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Capítulo 3. Sobre a lei natural

3.4. Se a lei da natureza pode ser mudada

Tomás segue suas especulações sobre a lei natural com a questão sobre a possibilidade da mudança da lei natural. Notadamente, a questão nos parece de grande rigor metodológico. Após discutir a universalidade da lei natural, Tomás pensa sobre como tal universalidade se mostra no tempo. A própria maneira de utilizar a história de Roma na resposta à questão anterior, nos deixa claro que Tomás não faz uma especulação meramente formalista, sem preocupação com as condições enfrentadas por cada povo para o desenvolvimento dos primeiros preceitos naturais da lei natural em conclusões que

       

corruptibiles deficiunt ut in paucioribus, propter impedimenta) et etiam quantum ad notitiam; et hoc propter hoc quod aliqui habent depravatam rationem ex passione, seu ex mala consuetudine, seu ex mala habitudine naturae, sicut apud germanos olim latrocinium nom reputabatur iniquum, cum tamem sit expresse contra legem naturae, ut refert Lulius Caesar. ST Ia-IIæ, q. 94, art. 4, resp.

se possam dizer universalmente válidas. Vimos que diferentes legisladores, confrontados com diferentes condições podem chegar a conclusões opostas e excludentes para os problemas práticos a serem solucionados pelas conclusões da lei natural. A passagem dos primeiros preceitos comuns ao que seria específico é complicada e pode ser trazer resultados contraditórios. Ora, abre-se o espaço, então, para que se possa pensar a lei natural e os desenvolvimentos de seus princípios primeiros no tempo, onde se dá a mudança, o contingente. É sobre esse problema que Tomás se propõe a especular no artigo 5.

Na primeira objeção Tomás coloca o da intervenção direta divina sobre a lei natural e, indiretamente, sobre a falibilidade ou não das escrituras em questões de lei natural. Ora, as escrituras mostram Deus abrindo exceções em suas próprias regras. Matar o inocente, adulterar e furtar são contrários à lei natural. Mas na Bíblia Deus muda essas leis quando ordenou a Abraão matar seu filho, quando ordenou aos judeus que levassem vasos dos egícios ou quando ordenou a Oséias que tomasse por esposa uma prostituta. Então, a lei natural pode ser mudada306.

A objeção trabalha com o problema direto da oposição entre determinados preceitos da lei natural e sua negação na Bíblia. Tanto pior pelo fato de, como vimos, a lei natural ser participação da lei eterna, da razão divina, no homem. Ora, pensar na mutabilidade da lei natural, desta forma, significaria colocar a própria razão divina em contradição ou negar que a escritura tenha vindo dessa mesma razão divina. A solução não parece simples. Salvar a Escritura como vinda da razão divina, significa condenar a razão divina à contradição. Negar a possibilidade de contradição na razão divina pode levar de arrasto a autoridade da escritura entendida como mandada por Deus.

Para a resposta, Tomás afirma a possibilidade de haver mudança na lei natural. Se for algo que se acrescente, a lei natural é mutável. Se for algo que se subtraia, a lei natural não permite mudança. Nada proíbe os acréscimos e mesmo a lei divina já auxiliou nesse sentido, para a utilidade da vida humana307.

Aqui Tomás deixa claro que o que é de direito do homem, no caso, a lei natural e sua devida maturação e desenvolvimento pela razão, o que a coloca na história, não       

306 Cf. ST Ia-IIæ, q. 94, art. 5, arg. 2. 307 Cf. ST Ia-IIæ, q. 94, art. 5, resp.

suprime a intervenção divina. A possibilidade de intervenção divina nas coisas humanas, notadamente na política “para a utilidade da vida humana”, fica estabelecida de forma cabal a nosso entender.

O que se pode discutir, no nosso entender, é se essa intervenção acontece no mais das vezes, ou é excepcional. Pelo que vimos acima, Tomás afirma que a razão prática humana consegue chegar ao mais das vezes ao que seria a justa conclusão dos preceitos do direito natural. Desta forma, a ação divina, embora possível e irrefutável, é excepcional. Tomás também deixa claro, nesta passagem, como se dá a ação direta divina sobre a lei natural e seu desenvolvimento: trata-se da escritura. É pela escritura que os homens têm acesso a elementos da razão divina que o auxiliam diretamente nas conclusões da lei natural. Neste ponto fica estabelecida a necessidade de um elemento não humano, mas que seja acessível aos homens e que, de direito, pode interferir na ação humana no sentido de orientar para o bem comum. Tal elemento é nomeado por Tomás e sua necessidade foi discutida por ele na questão 91 artigo 4 do DL: é a lei divina.

A conclusão da resposta de Tomás também é bastante relevante para o escopo de nosso trabalho. Excetuando-se a questão da adição, a lei natural pode mudar? Não no que diz respeito aos primeiros princípios. Tais princípios, vimos, são universais. Quanto aos princípios segundos, que são como que as conclusões próximas aos primeiros princípios, da mesma forma a lei natural não muda se foi estabelecida a sua razoabilidade. Ora, ao afirmar que o que foi estabelecido racionalmente não muda, Tomás reafirma a questão da participação da razão humana na razão divina.

Tomado o que foi estabelecido pela razão, pode-se afirmar, em sentido forte, que está diretamente vinculado à razão divina, não podendo retroceder. Isto vale tanto para o que foi concluído pela razão humana pelos seus próprios esforços quanto para o que foi concluído pela razão humana a partir da intervenção da lei divina, que possui a garantia da imutabilidade da escritura e de seu direito sobre as coisas humanas. Mas, diz Tomás, em alguns aspectos particulares a lei natural pode mudar no sentido de subtração.

Não pelo fato de se ter reconhecido algum erro da razão e, portanto, ser necessária alguma correção na lei natural. O erro da razão é apenas erro e somente por esse motivo foi chamado lei aquilo que não se deveria considerar como tal. Então, quando se reconhece um erro racional, nada é subtraído à lei, pois, de direito, nada se

havia lhe acrescentado. Mas é possível pensar no impedimento da observância da lei natural. A lei natural, portanto, não perde o seu vigor de direito, mas está impedida de exercer o bem que lhe é devido de fato. A lei natural, no que diz respeito à possibilidade de subtração de preceitos, tem que ser considerada sob a ótica da história, do tempo.

Neste sentido, a história, para Tomás, é algo com sentido complexo, não perpassada por alguma noção de progresso. No tempo se pode observar avanços e recuos, ou, para utilizar os termos de nosso autor, pode-se observar adições, avanços racionais, ou impedimentos, recuos da razão por motivos de força maior ilegítima. É de nosso entender que, para Tomás, conquistas podem perfeitamente ser colocadas em suspenso por movimentos da história. Ele citou Julio César e, por esse motivo, tinha ciência da vitória romana sobre povos germânicos. Ele também tinha ciência de que os romanos foram eles mesmos derrotados pelos germânicos, o que pode implicar em um desses impedimentos, embora Tomás não o cite explicitamente.

Há, portanto, neste ponto da discussão sobre a lei natural, um vislumbre da discussão do que impediria a razão de continuar ou manter suas conquistas. E como a ação divina é colocada como necessária para o devido avanço das conclusões da lei natural, qualquer movimento humano que se coloque como impedimento a tal avanço ou ao que já foi conquistado pela razão, é, antes de tudo, uma tentativa de impedir a ação divina. Desta forma, não é de se surpreender que Tomás coloque como pecados contrários a caridade e analise como tais as ações políticas consideradas por ele como ilegítimas: a sedição e a guerra injusta308.

Para a resposta ao segundo argumento, Tomás reafirma a legitimidade da ação divina sobre a vida humana, não necessariamente somente sob o aspecto político. Ora, quem instaurou a morte para o ser humano foi Deus, mas como castigo ao pecado original. Então, Deus, quando permite a morte ou ordena a morte que veio como castigo para todos, não age de maneira contraditória ou injusta. O mantado divino para a morte já está estabelecido universalmente, independente da bondade ou nocividade deste ou daquele. Não há, portanto, injustiça ou contradição na morte do inocente no que tange a ação divina. Da mesma forma o adultério somente se justifica quando praticado contra a       

308

Cf. ST IIa-IIæ, q. 40 art 1, para o caso da guerra injusta e ST IIa-IIæ q. 42 arts 1e 2 para o caso da sedição.

mulher do próximo, que lhe foi destinada segundo lei transmitida por Deus. Desta maneira, se alguém tem acesso a uma mulher por mantado divino, não há adultério nem fornicação. Vale o mesmo raciocínio para o roubo. Ora, qualquer coisa que se tome por mandato divino, que é o dono de tudo, não se toma, como no roubo, contra a vontade do proprietário.

Tomás encerra a resposta ao argumento fazendo a analogia entre o direito humano e a Física. O que ocorre no direito humano é o mesmo que se dá no mundo Físico: a vontade de Deus é a lei. Temos, então, que podemos pensar nos direitos que seriam essenciais à sobrevivência humana: o direito à vida, o direito ao matrimônio, que regula a atividade de procriação da espécie humana e o direito à propriedade, que garante a produção para a alimentação, vestuário e transporte estão diretamente ligados à vontade de Deus a qual não é permitido ao homem se distanciar. Os exemplos utilizados na questão apenas servem de parâmetro mínimo para a conclusão do raciocínio: as leis dos homens devem fazer analogia à Física e respeitar estritamente o que seria a vontade divina. Se tal respeito sempre vai se atualizar, é outra questão. Mas o que é de direito para a lei humana está dado com clareza pelo texto que analisamos.