3 PERSPECTIVAS: A CONCRETIZAÇÃODA CIDADE LEGAL E SUSTENTÁVEL
3.2 Sustentabilidade, Democracia e Gestão Ambiental
3.2.2 Saber ambiental em busca de sustentabilidade
O quadro socioambiental urbano contemporâneo clama por uma mudança de consciência e de atitude, pois apenas a reforma político-jurídica não é suficiente sem uma mudança radical na maneira de como cada cidadão encara seu lugar na natureza. Um alto nível de proteção ambiental e a melhora da qualidade do ambiente precisam ser incorporados às políticas públicas urbanas.
Como bem coloca Blosselmann (2010, p. 96), o “direito e apelos por uma nova moralidade não podem existir e de fato não existem em vácuos, e tampouco podemos esperar que eles nos ofereçam soluções para nossos mais profundos e complexos problemas”. Ou seja, a reconstrução social e civilizatória do meio ambiente remete para além do Estado, remete à intervenção do pensamento e de uma cidadania pós-estatal, pois se
o que caracteriza o ser humano é sua relação com o saber, a complexidade não se reduz ao reflexo de uma realidade complexa no pensamento. Pensar a complexidade ambiental não se limita à compreensão de uma evolução “natural” da matéria e do homem para o mundo tecnificado, ao devir do mundo pela auto-organização da matéria que avança em direção à emergência de uma consciência ambiental. A história é produto da intervenção do pensamento no mundo. (LEFF, 2004, p. 70).
Necessário se faz um debate e uma atuação efetiva no campo da educação, transformando comportamentos e a dimensão da ética da vida e do respeito com o ambiente. Nesse sentido, Junges (apud MENUZZI; CARON, 2009, p. 220) dispõe que “o novo paradigma exige uma ética de atitudes, ou de caráter ou da virtude, ou seja, que modifique as atitudes diante do meio ambiente”.
Surge, então, o saber ambiental para novos sentidos civilizatórios voltados à sustentabilidade.
O saber ambiental se configura na hibridação do mundo marcado pela tecnologização da vida e economização da natureza, pela mestiçagem das culturas, pelo diálogo dos saberes e pela dispersão de subjetividades, onde estão se ressignificando os sentidos da existência à contracorrente do projeto unitário e homogeneizante da modernidade. Tempos em que emergem novos valores e racionalidades que reorientam a construção do mundo, tempos em que se descongelam, se decantam, se precipitam e se
reenlaçam histórias diferenciadas e se relança a história para novos horizontes (LEFF,2004)12.
E como o cenário atual clama por uma cidadania para além do Estado-nação, firmada no direito das pessoas independentemente das suas nacionalidades, na perspectiva universal dos direitos humanos e na necessidade de construir soluções democráticas, dialogadas, legítimas para os problemas mundiais, impossíveis de serem respondidos pela dinâmica nacionalista (LUCAS, 2010), o saber ambiental implica num processo de hibridação cultural, revalorizando conhecimentos e saberes produzidos em diferentes culturas em sua co-evolução com a natureza.
O saber ambiental propõe a questão da diversidade cultural no conhecimento da realidade, mas também o problema da apropriação de conhecimentos e saberes dentro de diferentes racionalidades culturais e identidades étnicas. O saber ambiental não só gera um conhecimento científico mais complexo e objetivo: também produz novas significações sociais, novas formas de subjetividade e posicionamentos políticos frente ao mundo, trata-se de um saber que não escapa a questão do poder e a produção de sentidos civilizatórios (LEFF, 2004, p. 61).
Mais, a “a relação por excelência é um diálogo entre seres, que é um diálogo de saberes, sempre que o ‘ser ali’ constitui-se em identidade com o saber” (LEFF, 2004, p. 82). Portanto, a cidadania tanto mais será efetiva quanto mais os indivíduos tomarem consciência de suas particularidades, mas, sobretudo, de sua humanidade comum. Na medida em que se fortaleçam os contatos com outros indivíduos que apresentam as mesmas necessidades de identificação cultural, ora na qualidade de cidadãos do mundo, ora na qualidade de membros da sua comunidade, os homens poderão realizar diálogos pelo reconhecer-se no outro e ter-se-á, então, a interculturalidade e a aproximação das diferenças (LUCAS, 2010).
Ressalta-se que o projeto de cidadania para além do Estado não significa que a concepção de cidadania deve ser dissociada da ideia de nacionalidade, mas exige a afirmação de espaços democráticos que sejam capazes de estimular o encontro entre as diversas vozes preocupadas com os problemas que ultrapassam a dinâmica da nacionalidade - o que é o caso do meio ambiente. Nesse sentido, a consolidação de um saber ambiental está sujeita à integração do meio ambiente e da sociedade a partir de
12 Anotação de orelha do livro.
interesses e estratégias de poder que orientam a construção da realidade social a partir de juízos de valor e através de processos sociais de significação fundados no potencial dos processos materiais (das sinergias de suas relações na constituição de sistemas complexos), que são apreendidos na construção de novos objetos (interdisciplinares) de conhecimento (LEFF, 2012, p. 61).
Não há como compreender a realidade sem uma interação permanente entre os campos social e natural, o dado e o construído. O comprometimento da qualidade do ar, solo, água, vegetação, relevo, da própria paisagem, bem como as condições precárias de habitação, educação, trabalho, lazer, nada mais é do que reflexos das ações e relações humanas. Por conseguinte, as soluções merecem proposições de caráter multifacetado, contemplando os diferentes vértices da gestão, do conhecimento e da realidade social.
Relacionado a esse conhecimento interdisciplinar do saber ambiental, cabível relembrar o sistema ambiental urbano proposto por Mendonça (2004). Referido autor sugere uma conexão profunda entre o natural e o social, um grau de comprometimento mútuo, pelo qual se torna impossível visualizar soluções que não tenham uma abrangência multi-inter-transdisciplinar.
Enfim, se o Estado por si só não é mais capaz de garantir, de forma autônoma e soberana, a prevalência do direito ao meio ambiente urbano sadio e a qualidade de vida, o novo saber ambiental
constitui novas identidades nas quais se inscrevem os atores sociais que mobilizam para uma racionalidade ambiental. [...] o saber ambiental se produz numa relação entre a teoria e a práxis; não se fecha na sua relação objetiva com o mundo, mas abre-se à produção de novos sentidos civilizatórios. [...]. Assim, a racionalidade ambiental converte-se num processo de racionalização teórica, técnica e política que dá coerência conceitual, eficácia instrumental e sentido estratégico ao processo social de construção de um futuro sustentável (LEFF, 2004, p. 56).
De tudo, uma coisa é certa: “a responsabilidade em relação às gerações futuras e a elaboração de um patrimônio natural comum começam aqui e agora”. (OST, François apud MORAIS, 2008, p. 71-72). E a proposta do saber ambiental responde a necessidade de repensar o mundo integrado e entender suas vias de complexidade - constrói novas ideias do saber, compreender e apropriar-se do meio, a partir de uma racionalidade contrária àquela, até então dominante, que vê a Terra de forma econômica e desenvolve processos incontroláveis e insustentáveis de
produção, sem se preocupar com a qualidade de vida das gerações presentes e futuras.