• Nenhum resultado encontrado

3.1 REDES SOCIAIS – DOS CONCEITOS À CARTOGRAFIA

3.1.2 Seguindo atores em conformidade com a Teoria Ator-Rede

A Teoria Ator-Rede (Actor-Network Theory - ANT), também conhecida por sociologia da tradução, promove uma desconstrução do sentido tradicional da palavra “social” e retoma a tarefa de descobrir associações na sua origem, ou de seguir os “atores” a partir de suas ações (agência), admitindo que os objetos, entendidos como qualquer figuração não-humana, também podem agir (LATOUR, 2005). Um elemento social que apresente uma capacidade de agência, mas que ainda não possua uma figuração definida pode ser chamado de “actante” (LATOUR, 2005, p.71). Entende-se por figuração a caracterização de um “morfismo do elemento social”, tal como (mas não limitado a ideológico, tecnológico ou biológico (LATOUR, 2005, p.54). Todos os elementos sociais que implementam alguma mudança no transcorrer de uma ação são “participantes a espera de receber alguma figuração” (LATOUR, 2005, p. 82).

Os conceitos de ANT provocaram polêmica quando foram lançados por Callon (1986a, 1986b), a começar pela concepção de rede que deriva do conceito de ator- mundo12, a qual difere significativamente de outras abordagens de rede (VENTURINI; MUNK; JACOMY, 2018). Entretanto, ANT é uma teoria que vem sendo aplicada em

12 Ator-mundo é o mundo (realidade) gerado por uma rede de atores-rede, ou seja, a rede é

diversas áreas de pesquisa. Por exemplo, ANT é utilizada nas pesquisas que relacionam sistemas de informação com gestão do conhecimento (XAVIER; OLIVEIRA; TEIXEIRA, 2012). Estudos recentes no Brasil incluem aplicabilidade de conceitos de ANT no campo da análise organizacional (TONELLI, 2016) e avaliação de redes socio-técnicas envolvidas no desenvolvimento de software dentro de uma grande organização (VACARI et al., 2017).

Na ANT o termo tradução significa atribuir a um elemento social (individual ou coletivo) uma identidade, um dado conjunto de interesses, um certo papel a ser representado, um curso de ação a ser seguido, um projeto a ser executado e envolve três componentes essenciais: o papel de tradutor, o conceito de ponto de passagem obrigatório e o conceito de deslocamento (CALLON, 1986b). O tradutor é o porta-voz de outras entidades e fala em nome destas, com a pretensão de representá-las, sendo capaz de expressar os desejos, os interesses, os “mecanismos de operação” e até mesmo os “pensamentos secretos” daqueles que representa (CALLON, 1986b, p. 25). Aquele ou aqueles atores que se tornam indispensáveis para que tradução possa ocorrer determinam um ponto de passagem obrigatório, ou seja, formam uma geografia de pontos de passagem obrigatórios. Para Callon (1986a), embora a tradução determine as entidades nas quais os pontos da passagem de passagem estarão localizados, a ação tende a ocorrer com deslocamento, pela circulação de inscrições (relatórios, memorandos, documentos, resultados de pesquisas, artigos científicos), pessoas, materiais e dinheiro. A tradução só pode ser efetiva e levar a construções estáveis, se estiver ancorada em tais movimentos deslocados (ibidem).

A tradução (ou translação) é o termo usado por Callon (1986b) para se referir ao processo de formação de uma rede de atores. O resultado de negociações bem- sucedidas, denominada tradução completa, é uma rede de atores com interesses alinhados. O processo de tradução bem-sucedido ocorre em quatro momentos: (i) problematização; (ii) persuasão; (iii) alistamento e (iv) mobilização (CALLON, 1986a). A problematização é o primeiro momento da tradução, quando atores focais definem um problema, esboçam uma proposta para resolvê-lo e identificam um conjunto de atores relevantes para lidar com ele, os quais tornam-se indispensáveis. Dessa forma, define-se um ponto obrigatório de passagem pelo qual todos tem de passar para satisfazer seus interesses (CALLON, 1986a).

Cabe ressaltar que uma das motivações para as pessoas procurarem as Comunidade de Prática, apresentado no Capítulo 2, Seção 2.4, é a solução de

problemas práticos dos indivíduos (SNYDER; BRIGGS, 2003 apud COMARELLA, 2009), o que pode ser entendido como um ponto de aproximação entre o conceito de ponto de passagem obrigatório com as Comunidades de Prática.

A persuasão ou atração é o segundo momento da tradução, quando os atores focais recrutam outros atores para assumir papéis na rede (papéis que reforçam a centralidade dos atores focais). Para convencer os atores a aceitar a sua visão do problema, os atores focais utilizam vários artifícios (negociações) de forma manter a participação deles e construir uma aliança. Os atores focais agem de tal forma que os demais atores reconheçam o problema como sendo também deles, e procuram definir os objetivos e as necessidades dos outros atores de forma a alinhá-los com os seus próprios objetivos e necessidades (CALLON, 1986a).

O alistamento ou matrícula é o terceiro momento da tradução, quando os papéis são definidos e aceitos pelos atores primários, que tornam-se porta-vozes dos atores passivos (CALLON, 1986a). Latour (2005) distingue esses atores introduzindo o papel de mediador (ou tradutor) e do intermediário. Enquanto o mediador é o elemento social que é capaz de alterar o curso das ações, criando bifurcações e eventos a partir do uso da informação ou até mesmo por meio de ações inesperadas, o intermediário apenas transporta ou repassa a informação, sem modificá-la (LATOUR, 2005).

A mobilização é o quarto e último momento da tradução, quando os porta- vozes mobilizam os atores passivos tornando as suas proposições aceitas e indiscutíveis. Como parte do processo de mobilização, pode ocorrer a inscrição, isto é, uma vez alcançado o acordo entre os atores, este compromisso precisa ser registrado socialmente, ensejando uma formalização (CALLON, 1986a).

Quanto ao produto da tradução, Callon (1986b) ressalta a necessidade de simplificação, considerando a variedade e complexidade da realidade. Portanto, o resultado das traduções seria um conjunto de atores-mundo limitado a uma série de entidades discretas, cujas características ou atributos serão bem definidos. Uma entidade em um ator-mundo (ou seja, uma entidade simplificada) só existe no contexto dado, e está em justaposição com outras entidades às quais está vinculada, e a estrutura pode ser comparada a uma rede de caixas pretas13, que simplificam a realidade e dependem umas das outras (CALLON, 1986b).

13 Caixa preta (blackbox) é uma simplificação de actante complexo sem necessidade de

De acordo com Latour (2005, p.16) seria possível tornar as conexões sociais rastreáveis seguindo o “trabalho realizado pelos atores para estabilizar as controvérsias”. Um rastro seria deixado quando algum grupo está sendo feito ou desfeito, ou seja, traços seriam deixados pelos atores ao formar e desmantelar grupos e a lista de traços deixados pelas controvérsias forneceria um recurso essencial para tornar as conexões sociais rastreáveis (LATOUR, 2005).

Latour (2005) estabelece ainda uma influência da tecnologia na rastreabilidade das conexões sociais dos atores, de tal forma que, quanto mais o uso da tecnologia se intensificar, mais rastreáveis se tornam os laços sociais, ensejando que os traços digitais, ou seja, os rastros deixados nas interações intermediadas por tecnologia, são mais facilmente rastreáveis.Para Latour et al. (2012) os traços digitais dos atores, capturados, armazenados e cada vez mais disponíveis nos bancos de dados modernos, podem modificar a posição de questões de ordem social e podem inclusive resgatar a discussão de questões clássicas do passado (LATOUR et al., 2012).

Para Bruno (2012), toda ação humana pode deixar atrás de si rastros de diferentes qualidades, difíceis de definir, uma vez que “o rastro é uma espécie de quase-objeto” (SERRES, 1991, apud BRUNO, 2012, p. 685)e situa-se em um limiar entre dualidades, tais como: presença e ausência; visível e invisível; duração e transitoriedade; memória e esquecimento; voluntário e involuntário; identidade e anonimato, entre outras. Os rastros digitais têm, por sua vez, algumas especificidades: (i) é impossível não deixar rastro ao comunicar (digitalmente); (ii) arquivamento por padrão; (iii) persistência e fácil recuperação e ( iv) topologia complexa e visibilidade multiforme (BRUNO, 2012).

De acordo com Farnsworth e Austrin (2010) a Teoria Ator-Rede é capaz de rastrear a configuração dos novos mundos de mídia digital, com vantagens em relação a outras abordagens etnográficas. Enquanto a etnografia faz a leitura do mundo digital por meio de entrevistas, gravações, análises semióticas ou culturais, a abordagem Ator-Rede rastreia exatamente como eles são constituídos em primeiro lugar, mostrando como tais mundos emergentes são constituídos, sustentados ou transformados (FARNSWORTH; AUSTRIN, 2010).

No caso de veículo elétrico, a célula de combustível pode ser referida como uma caixa preta, com a complexidade reduzida a poucos parâmetros de operação (CALLON, 1986a).

No entanto, para Latour (2005, p.132) uma rede deve ser “rastreada pela passagem de uma entidade circulante”, enfatizando a dinamicidade das conexões, e as representações gráficas simples de rede (referindo-se aos sociogramas, amplamente utilizados na análise de redes sociais), que teriam a desvantagem de “não capturar movimentos”, além de serem visualmente pobres. Nesse sentido, o autor entende que a capacidade de representação visual da rede social (sociograma) teria limitações significativas, ou seja, “o mapa não é o território” (LATOUR, 2005, p.133).