Quem queira agora responder a questão: o que significa na nossa época o filósofo como educador?, deve responder esta questão muito disseminada e sobretudo muito prezada no seio das universidades, e fazê-lo assim: é uma vergonha, algo abjeto, que uma lisonja tão repugnante a serviço dos ídolos atuais pudesse ser pronunciada e repetida por homens reputados como inteligentes e honrados – uma prova a mais de que não se tem mesmo sequer a ideia do que separa a filosofia e a seriedade de um jornal (NIETZSCHE, 2007a, p. 164)
Schopenhauer como educador é um texto que faz parte de uma série de conferências chamadas Considerações Extemporâneas, publicadas em 1874. Nele, Nietzsche ataca o desconhecimento e a apatia da universidade alemã em relação à cultura grega. O livro O nascimento da tragédia, de sua autoria, publicado dois anos antes (1872), além de ter recebido uma enxurrada de críticas, não foi muito difundido.
Na Consideração Extemporânea III, Schopenhauer como educador, Nietzsche põe o dedo numa das feridas mais perigosas para a humanidade: idolatrar o Estado e a propriedade como sinônimos de felicidade. O autor deixa evidente a preocupação com a formação do gênio e propõe a filosofia de Schopenhauer como o melhor caminho para o surgimento de uma cultura superior.
A educação não seria a saída para libertar “os mais bem-dotados”? De que maneira a educação possibilitaria o leitmotiv do indivíduo que pode pensar o sentido da própria existência? Como esse indivíduo poderia vivenciar novos comportamentos? A preocupação se resumiria à formação dos gênios.
Percebe-se com clareza que predomina nas análises filosóficas uma grande preocupação com a dimensão social do existir humano. Parece que a afirmação da
singularidade é a negação automática dos valores socialmente estabelecidos. Por que em Nietzsche temos uma negação dos valores transcendentais, podemos acusá-lo de negar a dimensão social da existência? Encontramos na obra Schopenhauer como educador uma reflexão filosófica que enfatiza o papel do indivíduo, enquanto singularidade, em oposição ao sujeito histórico que é visto como animal de rebanho, presa das instituições decadentes. A crítica de Nietzsche aponta para a negação das estruturas que abafam o que há de mais original no indivíduo, exatamente para que floresça a afirmação do Si-mesmo (Selbst). “Porque ele observa que se quer enganá-lo acerca de si mesmo... Ele se rebela, aguça o ouvido e decide: ‘Eu quero continuar sendo eu mesmo’” (NIETZSCHE, 2007a, p 173). Ao mergulhar nas profundezas da existência, surgem então as questões filosóficas fundamentais: “Por que é que vivo? Que lição devo aprender com a vida? Como me tornei o que sou e por que devo eu sofrer por ser assim?” (NIETZSCHE, 2007a, p. 173). Há clara preocupação de Nietzsche em negar a integração do indivíduo por parte das instituições o que levaria à negação da individualidade. É preciso romper com o senso comum, com a massa de medrosos e acomodados, para se perceber como único, pois "todo homem é um milagre irrepetível” (NIETZSCHE, 2007a, p. 138). “Sê tu mesmo! ” é o ponto de partida para a verdadeira emancipação que dá sentido à vida. Nietzsche então destaca o papel do artista e do gênio na afirmação dessa singularidade em oposição às atitudes dos que se comportam como animais de rebanho que são levados para o matadouro.
A singularidade implica solidão. “Ninguém pode construir no teu lugar a ponte que seria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida – ninguém, exceto tu”. (NIETZSCHE, 2007a p. 140). O caminho não se faz como obra do acaso, nem é feito por outros. Cada um é artífice do próprio destino. Aqui vemos o embrião da metáfora do homem como corda estendida entre o animal e o além-do-homem, signo do “tornar-se quem se é”, talvez a única possibilidade de autoformação, na solidão entendida como singularidade.
Nietzsche expressa sua clareza sobre os caminhos da educação.
Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade; não foi somente por uma escada que subi ao alto, de onde meus olhos vagueiam na distância que é minha. E sempre e somente a contragosto perguntei pelos caminhos – isto sempre me repugnava! Preferia interrogar e experimentar os próprios caminhos...
‘Este, agora, -- é o meu caminho; -- onde está o vosso?’”; assim respondia eu aos que me perguntavam ‘o caminho’. Porque o caminho – não existe. (NIETZSCHE, 2011b, p. 233)
A clareza dessa singularidade tem que ser percebida na própria existência e nunca separada dela. “No fundo, todo homem sabe muito bem que não se vive no mundo senão uma vez, na condição de único [als ein Unicum], e que nenhum acaso, por mais estranho que seja, combinará pela segunda vez uma multiplicidade tão diversa neste todo único que se é [Einerlei]” (NIETZSCHE, 2007a, p. 138).
Porque Schopenhauer, filósofo pessimista, foi crítico ferrenho da cultura alemã e por ser, para Nietzsche, um modelo de gênio, é usado por ele como exemplo de educador. “Estimo mais um filósofo quanto mais ele está em condições de servir de exemplo” (NIETZSCHE, 2007a, p.150) É no campo das vivências que o processo educativo tem sentido para Nietzsche, e não no campo da erudição ou da competência na transmissão dos saberes. Os educadores se tornam modelos para guiar os alunos no caminho do saber. Para tanto, precisariam começar “educando-se a si mesmos”.
A cultura verdadeira para Nietzsche ultrapassa as fronteiras das necessidades e do utilitarismo e não pode ficar à mercê dos ditames da economia política. Para a cultura ser efetivamente sadia faz-se necessário que seja deveras autônoma diante da economia ou de qualquer outra esfera da vida em sociedade. Seguindo o exemplo do Estado grego, é imperativo que este deva servir à cultura e não o contrário. A verdadeira cultura é a filosófica que se situa muito acima do alcance do rebanho destinada a poucos indivíduos como os gênios que são os filósofos e artistas.
Para Nietzsche todo povo produz seus gênios e estes são, na realidade indivíduos únicos, que produzirão uma obra original que dará frutos duradouros. Ele usa com precisão a metáfora da orquestra que necessita de um gênio, de um guia que conduza e faça acontecer a música de maneira harmônica e coesa. Diz ele: “Interpretem agora, com esta minha comparação, o que eu entendo como sendo uma autêntica instituição cultural e porque não encontro na Universidade qualquer semelhança, ainda que a mais longínqua, com isso que pretendo” (NIETZSCHE, 2007a, p. 137)
Na apresentação dos Escritos sobre educação, de Nietzsche, Melo Sobrinho afirma:
Em suma, na avaliação de Nietzsche, os estabelecimentos de ensino de sua época se apresentavam como instituições transmissoras de uma educação ao mesmo tempo uniformizada e medíocre, utilitária e integradora, baseada neste princípio da “livre personalidade”, cujo efeito era conservar os jovens na imaturidade, na ignorância e na indiferença. A pedagogia moderna nestes estabelecimentos era então um misto de erudição e futilidade, de cientificismo e jornalismo; ela ajudava tão somente a formar os “servidores do momento”, mas não concorria absolutamente para formar os homens exigidos por uma cultura elevada, como protagonistas de um destino superior. (MELO SOBRINHO, 2007, p. 12.)
Nietzsche sabe da importância dos conhecimentos históricos e da pesquisa científica, mas como filósofo afirma a importância do questionamento de si e de todo e qualquer tipo de ensinamento, para que o estudante possa trilhar seu próprio caminho e fazer suas descobertas num percurso de maturidade e autonomia, após um período de tempo sob a orientação de um gênio, mestre e guia.
De acordo com Dias:
Educação e cultura, para Nietzsche, são inseparáveis. Não existe cultura sem um projeto educativo, nem educação sem uma cultura que a apoie. A educação recebida nas escolas alemãs parte de uma concepção historicista e dá origem a uma pseudocultura, que nada mais é do que o simulacro de outras culturas. Cultura e educação são sinônimos de ‘adestramento seletivo’ e ‘formação de si’; para a existência de uma cultura, é necessário que os indivíduos aprendam determinadas regras, adquiram certos hábitos e comecem a educar- se a si mesmos e contra si mesmos - ou melhor, contra a educação que lhes foi inculcada. (DIAS, 2003, p. 17.)
Para Nietzsche, a Filosofia e a Arte são as áreas críticas e criativas que poderão minimizar a predominância do espírito historicista e cientificista da universidade, pois estão a serviço da vida e não do mercado ou do Estado, ao mesmo tempo em que possibilitam a descoberta do sentido da existência.
Com a morte de Deus, e a consequente insegurança num mundo sem certezas absolutas, a saída para a falta de sentido do mundo é a educação de um novo ser humano que consiga encontrar o sentido do seu vir-a-ser. Retomamos aqui a contribuição de Dias:
Por meio dessa educação para a arte, o jovem universitário seria capaz de primeiro, contestar a pretensão científica de tudo conhecer; segundo, conduzir o conhecimento de modo a fazê-lo servir a uma melhor forma de vida; terceiro, devolver à vida as ilusões que lhe foram confiscadas; quarto, restituir à arte o direito de continuar a cobrir a vida com os véus que a embelezam. (DIAS, 2003, p. 102.)
Rocha (2006), parte de uma crítica bem fundamentada ao conceito metafísico de formação para chegar à proposta de Nietzsche que entende a educação como um processo imanente e permanente de transformação. Se a educação, enquanto formação, se baseava numa ideia de unicidade de sujeito, todos deveriam acompanhar o estilo e o ritmo da educação para a aquisição de habilidades e competências. A educação entendida como transformação supera a visão de identidade para enfatizar o papel do devir, da reinvenção constante de um eu singular, diferente das outras singularidades, cada qual com seus conhecimentos, habilidades, sonhos, projetos. Não há sujeito, mas subjetividades que se descobrem e se reinventam.
Diferentemente da concepção moderna de sujeito, vemos com clareza que o indivíduo que se esforça por “tornar-se o que é” não está em busca de uma essência ou atualização de uma potência, mas o que procura compreender-se como aberto à diferenciação e não como alguém sedento de uma essência. Queremos enfatizar educação em Nietzsche como singularidade e como vivência (erlebnis) desprovidas de preocupações teleológicas, visto que a vivência não pode ser instrumentalizada pela razão, segundo Nietzsche. Em Humano, demasiado humano, afirma: "É sempre como foi com Aquiles e Homero: um tem a vivência (Erlebnis), a sensação, o outro as descreve". (NIETZSCHE, 2011c, p. 130). Enquanto Aquiles vivenciou os acontecimentos, Homero apenas fez a narração dos eventos. Nesta obra, ele substitui o "conhece-te a ti mesmo" por um "queira a ti mesmo". Esse “querer um Eu” para se “tornar um Eu”, é a ênfase na vontade de potência, que não pode ser instrumentalizada pela razão, nem pelo mundo supra-sensível:
As naturezas ativas e bem sucedidas não agem segundo a máxima "conhece-te a ti mesmo", mas como se imaginassem a ordem: “queira um Eu, e você se tornará um Eu”. -- O destino lhes parece ter- deixado a elas a escolha; enquanto as inativas e contemplativas refletem sobre como, escolheram naquela única vez, ao vir ao mundo.(NIETZSCHE, 2008b, p. 148)
Gallo analisa as primeiras obras de Nietzsche sobre os estabelecimentos de ensino de sua época e a crítica ferrenha dirigida aos mesmos, e faz um comentário pertinente: “trata-se, para Nietzsche, de formar o filósofo como criador, como indivíduo autônomo. O caminho seria um processo de educação de si mesmo, um processo de ‘tornar-se o que se é’ mediado pelo modelo (...) de um filósofo educador” (GALLO, 2006, p. 341). Quais serão os desafios que os educadores enfrentarão no futuro? Substituir os pensamentos fundamentais vigentes por um novo pensamento. E afirma Nietzsche:
(...) nosso mundo moderno, no seu conjunto, não tem uma aparência exterior solidamente assentada e durável, para que se pudesse também profetizar para o conceito de sua cultura uma duração eterna. É preciso mesmo admitir como verdadeiro que o próximo milênio possuirá algumas ideias novas que farão arrepiar os cabelos de todos os nossos contemporâneos. (...) Certamente, isso exige uma reflexão completamente incomum, a de levar, a partir e para além das instituições pedagógicas atuais, seu olhar para instituições absolutamente estranhas e diferentes, algo que já uma segunda ou terceira gerações acharão talvez necessárias. (...) Mas a maior dificuldade para os homens é revisar suas noções e dar-se um novo objetivo, e lhe custará um esforço indizível substituir os pensamentos fundamentais da nossa pedagogia atual que mergulha suas raízes na Idade Média (...) por um novo pensamento fundamental. (NIETZSCHE, 2007a, p. 198).
Este texto, de cunho profético, atinge em cheio nossas pretensões de uma educação avançada para além dos muros das escolas e das universidades. Até que ponto estamos revisando nossas noções de educação e produzindo uma reflexão incomum sobre estudo, ensino e vida? Quais passos já foram dados no sentido de superar as deficiências de uma educação que ainda tem algumas raízes na Idade Média? Conseguimos produzir “um novo pensamento fundamental” sobre educação e cultura? Com quais instituições “estranhas e diferentes” das instituições pedagógicas estamos dialogando e trabalhando em conjunto para uma valorização maior da vida e da cultura?
Vejamos em que sentido a reflexão sobre o além-do-homem aponta para um novo pensamento fundamental, em que o “tornar-se quem se é” adquire um sentido novo na afirmação da singularidade e na valorização da vida.