3 O ESPELHO PARA O VAZIO: A CONSTRUÇÃO DE UM REPERTÓRIO
3.5 VINTE E OITO PEÇAS NO ENGENDRAMENTO DA REVOLTA
3.5.3 Senhorita Júlia
Em 26 de Abril de 1958 estreia Senhorita Júlia, marcando, assim, a modernização do teatro soteropolitano. A Revista Repertório nº 02 traz o polêmico texto do prefácio da peça, no qual Strindberg reivindica um novo teatro, através do qual os aspectos sociais não estejam tão em voga, nem o mundanismo. Ele fala de um palco pequeno, com uma plateia pequena, e com isso, quem sabe, pode surgir uma nova arte teatral para uma plateia educada que se divirta. Strindberg estava embebido pela questão científica, sobretudo pelas teorias de Darwin, transformando suas peças em claustrofóbicos laboratórios, nas quais as personagens são sufocadas confessando até mesmo aquilo que nunca fizeram. Ana Edler faz o papel da menina Júlia, juntamente com Antônio Patiño no papel de João e Nilda Spencer
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Cf. REVISTA REPERTÓRIO, Salvador: Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia n.01, abril de 1958. Em tese, foram publicados 15 números desta revista, porém um deles se perdeu, não existe ou não foi publicado, como veremos nas próximas páginas.
como Cristina. Segundo Jussilene Santana (2011, p.223-224), é a estreia de um autor sueco nas capitais brasileiras21, porém o Grupo de Teatro Amadores da Bahia encenou O Pai (ou Paternidade), texto de Strindberg (LEÃO, p.94, 2006). Aqui se inicia o repertório de Revolta. Nessa primeira fase dos textos de Strindberg temos a Revolta Social. O grito sufocado de Strindberg está relacionado às questões concernentes as relações homem versus mulher. Toda a sua obra é marcada pela dualidade de ações e sentimentos, confundindo-se muitas vezes com sua vida particular. Aliás, essas são as especulações feitas a respeito de sua obra. Muitos problemas com seus casamentos, que decorrem da relação traumática que teve com sua mãe. Strindberg amava sua mãe como a intocável, endeusava sua relação, e ao mesmo tempo sofria com a perturbação mental de um possível sentimento doentio, beirando o incesto. Essa figuração suprema materna ele buscava nas mulheres que esposava. Porém, a maioria delas era emancipada, autônomas. Com isso os problemas matrimoniais surgiam: a busca por uma mãe, não uma esposa. Ele, influenciado pelos ideais niilistas, repudiava o sexo, a carne, ao passo que desejava ser o homem voraz, másculo, que possuía suas mulheres. Essa dualidade psicológica que toda a vida abalou suas relações era transferida para as suas obras.
Em Senhorita Júlia, temos a peça que talvez neutralizasse esse grito de insatisfação nas relações sociais femininas perante os homens. Isto, posto no sentido de que as personagens não falavam pela sua boca. Strindberg chegou, em
Senhorita Júlia, mais próximo de um drama realista, segundo Brustein. Afastou-se
das personagens, permitiu fluidez nos diálogos, apropriado para as personagens em suas classes sociais, ambiente real, ordenamento da estrutura dramática. Brustein diz que o que afasta a peça do drama realista são as “inserções do balé, da mímica e do interlúdio musical” (BRUSTEIN, 1967, p.133). Apesar do afastamento maior de suas personagens, ele ainda não consegue ser de um todo imparcial.
A grande característica que nivela a peça à categoria de drama de revolta social é a base temática do espetáculo, no qual a batalha travada é entre o macho, João, e a fêmea, Júlia; o lacaio e a aristocrata. A montagem d’A Barca dividiu os críticos, posicionando-se ora positivamente, ora negativamente; a negatividade
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Nos recortes pessoais de Martim, dois artigos para análise: um de 1957, que falava do interesse da embaixada sueca em fornecer bolsas para estudantes e uma entrevista de 1958, que narra a “satisfação” de Bergström ao conhecer a “capital que fora a primeira do país” a “encenar uma peça de um autor sueco”. (Na Bahia, o Embaixador Stenstrom (sic), [s.d.]. Acervo Martim Gonçalves / Hélio Eichbauer, pasta de recortes de 1958).
girava em torno da temática um tanto que ultrapassada: drama da relação amorosa entre um empregado e uma aristocrata (SANTANA, 2011, p.323). Todavia, o modelo de ensino da Escola de Teatro era de conservatório (aprendizado no palco). Um texto marco da modernidade e do realismo/naturalismo no teatro precisava ser encenado, não só para a experiência dos alunos envolvidos, mas para que a plateia soteropolitana estivesse em contato com esta gramática teatral.
3.5.4 A Almanjarra
No repertório nº 03, com estreia no dia 13 do mês de junho de 1958, no palco do Teatro Santo Antônio, foi encenado o espetáculo A Almanjarra, de Arthur Azevedo, escrita em 1888. Dirigida timidamente por Antônio Patiño, sob supervisão de Gonçalves, foi um verdadeiro sucesso de público, tendo que estender a temporada por julho e agosto, com bilhetes vendidos com muitos dias de antecedência. A peça é uma comédia em dois atos, escancarando as relações de interesse matrimonial no Rio de Janeiro, bem como alfineta a Igreja Católica, promotora dos casamentos ditos de “conveniência” – e como essas relações mal construídas podem gerar adultérios.
É um espetáculo de Revolta Social, visto que a revolta de Arthur Azevedo, em toda sua obra dramática, está sempre gritando de fúria e zombaria para com a sociedade do Rio de Janeiro, em suas mais variadas formas de relacionamento. Conhecido pelo gênero “comédias ligeiras”, Azevedo se utiliza da criação de personagens tipo, com falas curtas, drama simples e direto, para satirizar as relações sociais dos cariocas. Aliás, ele próprio dizia que sua objetividade é dada por uma necessidade de uma plateia pouco interessada em grandes reflexões. Isto é estampado em uma de suas célebres frases: “[...] o nosso público, que no teatro gosta, e razão tem ele, das situações claras que não o obriguem a uma grande ginástica de raciocínio". É um gênero marcado pelas múltiplas entradas e saídas das personagens, objetividade nas falas e estrutura simples. Sua relevância é posta pelo papel de denúncia, de revolta social, expressos pelas mãos de Azevedo e de outros dramaturgos desse estilo.
No espetáculo, Ribeiro, pai de Rosália (18 anos), quer casá-la com o Comendador Domingos Bastos, um homem de cinquenta e poucos anos, por puro interesse social e econômico. Um rapaz de nome Ernesto, ajuda o pai de Rosália
num acidente com um bonde, que não fosse o jovem Ernesto, levaria-o a morte. Com isto, Ribeiro convida o rapaz para ir à sua casa e conhecer sua família. Na ocasião, a proposta de Ribeiro de casar a filha por conveniência é descoberta. O herói, Ernesto, adverte Ribeiro acerca da problemática que pode estar criando para sua família:
Ernesto - Amor veemente, entranhado, profundo... Amor que só com a morte acabará um dia. Pois essa imoralidade que a igreja santifica e a sociedade legaliza, o casamento de conveniência, é lá bastante forte para destruir o sentimento do amor em dois corações apaixonados e jovens? (AZEVEDO, s.d., p.06).
Com esta fala de Ernesto percebemos a crítica forte de Azevedo contra a sociedade carioca tradicional do final do século XIX, que ainda é conivente com tal situação. E mais, a igreja é a responsável por isto, fomentando todo um discurso moralista acerca do casamento, e interessada nesses casamentos arranjados os quais a beneficiam. O possível riso solto com a leitura desta peça não encobre a dura e perspicaz crítica social traçada por Azevedo. Como um revoltado nato, ele escancara os dogmas da igreja e seus costumes claustrofóbicos. Azevedo mostra, ainda, as consequências desta relação conturbada deixando que o pai, Ribeiro, veja com seus próprios olhos o escândalo que pode suceder a sua família, sendo muito pior para sua imagem e reputação. Azevedo cria uma trama muito bem estruturada, na qual a personagem Rosália, esposa de seu amigo Macedo, e agora novo vizinho, casada por conveniência, está às vias de cometer um adultério. Ela aconselha a pobre Isabel que case com o Comendador e continue amando o jovem que toca seu coração; dando-nos a entender que não há outro jeito a fazer, que tal atitude é comum – depois do casamento, ela continua se encontrando com seu verdadeiro amor.
Rosália - Admira-se desta linguagem? Que quer? O casamento perverteu-me: já não sou a mesma. É provável que venham a falar de mim... É possível até que já se fale... Mas que me importa uma sociedade que consente no nosso sacrifício, que não tem uma voz que se levante em nosso favor? (AZEVEDO, s.d., p.19).
Azevedo escancara o cotidiano das mulheres cariocas, nos dando a entender que o adultério era comum em casamentos assim. Rosália é a voz das mulheres gritando de rebeldia pela sua condição social de submissão. Não tinha voz ativa nem participação das relações sociais, isto no Brasil do século XIX. A denúncia/desabafo
da personagem é marcada pela omissão da sociedade frente a esta problemática. Todos sabem que estas práticas acontecem, mas ninguém toma partido.