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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Saberes dos professores: diferentes enfoques e tipos

Um mesmo planejamento de aula pode ser aplicado por variados professores e cada um deles irá trabalhá-lo de uma maneira diferente. Isso acontece devido à prática pedagógica ser permeada por diversos saberes que têm os professores, tal como defende Tardif (2013):

o saber do professor é o saber deles e está relacionado com a pessoa e a identidade deles, com a sua experiência de vida e com sua história profissional, com suas relações com os alunos em sala de aula e com os outros atores escolares na escola, etc. (p. 11).

Segundo o autor supracitado, os docentes, ao longo da vida, se apropriam de saberes que guiam suas práticas na sala de aula. Mas, nem sempre se pensou dessa forma.

É relativamente recente (a partir da década de 1990) que se busca no Brasil novos enfoques para compreender a prática docente. Nunes (2001) e Tardif (2013) afirmam que, neste período, iniciaram-se pesquisas que, sobretudo, resgataram o papel do professor, reforçando a ideia de que é preciso pensar numa formação que vá além da acadêmica, isto é, numa formação que englobe o desenvolvimento pessoal, profissional e organizacional da profissão docente.

Tardif (2013) defende que o saber docente supõe um conjunto de saberes e, portanto, um conjunto de competências diferenciadas. Nessa perspectiva, o saber docente se compõe de vários saberes provenientes de diferentes fontes. Segundo tal autor, os saberes dos professores são formados pelos saberes da formação profissional, pedagógicos, disciplinares, curriculares e experienciais.

Os saberes da formação profissional são os decorrentes das Ciências da Educação, isto é, o conjunto de saberes transmitidos aos professores durante o processo de formação inicial e continuada pelas instituições de formações de professores (faculdades e universidades de ciências da educação), bem como os conhecimentos pedagógicos relacionados às técnicas e métodos de ensino, isto é o saber-fazer, legitimados cientificamente e que também são transmitidos ao longo do processo de formação.

Os saberes pedagógicos articulam-se com as ciências educação, pois de modo sistemático tentam integrar os resultados da pesquisa às concepções que propõem a fim de legitimá-las cientificamente. (TARDIF, 2013).

Os saberes disciplinares são o conjunto de saberes que integram a prática docente através da formação inicial ou continuada nos cursos de formação de professores, nas diversas disciplinas. Isto é, se refere ao conhecimento do conteúdo das diferentes áreas do conhecimento a ser ensinado. São saberes produzidos e acumulados pela sociedade no decorrer da história da humanidade, são administrados pela comunidade científica e são as instituições educacionais que possibilitam o acesso a esses saberes.

Já os saberes curriculares, são definidos e selecionados como modelos da cultura erudita e apresentam-se sob a forma de programas escolares que os professores devem apender a aplicar, ou seja, tem relação com a transformação da disciplina em programa de ensino.

Quanto aos saberes experienciais, são aqueles baseados na prática da profissão, no cotidiano e no conhecimento de seu meio (esses saberes brotam da experiência e são por ela validados). Ou seja, é resultado do exercício da atividade profissional dos professores e são produzidos através de vivências relacionadas ao espaço da escola e às relações estabelecidas entre alunos e demais profissionais da educação.

Tardif (2013) defende que os saberes experienciais ocupam uma posição de destaque com relação aos demais saberes, visto que os professores não controlam a produção e

circulação desses outros saberes. A relação de exterioridade mantida pelos professores em relação aos saberes curriculares, disciplinares e da formação pedagógica faz com que valorizem ainda mais os seus saberes experienciais visto que é sobre eles que os professores mantém o controle, tanto no que diz respeito a sua produção quanto a sua legitimação.

Entretanto, Chartier (2007, p. 203) nos alerta que, até em uma ação inconsciente, o professor pode esquecer que determinados conhecimentos que aplica em sua prática foram produzidos na sua formação inicial ou continuada e podem pensar que eles surgiram apenas da prática.

No dia a dia da profissão, os professores vivenciam situações em que se faz necessário ter habilidade, interpretar e improvisar, bem como ter firmeza para decidir os melhores caminhos a seguir diante das circunstâncias que se apresentam. As circunstâncias dos acontecimentos nunca são exatamente iguais, todavia algumas apresentam semelhanças, permitindo ao professor utilizar-se de estratégias utilizadas com êxito em eventos anteriores para solucionar novas demandas.

Segundo o autor, os saberes docentes são provenientes de diferentes fontes e os professores mobilizam-nos a partir das demandas que vão surgindo no fazer docente. Desse modo, Tardif (203) propõe que é a partir do entendimento de que os diferentes saberes estão relacionados entre si que se pode elaborar um modelo que tenha validade para compreender e analisar os saberes dos professores. Vale salientar que nessa perspectiva os saberes dos professores não são construídos de forma individual, mas sim a partir das relações estabelecidas no decorrer de sua vida, seja no convívio familiar, escolar, profissional ou qualquer outra esfera de convivência social.

Tardif (2013) apresenta um modelo tipológico para identificar e classificar os saberes dos professores. A partir desse modelo, o autor tenta dar conta do pluralismo do saber profissional, relacionando-o com os lugares que os professores atuam, com as organizações que os formam e/ou trabalham, com seus instrumentos de trabalho e com sua experiência profissional. Na figura a seguir apresentamos tal modelo.

Figura 1- Classificação dos saberes dos professores proposta por Tardif (2013).

O quadro acima evidencia que os saberes nele identificados são utilizados pelos professores no dia-a-dia da profissão, que usam constantemente seus conhecimentos pessoais, programas e livros didáticos, baseiam-se em saberes escolares quanto às matérias ensinadas, em suas experiências e em elementos da sua formação profissional. Bem como, podemos perceber a natureza social do saber profissional. Isto é, diversos saberes dos professores são exteriores ao ensino, visto que emanam de lugares sociais anteriores à carreira docente.

Diante do exposto até o momento, defendemos a ideia de que o professor é um sujeito ativo no processo de ensino, visto que na sua prática não só aplica os saberes provenientes da teoria, mas também produz saberes oriundos da sua prática. Essa visão acerca do professor e da profissão docente nos faz acreditar que ao investigar a prática docente em atividades de produção de textos escritos, é de fundamental importância nas nossas análises considerar os diversos fatores que interferem nessa prática, pois, sabemos que a mesma é uma atividade altamente interativa, como acrescenta Tardif (2013), ao defender que,

Ela é realizada concretamente numa rede de interações com outras pessoas, num contexto onde o elemento humano é determinante e dominante e onde estão presentes símbolos, valores, sentimentos, atitudes, que são passíveis de interpretação e decisão que possuem, geralmente, um caráter de urgência. Essas interações são mediadas por diversos canais: discursos, comportamentos, maneiras de ser, etc. Elas exigem, portanto, dos professores, não um saber sobre um objeto de conhecimento nem um saber sobre uma prática e destinado principalmente a objetivá-la, mas a capacidade de se comportarem como sujeitos, como atores e de serem pessoas em interação com pessoas. (p.50)

O entendimento de que a prática docente pressupõe um saber sobre estar em relação com outros é uma realização teórica fundamental para o professor, pois nesse sentido a interação entre professores e alunos é determinante no processo de ensino e aprendizagem.

Perrenoud (2000), embasado em resultados de pesquisas, lista em seu livro 10 novas competências para ensinar. As dez competências listadas por ele orientam a formação inicial e continuada dos professores. Para o autor, as competências apresentadas contribuem na busca pela superação do fracasso escolar, promovem a cidadania e enfatizam uma prática reflexiva. São elas: 1) organizar e dirigir situações de aprendizagem; 2) administrar a progressão das aprendizagens; 3) conceber e fazer com que os dispositivos de diferenciação evoluam; 4) envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho; 5) trabalhar em equipe; 6) participar da administração da escola; 7) informar e envolver os pais; 8) utilizar novas tecnologias; 9) enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão; 10) administrar a própria formação contínua.

Diante do exposto, notamos que a capacidade de dominar, integrar e mobilizar os saberes é fundamental para a prática do professor, visto as múltiplas articulações entre a prática docente e os saberes docentes.

Logo, o ofício do professor está intimamente relacionado aos saberes produzidos durante sua particular história de vida. Entretanto, diante do nosso objeto de estudo, nos convém questionar, mais especificamente, sobre quais são os saberes envolvidos no ensino da produção de textos. No tópico a seguir iremos discutir sobre essa questão.