• Nenhum resultado encontrado

Sectores económicos e de atividade do empreendedorismo estrangeiro

Parte III. E MPRESÁRIOS I MIGRANTES EM S OCIEDADES DE A COLHIMENTO

Mapa 8.5. Índice de empreendedorismo estrangeiro por municípios de Portugal com mais de 500 residentes estrangeiros, em

8.2.2. Sectores económicos e de atividade do empreendedorismo estrangeiro

A literatura tem associado o empreendedorismo imigrante essencialmente a atividades consideradas étnicas ou de resposta às necessidades das comunidades imigrantes ou, ainda, de consumos de produtos étnicos (conforme apresentado nos capítulos 3 e 4). Contudo, os imigrantes têm demostrado cada vez mais o seu investimento não apenas em sectores tradicionais, mas também em atividades consideradas de valor acrescentado (OCDE, 2011: 151).102

102 Apesar de se detetarem variações nos contextos de receção de imigrantes nas diferentes sociedades europeias

Na Europa, entre 1998 e 2008, cerca de 19% dos empresários imigrantes estavam em atividades do comércio (por comparação a 21% dos nativos), 18% no sector da construção (17% para nativos), 12% em atividades de alojamento e restauração (6% para nativos), 8% em atividades de consultoria científica e técnica (13% entre nativos) e 6% em atividades de saúde humana e apoio social (7% para nativos) (OCDE, 2011: 152).

Quadro 8.10. Patrões e empregadores segundo atividade económica (secção CAE103) e a nacionalidade, 2011, percentagem em linha Nacionalidade In d ú str ias tr an sf o rm ad o ras ( %) C o n str u çã o ( %) C o m ér cio p o r g ro ss o e a retalh o ; r ep ar aç ão d e v eícu lo s (%) Alo jam en to , restau raç ão e sim ilar es ( %) Ativ id ad es d e co n su lto ria, cien tífic as, técn icas e s im ilar es ( %) Ativ id ad es ad m in is tr ativ as e d o s ser v iço s d e ap o io ( %) Ativ id ad es d e saú d e h u m an a e ap o io so cial (%) Ati v id ad es ar tís ticas, d e esp etác u lo s, d esp o rtiv as e rec rea tiv as ( %) T o tal d e p atr õ es e em p reg ad o res ( N) Portugueses (A) 13,5 11,7 24,9 11,8 8,7 2,3 5,1 1,4 435.426 Total Estrangeiros (B) 6,8 12,6 25,4 18,1 4,0 5,0 5,8 2,6 23.697 B - A (pontos percentuais) -6,7 +0,9 +0,5 +6,3 -4,7 +2,7 +0,7 +1,2 - Brasil 5,4 13,3 14,3 21,3 3,0 5,2 8,8 3,8 7.258 China 1,8 0,1 82,4 13,8 0,4 0,4 0,3 0,0 3.075 Ucrânia 13,7 25,2 12,7 13,4 1,7 4,5 4,5 1,3 1.413 Reino Unido 5,8 4,9 12,1 20,5 9,2 8,7 3,0 4,7 1.173 Roménia 9,9 29,2 12,7 16,4 1,4 10,0 2,5 2,3 1.107 França 11,7 9,8 25,6 14,3 6,8 3,6 5,4 1,5 1.007 Cabo Verde 4,6 27,9 15,0 20,0 1,6 9,4 3,5 1,9 947 Angola 9,0 18,7 19,1 15,5 4,5 5,6 5,0 1,9 918 Alemanha 14,4 5,1 17,4 13,9 10,9 5,8 6,7 4,2 777 Espanha 6,1 4,8 22,5 15,4 9,8 2,9 13,1 2,8 748

Fonte: Censos de 2011, INE (cálculos da autora).

Em Portugal, apesar de a iniciativa empresarial imigrante ter aumentado nas últimas décadas continua a estar orientada para os mesmos segmentos da estrutura de oportunidades da economia portuguesa (vd. quadro 8.10). Segundo dados dos Censos de 2011 (no quadro 8.10), verifica-se que tanto os empregadores estrangeiros como os portugueses têm mais empresas

Concretamente, no seguimento do aumento do desemprego e da discriminação no acesso ao mercado de trabalho no início da década de 1970, a integração económica dos imigrantes passou a ficar dependente da criação e desenvolvimento de pequenas empresas. Inicialmente as empresas de imigrantes concentraram-se em mercados que respondiam essencialmente à procura da sua comunidade de origem. Contudo, nas últimas décadas, as iniciativas empresariais começaram a abrir-se para outros mercados onde as barreiras à entrada eram menores (Waldinger et al., 1990: 81).

103 Apesar de se identificarem alguns problemas em utilizar a desagregação CAE – Classificação das Atividades

Económicas - para analisar os sistemas produtivos, uma vez que não permite observar e qualificar as relações que se estabelecem entre empresas, esta é a única forma com informação estatística de caracterizar este universo.

nas atividades do comércio (25,4% e 24,9%, respetivamente).104 O segundo grupo de atividades económicas mais importante abarca os investimentos em alojamento, restauração e similares (18,1% para empregadores estrangeiros e 11,8% para os nacionais) e a terceira é a construção (12,6% por comparação aos 11,7% verificado para os nacionais). Com exceção das atividades da indústria transformadora (com 6,8% dos empregadores estrangeiros, ou seja, -6,7 pontos percentuais que os nacionais) e atividades de consultoria, cientificas, técnicas e similares (os estrangeiros com -4,7 pontos percentuais que o verificado para os empregadores nacionais), nas restantes atividades a importância relativa para os empregadores estrangeiros é sempre ligeiramente superior à verificada nos portugueses.

Segundo Brown e Butler (1993: 115) a especialização dos empresários em determinados sectores económicos define um grande potencial para o desenvolvimento de redes sociais de interajuda empresarial que, por sua vez, potenciam a criação de novos negócios. Para Waldinger et al. (1990: 133), apesar de não existir um plano orquestrado e intencional para os empresários imigrantes se concentrarem em nichos específicos, o recurso às redes étnicas e aos seus respetivos recursos comunitários empurram os imigrantes para determinados sectores económicos. Neste contexto, segundo os autores, acabam por se definir estratégias empresariais coletivas. São estes recursos e estratégias específicas que distinguem os empresários.

A comparação dos quocientes de localização de atividade económicas por regiões105 de Portugal para o total de empregadores e para os empregadores estrangeiros ajuda a clarificar ainda se os empregadores estrangeiros estão a complementar a estrutura empresarial local face aos investimentos que promovem ou tendem a reproduzi-la (vd. quadro 8.11). Verifica-se que é no Algarve que os empregadores estrangeiros apresentam mais semelhanças com o total de empregadores na região, concentrando-se nas mesmas atividades (e.g. alojamento, restauração e similares; atividades imobiliárias; construção).

Por sua vez, na Região de Lisboa observa-se uma maior dispersão por atividades, denotando a localização dos municípios mais densamente povoados do país com mais serviços e atividades diversificadas nas quais os estrangeiros tendem a estar também representados. É nas regiões Norte e Centro que os empregadores estrangeiros mais especializam o seu investimento na indústria transformadora e no Alentejo que mais

104 É importante realçar que estas evidências encontradas em Portugal não são uma particularidade. Também

Rath e Kloosterman (2000: 660) detetaram que cerca de 60% dos empresários estrangeiros na Holanda investem nos sectores do comércio e restauração.

105 Como se apresentou no capítulo metodológico, os valores superiores a 1 no quociente mostram a expressão

superior de determinadas atividades económicas face à tendência geral verificada para o país e/ou ilustram que a região é mais especializada numa determinada atividade.

concentram as suas atividades empresariais da agricultura e indústrias extrativas, reproduzindo (ainda assim) a própria atividade em que essas regiões estão mais especializadas.

Quadro 8.11. Quociente de Localização de Atividades Económicas (CAE) por Regiões de Portugal Continental para Total de Empregadores e Empregadores estrangeiros (EE) em 2011

CAE

Norte Centro Lisboa Alentejo Algarve Total EE Total EE Total EE Total EE Total EE Total 156.436 3.489 102.495 3.092 128.007 11.631 29.332 1.238 23.905 3.565 Agricultura, produção animal,

caça, floresta e pesca 1,0 0,6 1,2 1,5 0,3 0,4 2,5 6,5 0,8 1,0

Indústrias extrativas 1,1 0,9 1,5 1,8 0,3 0,4 2,3 5,9 0,5 0,5

Indústrias transformadoras 1,4 1,5 1,1 1,6 0,6 0,8 0,8 0,8 0,5 0,6

Eletricidade, gás, vapor, água

quente e fria e ar frio 0,9 1,5 1,1 0,6 1,0 1,1 1,2 0,5 1,1 0,6

Captação, tratamento e distribuição de água;

saneamento, gestão de resíduos

e despoluição 0,9 1,9 1,2 1,8 1,0 0,7 1,0 0,5 0,7 0,7

Construção 1,0 0,5 1,2 0,8 0,8 1,2 0,9 0,7 1,1 1,3

Comércio por grosso e a retalho; reparação de veículos

automóveis e motociclos 1,0 1,5 1,1 1,2 0,9 0,9 1,0 1,3 0,9 0,7 Transportes e armazenagem 0,8 0,7 1,2 1,6 1,1 0,9 1,0 1,5 1,0 0,8 Alojamento, restauração e similares 0,8 0,8 0,9 0,9 1,0 1,0 1,2 0,9 1,7 1,4 Atividades de informação e de comunicação 0,6 0,5 0,5 0,7 2,1 1,5 0,5 0,4 0,5 0,6 Atividades financeiras e de seguros 0,8 1,0 0,8 0,4 1,5 1,2 0,8 0,8 0,6 0,9 Atividades imobiliárias 0,7 0,5 0,7 0,8 1,5 0,7 0,7 0,4 2,0 2,9 Atividades de consultoria,

científicas, técnicas e similares 0,9 1,2 0,8 0,7 1,5 1,1 0,7 0,5 0,8 0,9

Atividades administrativas e

dos serviços de apoio 0,7 0,4 0,7 0,6 1,5 1,2 0,7 0,6 1,7 1,4

Educação 0,9 1,3 0,9 1,0 1,2 1,0 0,9 0,8 0,8 0,7

Atividades de saúde humana e

apoio social 0,9 1,1 0,9 1,0 1,3 1,1 0,8 0,7 0,8 0,9

Atividades artísticas, de espetáculos, desportivas e

recreativas 0,7 1,2 0,7 0,8 1,6 0,9 0,6 0,5 1,2 1,1

Outras atividades de serviços 0,9 1,0 0,8 0,7 1,3 1,2 0,7 0,4 0,9 0,7

Atividades das famílias empregadoras de pessoal doméstico e atividades de produção das famílias para uso

próprio 0,6 0,3 0,6 0,1 1,8 1,7 0,9 0,6 0,6 0,3

Fonte: Censos de 2011 (cálculos da autora).

Observa-se, contudo, uma distribuição diferenciada das atividades económicas em função da nacionalidade do empregador estrangeiro (vd. quadro 8.10). Por outras palavras, a nacionalidade do empregador parece explicar a distribuição pelos sectores económicos. Os empresários chineses estão sobre representados nas atividades do comércio por grosso e a retalho (82,4%) e da restauração (13,8%). Os empregadores cabo-verdianos, ucranianos e romenos, por sua vez, encontram-se mais concentrados nas atividades da construção (27,9%,

25,2% e 29,2%, respetivamente), refletindo a importância da sua experiência profissional em atividades subordinadas em Portugal para a decisão de desenvolvimento de uma atividade empresarial. O inquérito por questionário aplicado em 2002 a empresários de origem imigrante (Oliveira, 2005: 140) confirmava já esta tendência, mostrando a grande associação entre o sector onde os empregadores haviam trabalhado antes de forma assalariada e o sector de investimento presente.

Nas atividades de consultoria científicas, técnicas e similares, verifica-se uma maior expressão entre os empregadores da União Europeia – Reino Unido (9,2%), Alemanha (10,9%) e Espanha (9,8%) - por comparação a 8,7% para os portugueses ou apenas 4% para a média geral dos empregadores estrangeiros.

Os empregadores brasileiros são os que mais diversificam as suas atividades económicas. Sendo a sua maior concentração nas atividades do alojamento e restauração (21,3%), reproduzindo também alguns dos padrões de inserção assalariada no mercado de trabalho português, dispersam o seu investimento por atividades do comércio (14,3%), construção (13,3%), saúde humana e apoio social (8,8%), indústria transformadora (5,4%) e serviços administrativos e de apoio (5,2%), tendo ainda cerca de 12,5% de empregadores em outras atividades dos serviços. A crescente diversificação dos sectores de investimento, segundo a análise feita pela OCDE (2010), deve-se ao aumento dos níveis de educação de muitos imigrantes e às mudanças observadas nas próprias estruturas económicas das sociedades pós-industriais. Importa atender a que os empregadores brasileiros têm inerentes duas vagas migratórias com perfis distintos. Até meados da década de 1990, ao contrário dos outros estrangeiros oriundos de países CPLP, a maioria dos brasileiros não estava em profissões ligadas à indústria, construção e transportes, mas antes em profissões científicas e técnicas, onde aumenta a incidência de trabalhadores independentes (Ferreira e Rato, 2000:15). É a vaga brasileira iniciada na transição para o século XXI que contribui para a definição de novos contornos de inserção no mercado de trabalho português, em particular nos segmentos profissionais de baixa qualificação (e.g. construção, restauração). Assim a diversidade de atividades económicas entre empregadores brasileiros refletem estes diferentes perfis migratórios que se implantaram no país.

Para Waldinger (1996) a concentração de certos grupos étnicos em alguns sectores económicos (e.g. construção, comércio a retalho) é o resultado de uma causalidade cumulativa. Ou seja, o sucesso dos pioneiros em determinados segmentos ocupacionais, e subsequente mobilização de capital social por outros indivíduos nas redes sociais onde esses pioneiros participam, tende a cristalizar as opções económicas subsequentes.

Conforme descrito antes, redes sociais com densidades elevadas tendem a exercer um controle social apertado sobre o comportamento económico dos seus membros. Neste âmbito podem ser definidos padrões de conduta económica em determinados nichos empresariais que, através do controlo social, permanecem ao longo de gerações (Portes, 1999: 20).

Outros investigadores realçam que as opções empresariais dos imigrantes por determinados nichos são consequência das próprias características desses ramos de atividade (Rath e Kloosterman, 2000). Os empresários imigrantes tendem a concentrarem-se em sectores onde os custos de começar a atividade empresarial são relativamente baixos e não são requeridas qualificações ou conhecimentos específicos. Neste âmbito Rath e Kloosterman concluem que os restaurantes e pequenas lojas exigem tecnologia simples e podem funcionar essencialmente com mão-de-obra e com pouco capital inicial. Assim, empregando trabalhadores familiares e/ou trabalhadores da comunidade de origem estes empresários podem reduzir os custos da atividade empresarial. Porque os empresários imigrantes tendem a investir nos sectores empresariais onde há menos barreiras ou dificuldades no processo inicial (start-up), acabam por operar em mercados onde a competição é bastante elevada. Os principais concorrentes são normalmente coétnicos. Em resultado, os empresários imigrantes frequentemente aceitam margens pequenas de lucro para se manterem no mercado. Segundo Rath e Kloosterman (2000: 660) esta opção conduz vários empresários imigrantes a contornarem algumas das leis e das regulações do país de acolhimento e a operar no mercado informal.

Os dados divulgados pelos Quadros de Pessoal confirmam a tendência de diferenciação “étnica” do investimento empresarial imigrante na economia portuguesa. Os empregadores estrangeiros encontram-se concentrados nos sectores económicos com menos barreiras à entrada (e.g. menor investimento financeiro e sem necessidade de qualificações especificas), onde a produção é maioritariamente de pequena escala, com pouco valor acrescentado e baseado em trabalho intenso (Oliveira, 2010a: 131-132).

Assim, muito embora se verifiquem alguns casos de maior sucesso e inovação empresarial entre imigrantes (Oliveira, 2005), à semelhança do que é observado em outros países (Kloosterman e Rath, 2001), ao longo da última década a maioria dos empresários estrangeiros em Portugal parece ter estado a ser canalizada para as atividades de menor inovação, onde não são necessárias competências ou qualificações específicas, de menor investimento de capital financeiro, com margens mais limitadas de lucro, e/ou mais exigentes em termos laborais (e.g. construção, comércio, restauração – ver gráfico 8.2).

Gráfico 8.2. Empregadores estrangeiros, segundo a atividade económica, entre 2000 e 2013 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 8000 2000 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Outras atividades

Alojamento e restauração e Similares

Comércio por grosso e a retalho & reparação de veículos automóveis, Construção

Indústrias transformadoras

Fonte: Quadros de Pessoal (dados não publicados - cálculos da autora).

A quebra no número de empregadores estrangeiros a partir de 2008 (e de forma mais acentuada em 2010) reflete como as atividades onde se inserem estão mais sensíveis ao impacto da crise ou mais vulneráveis face a flutuações económicas. Segundo os dados dos quadros de pessoal, todos os sectores tiveram taxas de mudança negativas entre 2009 e 2010 (média geral de -19,2% na quebra dos empregadores estrangeiros), verificando-se a maior quebra nas atividades dos sectores da construção (de -40%) e das indústrias transformadoras (-33,5%), e a menor descida nas atividades do comércio por grosso e a retalho (-10,9%). O impacto da crise em alguns sectores pode, deste modo, induzir alguns empreendedores estrangeiros a mudar de atividade, nomeadamente passar para o comércio.

Apesar de não ser de negligenciar a importância das redes sociais e de solidariedade que podem estar na origem destas opções de investimento empresarial, estes dados mostram que as diferentes populações estrangeiras não estão sensíveis às mesmas oportunidades no mercado de trabalho português (optando por isso por investir em diferentes atividades), nem mobilizam os mesmos recursos empresariais para o seu negócio. Rath (2002: 13) discute que o sector económico onde os imigrantes investem é consequência dos recursos que dispõe ou

consegue mobilizar: mais ou menos capital (financeiro e social) e mais ou menos força de trabalho disponível determinam diferentes tipos de possibilidades aos empreendedores.

Segundo Waldinger (1996: 5), por sua vez, o afastamento ou procura de outros sectores económicos no mercado de trabalho por determinados grupos populacionais cria espaços vazios nos segmentos secundários do mercado de trabalho para os imigrantes recém- chegados. Segundo o autor, definem-se nas sociedades de acolhimento sucessões étnicas de determinados nichos do mercado de trabalho. Em finais da década de 1970, o sector empresarial de pequena dimensão de Nova Iorque, por exemplo, viveu o mesmo tipo de mudança como se de um jogo de troca de cadeiras se trata-se:

“newcomers moved in as white ethnics abandoned petty retailing, garment contracting, and other less remunerative business lines”. (Waldinger, 1996: 5).

Apesar de ser viável admitir que há sectores mais permeáveis e por isso mais procurados pelas sucessivas vagas migratórias de uma dada sociedade de acolhimento, como Waldinger bem alerta, deve ter-se em consideração que as oportunidades em determinados sectores não são constantes ao longo do tempo (e.g. caso do sector da construção civil), nem diferentes grupos imigrantes se comportam da mesma forma:

“Here, the queuing metaphor leads us awry, with its suggestion that both jobs and groups are ranked in a stable, orderly way, with top-ranked groups moving into higher-ranked jobs, and so on down the line. This image of orderly succession stands at variance from reality because ethnic ties serve as a basic mechanism for sorting workers among jobs. Groups are funnelled into special places in the labor market – which I shall call niches – and then maintain those specializations, albeit at varying rates of persistence, over time. Thus, when ethnic succession occurs, it upsets an already established ethnic division of labor.” (Waldinger, 1996: 20).

O investimento dos empresários chineses é bem ilustrativo da evolução e mudanças que podem ocorrer. Se entre meados da década de 1990 e a transição para o século XXI os chineses investiam predominantemente no sector da restauração étnica para entrar no mercado de trabalho português, verifica-se que a partir de meados de 2004, conforme mostram os dados dos quadros de pessoal, há uma estabilização dos investimentos na restauração (atingindo nessa altura o limite da saturação desse mercado) e a suplantação dos negócios e atividades do comércio (vd. gráfico 8.3). Os resultados do inquérito por questionário aplicado em 2002 a empresários chineses ainda mostravam a restauração étnica como a principal atividade empresarial (68,3% dos inquiridos), seguida por atividades do comércio (30,1%). A mudança nas atividades económicas ao longo das últimas décadas da população chinesa é também refletida pelos próprios empreendedores chineses entrevistados:

“Não os restaurantes muitas vezes são uma forma de vá lá, vá lá, de criar uma subsistência não é?! Ou uma sobrevivência pode assim dizer-se, sem uma grande dependência (…). É por isso que criam, que aparece muitos restaurantes (…). Além de não conhecerem, pronto a própria cultura portuguesa, pronto isolam-se em restaurantes” (Entrevista realizada em 2000 com sócio de uma seguradora, de uma imobiliária e dono de um restaurante chinês. Ascendência chinesa de Cantão, nascido em Moçambique).

“Depois com o conhecimento de Portugal começam a nascer outros negócios (…) já tem uma grande parte que se dedica às confecções (…) e também já têm uma boa parte de chineses que se dedica também ao comércio de malas, bolsas de senhora. Já começam a diversificar. Não só, restaurantes, restaurantes, restaurantes, porque está a ficar um pouco saturado.” (Entrevista em 2000 com sócia de uma Agência de viagens. Ascendência de Cantão, nascida em Moçambique, chegou a Portugal em 1976).

Em suma, os empresários chineses começaram por investir essencialmente no sector da restauração, um sector de “legitimidade étnica” e com sucesso comprovado em outros mercados de acolhimento mas, com o tempo, diversificaram a sua iniciativa empresarial para as atividades do comércio a retalho e grossista. Para os pioneiros, as barreiras físicas e a distância podem dificultar o conhecimento e a perceção das oportunidades empresariais disponíveis no mercado onde pretendem investir ou para onde tencionam imigrar. Em consequência a primeira opção empresarial passa por estratégias empresariais “seguras”, comprovadamente bem-sucedidas nos destinos onde outros coétnicos as estabeleceram. Segundo Light e Roseinstein (1995: 192-193) os empresários imigrantes tendem a investir em mercados pouco procurados pelos empresários nativos ou mercados de conotação étnica. Dependendo do mercado em que investem também se definem os concorrentes. Também Basu e Werbner (2001) demonstraram como a exploração de consumos e mercados culturais pode ser uma forma de determinados grupos imigrantes entrarem e se manterem na atividade empresarial na sociedade de acolhimento, o que de outra forma não conseguiriam ou seria bastante mais difícil. Nas palavras dos autores:

“Looking at the industries in which many ethnic groups cluster, it would appear that in the absence of economic and formal knowledge-based capital, much ethnic entrepreneurship relies on the exploitation of cultural consumption markets and their demand for cheap imitation, exotic or distinctive cultural goods. (…) In the face of racism and discrimination, resourceful ethnic groups with no capital have been able to gain access or even invent cultural capital, that is, the knowledge of how package and sell a particular form of culture.” (Basu e Werbner, 2001: 240-241).

A maturação (ou mesmo saturação) da atividade no mercado, porém, e a sedimentação de redes sociais permite, depois, evoluir a estratégia empresarial com as devidas adaptações ao contexto. Sabendo que estes empresários imigrantes chegaram essencialmente durante a década de 1990 (Oliveira, 2005: 77), encontraram na restauração o primeiro nicho de legitimidade étnica para investir. Porém, consolidado o investimento em Portugal, maturado o conhecimento da dinâmica da economia e mercado, e tendo o sector da restauração um limite de procura, estes empresários começaram a diversificar as suas atividades para o sector do comércio, entrando em clara concorrência com empregadores estrangeiros de outras origens (e.g. indiana) que ocupavam o nicho de mercado do comércio a retalho (e.g. das designadas “lojas dos 300$” no fim do século passado).106

106 Para aprofundar esta questão da sucessão de nichos comerciais, com ilustração a partir do caso da Mouraria

Gráfico 8.3. Empregadores chineses, segundo a atividade económica, entre 2000 e 2012

Fonte: Quadros de Pessoal (dados não publicados - cálculos da autora).

Em 2010, segundo dados dos quadros de pessoal, os empregadores chineses representavam 18,8% dos empregadores estrangeiros (comparando com o peso relativo que não ia além dos 10% até final de 2007), mas traduziam 47,3% dos empregadores estrangeiros no sector do comércio por grosso e a retalho. No mesmo ano, grande parte do seu investimento empresarial estava concentrado nas grandes cidades, pese embora sobre representado no distrito de Lisboa (39% das suas atividades do comércio e 50% dos seus restaurantes). Nos anos seguintes a importância relativa dos empregadores chineses no total de empregadores estrangeiros registados nos Quadros de Pessoal viria ainda a reforçar-se mais – em 2011 passam para 19,3% e em 2012 para 20% -, aumentando também a sua importância relativa em atividades do comércio – em 2011 passam a representar 47,3% do total de empregadores estrangeiros das atividades do comércio registadas pelos Quadros de Pessoal, subindo esse valor para 47,8% no ano seguinte (vd. gráfico 8.3.).

O aumento da importância relativa dos empresários chineses em atividades do comércio é o reflexo também da interferência de outros fatores inerentes às dimensões explicativas do empreendedorismo imigrante. Como se detalhará no capítulo 10, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio e a subsequente abolição de quotas de importação dos seus produtos, a partir de janeiro de 2005, fez disparar a importação de produtos chineses com distribuição a partir de armazéns e lojas chinesas que se multiplicaram um pouco por toda a Europa, tendo essa dinâmica assumido também consequências no mercado português. Por

outro lado, como se mostra no capítulo 11, algumas reações sociais aos empresários chineses (nomeadamente da restauração) e a evolução da opinião pública acerca destes empreendedores tem determinado e explicado também a evolução da sua dinâmica empresarial em Portugal.

Importa reconhecer, ainda, que nas atividades do comércio, os chineses têm vindo a diversificar as suas áreas de negócio nos últimos anos. Se na década passada os empregadores