de Janeiro: UFRJ, 2007. (CD-ROOM), ISBN: 978-85-88597-07-5. pp.137-146. VERGER, Jacques. Homens e saber na Idade Média. Bauru: EDUSC, 1999. VOVELLE, Michel. Ideologias e mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1987.
WALLERSTEIN, Immanuel. O universalismo europeu: a retórica do poder. São Paulo: Bontempo, 2007.
WOLFF, Philipe. Outono da Idade Média ou Primavera dos Novos Tempos? São Paulo: Martins Fontes, 1988.
GLOSSÁRIO ACERCA DA ARISTOCRACIA POLÍTICA MUÇULMANA TARDO-MEDIEVAL
Adala: O cargo de adala depende do de cádi e possuía certas características, segundo Ibn Khaldun:
Consiste em servir de testemunha às partes, nas suas mútuas obrigações, e isso com a autorização do Cádi; em prestar seu concurso quando se tratar de transcrever o depoimento; em depor em juízo, se o ato der lugar à contestação; em inscrevê-lo nos registros para garantir a conservação dos direitos dos particulares, de suas propriedades, de seus créditos e de todas suas transações. Dissemos: com a autorização do Cádi, porque ficou a sociedade em nossos dias tão misturada que somente o Cádi dispõe de meios para distinguir o homem virtuoso do homem viciado; por isso, devemos crer que ele escolha pessoas de probidade bem reconhecida (adala) para intervirem nos negócios e nas transações dos particulares, com o fim de garantir a conservação de seus direitos. As condições exigidas para o exercício destas funções são: distinguir-se pela integridade definida pela lei, estar ao abrigo da censura, saber redigir as atas e os contratos de modo satisfatório no que se refere à expressão, à redação e à disposição dos parágrafos, como também no que se refere ao emprego das formas exigidas pela lei para a validade das convenções e das obrigações. Torna-se necessário, pois, conhecer a parte do Direito que se relaciona com o assunto. Foi devido a estas condições e à necessidade de apresentar certa familiaridade com as formalidades legais e o manuseio de suas práticas, que estas funções foram confiadas com exclusividade a certas pessoas escolhidas entre os homens de reconhecida probidade. Poder-se-ia crer que este emprego confira aos homens que o exercem seu título de homens íntegros, quando na verdade é outra: a integridade é a condição necessária para sua nomeação. O Cádi deve controlar o modo de proceder destes funcionários, para se assegurar da sua perseverança observando uma perfeita integridade. Não pode o magistrado deixar-se esmorecer neste ponto, nem permitir-se o menor descuido, visto que depende somente dele manter os particulares no gozo de seus direitos, sendo ele o seu fiador responsável (perante Deus). O estabelecimento destes servidores nas atribuições já mencionadas é de uma grande utilidade; é por seu intermédio que o Cádi chega a aquilatar da moralidade e da probidade de qualquer indivíduo que não é sempre fácil de descobrir, sobretudo nas grandes cidades, e porque as aparências são muitas vezes enganadoras. Sendo obrigados os juízes a se pronunciarem entre as partes adversas conforme provas autênticas, as mais das vezes é segundo a declaração destes funcionários subalternos que formam sua opinião sobre a validade dos títulos produzidos pelos pleiteantes. Em todas as grandes cidades, estes oficiais possuem lojinhas ou estrado onde tomam assento para ali serem procurados pelos que precisam de contratos feitos perante testemunhas e de porem suas conversações por escrito. Assim, o termo “adala” serve igualmente para designar as funções do ofício que se acaba de definir e a probidade exigida pela lei, probidade que numa expressão bem conhecida, se acha associada (por oposição) com o termo “jarh”. Assim, estes dois significados podem às vezes encontrar-se reunidos no mesmo indivíduo; outras vezes, não estão77 .
Amir ou emir: Príncipe guerreiro. O emir pode ser indicado pelo sultão ou ser seu próprio filho.
Cádi: O cádi tem por função defender o bem estar da comunidade islâmica. Segundo Ibn Khaldun:
77 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). Tradução integral e direta do árabe por José
Este cargo também depende do califado, por consistirem suas atribuições em decidir entre os indivíduos que estão em litígio, em fazê-los cessarem os debates e as reclamações, mas somente por meio da aplicação dos artigos da lei que fornecem o Alcorão e a Sunna. [...] Chegou-se ao ponto de, ao Cádi, não somente caber decidir entre particulares, mas também ocupar-se de negócios que interessavam a comunidade muçulmana. [...]78.
Califa: O califado era representado pelo “legislador inspirado”, ou seja, pelo governante que possuísse o poder temporal e espiritual. De acordo com Ibn Khaldun:
[...] O Califa é, pois, na realidade, o lugar-tenente do legislador inspirado, encarregado de manter a religião e de se servir dela para o governo do mundo.Temos dito que esta dignidade não é, na realidade, senão uma tenência, uma substituição. O que dela se acha revestido, substitui o legislador inspirado, toma o seu lugar, sendo encarregado de manter a religião, e, por este meio, governar o mundo. Tal ofício é designado indiferentemente pelos termos ‘khilafat’ ou califado, tenência; ‘imamat’, imamato ou chefia. Dá-se a quem ocupa o cargo o título de Califa e o de Imane; foi intitulado também Sultão, nos últimos séculos, quando havia muitos califas contemporâneos. Muitas nações afastadas umas das outras, não achando ninguém com todas as qualidades requeridas para ser califa, viam-se obrigadas a conferir esta dignidade a qualquer um que tomasse conta do poder. Deu-se ao Califa o título de ‘Imane’ (o que está na frente, na dianteira), porque o compararam ao imane que dirige a oração pública, e cujos movimentos são imitados por todos os presentes. Daí provém o emprego do termo ‘Grande Imanato’ referido à qualidade de califa. Adotou-se primeiro o termo ‘califa’, porque este chefe substituiu o Profeta perante seu povo79.
Departamento das finanças e das contribuições, ou diwan al-ámal wal jibayat: Funcionários da administração política e financeira do sultanato.
Diwan da correspondência e do secretariado: Conforme Ibn Khaldun, os secretários e escrivães deveriam se dedicar aos estudos com afinco para servirem os seus sultões da melhor forma possível:
[...] Secretários e escrivães! Aprofundai-vos com vigor e afinco no conhecimento de todos os gêneros de literatura; procurai entranhar-vos nas ciências religiosas, começando pelo Livro de Allah e pelos preceitos da lei divina. – Cultivai a língua árabe, por ser o modelo ideal do que se fala ou se escreve. Cuidai de possuir uma boa caligrafia; ela é o ornato de vossos escritos. Decorai os poemas do Árabes e aprofundai-lhe as idéias, seu sentido profundo e sua locuções insólitas. Lede a História dos Árabes e dos Persas, fixando na memória suas lendas e altos feitos. Todos estes conhecimentos formam o cabedal imprescindível de qualquer escrivão e secretário, e serão os vossos melhores auxiliares quando alcançardes a posição que cobiçais. Não descureis da arte de calcular, sem a qual não pode funcionar nem existir o Registro dos Impostos80.
78 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). op. cit.,p.402-409. 79 Idem, p.340-354.
80 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo II). Tradução integral e direta do árabe por José
Hajib: Atenção à nota (1) referenciada na obra de Ibn Khaldun, elaborada pelos tradutores José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury:
Hajib era o alto funcionário ou mesmo o ministro encarregado da guarda do cortinado (que separava o aposento reservado ao califa ou sultão) e que recebia diretamente as ordens emanadas do soberano; hijaba, ofício deste ministro que devia tomar tanta importância nas cortes principescas do Oriente e do Ocidente81.
Nas palavras de Ibn Khaldun, o ofício de hajib consistia em um cargo de alta confiança do governante e possui um histórico próprio:
Já antecipou a observação que, sob o regime tanto dos Omaiya como dos Abbassidas, o título de Hajib pertencia ao funcionário que guardava a porta para vedar ao povo o acesso imediato do sultão, fechando-a à gente de pouca consideração e abrindo-a aos outros, porém em horas determinadas. O ofício era, nesta época, de pouco destaque, e seu titular ficava sob controle do vizir. Durante o tempo que durou a Dinastia Abassida, nenhuma modificação veio alterar esta posição do Hajib. No Egito de nossos dias, o titular do cargo está subordinado ao alto mando do Naib ou vice-rei. No império dos Omaiya da Andaluzia, as funções do Hajib consiste em impedir, não somente à gente do povo, mas até aos grandes, de penetrarem junto do soberano. Servia também o Hajib de intermediário entre este e as pessoas encarregada dos diversos viziratos ou que ocupavam ofícios inferiores. A posição de que o Hajib desfrutava era, pois, da mais alta importância. O leitor se convencerá disto lendo a história desta dinastia. [...]82.
Hisba: Ibn Khaldun define a hisba como uma “polícia municipal”:
A Hisba ou polícia municipal é um ofício que tem ligação com a religião. [...]
Poder-se-ia afirmar que são negócios que os Cádis desdenham tratar, por serem comuns e de fácil solução, deixando ao Mohtacib o cuidado de ordená-los. Disso resulta que a ‘Hisba’ é por sua natureza subordinada ao ofício de Cádi. [...]83.
Segundo os tradutores da obra de Ibn Khaldun, José Khoury e Angelina B. Khoury, o cargo de muhtacib que era encarregado da hisba era assim definido:
O muhtacib ou oficial encarregado da Hisba: termo árabe que deu origem ao português Almotacé ou Almotacél. Esta importante instituição do mundo islâmico, passou para o mundo ibérico, quase com as mesmas prerrogativas, que foram transmitidas para o Novo Mundo. São Paulo antigo conheceu seu motacél muito tempo antes de ter fiscais municipais84.
Imanato: Segundo Ibn Khaldun, depois que uma Dinastia se assegura no poder se institui o Imanato:
81 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). op. cit., p.334. 82 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo II). op. cit., p.18-23. 83 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). op. cit., p.412-413. 84 Idem, ibdem.
Em seguida, serve – lhe a primeira oportunidade para colocar, nos livros de doutrina, logo depois dos dogmas da fé, o dogma do“Imanato”, ou a obrigação de reconhecer ao governante a qualidade de chefe espiritual e temporal. A partir desse momento, a autoridade do príncipe e do império têm por apoio os numerosos libertos e clientes da família reinante, a gente que viveu sob a proteção da casa real e à sombra de seu poderio85.
Mufti: O califa escolhe entre os legistas um deles (mufti) que possa ser o representante da lei máxima, que deve ser consultado para todos os casos, inclusive os não previstos pelo Código Islâmico.
Poder de um governante: Ibn Khaldun sinaliza as funções de um governante que possui autoridade sobre os homens de seu tempo:
[...] Um chefe supremo reprime a ambição das famílias colocadas sob suas ordens; dobra a audácia e a petulância dos outros chefes, tirando-lhes qualquer esperança de compartilhar de seu poder. Refreia o ardor das outras famílias que aspiram ao comando, impedindo-as de o alcançar, reservando para si, na medida do possível, toda a autoridade e não deixando para ninguém mais a mínima parcela. Guardando para si todo o poder jamais consente em dividi-lo. O fundador do império possui toda a autoridade; seu sucessor provavelmente virá a perder uma parte, ou então será o terceiro da dinastia. Isso depende do espírito de independência, que domina seus súditos, e de seus meios de resistência. O que acabamos de dizer se aplica a todos os Impérios; é uma lei observada por Allah para com suas criaturas86.
Sultão: Conforme Ibn Khaldun, a síntese da representação de um sultão seria a seguinte:
Não é a pessoa do rei, nem seu aspecto, nem sua formosura, nem seu belo porte, nem seu grande saber, nem a elegância de sua caligrafia, nem mesmo a penetração de seu espírito que são úteis ao povo. São, antes, as relações que existem entre ele e seus súditos que lhe são úteis e que mais lhe importam. Com efeito, o termo ‘sultão’ implica uma certa relação, um laço que prende duas coisas correlatas. O sultão é, na realidade, o dono, o possuidor do rebanho, aquele que apascenta e cuida de tudo o que lhe diz respeito. O sultão, pois, é quem possui súditos, e os súditos são os têm um sultão. A qualidade que lhe é própria, quanto às relações com eles, é a ‘posse’, propriedade, (mulk, malakat), e isto significa que ele é dono, o senhor. [...] 87.
Vizirato ou cargo de vizir: Segundo Ibn Khaldun, o cargo de vizir era de grande responsabilidade, pois era diretamente vinculado ao sultão:
O cargo de Vizir ou Vizirato é como o tronco do qual nascem diversos cargos do Sultanato e as dignidades reais. Com efeito, esta palavra (na sua forma árabe de ‘uazir’, por si só, indica, de um modo geral, a idéia de assistência, porque deriva seja da 3ª forma do verbo ‘uazara’, que significa ‘fardo’. Compreender-se facilmente esta última derivação lembrando-se que o vizir ou uazir, simultaneamente com seu amo, o sultão, carrega ‘o peso’, ‘o fardo’ dos negócios do Estado: o que implica, de qualquer modo, a simples idéia de assistência. [...] Com os Omaiyas da Andaluzia, a palavra vizir não conservou seu primitivo significado
85 KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). op. cit., p.273. 86 Idem, p. 297-298.
no começo da dinastia; foi mais tarde que eles dividiram as atribuições do vizirato em diversas classes, tendo cada uma delas um vizir especial. Houve um vizir para a contabilidade, outro para a correspondência, um outro para a reparação dos agravos e mais outro para atender às populações das fronteiras88.
TABELA DEMONSTRATIVA DA HIERARQUIA DA BUROCRACIA ISLÂMICA CALIFA (IMANATO) SULTÃO---CÁDI ---MUFTI ADALA / HISBA AMIR / HAJIB / VIZIR / SECRETARIADO