3. D A V ULNERABILIDADE AO C UIDAR
3.1. Sentidos e rostos de vulnerabilidade
O primeiro passo para o entendimento do cuidar a partir da vulnerabilidade será de tentarmos perceber o que significa ser vulnerável. Nem sempre é fácil percebermos o significado ou o sentido dos termos empregues no dia a dia. A polissemia atribuída a algumas palavras, ou expressões, fazem com que o seu significado mude de acordo com a situação ou a circunstância em que a empregamos e, nesse sentido, também o termo vulnerabilidade, no ―mundo‖ da saúde, é usado com diferentes sentidos. Neves (2006), no seu artigo ―sentidos da vulnerabilidade: características, condições, princípio‖, desenvolve três usos para o termo vulnerabilidade: função adjetivante, condição (humana) universal e princípio bioético.
Se fizermos uma pesquisa pelas bases de artigos de saúde ou bioética, o emprego mais comum do termo vulnerabilidade surge como referência à imperiosa proteção devida aos mais vulneráveis perante a experimentação científica, e ainda em textos de saúde pública e epidemiologia, em inúmeras referências a grupos mais vulneráveis à contaminação ou propagação de determinadas patologias. Falar de vulnerabilidade associado à experimentação científica transporta-nos para o ―Belmont Report‖, enquanto um dos primeiros textos de bioética com referências a este tema. Neste relatório, a noção de vulnerabilidade surge essencialmente com o objetivo de procurar classificar situações particulares de pessoas ou grupos que as coloquem em maior risco perante o interesse da ciência. A história é fértil em situações em que, em nome do progresso científico, se colocaram pessoas que se encontravam em situações de menor proteção (crianças, órfãos,
idosos, prisioneiros, populações pobres, etnias, etc.), em risco acrescido de sofrerem danos ou agressões resultantes de atos experimentais. Nesse sentido, o uso do conceito de vulnerabilidade está essencialmente associado à identificação das características de grupos ou pessoas que as torna mais suscetíveis ou menos protegidas perante as investidas dos abusos científicos. Já no segundo caso, no emprego associado à saúde pública e à epidemiologia, a ideia de vulnerabilidade está associada não só às condições sociais ou físicas e até genéticas do indivíduo, mas também às condições do meio ambiente, às características da sociedade em que está inserido, levando ao uso de terminologias como ―populações vulneráveis‖ ou ―grupos de risco‖. Esta utilização procura referenciar grupos de pessoas que, em consequência de um conjunto de condições associadas ao seu meio envolvente, são expostas a uma maior suscetibilidade ao ―dano‖, à agressão, à doença. No fundo, está subjacente a ideia de que existem ―espaços de vulnerabilidade‖ compostos por algo como um ―clima‖ ou um conjunto de condições favoráveis que expõem as pessoas a maiores riscos, a situações de falta de poder ou controlo, à impossibilidade de mudarem as suas circunstâncias e, portanto, à desproteção (Feito, 2007). A vulnerabilidade surge, assim, como uma qualificação atribuída a pessoas ou populações que resulta de caraterísticas particulares, momentâneas ou ocasionais, pelo que o uso do termo surge como uma ―função adjetivante‖ (Neves, 2006).
Outro significado do termo vulnerabilidade está associado ao seu emprego enquanto ―princípio bioético‖ presente, por exemplo, na Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, 2005), onde o ―respeito pela vulnerabilidade humana e pela integridade individual‖ surge como um dos quinze princípios formulados. Mas, a sua primeira aplicação, neste sentido, surge na Declaração de Barcelona (1998)30. A vulnerabilidade surge entre os quatro princípios propostos por P. Kemp: vulnerabilidade, dignidade, autonomia e integridade. Nesta Declaração, a vulnerabilidade é apresentada exprimindo dois sentidos distintos: a função adjetivante, atrás explicada, e ainda como condição humana universal, que desenvolveremos a seguir. Ou seja, este princípio sublinha a
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Declaração resultante do Programa Biomed II financiado pela Comunidade Europeia dirigido pelo Dr. P. Kemp e que procurou encontrar e fundamentar princípios fundamentais de Bioética condizentes com a cultura europeia.
importância de proteção, cuidado, dos grupos cujas condições os tornam particularmente vulneráveis, realçando aqueles cuja autonomia, dignidade ou integridade pode ser mais facilmente ameaçada; e, ainda, a proteção de todo o ser humano que, independentemente da posse da sua autonomia, dignidade ou integridade, não pode afastar de forma definitiva a ―finitude e fragilidade‖ da sua vida, pelo que a possibilidade de ser ferido em qualquer momento deve criar o dever moral de não ferir (Neves, 2006).
Por fim, falta-nos desenvolver o significado de vulnerabilidade como condição humana universal, sendo esta a aplicação que pretendemos associar ao desempenho do cuidar, referimo-nos a uma vulnerabilidade ―como parte da condição humana‖ (Renaud, 2005, p.405), como realidade constitutiva do ser humano, sendo que desta forma ganha um sentido mais amplo, universal.
Vulnerabilidade deriva do termo latino ―Vulnus‖, que significa ―ferida‖. Mas, como refere Renaud (2008a), ferida evoca, pelo menos de modo simbólico, a abertura sangrenta, dolorosa e sofrida. Neste sentido, de uma forma simples, poderíamos dizer que vulnerabilidade representa a irredutível suscetibilidade do humano para ser ferido, para o sofrimento ou de um modo radical para o desgaste e finitude. No fundo, vulnerabilidade significa a fragilidade e precariedade própria do ser humano, uma exposição a qualquer situação de ameaça ou à possibilidade de sofrer dano.
No seu exercício de viver, o ser humano está exposto a múltiplas situações que o afetam e o fazem perigar: o perigo de adoecer, de ser agredido, de fracassar, de morrer, entre outros, de modo que nos atrevemos a dizer que viver humanamente também significa viver na vulnerabilidade e vivê-la na sua total e complexa realidade. Assim, sendo o ser humano um ser pluridimensional, é também nessa sua totalidade que vive e expressa a sua vulnerabilidade, pois como refere Renaud (2005), ela ―abrange a existência de cada ser humano na sua individualidade mais concreta, isto é, na sua singularidade‖ (p.405). Portanto, viver na vulnerabilidade implica estar suscetível a receber ou a padecer de algo mau ou doloroso como, por exemplo, uma doença, mas também à possibilidade de ser ferido física ou emocionalmente, ou ainda poder ser persuadido ou tentado, ser submetido a situações de ―não poder‖, relembrando-lhe que não é invencível, que não tem controlo de
todas as situações, que é possuidor de limitações. Também, neste mesmo sentido, quando falamos de ―dano‖, este tem de ser entendido na multiplicidade de possibilidades de se manifestar. É certo que o ―dano‖ mais evidente será a ferida, a dor e, no caso mais extremo, a morte, mas ele pode também ser psíquico ou emocional, abrindo desta forma a porta ao sofrimento. Mas, há ainda o dano moral causado pela maldade ou injustiça ou pela possibilidade do desprezo (Feito, 2007). Poderíamos assim dizer que tanto a vulnerabilidade como a causa do ―dano‖ se podem expressar na multiplicidade das dimensões da vivência humana.
Javier de la Torre (2012), fala de quatro rostos da vulnerabilidade: a fragilidade, a nudez, a possibilidade de desprezo e a falibilidade.
A ideia da vulnerabilidade como fragilidade, Javier de la Torre explica-a a partir de M. Nussbaum (1986) e da obra ―The fragility of goodness: luck and ethics in greek tragedy and philosophy‖, onde a autora desenvolve o conceito de ―fortuna moral‖ (―moral luck‖), aplicando-o ao ser humano, lembrando que, no desenvolvimento da sua existência, está exposto à fortuna ou ao infortúnio. Se atentarmos que infortúnio vem de fortuna e que esta deriva do termo grego ―Tiké‖, que significa eventos sobre os quais os agentes humanos não têm controlo, verificamos que a vida humana pode ser submetida a situações difíceis ou impossíveis de dominar. Assim, a ―boa fortuna‖ pode chegar em qualquer momento - uma doença que se cura, um casal infértil que dá à luz, um desempregado que arranja emprego, um jackpot de uma qualquer lotaria… - mas, desta mesma forma, também pode surgir a ―má fortuna‖, como uma doença inesperada, o acidente impensável e para o qual não estávamos preparados, a perda do lugar de trabalho, entre inúmeras possibilidades de situações que nos podem arrastar para a ruina. É certo que quase todos estes factos, todas estas imprevisibilidades, podem ser reparados, mas normalmente exigem tempo…, tempo para curar, tempo para sarar as feridas, tempo para recuperar a autoestima, tempo para recuperar a dignidade e a esperança (De la Torre, 2012).
Neste sentido, o tão desejado e proclamado Homem autónomo, autossuficiente, regulador e construtor da sua vida vê-se comprometido por um aspeto tão simples e tão arbitrário como a fortuna ou o infortúnio. Pode exclamar, ou interrogar-se continuamente sobre ―porquê
eu?‖, ―porquê a mim‘‖ ou mesmo sentir a ―injustiça moral‖ do acontecimento, mas a verdade é que a boa ou má sorte pode influenciar a sua vida em todo o momento. Assim, todas as atividades e relações apontadas como importantes no ser humano, como inseparáveis da constituição da vida boa (o amor, a amizade, as relações humanas, as atividades sociais e políticas), são por definição vulneráveis ao risco, à fortuna, à incerteza. Até a vivência do amor nos torna mais vulneráveis, pois de certa forma nos expõe mais à fortuna ou ao infortúnio, ao medo da não correspondência, ao risco de ser afastado, à possibilidade da dependência, e ao sempre presente risco da perda. No entanto, o amor não agudiza apenas a vulnerabilidade, ele potencia também o próprio amor tão necessário e essencial para uma vida verdadeiramente humana.
Um segundo rosto da vulnerabilidade é a nudez ou, de forma mais compreensível, surge da exposição ao outro na sua nudez, na sua autenticidade, na sua simplicidade. Falar de ―nudez‖ e ―rosto‖ transporta-nos de imediato para o universo Levinasiano e para a relação entre o ―eu‖ e o ―outro‖, enquanto originariamente ética. Neste sentido, poderíamos referir que nos estamos a debruçar sobre uma vulnerabilidade ética, assente no desafio à responsabilidade de todo o ―eu‖ perante qualquer ―outro‖ desnudado. O ser humano é um ser social e, por isso, exposto ao outro, sempre sujeito ao encontro. Mas, o encontro verdadeiro é aquele que acontece face a face, em que o outro se apresenta pelo ―rosto‖, um ―rosto‖ que não se limita à face mas que está para além da perceção (Almeida, 2007). Neste sentido, apresentar-se pelo ―rosto‖ significa apresentar-se ―…na sua nudez, ou seja, na sua miséria e na sua fome‖ (Lévinas, 1980a, p.174), sendo que essa nudez é ao mesmo tempo exigência de resposta, de responsabilidade. Uma responsabilidade pelo outro que não é algo optativo, mas que surge como que uma chamada a qual estamos impedidos de rejeitar. Para Lévinas, o outro que me surge como rosto, que me olha através de ―um desnivelamento metafísico‖ (Lévinas, 1980a, p.59) impele-me a entender a sua miséria, a sua necessidade de justiça, levando o ―eu‖ a descobrir-se como responsável (Almeida, 2007). Assim, a ―subjetividade humana‖ é uma responsabilidade pelo outro, uma vulnerabilidade extrema ao rosto do outro, o ―eu‖ vulnerável à vulnerabilidade do outro (De la Torre, 2012).
O terceiro ―rosto‖ da vulnerabilidade surge sob a forma de desprezo. A nossa condição de ser social coloca-nos permanentemente frente ao outro, frente à sociedade, na qual nos inserimos e na qual buscamos um papel mais ou menos relevante, mas que seja fundamental para a construção da nossa identidade. Nesta exposição social, cada homem vê-se perante a possibilidade de ser respeitado ou desprezado, de ser reconhecido ou ignorado. De acordo com Charles Taylor, num contexto de pluralidade cultural como aquele em que vivemos, o reconhecimento da identidade individual, da nossa identidade é uma necessidade fundamental para a realização de qualquer ser humano. A ―política de reconhecimento‖ deste autor aponta não só para a necessidade de correção das desigualdades ou discriminações, mas também para o estímulo à aceitação das diferenças, da pluralidade, da diversidade cultural. Assim, neste pressuposto, ―o não reconhecimento ou o reconhecimento incorreto podem afetar negativamente, podem ser uma forma de agressão, reduzindo a pessoa a uma maneira de ser falsa, destorcida, que a restringe‖ (Taylor, 1994, p.45). Desta forma, a falta de reconhecimento e o desprezo causam dano, oprimem, aprisionam a pessoa num modo de ser que não ―é‖ porque é falso e, por isso, tornam-na vulnerável. Esta possibilidade, de acordo com De la Torre (2012), supõe um ―perigo profundo que fere e desmorona a identidade da pessoa‖ (p.18).
Por fim, o quarto rosto da vulnerabilidade surge pela debilidade/falibilidade. Esta ideia é particularmente desenvolvida por Paul Ricoeur em ―L´homme faillible‖, segundo livro da obra ―Philosophie de la volonté‖. Aí, o autor apresenta-nos o homem marcado pela constante tensão provocada pela sua finitude face à sua ânsia de infinitude. Tensão que o transforma num ser frágil enquanto ser incapaz de ser ―aquilo que é‖, de nunca ser ele próprio. Esta característica global consiste numa espécie de ―não coincidência do homem consigo mesmo‖ (Ricoeur, 2009, p.37), sendo que é esta desproporção que o expõe à possibilidade de falhar, à falibilidade, e que não é mais que a abertura da porta ao mal. Neste sentido, a debilidade/falibilidade exprime-se na possibilidade do fracasso, da queda, do mal moral, do desmoronamento, sendo que, mais uma vez, a sua existência relacional o coloca numa conjuntura dialógica de ser ―sujeito do mal‖ e, ao mesmo tempo, ―sujeito ao mal‖, de ―pecador‖ e ―vítima do pecado‖, ou seja, coloca-o no centro da reflexão sobre a relação entre o mal cometido e o mal sofrido (Vieira, 2002).
Para explicar esta ―falha‖, esta fragilidade humana, o autor desenvolve o que ele chama de ―patética da miséria‖, onde a miséria é ―limitação originária e mal original‖ (Ricoeur, 2009, p.46), é referência de uma insuportável condição de mortal que leva o homem a tentar iludi-la, a ocultá-la, só que esta ilusão promove um homem fraco, impotente, falível. Assim, este quarto rosto da vulnerabilidade transporta-nos para o homem enquanto veículo do mal, lembrando que a maioria dos sofrimentos dos homens é infligida pelo próprio homem, pela violência, pelo erro.