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Capítulo 4 – Sentidos em que a metafísica não é ciência primeira

4.1. Se a metafísica é primeira na ordem do conhecimento

Alberto não julga a filosofia primeira como antecedente às demais ciências de uma forma absoluta. Além da fundamentação da hierarquia das ciências nas essências dos sujeitos consideradas por cada uma delas, verifica-se que há a ordem do conhecimento. Para que o ser humano acesse a ciência, convém que parta das sensações a fim de produzir o conhecimento por indução, até atingir os princípios universais e propriamente científicos. Tremblay identificou em Alberto o que ele denominou como 613 a “ordem de tempo”, ao entender que o cognoscente, assim como outros conhecimentos inferiores, antecede necessariamente o conhecimento metafísico.

Parece evidente afirmar que o intelecto é um pressuposto para a existência da metafísica enquanto ciência do ser, pois ela trata de abstrações. Esta só é passível de existir no intelecto de modo que o intelecto precede a própria metafísica. Contudo, esta ciência seria necessária para a obtenção do conhecimento das coisas que é entendido, se entendermos o conhecimento como a posse da essência das coisas. Não existe em Alberto a problemática do apriorismo, que entende o sujeito, mais do que o silogismo da razão ou a experiência do objeto, como fator determinante para o conhecimento de um objeto e que pode produzir variações e até contradições entre os sujeitos diversos do conhecimento. Segundo esse critério, a metafísica não precede as demais ciências, mas parece ser o último estágio, muito embora algo da metafísica esteja contido nos princípios fundamentais da ciência como é o caso do princípio da não-contradição. É difícil provar até que ponto o intelecto ao iniciar-se no âmbito científico conhece que duas afirmações contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, porque as duas proposições são mutuamente exclusivas. Para Alberto, parece ser um princípio evidente em si mesmo que pode ser obtido pela metafísica . 614

613 Tremblay, 2013, p. 567.

614 Principia et causae quaeruntur entium, palam autem, inquantum entia. Est enim aliqua causa sanitatis et convalescentie, sunt etiam mathematicorum principia et elementa et causae, et totaliter omnis scientia sententialis participans scientiae circa causas et principia est aut certiora aut simpliciora. Sed omnes illae circa unum quid et genus aliquod circumscriptae de hoc tractant, sed non de ente simpliciter nec inquantum est ens, nec de ipso ‘quid est’, sic, nullam orationem faciunt; sed de hoc, aliae quidem sensum facientes palam, aliae condicionem accipientes ‘quid est’, sic, que secundum se quae insunt generi, circa

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Na Física , como notou Tremblay , Alberto reconhece haver possibilidade 615 de ensinar pelo que é mais fácil . Jordan também notou em Alberto o que ele chamou 616 de “ordem da abstração ou do aprendizado” . O sujeito da física e da matemática são 617 mais fáceis de serem verificados nos casos individuais e concretos ou imaginários. Por isso, conclui Tremblay, “podem ser mais acessíveis ao intelecto humano” . Ora, 618 mesmo entre os princípios, há uma hierarquia. Há princípios que definem e outros que explicam a causa. Entre estes, há os que desenvolvem causas secundárias e os que provêm da causa primeira. Nesse esquema, as ciências se dividem entre as mais evidentes e as menos certas, e as mais complexas e mais certas. Parte-se do simples ao complexo, em direção ao que é difícil de ser entendido (para nós), embora seja o mais evidente em si mesmo. Trata-se de um paradoxo: o que é mais difícil de ser entendido e mais complicado de ser explicado ( ad nos ) é justamente o que é mais evidente em si mesmo e mais simples em si mesmo ( per se ). Relacionado a esta aporia, proponho-me a comentar um trecho também analisado por Tremblay : 619

E, portanto, tais hábitos obtidos pelo intelecto especulativo receberam o nome de verdadeira ciência e, por isso, são chamados de doutrinais ou disciplinares, pois é por princípios e não por coisas mutáveis, que o discípulo recebe do mestre, a não ser que pela notícia dos termos seja ensinado pela experiência aos que não precisam, como disse Aristóteles no IV livro da Ética , mas passam para o intelecto do discípulo pela simples demonstração do doutor. É por esta razão que muitos jovens inexperientes se sobressaem entre eles próprios, o que de nenhum modo foi possível através das especulações físicas, nas quais a experiência confere muito mais do que a doutrina por meio da demonstração . 620

quod sunt, demonstrant aut magis necessarium aut infirmius (Arist., Metaph. , VI, 1. 1025 b 3; Wippel, 1984, p. 37-53). 615 Tremblay, 2013, p. 567. 616 Alb., Phys. , I, 1, 1, p. 4, 29-31. 617 Jordan, 1992, p. 495. 618 Tremblay, 2013, p. 567. 619 Tremblay, 2013, p. 367.

620 Et ideo tales habitus per speculativum intellectum adepti scientiae verae nomen acceperunt et doctrinales et disciplinales vocantur ideo, quia ex principiis non mutantibus, quae discipulus non a magistro accipit nisi per terminorum notitiam, docentur, experientia non indigentes, ut dicit Aristoteles in Ethicorum libro IV, sed simplici demonstratione doctoris constant in intellectu discipuli. Propter quod etiam iuvenes inexperti plerumque magis escellunt in ipsis, quod nullo modo possibile fuit in physicis speculationibus, in quibus experientia multo plus confert quam doctrina per demonstrationem (Alb.,

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Percebe-se no trecho um contraponto ao que havia sido afirmado acerca da dificuldade da metafísica, enquanto ciência primeira e mais certa. Se acima, vimos que a metafísica exige a experiência, por causa da dificuldade inerente ao seu sujeito, vemos que a física pode dificultar o progresso do neófito, muito em razão do movimento inerente aos seres materiais. Para Alberto, a ciência também é construída através de hábitos acessados pelo intelecto especulativo. Um hábito implica necessariamente em repetição de ato. Aqui não se fala sob o prisma da Ética a respeito do ato que se torna hábito, mas da experiência repetidamente analisada pelo intelecto e que pode tornar-se conhecimento verdadeiro ou científico. Por isso, ele afirma que esta repetição justifica a denominação destas ciências como doutrinais ou disciplinares. Somente quando a observação do fenômeno devidamente depurada do movimento se torna “princípio” é que poderá ser ensinada. O mestre é aquele que ensina tais princípios. Este se opõe enquanto emissor ao discípulo, mero receptor.

Alberto, contudo, não pensa que esta seja a única forma de acesso aos princípios. Baseado no livro IV da Ética de Aristóteles, assume a hipótese de que estes possam ser apreendidos pelo discente através da experiência, e não pela mera demonstração do doutor. Para Alberto, a partir disso, explica-se o fato de que jovens inexperientes podem se destacar nas matemáticas que não estão passíveis dos enganos próprios das observações do mundo material e que necessitam da experiência. Desse modo, na ordem do aprendizado, a matemática e a metafísica seriam mais fáceis de serem apreendidas do que a física. A matemática seria mais fácil que a física, no sentido de que não está tão exposta aos possíveis enganos da observação dos corpos submetidos ao movimento. Segundo essa perspectiva, a matemática e a metafísica são mais acessíveis ao intelecto dos inexperientes que a física, isto é, elas são mais fáceis em si mesmas.

Pode-se dizer, porém, que a metafísica não precede as demais ciências do ponto de vista didático, uma vez que a matemática seria mais simples de ser apreendida do que a física, mas a física mais fácil de ser apreendida do que a metafísica. Não que a filosofia primeira seja mais complexa em si mesma, mas devido a inexperiência do aprendiz. Segundo a ordem de aprendizado, a metafísica teria sua prioridade

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fundamentada no argumento de que embora não seja a ciência mais acessível é a ciência que necessita maior experiência. Embora seja a mais simples de ser ensinada ou aprendida “em si mesma”, é “para nós” a mais incompreensível e a mais passível de erro por causa da debilidade do intelecto. Esta seria uma exceção acerca da primazia da metafísica em relação às demais ciências. Alberto afirma a matemática como a ciência mais acessível aos estudantes do que a física pelo fato de que a primeira obtém conclusões baseadas na dedução. O estudante enquanto inexperiente corre menores riscos de erro do que o físico, uma vez que o movimento e a próprio engano típico dos sentidos externos dificulta a indução.