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É uma doença que ocorre em todos os animais, causada por muitas espécies de salmonelas e clinicamente caracterizada por uma ou mais das 3 síndromes principais – septicemia, enterite aguda e enterite crônica. O animal portador, clinicamente sadio, é um problema sério em todas as espécies hospedeiras. A doença ocorre em todo o mundo e sua incidência aumenta com a intensificação da produção do rebanho. Bezerros jovens, leitões, cordeiros e potros são suscetíveis e geralmente desenvolvem a forma septicêmica (ver DIARRÉIA EM RUMINANTES

NEONATOS, pág. 217 e DOENÇAS DIARRÉICASEM POTROS, pág. 225). Bovinos, ovinos e cavalos adultos desenvolvem comumente enterite aguda e enterite crônica pode ocorrer em leitões em crescimento e ocasionalmente em bovinos (ver também DOENÇAS ENTÉRICASEM BOVINOS, pág. 216, EM SUÍNOS, pág. 229, em OVINOS E

CAPRINOS, pág. 217, EM EQÜINOS, pág. 221 e EM CÃES e GATOS, pág. 279). A incidência da salmonelose no homem tem aumentado nos últimos anos e os animais são incriminados como reservatório principal. A transmissão para o homem ocorre via água de beber, leite, carne e ovos contaminados; e comidas como misturas empastadas que utilizam ingredientes contaminados; suínos e aves domésticas (ver pág. 1935) são também importantes fontes de infecção.

Etiologia e epidemiologia – Conquanto muitas outras espécies possam causar a doença, as Salmonella spp mais comuns são: em bovinos – S. typhimurium, S.

dublin e S. newport; em ovinos e caprinos – S. typhimurium, S. dublin, S. anatum e S. montevideo; em porcos – S. typhimurium e S. choleraesuis; em cavalos – S.

typhimurium, S. anatum, S. newport, S. enteritidis e S. arizonae. Embora os padrões clínicos não sejam distintos, as diferentes espécies de Salmonella tendem a diferir em sua epidemiologia. O perfil plasmídio e o padrão de drogas resistentes são algumas vezes marcadores úteis para estudos epidemiológicos. As fezes dos animais infectados podem contaminar alimentos e água, leite, carnes frescas e processadas em abatedouros, produtos de origem animal e vegetal utilizados como fertilizantes ou ingredientes alimentares, pastagens e pradarias, e muitos materiais inertes. Os microrganismos podem sobreviver por meses em áreas úmidas e quentes, como baias de suínos em terminação, ou em canaletas d’água. Roedores e pássaros selvagens são também fontes de infecção. A prevalência da infecção varia entre espécies e países, sendo muito maior que a incidência de doença clínica que é comumente precipitada por fatores estressantes, tais como privação súbita de alimento, transporte, seca, superlotação, parto recente e administração de algumas drogas. A doença é comum em cavalos hospitalizados que tenham sido submetidos a procedimentos cirúrgicos prolongados. Os agentes antimicrobianos orais são algumas vezes fatores de risco para esta doença.

A rota usual de infecção é a oral e, após a infecção, o microrganismo se multiplica no intestino e causa enterite. A penetração de bactérias na lâmina própria e a produção de citotoxina e enterotoxina provavelmente contribuem com a lesão intestinal e diarréia. A septicemia pode se seguir com subseqüente localização no cérebro e meninges, útero gestante, porções distais dos membros e extremidades das orelhas e cauda, o que pode resultar respectivamente, em meningoencefalite, aborto, osteíte e grangrena seca dos pés, cauda e orelhas. O microrganismo, freqüentemente, também se localiza na vesícula biliar e linfonodos mesentéricos, e os sobreviventes eliminam-no intermitentemente nas fezes.

Os bezerros raramente se tornam portadores, porém quase todos os animais adultos o são, por períodos variáveis – até 10 semanas em ovinos e bovinos, até 14 meses em cavalos. Bovinos adultos infectados com S. dublin excretam o microrga-nismo por anos. A infecção pode persistir nos linfonodos ou amígdalas, sem a Salmonelose 178

presença de salmonelas nas fezes. Como portador latente, o animal pode estar eliminando o microrganismo, ou mesmo tornar-se um caso clínico, sob estresse. Um portador passivo contrai a infecção do ambiente, porém não sofre invasão, se retirado do ambiente, deixando de ser um portador.

Bovinos e ovinos – Em bezerros e cordeiros, a doença é geralmente endêmica em uma determinada fazenda, com surtos explosivos esporádicos. No bovino adulto, a infecção subclínica com surtos ocasionais no rebanho pode ocorrer.

Agentes estressantes que precipitam a doença clínica incluem privação de água e alimento, transporte demorado, parição recente e promiscuidade e superlotação de animais confinados.

Porcos – Surtos de salmonelose septicêmica em suínos são raros e, quando ocorrem, a infecção geralmente é introduzida por um porco infectado, recentemente adquirido. A aquisição de porcos para engorda de rebanhos livres de salmonela e o uso do sistema “all-in/all-out” em unidades comerciais de terminação e a integra-ção vertical de produtores de suínos são efetivos para evitar a exposiintegra-ção à doença.

Cavalos – Muitos cavalos podem ser portadores. Em adultos, a maioria dos casos ocorre logo após o estresse de cirurgia ou transporte, especialmente após a compra, quando o animal sofre privação de alimento ou água e é superalimentado quando chega ao destino. A salmonelose em cavalos hospitalizados por outras causas é um problema sério em clínicas de eqüinos e haras. Nessas circunstâncias, os portadores são constantemente reintroduzidos, o ambiente fica persistentemen-te contaminado e um grande número de cavalos vulneráveis fica em risco. A salmonelose septicêmica é também comum em potros; pode ser endêmica em uma determinada propriedade ou ocorrer em surtos.

Achados clínicos – A septicemia é a síndrome usual em bezerros, cordeiros, potros e leitões recém-nascidos e, como surto, pode ocorrer em leitões com até 6 meses de idade. A doença é aguda, com depressão acentuada e febre freqüente (40,5 a 41,5°C) e a morte ocorre em 24 a 48h. Em porcos, uma descoloração vermelho-escura a púrpura da pele é comum, especialmente nas orelhas e abdome ventral. Podem ocorrer sinais nervosos em bezerros e porcos; os porcos podem também sofrer de pneumonia. Neste caso, a taxa de mortalidade pode alcançar 100%.

A enterite aguda é a forma comum em adultos e pode também ocorrer em bezerros geralmente ≥ 1 semana de idade. Inicialmente, há febre (40,5 a 41,5°C) seguida por severa diarréia aquosa, algumas vezes, disenteria e, freqüentemente, tenesmo. Em um surto em um rebanho, o aparecimento da diarréia pode levar várias horas, período no qual a febre pode desaparecer. As fezes variam consideravelmen-te: podem ter um odor pútrido e conter muco, fibrina e mesmo fragmentos de membrana mucosa e em alguns casos, grandes coágulos sangüíneos. O exame retal causa severo desconforto, tenesmo e comumente disenteria. Dor abdominal é comum e severa no cavalo. Os cavalos afetados ficam severamente desidratados e podem morrer 24h após o aparecimento da diarréia; a taxa de mortalidade pode atingir 100%. Leucopenia e neutropenia acentuadas são características da doença aguda no cavalo.

A enterite subaguda pode ocorrer em cavalos e ovinos adultos, em fazendas onde a doença é endêmica. Os sinais incluem febre baixa (39 a 40°C), fezes moles, inapetência e certa desidratação. Pode haver uma alta incidência de abortamentos em vacas e ovelhas, algumas ovelhas morrem após o abortamento e uma alta taxa de mortalidade, devida à enterite, é vista em cordeiros com menos de algumas semanas de idade. Em bovinos, os primeiros sinais podem ser febre e abortamento, seguidos por vários dias de diarréia.

A enterite crônica é a forma comum em porcos e bovinos adultos. Há diarréia persistente, emaciação severa, febre intermitente e fraca resposta ao tratamento.

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As fezes são escassas e podem ser normais ou conter muco, estrias ou sangue. Em porcos em crescimento, a constrição retal pode ser uma seqüela, se a parte terminal do reto estiver envolvida. Os porcos afetados são anoréticos; perdem peso; seu abdome se distende grosseiramente. A lesão é óbvia à palpação digital e à necropsia.

Cães e gatos raramente desenvolvem septicemia por salmonela, embora sejam relatados surtos em filhotes. Cães e gatos podem atuar, entretanto, como portado-res assintomáticos e muitos dos tipos importantes de salmonela de outros mamífe-ros domésticos e do homem são isolados deles.

Várias espécies de Salmonella spp aparecem em raposas, especialmente nos filhotes e produzem enterite superaguda. O furão e outros carnívoros de zoológicos podem ser afetados. Alimento contaminado é freqüentemente a fonte de infecção.

Vários roedores, por exemplo, cobaias, hâmsters, ratos, camundongos e coelhos são suscetíveis (ver ASL, pág. 1181). Os roedores comumente atuam como fonte de infecção nas fazendas onde a doença é endêmica. Tartarugas de estimação são uma fonte comum de infecção para o homem, porém os riscos têm sido eliminados pela restrição do comércio de tartarugas.

Diagnóstico – Depende dos sinais clínicos e do exame laboratorial das fezes, dos tecidos de animais afetados, dos alimentos (incluindo todos os suplementos minerais utilizados), da água e das fezes de roedores e pássaros selvagens que vivem nas instalações. As síndromes clínicas são geralmente características, porém devem ser diferenciadas de outras doenças similares. Em bovinos: colibacilose entérica, coccidiose, criptosporidiose, forma alimentar da rinotraqueíte infecciosa bovina, diarréia viral bovina, enterite hemorrágica por Clostridium perfringens dos Tipos B e C, envenenamento por arsênio, deficiência secundária de cobre (molibdenose), disenteria de inverno, paratuberculose, ostertagíase e diarréia dietética. Em suínos: colibacilose entérica dos suínos neonatos e desmamados, disenteria suína, campilobacteriose, e septicemias comuns dos suínos em cresci-mento que incluem erisipela, cólera suína e pasteurelose. Em ovinos: colibacilose entérica, septicemias por pasteurela ou Haemophilus sp, e coccidiose. Em cavalos:

septicemia por Escherichia coli, Actinobacillus equuli e estreptococos, e doença da colite X.

As lesões são aquelas de septicemias ou de enterite fibrinonecrótica. Técnicas de cultivo que envolvam a supressão fecal de E. coli são geralmente necessárias e várias culturas fecais diárias podem ser requeridas para se isolar o microrganismo.

Culturas de sangue de animais com septicemia podem ser gratificantes, mas são caras. Testes sorológicos são de difícil interpretação.

Tratamento – Embora o tratamento precoce da salmonelase septicêmica seja muito útil, existem consideráveis controvérsias a respeito do uso de agentes antimicrobianos para salmonelose entérica. Acredita-se que os antibióticos orais possam alterar, de forma deletéria, a microflora intestinal, interferir no antagonismo competitivo e prolongar o período de “eliminação” do microrganismo. Existe também preocupação com o fato de que cepas de salmonelas resistentes aos antibióticos, selecionadas por antibióticos orais possam, por sua vez, infectar o homem. Os antibióticos de amplo espectro são utilizados parenteralmente para tratar a septice-mia. Uma mistura de trimetoprim e sulfadiazina é efetiva para o tratamento da salmonelose em bezerros. A ampicilina também pode ser útil para o tratamento da salmonelose septicêmica, em todas as espécies. O tratamento deve ser contínuo e diário, por até 6 dias. A medicacão oral deverá ser ministrada na água de beber, pois os animais afetados ficam sedentos, devido à desidratação e porque o apetite está geralmente diminuído. Uma fluidoterapia para corrigir o desequilíbrio ácido-básico e a desidratação é necessária. Bezerros, bovinos adultos e cavalos necessitam de grandes quantidades de fluidos. Antibioticoterapia e a lise do microrganismo liberam Salmonelose 180

endotoxina. Se ocorrer choque endotóxico, os corticosteróides podem ser úteis. Os cavalos afetados com salmonelose entérica aguda apresentam-se severamente acidóticos e hiponatrêmicos, e necessitam ser tratados, inicialmente com bicarbo-nato de sódio a 5%, administrado EV, numa dose de 5 a 8L/400kg de peso corporal.

Isto é seguido de medicação para o equilíbrio de eletrólitos, que contenha potássio, para corrigir a hipocalemia que ocorre após a correção da acidose. A salmonelose septicêmica em suínos, em geral, responde favoravelmente se tratada no início.

Entretanto, é difícil tratar a forma intestinal efetivamente em todas as espécies.

Embora a cura clínica possa ser alcançada, a cura bacteriológica é difícil, sobretudo em animais adultos, pois os microrganismos estabeleceram-se no sistema biliar e são intermitentemente eliminados no lúmen intestinal, o que causa recidiva da enterite crônica e contaminação do ambiente.

Controle e prevenção – Este é um dos principais problemas por causa dos animais portadores e da contaminação dos ingredientes alimentares. Os princípios de controle baseiam-se na prevenção da introdução e na limitação da disseminação no rebanho.

Prevenção da introdução – Todo esforço deve ser efetuado para impedir a introdução de um portador; animais devem ser comprados diretamente apenas das fazendas reconhecidamente livres da doença. A certeza de que os suprimentos alimentares estão livres de salmonelas depende da integridade do fornecedor.

Limitação da disseminação nos rebanhos – Quando um surto ocorre, certos procedimentos devem ser seguidos. Estes incluem: 1. identificação dos animais portadores e descarte ou isolamento e tratamento rigoroso dos mesmos. Os animais tratados devem ser retestados várias vezes até se ter certeza de que não são portadores; 2. o uso profilático de antibióticos nos suprimentos de alimento ou água pode ser considerado (porém os riscos foram mencionados anteriormente); 3. deve-se restringir a movimentação dos animais na fazenda, para limitar a infecção ao menor grupo possível. Misturar os animais ao acaso deve ser evitado; 4. os suprimentos de água e alimentos devem ser protegidos da contaminação fecal; 5.

as instalações contaminadas devem ser rigorosamente limpas e desinfetadas; 6. o material contaminado deve ser descartado cuidadosamente; 7. todas as pessoas devem estar cientes dos riscos de se trabalhar com animais infectados e da importância da sua higiene pessoal; 8. o uso de uma vacina deve ser considerado, embora as salmonelas mortas não sejam bons antígenos. Uma vacina autógena pode ser feita e algumas vacinas comerciais vivas e avirulentas estão disponíveis;

9. o estresse deve ser evitado ou minimizado, tanto quanto possível, particularmente em rebanhos infectados.

Salmonelose em bezerros

Embora as salmonelas possam infectar bovinos mais velhos (ver anteriormente), a maioria dos casos ocorre em bezerros > 1 semana de idade. O quadro clínico em bezerros jovens é determinado pelo nível de imunidade materna transferida (como na colibacilose) e da virulência de determinada salmonela. Os bezerros ficam lentos, febris e geralmente anoréticos. Podem existir invasão sistêmica e também diarréia, que varia de quantidades aumentadas de fezes pastosas a líquidas, marrons ou amarelas até disenteria com odor fétido característico. A perda de peso é acentuada.

À necropsia, existem algumas petéquias e o intestino está mais congesto do que na colibacilose. A salmonela pode ser isolada dos tecidos.

A terapia é geralmente sem sucesso. A profilaxia depende da prevenção do contato com os microrganismos causadores. A vacinação é de pouco ou nenhum valor.

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No documento SISTEMA DIGESTIVO SISTEMA DIGESTIVO, (páginas 74-78)