CAPÍTULO 6: DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
6.2 Análise da entrevista no nível organizacional
6.2.3 Sequências textuais e outras formas de planificação
Com relação às sequências textuais, é necessário considerarmos que, em se tratando de uma entrevista, gênero marcado pela alternância de turnos de fala, o texto resultante pode ser considerado, globalmente, como composto pela sequência dialogal, haja vista as três fases básicas de que é composto: abertura, operações transacionais e fechamento (Cf. MACHADO, 2005, p. 247). Essa sequência compõe o discurso interativo, especialmente ao considerarmos a relação de complementaridade entre os turnos de fala, apontando para o engajamento entre os participantes da interação. Como exemplo, podemos apresentar os turnos iniciais da entrevista:
T1: então tá... teu nome éh?
T2: XXXXX...
T3: X-XX-XXX-XXX...
T4: uhum....
T5: ok... XXXXX que idades tu tens? desculpa a indiscrição... {mas eu tenho
que te perguntar... trinta e um...} (T1-T5)
Ainda considerando as partes da entrevista em discurso interativo, vemos a presença das sequências explicativas, por meio das quais a entrevistada visa a que o entrevistador compreenda certos aspectos de sua formação, sobre os quais demonstra ter certeza. Considerando que essa sequência é composta pelas fases de constatação inicial; problematização; resolução ou explicação e conclusão- avaliação, vejamos como isso acontece em alguns fragmentos extraídos de nosso corpus:
T16: certo... essa... ahn.... essa questão do vestibular pro curso de letras...
foi por quê? Por que surGIU ou por que tu tinha desejo já?
T17: porque eu já tinha o desejo... sempre tive interesse pela área das letras...
T18: aham... (T 16-18 – grifos nossos)
T20: uhum... e por que de onde éh que vem esse interesse? de onde éh...
que veio esse interesse?
T21: bom... primeiro porque eu sempre gostei de LÊ... de ESCREVÊ... eu acho que eu tenho bastante facilidade...
T22: aham...
T23: ahn... e sempre... escrevi muita poesia... componho músicas... (T 20- 23 – grifos nossos)
T27: então.... basicamente foram por três motivos que eu procurei o curso de letras... primeiro... porque eu já tinha uma afiniDADE...
T28: uhum...
T29: segundo... porque eu tomei conhecimento... desse curso dessa metodologia que eu achei muito boa... e em terceiro lugar... foi pra quebrar um galho na escola mesmo...
T30: hum...
T31: porque nós temos uma professora... excelente professora... mas que todo ano... ela entra em licença por problemas... {de saúde...} de saúde... e aí... fica aquela lacuna... já de mais de dez anos que eu tô na escola... ou de não mandarem professor... se o período não é maior que trinta dias... ou vem alguma pessoa que tá totalmente desconectada da escola... e não faz um trabalho de continuidade com os alunos... né...
T32: fica {um corte... aí eu PEN-sei}
T33: assim... porque a gente já entra... eu sou supervisora também... aí a gente entra pra... quebrar um galho... mas se eu tivesse uma qualificação... poderia dar uma sequência no trabalho...
T34: uhum...
T35: então... ((ruído)) foi por esses três motivos... (T 27-35 – grifos nossos)
Nos excertos, vemos as fases de problematização e de explicação, sendo que a primeira é lançada pelo pesquisador, o qual propõe questionamentos sobre as razões que levaram Ana para o Curso de Letras. A resposta dada pela entrevistada funciona como explicação para as perguntas, ao apresentar os motivos de sua ação. Ao final, a entrevistada ratifica o que acabara de explicar, o que se configura na fase de conclusão da sequência explicativa.
Passando às partes da entrevista organizadas pelo relato interativo, vemos que elas não são compostas pelas sequências textuais típicas, tais como propostas por Adam (2010). Ao contrário da sequência narrativa, a qual é composta por fases, que vão do equilíbrio inicial, passando por uma complicação, ações e resolução, Bronckart (2009, p. 238) propõe que segmentos pertencentes à ordem do narrar nos quais as ações são colocadas em ordem cronológica, sem que haja qualquer
tensão, enquadram-se em uma outra forma de planificação, o script. Observando o texto da entrevista, vemos que se trata dessa configuração textual, haja vista que a entrevistada, ao ser questionada sobre momentos específicos de sua formação, traz esses acontecimentos de modo sequencial, na ordem em que ocorreram:
T7: ah... eu acabei o ensino médio... curso normal...
T8: aham...
T9: aí::...
T10: ah... fizeste normal?
T11: fiz o curso {normal... uhum...} aí... depois eu comecei direto a atuar no magistério nas séries iniciais... depois eu fiz um curso de pedagogia em dois mil e um...
T12: uhum...
T13: aí acabei em dois mil e... cin-co... depois eu fiz um curso de pós- gradua-ção em:... gestão escolar dois mil e sete e dois mil e oito...
T14: uhum...
T15: e aí... em dois mil e DEZ... eu prestei o vestibular pra... pro curso de letras... (T7-15 – grifos nossos)
Nesse trecho de relato interativo, a entrevistada narra acontecimentos importantes de sua formação, desde o Ensino Médio Normal, passando pela atuação no magistério, Curso de Pedagogia, Pós-Graduação em Gestão Escolar até chegar ao Curso de Letras. Esses acontecimentos não são organizados em torno de algum tipo de intriga; pelo contrário, organizam-se em sequência, seguindo a sucessão temporal, a qual é marcada por sequencializadores típicos da oralidade, os quais grifamos na transcrição.
No decorrer da entrevista, há outros momentos de relato interativo compostos basicamente pelo script:
quando questionada sobre os tempos da escola (Ensino Fundamental e Médio);
nos momentos em que faz referência a professores marcantes do período escolar;
quando relata sobre o tempo em que trabalhou na Coordenadoria de Educação (CRE);
sobre o ingresso no primeiro estágio;
sobre o apoio que recebeu em uma disciplina sobre Gêneros Textuais para o ingresso no primeiro estágio;
quando relata o ingresso no Estágio no Ensino Médio;
sobre os planejamentos para o estágio no Ensino Médio;
sobre as aulas ministradas no estágio realizado no Ensino Médio;
sobre a proposta de seminário que ajudou a organizar na escola onde atua como supervisora.