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PARTE I – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

CAPÍTULO 4: CAUSAS DA SAZONALIDADE

4.2. Causas da sazonalidade e sua classificação

4.2.1. Sazonalidade natural

A explicação natural da sazonalidade encontra fundações numa etapa inicial do desenvolvimento turístico, e na propensão que cedo se fez sentir para um consumo turístico predominante na estação do Verão. Segundo Meyer-Arendt (2004) esta preferência está enraizada nas propriedades climáticas desta estação, principalmente nos elementos sol e temperatura e nos efeitos terapêuticos que ainda hoje se reconhecem a estes elementos.

Em finais do século XIX desenvolvem-se na Europa as designadas Spa Towns, estâncias turísticas fundadas sob o conceito de saúde39, cujos principais exemplos se encontram na Côte d’Azur tal como Nice, ou na costa inglesa como Bath, mas também no interior, como Vichy em França ou

Baden-Baden na Alemanha (Allcock, 1994; Meyer-Arendt, 2004). Na sua maioria estes destinos

descendem da era romana, onde se iniciou a tradição das curas de águas (termas) sendo esta a principal motivação dos fluxos turísticos. De acordo com Allcock (1994), mais tarde no Mediterrâneo, a crença nas propriedades terapêuticas dos banhos de mar foi a razão inicial do surgimento e posterior crescimento das estâncias turísticas. Estas estancias acolhiam os mais abastados, protegendo-os dos rigores do inverno na Europa Central e do Norte. A predominância da estação de Verão como a preferida para o gozo de férias, começa a fazer-se sentir sobretudo após a primeira guerra mundial (Allcock, 1994). O que o justifica é o incremento, a partir de então, do tempo livre entre a classe média (e mais tarde entre a classe trabalhadora). Isto é conjugado com o clima propício desta estação do ano, e da moda enraizada dos banhos de mar,

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O desenvolvimento deste conceito constituiu-se como a génese do produto turístico hoje conhecido por turismo de saúde e bem-estar, denominação referente a um dos dez produtos estratégicos inseridos no plano estratégico do turismo – PENT (Turismo de Portugal, 2007).

responsável principal pela crescente atração dos turistas às estâncias balneares (Allcock, 1994; Cavaco, 2008). A partir da década de sessenta, o advento do turismo de massas vem reforçar a apetência para o gozo de férias neste período específico do ano, fazendo sobressair o clima como um importante fator de atração. Para Collier (1994, citado em Commons e Page, 2001) o clima continua a ser até aos nossos dias, o fator crítico provavelmente mais importante na escolha do período e/ou do destino de férias.

A sazonalidade natural engloba os vários elementos que se relacionam de forma direta com o clima e suas variações cíclicas no ano (ou em períodos mais curtos). Trata-se entre outros da temperatura, da humidade, da pluviosidade, da queda de neve, e da quantidade de horas de sol/ luminosidade (Butler, 2001; Kulendran e Dwyer, 2012). De acordo com Kreutzwiser (1989), as condições climáticas marcadas predominantemente por um dos elementos, ou pela conjugação de vários, influenciam a perceção e satisfação do turista em função do tipo de viagem e das atividades turísticas praticadas. O autor aponta o exemplo de “(...) no Verão, a temperatura do ar e o nível de humidade podem combinar-se para criar condições desconfortáveis à prática de atividades vigorosas, enquanto o vento e a temperatura no Inverno podem criar um ambiente perigoso para atividades ao ar livre” (Kreutzwiser, 1989, p.30). A perceção do que é um clima atrativo, varia de acordo com diversos aspetos sociodemográficos (ex.: idade), bem como, com aspetos culturais (Gössling et al., 2012). O que numa determinada cultura pode ser entendido como um clima pouco atrativo, noutra pode funcionar de forma contrária. É o caso das chuvas torrenciais próprias da época das monções que afastam muitos visitantes internacionais de destinos como a India, no entanto, no contexto cultural interno destes destinos este período é considerado refrescante e de renovação. Na India, o turismo é promovido nesta época específica tanto para a procura turística interna, como para o mercado do Médio Oriente, onde o valor cultural associado às fortes chuvas é diferente pela positiva (Dhanesh, citado em Gössling et al., 2012). No decurso das variações climáticas anuais, este fenómeno climático é apenas um dos diversos cenários que se apresentam a nível global. Nas latitudes médias o clima é temperado e as flutuações climáticas definem as quatro estações típicas: Inverno, Primavera, Verão, e Outono. Nestas latitudes as quatro estações são relativamente bem diferenciadas, contrastando com a zona intertropical onde o clima é consistentemente mais quente, e as estações menos diferenciadas. Nas regiões tropicais verificam-se apenas duas estações - a seca e a húmida, e nas regiões polares - o Inverno e o Verão (Medlik 1996). No Hemisfério Norte, onde se situam as principais zonas geradoras dos fluxos turísticos, o clima é temperado de tipo Mediterrânico e é onde se verifica uma influência mais vincada das variações climáticas na distribuição dos fluxos turísticos ao longo do ano. Por si só, a sazonalidade natural será uma justificação tanto mais forte para a sazonalidade num destino, quanto mais marcadas forem as diferenças climáticas no mesmo. Isto carateriza geralmente as latitudes mais afastadas da linha do equador, e particularmente, as regiões mais periféricas e remotas onde os problemas da sazonalidade parecem ser mais difíceis de ultrapassar (Bar-On, 1975; Hartmann, 1986; Butler, 1994; Lundtorp

et al., 1999). No caso dos países nórdicos, como por exemplo a Islândia, o forte grau de

sazonalidade é considerado um dos principais fatores críticos que limita o desenvolvimento turístico (Margaryan e Zherdev, 2011). Contudo, Butler (2001) defende que apesar dos destinos mais próximos do equador não registarem diferenças climáticas tão marcantes, também

experimentam sazonalidade devido entre outros aspetos às diferenças climáticas nas áreas geográficas de origem dos turistas.

Ainda em função da latitude, o clima apresenta caraterísticas particulares, por vezes tão específicas ao ponto de propiciar fortes motivos de atração turística em determinados períodos do ano40. Isto tende a levar à formação de picos anuais de procura nestes períodos, e à maior sazonalidade nestes destinos.

O impacto dos fatores climáticos sobre o comportamento do turista parece ser um tema muito relevante. Tal como atrás ilustrado, se por um lado o clima presente no destino numa dada época pode representar um atrativo, por outro lado poderá funcionar como um fator desincentivador da visita, bem como da participação em determinadas atividades turísticas (Baum e Hagen, 1997). Percebe-se a partir daqui a relatividade deste fator; o que para um turista pode ser um ‘clima agradável’ para a prática de determinadas atividades, para outro pode não ser. A título de ilustração, uma das mais reconhecidas motivações turísticas com relação ao clima é o heliotropismo, que se traduz na procura do sol, ou mais genericamente do bom tempo (Baud et

al., 1997, p.446). Esta motivação tem uma relação direta com as variações climáticas,

contribuindo para explicar a concentração da procura no Verão nos destinos mediterrânicos, ou os fortes fluxos turísticos de Inverno para destinos tropicais, como no caso do denominado ‘Sunbelt’41 (Donatos e Zairis, 1991; Mings e McHugh, 1995). Segundo Viner e Nicholls (2006) um sexto da procura turística internacional no ano 2000 (116 milhões de chegadas) correspondeu a fluxos turísticos com origem nas regiões mais frias do norte da Europa em direção ao Sul. As autoras destacam nestes fluxos, a incidência dos turistas dos países da costa Norte do Mar Mediterrâneo, cujas motivações principais são a procura do sol e calor. Também a procura doméstica é bastante influenciada pelas variações climáticas, sobretudo as que se verificam num prazo de tempo mais curto (Agnew e Viner, 2001).

Para além dos fatores naturais serem reconhecidos como as causas mais incontroláveis da sazonalidade são também cada vez mais imprevisíveis em termos da sua evolução. Isto não só numa perspetiva de curto prazo (ano), mas também na de médio e longo. Nesta última dimensão verifica-se que a delimitação e permanência das estações do ano é cada vez menos consistente, facto que se deve às alterações climáticas que paulatinamente se tem vindo a reproduzir a nível global (IPCC, 2007). Esta matéria está particularmente ligada ao aquecimento do planeta42, e tem vindo a ser um tema bastante explorado no âmbito do turismo internacional (Viner e Nicholls, 2006; Amelung et al., 2007).

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Um bom exemplo é o caso das áreas localizadas entre o Círculo Polar e o Pólo, onde no Inverno ocorre a noite polar (i.e., a ausência total de dia durante 24 horas). Inversamente no Verão surge o dia polar, designado por sol da meia-noite; ambos constituem por si só um atrativo turístico importante.

41 Sun-belt: originalmente corresponde à região dos Estados Unidos da América, compreendendo o sul e o

sudoeste do país e abrangendo os estados do Arizona, Califórnia, Flórida, Nevada, Novo México, Texas, Geórgia e Carolina do Sul. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cintur%C3%A3o_do_Sol> (acedido em 2013);

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Prevê-se com muita probabilidade que as taxas de alteração climática continuem (> 90% probabilidade) ou até acelerem com as contínuas emissões de gases para a atmosfera, com a média global das temperaturas da superfície terrestre a apresentar um crescimento estimado de 1.8°C a 4.0°C até ao final do século (IPCC, 2007).

Neste domínio, vários estudos procuram descrever as condições climáticas projetadas para o futuro, outros vão um pouco mais além estimando as repercussões das variações climáticas sobre os fluxos turísticos (Hein, 2007; Amelung e Moreno, 2009). Os cenários resultantes dos diversos estudos prospetivos são mais ou menos consensuais, deixando antever tanto impactos positivos como negativos para a indústria do turismo em diversos destinos. Prevê-se concretamente que nos países do hemisfério norte as alterações climáticas possam vir a favorecer a estação de Verão. Em geral, estarão em causa temperaturas mais altas e uma duração mais longa desta estação, tornando-a geralmente mais apetecível (Amelung e Moreno, 2009). Contudo, alguns destinos mediterrânicos, sobretudo nas suas regiões mais interiores, podem vir a sofrer negativamente com temperaturas demasiado elevadas durante o Verão, tornando-os desagradáveis para muitos turistas (Hein, 2007). Numa interpretação concordante, Bigano et al. (2007) apontam que a prazo, a procura turística doméstica poderá cair 20% nos países mais quentes, e passar para o dobro nos países mais frios (relativamente a uma base de análise sem alterações climáticas). Esta projeção está de acordo com os resultados do trabalho de Giles e Perry (1998), neste trabalho os autores descobriram que um Verão anormalmente quente no Reino Unido em 1995, coincidiu com um ano recorde no volume de procura doméstica, a par de um forte decremento na procura de pacotes turísticos internacionais.

Do lado das perdas poderão estar simultaneamente em risco as regiões com altitudes mais elevadas e mais baixas. De um lado estão as áreas de montanha, que contam com significativos fluxos turísticos para a prática de desportos de Inverno, e que poderão passar a ter piores condições gerais quanto à queda de neve, e consequentemente épocas turísticas mais curtas (Smith, 1990; Wall, 1993; Hein, 2007). No caso dos Alpes europeus, estima-se que cada grau centígrado de aumento de temperatura no inverno exija uma subida de 150m (altitude) para se atingir o limite mínimo de neve adequado à prática de esqui (UNEP, 2007).

Paralelamente, as ilhas e zonas costeiras mais baixas serão alvo dos impactos negativos associados à previsível subida geral do nível das águas do mar43. Prevê-se que esta subida provoque a diminuição de áreas de praia, a erosão da costa, o risco de perdas na biodiversidade (por ex. bancos de coral) e, entre outros, o incremento de tempestades. (Smith, 1990; Gable, 1997; Agnew e Viner, 2001; Viner e Nicholls, 2006;).

De acordo com a argumentação de Smith (1990), as alterações climáticas de médio e longo prazo irão transformar a delimitação das épocas turísticas tradicionais, assim como os fluxos turísticos sazonais, não só no tempo como também no plano geográfico. Por exemplo no contexto europeu, Amelung e Moreno (2009) preveem uma alteração da duração da época principal de Verão, com uma tendência dominante para o seu decréscimo no sul da Europa44, e uma tendência contrária nos países do norte. A projeção de melhores condições climáticas para o Norte da Europa poderá vir a provocar um decremento da procura no atual pico de Verão na região do Mediterrâneo (Agnew e Viner, 2001; Lise e Tol, 2002; Amelung e Viner, 2007; Bigano et al., 2007). Em Portugal e

43 Estima-se que durante o século passado o nível das águas do mar tenha subido cerca de 18cm (Gable,

1997).

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Com exceção para uma faixa costeira do sul da Espanha e de Portugal que irá manter, ou até incrementar a duração da época alta (Amelung e Moreno, 2009).

de acordo com os cenários de evolução traçados por Miranda et al. (2012), as previsões vão no sentido do aumento das temperaturas médias (em linha com a tendência global), apontando também para uma clara diminuição da precipitação média sobretudo na Primavera (especialmente no mês de Março). Existe também uma tendência prevista para Invernos mais curtos e variáveis, e Verões mais longos, quentes e secos (Miranda et al., 2012).

Vários autores preveem que as alterações no clima possam vir a beneficiar particularmente as condições climáticas das estações intermédias (Lise e Tol, 2002; Amelung e Viner, 2007); mas também, que venham afetar a relativa atratividade geral dos destinos, influenciando as opções dos turistas (Lise e Tol, 2002; Bigano et al., 2005). De acordo com Wall (2007) estarão mais vulneráveis os destinos cuja capacidade de atração se baseia essencialmente em recursos naturais, tais como montanhas e zonas de costa/ praia. Os destinos cuja oferta assenta noutro tipo de recursos (como por exemplo, atrações de tipo histórico-cultural) estarão eventualmente mais protegidos.

De facto, quer o impacto das variações climáticas a médio e longo termo, quer o seu impacto específico no desequilíbrio sazonal da procura turística, estão intimamente ligados à estrutura da oferta (Smith, 1990; Almeida, 2004). Se num dado destino a oferta turística estiver estruturada essencialmente sobre produtos ou atividades com forte dependência dos fatores climáticos (como é exemplo, a queda de neve no caso dos desportos de Inverno), e se as condições apropriadas não se verificarem em permanência, pode justificar-se o encerramento do destino/ atrações em certos períodos e a concentração da procura será inevitável (Smith, 1990; Grant et

al., 1997; Almeida, 2004; Scott e Lemieux, 2010).

Por outro lado, admitindo-se que a visita a um destino será tanto mais agradável quanto melhores forem as condições climáticas; parece não ser igualmente falso que uma parte dos produtos e atividades turísticas não depende exclusivamente do clima para a sua realização. Este poderá ser o caso do turismo cultural e/ou urbano e, por exemplo, a atividade específica da visita a museus (Smith, 1990; Higham e Hinch, 2002). De qualquer forma, mesmo nos destinos em que a componente cultural da oferta é preponderante a sazonalidade pode também estar bem presente; é por exemplo o caso da cidade de Guimarães na região do Minho, onde a procura exibe um pico muito acentuado no Verão (Ribeiro e Remoaldo, 2011).

De acordo com o estudo de Rutty (2009), que entre outros objetivos procurou identificar as condições de clima mais favoráveis à prática de diferentes atividades turísticas no Mediterrâneo (turismo de sol/ praia vs. turismo urbano), existem diferentes perceções dos turistas face ao fator temperatura e aos meses mais propícios. A maioria dos inquiridos neste estudo situam como temperaturas ideais para o turismo urbano o intervalo entre os 20 e os 26°C, com Maio, Junho, e Setembro a representarem os meses preferidos. Quanto ao segmento de turismo balnear, e com base na expressão das temperaturas ideais, que se situam entre os 27 e os 32°C, destacam-se Junho, Julho, Agosto, e Setembro como os meses mais interessantes.

Diversos estudos vêm reconhecer uma forte ligação entre as variações climáticas e a sazonalidade da procura turística (Stern et al. 2000; Lise e Tol, 2002; Hamilton e Lau, 2004; Gomez, 2005; Amelung et al., 2007; Scott et al., 2008). Porém, ainda poucas tentativas foram feitas para

quantificar o real impacto dos fatores climáticos nas variações sazonais. Um dos trabalhos realizados sobre esta matéria, que apresenta uma abordagem quantitativa, é o de Kulendran e Dwyer (2010). Este trabalho procurou medir a influência das alterações climáticas sobre as variações sazonais da procura turística na Austrália, isto atendendo aos fluxos provenientes de diversas origens para este destino. Os autores chegaram à conclusão que as variações climáticas, com destaque para a temperatura e humidade, moldam as caraterísticas sazonais da procura de acordo com as estações do ano e com as diferentes origens; qualquer alteração futura nestes indicadores afetará o padrão sazonal da procura LRF no destino (Kulendran e Dwyer, 2010). As variações climáticas ao longo do ano, embora sejam essenciais para explicar as flutuações da procura em determinados destinos (principalmente aqueles em que a oferta está mais dependente deste tipo de condições), não se podem sobrepor a outros fatores explicativos de igual ou até maior importância, como é o caso dos fatores institucionais. Para Baum e Lundtorp (2001) existe um forte grau de interdependência entre as duas classes, mas ao mesmo tempo, os autores propõem que este estudo deverá merecer uma maior reflexão, nomeadamente no plano geográfico. Com base num estudo sobre este tópico em várias regiões australianas, Hadwen et al. (2011) propõem que, enquanto os fatores explicativos institucionais podem ter uma maior influencia na justificação da sazonalidade nas zonas climáticas equatorial, subtropical, desertos, planícies, e em geral, nas zonas temperadas; já a concentração da procura nas áreas alpinas e subalpinas, pode ser mais eficazmente explicada por uma intrincada correlação entre os fatores explicativos naturais e institucionais. Questionando esta correlação, Lundtorp et al. (1999) defendem que não existe um entendimento geral sobre o que é mais importante; se o desejo de viajar em determinada altura do ano (por ex. pelo clima); ou se os constrangimentos que impedem os turistas de viajar fora da época alta (por ex. por fatores institucionais, como as férias escolares).