso que ontem eu estava tão tranquilo e tão longe de duvidar da m inha segurança! O que eu estava fazendo ontem a estas m esm as horas? O que é que realm ente existe neste caso? Com o se resolverá? Que fazer?”.
Eis em que torm enta se encontrava. Seu cérebro havia perdido a capacidade de reter as próprias ideias; elas passavam com o ondas, e ele apertava a fronte entre as m ãos, com o para retê-las.
Desse tum ulto que lhe agitava a vontade e a razão, e de que ele procurava tirar algum a evidência ou resolução, nada se originava senão angústia.
A cabeça estalava-lhe de dor. Foi à j anela e escancarou-a. Não havia nem um a estrela no céu. Voltou a sentar-se à m esa.
Assim se passou a prim eira hora.
Pouco a pouco, contudo, com eçaram a se form ar e a se fixar alguns vagos lineam entos em m eio à sua m editação, e pôde entrever com a precisão da realidade não o conj unto da situação, m as alguns detalhes. Com eçou por reconhecer que, por m ais extraordinária e crítica a sua situação, dela ainda era o senhor.
Seu espanto se intensificou.
Não obstante o fim severo e religioso a que se propunham suas ações, tudo o que havia feito até aquele dia não era nada m ais que um buraco que cavara para enterrar o próprio nom e. O que havia sem pre de m ais terrível, nessas horas de reflexões íntim as, nessas noites de insônia, era j ustam ente não querer ouvir j am ais alguém que lhe pronunciasse o nom e; estava convencido de que, se isso acontecesse, acarretaria a sua ruína total; no dia em que seu verdadeiro nom e reaparecesse, faria desaparecer ao redor dele toda aquela vida nova, e, quem sabe até, se lhe extinguiria no íntim o a nova alm a. Ele estrem ecia só em pensar que isso pudesse acontecer. Certam ente, se alguém lhe dissesse naqueles m om entos que chegaria um a hora em que aquele nom e haveria de ressoar novam ente aos seus ouvidos, em que aquelas palavras horríveis, Jean Valj ean, surgiriam dentro da noite e se levantariam em sua frente, em que a luz form idável feita para dissipar o m istério em que se envolvera haveria de resplandecer subitam ente sobre a sua cabeça, e que esse nom e não o am eaçaria, e que essa luz só iria provocar um a escuridão m ais espessa; se lhe dissessem que esse véu assim rasgado aum entaria o m istério, que esse trem or de terra consolidaria as bases de seu edifício, que esse prodigioso incidente não teria outro resultado, se assim lhe agradasse, senão tornar-lhe a existência ao m esm o tem po m ais clara e m ais im penetrável, e que, confrontando-se com o fantasm a Jean Valj ean, o bom e digno burguês, Sr. Madeleine, sairia m ais honrado, m ais calm o e m ais respeitado que nunca; se alguém lhe dissesse tudo isso, ele teria sacudido a cabeça e teria ouvido essas palavras com o insensatez. Pois bem ; tudo isso acabava precisam ente de acontecer; todo esse conj unto de coisas im possíveis era um fato, e Deus havia perm itido que essas coisas loucas se transform assem em realidade!
Suas reflexões iam ficando cada vez m ais claras. Aos poucos, ia-se dando conta de sua posição.
Parecia-lhe que acabava de despertar de um sono, que escorregava por um a encosta, em plena noite, de pé, trem endo, recuando em vão à borda extrem a de um abism o. Em m eio a toda essa som bra, entrevia distintam ente um desconhecido, um estranho, que o destino tom ava por ele e o em purrava à
voragem em seu lugar. Para que o redem oinho parasse, era preciso que antes engolisse alguém , ele ou outro qualquer.
Só o que tinha a fazer era deixar as coisas acontecerem .
A claridade tornou-se com pleta e Madeleine acabou por confessar a si m esm o que seu lugar nas galés estava vago, e que, por m ais que fizesse, sem pre estaria à sua espera; o roubo do pequeno Gervais o arrastaria novam ente para a prisão e aquele lugar vago o atrairia enquanto não fosse preenchido; era inevitável e fatal. Depois, disse para si m esm o: “Agora tenho um substituto”.
Alguém cham ado Cham pm athieu tivera essa falta de sorte e, quanto a ele, presente nas galés, na pessoa de Cham pm athieu, presente na sociedade sob o nom e de Madeleine, nada tinha a tem er, se não im pedisse que os hom ens selassem sobre a cabeça de Cham pm athieu aquela pedra de infâm ia que, com o a pedra do sepulcro, cai um a vez para não m ais se levantar.
Tudo isso era tão violento e estranho que lhe produziu de repente na alm a essa espécie de m ovim ento indescritível que hom em nenhum experim enta m ais de duas ou três vezes na vida; um a espécie de convulsão da consciência que revolve o quanto o coração tem de duvidoso, que se com põe de ironia, alegria e desespero, e que se poderia cham ar de gargalhada interior.
Súbito, tornou a acender a vela.
“Então!”, disse consigo m esm o, “o que m e am edronta atualm ente? Por que tenho de m e preocupar com tudo isso? Estou salvo! Tudo está acabado. Eu não tinha senão um a porta entreaberta pela qual o passado poderia penetrar na m inha vida; eis que agora essa porta está fechada para sem pre. Javert m e preocupava havia tanto tem po, esse espírito tem ível que parecia j á ter-m e descoberto, que realm ente m e descobriu e m e seguia por toda parte, feroz cão de caça sem pre a m e perseguir, ei-lo agora despistado, preocupado com outras coisas, absolutam ente desorientado! Agora está satisfeito e m e deixará tranquilo, pois tem em m ãos o seu Jean Valj ean! Quem sabe terá até vontade de deixar esta cidade! E tudo isso sem que eu fizesse esforço algum ! Mas, que pode haver de desgraçado em tudo isto? Quem m e visse – palavra de honra! – pensaria que m e aconteceu um a catástrofe! Além do m ais, se alguém sair prej udicado, não será absolutam ente por m inha culpa. São coisas da Providência. É um a prova de que ela aparentem ente quer que isso aconteça! Terei eu o direito de contrariar-lhe as decisões? Que peço eu presentem ente? Em que irei m e envolver? Tudo isso tudo nada tem a ver com igo. Com o? E ainda não estou satisfeito! Mas o que m e falta agora? O fim a que tenho aspirado durante tantos anos, o sonho de m inhas noites, o obj eto de m inhas orações ao céu, a segurança, eis que agora eu a possuo! É Deus quem o quer. Eu nada posso fazer contra a vontade de Deus. E por que Deus o quer? Para que eu continue a obra que iniciei, para que eu faça o bem , para que, um dia, eu sej a um exem plo grande e encoraj ador, para que se diga que, afinal, existe um pouco de felicidade ligada a tanta penitência feita e à virtude que readquiri! Na verdade, não com preendo por que tenho tanto m edo de ir à casa paroquial contar àquele bom Vigário todas essas coisas, com o a um confessor, pedindo seus conselhos; evidentem ente ele não m e diria outra coisa.
Está decidido, vam os deixar que as coisas aconteçam ! Deixem os que Deus
conduza os fatos com o forem de seu agrado!”
Assim falava ele nas profundezas de sua consciência, debruçado à beira do que poderíam os cham ar de seu próprio abism o. Levantou-se da cadeira e pôs-se a andar pelo quarto.
“Vam os”, dizia, “não pensem os m ais nisso. Está tom ada a decisão!”
Mas não sentiu nenhum a alegria. Pelo contrário.
Ninguém poderá im pedir o pensam ento de voltar a um a ideia, com o não podem os im pedir o m ar de voltar sem pre a um a praia. Para o m arinheiro isso se cham a m aré; para o culpado isso se cham a rem orso. Deus agita a alm a com o agita o oceano.
Ao cabo de alguns instantes, por m ais que fizesse, teve de continuar o som brio diálogo em que ele m esm o falava e ele m esm o escutava, dizendo o que bem queria calar, ouvindo o que não queria escutar, cedendo a essa força m isteriosa que lhe segredava: “Pensa!”. Com o ela dizia havia dois m il anos a outro condenado: “Cam inha!”.
Antes de irm os m ais longe, e para serm os inteiram ente com preendidos, vam os insistir sobre um a observação necessária.
É evidente que todos nós falam os com nós m esm os; não existe um único ser pensante que não o tenha experim entado. Pode-se até dizer que o verbo nunca é m istério m ais grandioso que quando vai, no interior de um hom em , do pensam ento à consciência e volta da consciência ao pensam ento. É nesse sentido som ente que se devem entender as expressões tantas vezes usadas neste capítulo, ele disse, ele exclamou, porque cada um diz, fala e exclam a no seu íntim o sem que o silêncio exterior sej a quebrado. Quando nossa alm a está agitada, tudo dentro de nós fala, m enos nossos lábios. As realidades da alm a, por não serem visíveis e palpáveis, não deixam de ser realidades.
Ele perguntou, portanto, a si m esm o, onde estava. Interrogou-se sobre essa
“resolução tom ada”. E acabou por confessar a si m esm o que tudo o que acabava de decidir em seu espírito era horrível, que “deixar as coisas correrem , ou deixar Deus conduzir os acontecim entos com o fosse de seu agrado”, era sim plesm ente um a m onstruosidade. Deixar que se com pletasse aquele erro do destino e dos hom ens, sem im pedi-lo, aj udá-lo com seu silêncio, enfim , nada fazer, era ser culpado de tudo! Seria o m ais baixo degrau da indignidade e da hipocrisia! Seria um crim e m esquinho, covarde, traiçoeiro, abj eto, hediondo!
Pela prim eira vez, depois de oito anos, o infeliz hom em acabava de sentir o sabor am argo de um m au pensam ento, de um a ação condenável.
Ele o afastou de si, horrorizado.
Continuou a interrogar-se e perguntou com energia o que havia entendido por:
“Atingi o m eu fim !”. “Com efeito”, respondeu, “sua vida tinha um a finalidade.”
Mas qual seria? Esconder o próprio nom e? Enganar a polícia? Teria sido por um a razão tão m esquinha que fizera tudo o que fizera? Não teria outra finalidade m ais nobre, que seria o seu verdadeiro obj etivo? Salvar, não a sua pessoa, m as a própria alm a. Voltar a ser honesto e bom . Ser j usto! Não estaria aí, só e unicam ente, a essência de toda a sua vontade, o cerne das palavras que outrora lhe dissera D. Bienvenu? – Fechar a porta ao seu passado! – Mas ele não a estava
fechando, santo Deus! Com aquela ação infam e, a estava abrindo novam ente!
Voltava a ser ladrão, e o m ais desprezível dos ladrões! Estava roubando a outro a existência, a vida, a paz, o lugar ao sol! Tornava-se um assassino! Matava, assassinava m oralm ente um hom em m iserável; infligia-lhe essa horrenda m orte em vida, essa m orte a céu aberto que se cham a galé! Pelo contrário, entregar-se, salvar aquele hom em , vítim a de tão lúgubre engano, retom ar seu verdadeiro nom e, voltar a ser por dever o forçado Jean Valj ean, seria verdadeiram ente com pletar a própria ressurreição, fechar para sem pre o inferno de onde saíra!
Na verdade, voltar ao inferno era a única m aneira de libertar-se para sem pre de
Na verdade, voltar ao inferno era a única m aneira de libertar-se para sem pre de