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SENTIDOS EM MOVIMENTO

No documento http://www.livrosgratis.com.br (páginas 30-115)

Quando o solo não é mais sólido, os espíritos também erram e vagabundeiam.

Michel Maffesoli.

Precisamos conceber um mundo que não seja feito apenas de coisas, mas de puras transições.

Merleau-Ponty.

Considerando os discur sos que se lançam à interpretação da contemporaneidade, buscamos analisar o corpus que constitui este trabalho tomando como pressuposta a existência de dois movimentos referentes à identidade segundo essas construções discursivas. O primeiro movimento refe re-se à construção da subjetividade, correspondendo à passagem da concepção de um sujeito centrado para a de um sujeito descentrado e fragmentado. O segundo movimento diz respeito à transformação do conceito de nação, anteriormente pensada em termos de unidade e estabilidade, cedendo lugar agora a sua desmaterialização, mediante um processo que se convencionou chamar de desterritorialização.

Para a teoria semiótica, não existe a possibilidade de pensar a realidade fora dos quadros da linguagem. Desse modo, o que buscamos não é reconstituir o real das relações sociais e políticas da atualidade, mas analisar os sentidos que os sujeitos produzem na vivência da contemporaneidade, observando como recorte a materialização desse pensamento no plano da arte. Na compreensão sobre as bases nas quais se assentam esses discursos, valemo-nos de autores de outras esferas de conhecimento, a fim de situarmos a inscrição desses discursos em determinadas formações discursivas que fornecem interpretações sobre o presente.

Neste capítulo, abordaremos esses dois movimentos, que determinam reconfigurações discursivas em torno da nacionalidade (1.1) e da subjetividade (1.2).

1.1. Sob a ética da mobilidade

Abancado à escrivaninha em São Paulo Na minha casa da rua Lopes Chaves De sopetão senti um friume por dentro.

Fiquei tremulo, muito comovido Com o livro palerma olhando para mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu Um homem palido magro de cabelo e scorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo.

Êsse homem é brasileiro que nem eu5. Descobrimento. Mário de Andrade.

No poema “Descobrimento”, de Mário de Andrade, o enunciador remete a um presságio quanto à identidade compartilhada com um morador no extremo do país, muito distante da “casa na rua Lopes Chaves”. Esse outro sujeito, “fazendo a pele com a borracha do dia”, trabalha em ofício bem diferente daqueles previstos para moradores de uma cidade como São Paulo. Apesar da distância geográfica (norte x sul), da enorme diversidade cultural que os torna dessemelhantes (enquanto um trabalha nos seringais, em atividade braçal, o outro desenvolve atividade intelectual, “abancado à escrivaninha”), um sentimento de brasilidade, de pertencimento a uma mesma nação é capaz de uni- los, ainda que essa convicção seja motivo de espanto, causando no sujeito que tece suas reflexões um “friúme por dentro”. Esse estremecimento que toma o enunciador advém de uma memória, de uma lembrança: “Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim”. Ao remeter ao caráter de lembrança, vai atestar a ocorrência de um saber que antecede ao momento de espanto, embora a apreensão da “verdade” quanto à identidade partilhada por pessoas tão distintas pareça efetivar-se apenas na exatidão desse instante.

O texto modernista se organiza em torno das oposições entre identidade e alteridade, relacionando as similitudes e dessemelhanças entre os sujeitos de uma mesma nação, suas

5 Foi mantida a ortografia proposta pela edição das Obras Completas (ANDRADE,1980).

aproximações e estranhamentos. Na configuração da identidade nacional, os sujeitos se confrontam mediante uma lembrança, uma memória, haja vista estabelecidos geograficamente em localidades distantes, esparramados pelo território vasto, sob diferentes paisagens, “muito longe de mim”. Esses sujeitos, vivendo em condições tão distintas, são capazes de compartilhar da experiência da brasilidade, sob os efeitos da mesma noite. Enquanto diante da “escuridão ativa que caiu” um sujeito medita sobre a condição humana, um outro “faz pouco se deitou, está dormindo”. Há muitos elementos que podem ser mobilizados para distingui- los, afirmando a distinção e a distância, mas uma “lembrança” de pertencimento a uma mesma nação, uma certeza de continuidade entre esses sujeitos distintos, a tudo isso suplanta, pondo-os em relação.

Do ponto de vista da nacionalidade como um discurso, consideremos uma instância semiótica pressuposta que dá sentido à unidade, agindo na direção inversa às forças que mobilizam para a ruptura e a disjunção. Conforme Landowski, da perspectiva dessa instância semiótica, há um sujeito qualquer, individual ou coletivo, incumbido de “efetuar as operações de seleção e de investimento semântico” responsáveis por “fixar o inventário de traços diferenciais ” que estabilizam o “sistema das ‘figuras do Outro’” (LANDOWSKI, 2002, p. 13) e da mesma forma, poderíamos compreender, por extensão, as figuras do eu. Para que o sujeito possa atualizar uma lembrança de relação de identidade com esse outro sujeito distante, é necessário acionar essas figuras mais ou menos estabilizadas num imaginário, num repertório cultural, mediante um modo de aprendizagem.

O poema de Mário de Andrade atualiza, assim, um modo de compreender a identidade nacional que vai justificar, nas primeiras décadas do século XX, a mobilização de artistas e intelectuais em defesa da cultura nacional, num esforço que se alia aos interesses da burguesia no desenvolvimento de uma indústria nacional incipiente. Essa concepção de identidade nas produções dos modernistas remete, assim, a um caráter de unidade e homogeneidade que se sobrepõe à diversidade. Afirma -se a identidade como uma interioridade, algo que se materializa no espaço da nação, no território compartilhado, definindo fronteiras q ue delimitam o lugar do eu e do Outro, tendo em vista uma memória, uma tradição, um pertencimento. Afirma-se o eu (que se multiplica num nós, os brasileiros, mesmo tão distantes na diluição da extensão do território) mediante a superação- negação do estrangeiro europeu (e mais tarde o americano), este sim, o Outro, ainda que o relacionamento com essa alteridade pressuponha sua absorção, sua devoração, como propõem as metáforas suscitadas pelo Manifesto Antropófago, de Oswald: “Só a

antropofagia nos une. Socialmente.Economicamente. Filosoficamente. (...) Tuy, or not Tupy that is the question” (ANDRADE, T28).

Ao longo de todo esse século, tensões envolvendo o nacional e o estrangeiro pontuaram as mais diversas políticas, servindo de mote à esquerda e à direita. Retomamos aqui o tema em função das peculiaridades e complexidades que o envolvem nas últimas décadas e o modo como vai ser atualizado nos discursos contemporâneos, sobretudo pela forma como estes se atualizam nas inflexões da arte contemporânea. Um exemplo das reformulações em curso pode ser encontrado no texto de Rina Carvajal, ao discutir, no texto de apresentação do segmento da Bienal destinado aos artistas da América Latina, na rejeição a um modelo estático de identidade:

Esas experiências, demasiadas fracturadas e hibridizadas en la actualidad, intentan ser articuladas desde las obras mismas y más bien a modo de um palimpsesto – bajo uma visión ambivalente y en un territorio de contradicciones, movimientos y transformaciones continuas – que se propone dejar atrás el esgotado modelo antropológico y exotista, con sus premisas de ‘unidad’ y ‘autenticidad de lo latinoamericano’, que caracterizo las últimas décadas (CARVAJAL, T14).

Carvajal remete a experiências concretas produzidas pelas migrações, por uma espécie de nomadismo que relativiza as fronteiras culturais, possibilitando um diálogo cada vez mais intensificado que resulta em produções híbridas. Se, num determinado momento, a identidade se assentava na elaboração de uma originalidade, nesse outro momento, esta é vista como um problema, que mina as forças dos trabalhos em criação. Partimos, pois, do pressuposto de que há um movimento que desloca os sentidos de nacionalidade dos modernistas, que há outros sentidos para nação e identidade nas falas contemporâneas.

Em 1998, a Bienal de São Paulo parte do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, para a organização de uma mostra internacional de arte sob a justificativa de que a antropofagia representava um “momento denso” da arte nacional (HERKENHOFF, T3). A princípio, temos novamente reeditadas questões como identidade e nação, relativas a formas de resistência a processos de aculturação e dominação econômica. Mas os sentidos de nação e identidade são os mesmos que os acionados pelos modernistas em 1928? Fala-se do mesmo lugar?

Uma primeira questão a considerar é o próprio caráter polissêmico desses termos, haja vista a sua inscrição em diferentes formações discursivas. As palavras não são dotadas de um sentido único, literal, estabilizado, sendo, no entanto, a estabilidade e a literalidade efeitos produzidos discursivamente. É a inscrição em uma ou outra formação discursiva que irá determinar o sentido que se atribui a um termo e, assim, palavras como nação, identidade,

globalização, democracia apresentam sentido diverso em função dos mecanismos discursivos que as põem em movimento.

Conforme Bakhtin, a palavra é neutra do ponto de vista ideológico, mas, na medida em que é tomada como signo, vai servir à materialização da ideologia. É nesse sentido que nos interessa analisar os efeitos de sentido produzidos nos textos. Os sentidos podem ser estabilizados, segundo as formações ideológicas dominantes, mas é da natureza da palavra/signo constituir-se, segundo Bakhtin, como “arena onde se confrontam valores sociais contraditórios”.

Para o lingüista russo, uma vez que o signo é o que dá forma a visões ideológicas, é possível analisar os valores ideológicos de uma dada sociedade pelos sentidos que esses signos atualizam.

A noção de um sentido literal é, nesse caso, apenas efeito de sentido. Se há valores ideológicos em disputa, os signos constituem-se como lugar em que emergem a diferença e a contradição:

... a palavra penetra literalmente em todas as relações entre indivíduos, nas relações de colaboração, nas de base ideológica, nos encontros fortuitos da vida cotidiana, nas relações de caráter político etc. As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. É, portanto, claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos bem estruturados (BAKHTIN , p. 41).

O conceito de formação discursiva é bastante complexo e polêmico. Utilizamos inicialmente a definição de Orlandi (1999, p. 43), segundo a qual uma formação discursiva deve ser compreendida como a atualização no discurso das formações ideológicas: “A fo rmação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada – ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada – determina o que pode e deve ser dito”.

Para Mussalim, os limites de uma formação discursiva (FD) são instáveis, uma vez que esta se inscreve num espaço de embate ideológico: “uma FD se inscreve entre diversas formações discursivas, e a fronteira entre elas se desloca em função dos embates da luta ideológica, sendo estes embates recuperáveis no interior mesmo de cada uma das FDs em relação” (MUSSALIM, 2001, p. 125). O conceito de formação discursiva remete, pois, à incompletude como condição da linguagem, uma vez que os sentidos não estão constituídos definitivamente: “Constituem-se e funcionam sob o modo do entremeio, da relação, da falta, do movimento”, nos “limites moventes e tensos entre a paráfrase e a polissemia” (ORLANDI, 1999, p. 52), repetindo ou rompendo com os sentidos de uma dada formação discursiva.

A paráfrase corresponde à repetição, aos processos que fixam um sentido, ao “retorno aos mesmos espaços do dizer”. Numa direção contrária, a polissemia aponta para a ruptura de processos de significação, para o deslocamento, o equívoco, o diferente, o sentido novo (ORLANDI, 1999, p. 36). Todo dizer é produzido, portanto, a partir das tensões entre as dimensões da formulação e a da memória, do novo e do estabilizado, da polissemia e da paráfrase, devendo-se ainda levar em conta que, mesmo na repetição, há deslocamento:

Esse movimento de paráfrases e polissemias faz com que exista, sempre, um jogo de força na memória, entre a repetição e a desregulação: visando manter uma regularização pré-existente, a estabilização parafrástica absorve e dissolve o acontecimento novo; e, ao contrário, o jogo de força de uma desregulação vem perturbar a rede de implícitos. Por isso, o processo de inscrição do acontecimento no espaço da memória traz tensões e pode criar diferentes efeitos de sentido, numa relação dialética entre o “mesmo” e o “outro”:

na repetição literal da identidade material, ao mesmo tempo que a repetição assegura o espaço da estabilidade de uma vulgata parafrástica, pode provocar uma divisão da identidade material, já que sob a materialidade do mesmo abre -se o jogo da metáfora que perturba a memó ria e a descristaliza (GREGOLIN, 2003, p. 56).

Desse modo, ao buscar analisar a temática da identidade nacional na arte contemporânea, é crucial pensar em que sentido as representações atendem à manutenção de um certo imaginário do nacional (paráfrase), levando em conta possíveis rupturas com determinados paradigmas referentes à memória sobre um modo (ou modos) de conceber o país (polissemia). A memória, nesse sentido, não corresponde a verdades inequívocas assentadas sobre o que se viveu empiricamente no passado, mas a um imaginário socialmente edificado, que, embora podendo produzir efeito de estabilidade, configura-se como espaço de conflito e heterogeneidade:

... uma memória não poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um espaço móvel de divisões e disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos, de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra -discursos (PÊCHEUX, 1999, p. 56).

Se para o Modernismo a afirmação da identidade correspondia à rejeição à submissão cultural e econômica, nos discursos da globalização, que dão a tônica do final do século XX, uma aparentemente irrevogável dissolução dos estados nacionais suscitaria outros modos de relação intercultural, mobilizando outros sentidos para a nação e o nacional. Partamos, pois, do pressuposto de que identidade e nação não são termos de um sentido inequívoco, mas que se constroem diferentes sentidos mediante sua inscrição nesta ou aquela formação discursiva, constituindo-se diferentemente ao longo da história e das relações de força mobilizadas.

Na Bienal de 1998, a temática do nacional é privilegiada, atravessando grande parte dos trabalhos e dos textos dos curadores. Analisar esse conjunto é vislumbrar os sentidos evocados num contexto histórico específico, buscando compreender os movimentos que nesse momento se operam, as tensões, contradições, enfim, o modo como sujeitos históricos organizam (reorganizam) um imaginário de convívio com o outro, com a diferença e a tradição. A temática da nação se repete, como se repetem, a todo momento, pelas mais diferentes associações, as linhas do Manifesto Antropófago, mas esses modos de repetição remetem a uma descontinuidade, que é da ordem da história. Estamos diante de uma repetição histórica (ORLANDI, 1999, p. 54), que vai reconfigurando um imaginário do nacional. Há discursos em confronto e sentidos em movimento, deslocando-se.

Do ponto de vista da teoria semiótica, as formações discursivas manifestam-se nos textos mediante a projeção de temas e figuras. O tema corresponde ao “elemento semântico que designa um elemento não-presente no mundo natural, mas que exerc e o papel de categoria ordenadora dos fatos observáveis” (FIORIN, 1990, p. 24). Já as figuras são elementos semânticos que remetem a algo presente no mundo natural: “é todo conteúdo de qualquer língua natural ou de qualquer sistema de representação que tem um correspondente perceptível no mundo natural” (FIORIN, 1992, p. 65)6. Mediante a maior ou menor ocorrência da presença de temas ou figuras, encontramos, respectivamente, textos predominantemente temáticos, com sua função predicativa ou interpretativa, ou figurativos, que possuem uma função descritiva ou representativa. Nos textos predominantemente não- figurativos, a ideologia manifesta-se explicitamente no nível dos temas; nos textos figurativos, a ideologia ocorre na relação estabelecida entre temas e figuras.

Neste caso, cabe ao leitor/espectador/ouvinte estabelecer as relações de sentido produzidas por esse modo de relação, identificando os temas subjacentes às figuras. Tematização e figurativização consistem, pois, em dois níveis de concretização do sentido, tendo em vista o nível discursivo, instância mais superficial e concreta do que a semiótica concebe como percurso gerativo de sentido.

6 A representação não implica semelhança com o mundo natural. A semiótica não identifica na linguagem a relação de similitude com a realidade, mas investiga os códigos culturais que definem o caráter veridictório (efeito de realidade) atribuído a textos e imagens a partir da iconicidade, resultante da saturação de elementos figurativos. A iconicidade produz, assim, “efeito de conotação veridictória, relativa a uma dada cultura, que julga certos signos como ‘mais reais’ que outros, e que conduz, em certas condições, o produtor da imagem a se submeter a um ‘faz de conta cultural’” (GREIMAS e COURTÉS, s/d, p.226).

Se considerarmos o mundo natural a partir de uma invisibilidade ou de uma opacidade constitutivas, a figuratividade seria a tentativa de instauração da visibilidade, busca de tradução do sensível a partir do exercício de uma linguagem: “Trata-se, então, de imaginar alguns recortes fundamentais produzidos sobre o contínuo de um caos inaugural, de modo a articular os sentidos a partir do espaço tímico em que se estabelece a conformidade ou não conformidade da relação do homem com o mundo” (TEIXEIRA, 2004b).

Correspondendo ao nível de concretização da semântica discursiva, a figuratividade corresponde às gradações de um contínuo que vai do mais concreto ao mais abstrato. Nesse contínuo, estabelece-se uma oposição entre temas (categorias abstratas) e figuras (elementos que remetem ao mundo natural). Assim, pela saturação de elementos figurativos produz-se a iconicidade, que resulta na produção de efeito de realidade.

Essa relação figuras / mundo obviamente remete à complexidade dos processos culturais de representação que produzem efeito de “semelhança” com aquilo que pretendem representar, uma “semelhança” que resulta da inscrição em determinadas práticas e códigos culturais.

Greimas e Courtés, analisando os processos que envolvem a figurativização, apontam para o efeito de realidade produzido pelo processo de iconicização, que “visa a revestir exaustivamente as figuras de forma a produzir a ilusão referencial que as transformaria em imagens do mundo” (GREIMAS e COURTÉS, s/d, p. 187). Ao definirem o verbete iconicidade, Greimas e Courtés desfazem essa univocidade: “Reconhecer que a semiótica visual (...) é uma imensa analogia do mundo natural é perder-se no labirinto dos pressupostos positivistas, confessar que se sabe o que é a ‘realidade’”. Como lembra Bertrand, os semioticistas rejeitam o conceito de referente relativo ao universo extralingüístico, considerando o mundo natural como uma semiótica:

A referência torna-se, nesse caso, uma questão de correlação entre duas semióticas (a de uma língua natural, ou de uma linguagem pictórica com a do mundo natural) e as adequações entre essas duas semióticas, longe de sere m de simples denotação, são subordinadas a variações profundas (culturais, entre outras) (BERTRAND, 2003, p. 424).

Desse modo, para os semioticistas, em vez de analogia linguagem / mundo natural seria melhor definir a iconicidade como “ilusão referencial”, isto, é, “resultado de um conjunto de procedimentos mobilizados para produzir efeito de sentido de realidade”. Essa ilusão não seria, pois, um fenômeno universal, tendo uma dosagem não só desigual como também relativa. A esse

respeito, como afirma Teixeira (2001), a iconicidade se assentaria em um “código de reconhecimento”, não nas “condições de reconhecimento”. Nesse sentido, diante da opacidade do mundo, “ver é interpretar” (BERTRAND, 2003, p. 160), compartilhar uma crença, e desse modo o mundo natural só pode ser concebido como uma semiótica: “O mundo visível, ou

‘mundo natural’, pode ser considerado como uma linguagem biplana, que comporta um plano da expressão e um plano do conteúdo. Por isso ele é construído – lido, interpretado – como uma semió tica” (BERTRAND, 2003, p. 160).

Nos catálo gos da Bienal, a figuratividade7 se apresenta nos textos que comentam as obras expostas, pelas descrições dos elementos que as constituem (cor, linha, volume, formas, materiais utilizados como suporte etc.) que agem no sentido de dar maior visibilidade aos trabalhos, numa espécie de relação parafrástica. A figuratividade está também presente nos trabalhos, ainda que essa figuratividade não seja sinônima de identificação com objetos do mundo natural. Em trabalhos designados no universo da arte como abstratos, uma figuratividade elementar é chamada de figuralidade8. Considerando o caráter avaliativo – que testifica a qualidade da produção artística – e interpretativo – pelos sentidos atribuídos aos trabalhos da mostra –, observaría mos a predominância de discursos temáticos. Além da referência explícita aos temas que seriam atualizados nos trabalhos, os textos dos curadores e de demais autores aí selecionados aludem ainda a temas que seriam contemporâneos, com os quais as obras dialogam. Encontram-se, nesse caso, as referências a inúmeras temáticas que as atravessam, estabelecendo relações a partir das quais produzem sentido.

Homi K. Bhabha, por exemplo, comenta a vídeo-instalação de Maurício Dias e Walter Riedweg, Raimundos, Severinos e Franciscos (Fig. 3), do segmento Um entre Outros, do núcleo destinado à Arte Contemporânea Brasileira.

Curiosamente, Bhabha analisa um trabalho que ainda não viu, cujo projeto consistiria em discutir a invisibilidade dos sujeitos em duas metrópoles brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo.

Os sujeitos invisibilizados, no caso, são os porteiros nordestinos, daí os nomes mais populares aparecerem como título, flexionados no plural. Como outras peças do hall de entrada dos edifícios, esses trabalhadores nordestinos não são percebidos, não são notados na sua individualidade, confundidos diante de estereótipos em torno de uma pretensa imagem comum

7 A figuratividade corresponde a um “percurso que vai do mais concreto ao mais abstrato”, pela maior ou menor presença de elementos figurativos (TEIXEIRA, 2001).

8 Floch define figural como um “figurativo abstrato” (FLOCH, 1985, p. 19)

(figuratividade estabilizada num imaginário), que os circunscreve a um lugar de origem. Os nomes próprios, no plural, reforçam essa indiferenciação. A invisibilidade que serve de tema ao trabalho de Dias e Riedweg caracteriza a própria relação de Bhabha com o que analisa: como atribuir sentidos ao que ainda é projeto, virtualidade para os sentidos?

Escrever prolepticamente sobre um projeto artístico que ainda precisa ser produzido, uma obra que é invisível, a não ser por uma série de notas, intangível a não ser como uma idéia, é estender os limites da realidade virtual. (...) É a “invisibilidade” ética da obra que me compele a renunciar a minha ‘distância’ de crítico e aceitar um papel mais colaborativo, performativo, na produção de Os Raimundos, Severinos e Franciscos que ainda não ‘vi’, mas exemplifica o conceito de ‘invisibilidade’ que esbocei acima. Porteiros ou zeladores são notoriamente ‘invisíveis’. Embora fiquem bem na entrada do prédio, são freqüentemente vistos como parte da arquitetura – como algumas colunas ou ombreiras das portas, absolutamente necessários mas de alguma forma negligenciáveis. D/R jogam com esse paradoxo do status de porteiros pela adição de dois outros desvios a sua presença simbólica. No Rio de Janeiro e em São Paulo, os porteiros geralmente são migrantes do nordeste empobrecido, e uma vez que chegam às grandes cidades brasileiras, sua falta de identidade – uma condição inerente à maioria dos trabalhadores migrantes – é ainda mais acentuada pelo fato de muitos deles compartilharem os mesmos nomes: Raimundo, Severino e Francisco. Essa obliteração peculiar da identidade que acompanha a nomeação dos migrantes é uma forma de estereotipar o ‘outro’ que eu conheço desde a minha própria infância indiana (BHABHA, T19).

Fig. 3. Os Raimundos, os Severinos e os Franciscos 1998 (vídeo-instalação) detalhe do vídeo http://www1.uol.com.br/bienal/24bienal/bra/ebraentried03a.htm

A figuratividade aqui é antecipada por uma memória das personagens evocadas a modo de estereótipo, “faz de conta cultural”, a que aludem Greimas e Courtés (s/d, p. 226). No texto de

Bhabha, predominam temas como a indiferença e a invisibilidade dos sujeitos, a ponto de perderem seu próprio status de sujeito nas relações que marcam de forma inequívoca as distâncias entre as classes sociais no Brasil. Bhabha não se restringe à análise do que não viu, na descrição de figuras que se desenhariam no vídeo. Reporta-se a temas contemporâneos, inclusive pela projeção de uma debreagem interna que dá voz aos artistas responsáveis pelo projeto, trazendo referências imediatas a questões relativas à territorialidade e à globalização:

“A maior parte de nosso trabalho está concentrada em questões territoriais. Nos tempos da globalização, muitas das possibilidades de inferir num sistema residem de fato no deslocamento de valores dentro desse sistema...” – D/R (BHABHA, T19).

Enquanto no texto de Mário de Andrade, o nacional era experimentado como uma certeza de similitude mesmo com relação a sujeitos que vivem em distantes localidades do território, aqui essa certeza relativa àquele modo de compreensão da identidade é posta em questão. O Outro está próximo, do ponto de vista da realidade espacial, por ele passam os moradores cotidianamente, com ele travam diálogos elementares tendo em vista interesses mais pragmáticos sobre o prédio no qual residem, mas esse sujeito não é um interlocutor, não é percebido de fato.

Submetidos à lógica econômica de configuração do espaço social, a alteridade não é aí vivenciada. O nacional de Dias e Riedweg não remete à semelhança, mas ao estranhamento e à indiferença.

O hall dos edifícios nas metrópoles configura-se como exemplo de não-lugar (AUGÉ, 2005). Aproximando-se dos conceitos de lugar e não-lugar em Augé, a semiótica não interessa a espacialidade como realidade, mas como lugar semiotizado, envolvendo aí as relações de sentido que são atribuídas pelos sujeitos. O não-lugar registra a experiência de uma não-presença, de uma não-conjunção com a espacialidade, como se os sujeitos que passam por ali não se permitissem qualquer forma de relação sensível, como se por aquele ambiente jamais tivessem efetivamente transitado. Como nas figuras do passageiro programado (turista) e do passageiro responsável (homem de negócios), de Landowski, o olhar e a atenção estão num alhures, invertendo de certo modo a relação aqui/não-aqui:

... o espaço-tempo daqui só adquire significado enquanto parte de um todo cujo centro está alhures, na outra ponta do mundo, no ponto de origem do olhar de algum modo transversal – ao mesmo tempo excêntrico e instrumental – que ele dirige, como que por delegação a esse lugar (LANDOWSKI, 2002, p. 79).

No documento http://www.livrosgratis.com.br (páginas 30-115)

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