Vida e morte não são para nós humanos simples acontecimentos biológicos. Viver e morrer são a descoberta da finitude humana, de nossa temporalidade e de nossa identidade: uma vida é minha, e minha a morte.
Morrer é um ato solitário. Morre-se só, a essência da morte é a solidão. O morto parte sozinho e os vivos ficam sozinhos ao perdê-lo.Resta saudade e recordação.
Enquanto estamos vivos decidimos o que somos, damos um sentido ao nosso passado e aos nossos projetos.Mortos, somos reduzidos à condição de puro passado e nossas ações são dadas como acabadas.
Em sua filosofia, Sartre sublinha o “Caráter absurdo da morte”.Para ele, a morte nada tem de humana, mas é um limite, o termo final da vida humana.
Se o animal ignora que vai morrer, o mesmo não acontece com o homem:
embora não se possa experimentá-la diretamente, a morte aparece como um escândalo e como manifestação radical que “arranca” o homem do universo.
“Já foi dito muitas vezes que estamos na situação de um condenado entre condenados, que ignora o dia de sua execução, mas vê serem executados a cada dia seus companheiros de cárcere. Não é totalmente exato. Melhor seria comparar-nos a u condenado à morte que se prepara valentemente para o derradeiro suplício, toma todos os cuidados possíveis para desempenhar um bom papel no cadafalso, e no meio tempo, é levado por uma epidemia de gripe espanhola”.60
60 SARTRE, J.P. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 654.
Aqui, Sartre evidencia que a morte chega inesperadamente, destruindo todos os nossos projetos futuros, além de ressaltar que a morte é um fato contingente, absurdo e acidental, assim como o nascimento, pertencendo ambos a facticidade do Em-si. Certa vez Sartre afirmou que é absurdo que tenhamos nascido, é absurdo que tenhamos de morrer.61
Sartre e Heidegger possuíam visões diferentes sobre o caráter da morte na existência humana, ocasionando alguns pontos de discordância entre ambos.
Heidegger deu forma filosófica à humanização da morte. Se o Dasein62 não padece nada, precisamente porque é o projeto e antecipação, então deve ser antecipação e projeto de sua própria morte enquanto possibilidade de não mais realizar presença no mundo. Na medida em que o Dasein determina o seu projeto rumo à morte, realiza a liberdade-para-morrer e constitui a si mesmo como totalidade pela livre escolha da finitude. Assim, o ser da realidade humana é visto por Heidegger como um ser-para-a-morte: como existir é estar exposto à possibilidade de morrer, a morte (ameaça que pesa sobre o homem desde seu nascimento), faz parte da realidade humana, sendo considerado algo que lhe é essencial. Para Heidegger, escolhemos livremente a nossa morte como um projeto, uma possibilidade suprema, que irá concluir e dar acabamento final ao nosso ser, até então, inconcluso, ou seja, a morte é um projeto que dá sentido acabado e definitivo à nossa vida. Ele refere-se à morte, ainda como um meio de alcançarmos enfim, a nossa unicidade de pessoa, totalizando-nos como ser individualizado, pois a morte é a única coisa que ninguém pode fazer por mim.
Dessa forma, ela torna-se individualizada por Heidegger em cada um de nós, por ser algo que ninguém pode fazer por nós.
Sartre menciona uma evidente má-fé neste raciocínio formulado por Heidegger, pois para Sartre não é a morte que individualiza nosso ser por torná-lo
61 Ibid, p.670.
62 Dasein – Termo utilizado por Heidegger para designar o caráter específico da existência humana, o privilégio que lhe é próprio de poder interrogar o ser ao mesmo tempo em que se delimita como “presença intencional”. A descrição do Dasein, ao mesmo tempo psicológica e ontológica, insiste particularmente nos fenômenos da angústia (o homem se reconhece contingente) e da preocupação (o ser do homem manifestando-se no projeto, que é afirmação de uma liberdade e interpretação do mundo). Cf. DUROZOI, G.
e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia.Campinas: Papirus, 1993.
finito e acabado. Mesmo que o homem fosse imortal, continuaria sendo finito e acabado, conforme nos informa a temporalidade. Ele sublinha ainda, que a morte não constitui minha unicidade de pessoa.Pelo contrário: é a unicidade do Para-si que determina a morte como algo meu, pois não é apenas na morte que experimento algo que ninguém pode fazer por mim: em qualquer ato sou insubstituível e único, porquanto ninguém pode amar ou sofrer por mim, vivendo o amor e o sofrimento que são meus. Minha individualidade não necessita da morte para se constituir. Porém a morte, como algo imprevisível, retira todo o sentido da vida.
“Assim, a morte jamais é aquilo que dá vida a seu sentido.
Pelo contrário, é aquilo que suprime da vida toda significação. Se temos de morrer, nossa vida carece de sentido, porque seus problemas não recebem qualquer solução e a própria significação dos problemas permanece indeterminada”.63
Ao abordar a questão da morte, Sartre se preocupa ainda, em enfatizar a posição do Outro no tocante a este fato.O problema da existência do Outro, aspecto que veremos no próximo capítulo de nossa pesquisa, começa a ser esboçado aqui.
Sartre argumenta que o Outro se faz guardião de minha morte e como ser-para-si, ele toma uma determinada posição sobre minha morte, podendo escolher entre a indiferença, o esquecimento o ao grau de valor ou sentido aos meus feitos enquanto vivo. Em suma: após nossa morte, estamos “nas mãos dos vivos”, pois enquanto vivo posso desmentir o que o Outro descobre em mim projetando-me de imediato rumo a fins diferentes, posso esquivar-me de suas ações contrárias ao meu ponto de vista, ou posso defender-me ao meu modo, quando necessário.
63 SARTRE, J.P. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 661.
“Estar morto é ser presa dos vivos. (...) Enquanto vivo, posso desmentir o que o outro descobre em mim, projetando-me de imediato rumo a fins diferentes e, em qualquer caso, revelando que minha dimensão de ser-para-mim é incomensurável com minha dimensão de ser-para-outro. (...) Morrer é ser condenado a não existir, a não ser pelo outro, e a ficar devendo a este sentido e o próprio sentido de sua vitória”.64
A morte está fora de minhas possibilidades e não pertence à estrutura ontológica do para-si, por se tratar de um limite, um termo final da vida humana.Representa o triunfo do Outro sobre mim, apesar da existência daquele ser algo totalmente contingente. Não teríamos conhecimento da morte se o Outro não existisse, conforme menciona Sartre:
“Neste sentido, qualquer que seja a vitória efêmera obtida na luta contra o Outro, e ainda que tenhamos nos servido do Outro para ‘esculpir nossa própria estátua’, morrer é ser condenado a não existir, a não ser pelo Outro, e a ficar devendo a este seu sentido e o próprio sentido de sua vitória”.65
Por fim, Sartre conclui, contra Heidegger, que a morte é um fato contingente e pertence por princípio à nossa facticidade. Não podemos tomar uma atitude com relação à nossa morte, nem esperá-la, por se tratar de algo irrevelável à realidade humana. Mas todo corpo que foi vivo foi significante, pois por mais modesta e
64 SARTRE, J.P. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 666.
65 SARTRE, J.P. O ser e o nada, p. 666.
fugidia que tenha sido sua relação com o mundo, ele abriu e constituiu um caminho e nele deixou rastro. Este rastro sobrevive, embora apagado. Reavê-lo e fazê-lo reviver é tarefa dos vivos, que poderão optar sobre qual imagem farão dos mortos após a partida destes.
A morte estará sempre para-além de minha subjetividade, posto que em minha subjetividade não há lugar algum para ela.
“E esta subjetividade não se afirma contra a morte, mas independentemente dela, embora esta afirmação seja imediatamente alienada. Portanto, não poderíamos pensar a morte, nem esperá-la, nem nos armarmos contra ela, mas também nossos projetos, enquanto projetos – não devido à nossa cegueira, como diz o cristão, mas por princípio – são independentes dela. E, ainda que haja inúmeras atitudes possíveis frente a esta irrealizável ‘a realizar além do mais’, não cabe classificá-las em autênticas e inautênticas, posto que, justamente, sempre morremos ‘além do mais’”.66
CAPÍTULO II