4 DA ANÁLISE
4.2 PRA CASAR? | SEXUALIDADE E MATERNIDADE
4.2.2 Ser esposa
Perguntei, então, de volta ao questionário, sobre casamento. Metade delas são casadas (não necessariamente no sentido tradicional do termo, mas partilham uma vida familiar com um companheiro ou uma companheira) e mais de 25% são separadas.
Entre as casadas, 15% delas destacam que são casadas com homens estrangeiros. 40% vê a companheira ou o companheiro como um incentivador, alguém que apoia, mas que não interfere diretamente no trabalho. 25% tem o parceiro ou a parceira da relação afetiva também como um parceiro ou parceira da vida profissional, alguém que auxilia e/ou possui uma cumplicidade na prática fotográfica, acompanhando o trabalho de perto e influenciando. E outros 15% comentam que, muitas vezes, veem o casamento, por mais harmônico que seja, agindo de forma opressora, já que provoca um deslocamento de prioridades, tirando-as de si mesma e as colocando no outro ou na relação; ou veem que a profissão pode ser vista como uma rival na relação a dois, que pode ser decisiva para o fim.
Entre as separadas e solteiras, perguntei se elas pretendiam se casar. 35% delas disseram que não. Outros 35% dizem que sim (metade destas destaca que isso não é um plano para um futuro próximo). E os outros 30% dizem que talvez se casem, pois gostam de namorar, de se relacionar, mas não pensam em formatos tradicionais e nem acreditam em compromissos que durem para sempre.
Também perguntei às fotografas no questionário como é sua relação com os homens e as mulheres da família. De forma geral, cerca de 45% delas tem uma relação no mínimo amistosa com ambos. São convivências que podem envolver alguns embates e desgastes cotidianos, sobretudo por conta de machismos, mas que prezam por tranquilidade e respeito, e
até envolvem certa intimidade e cumplicidade (principalmente com as outras mulheres). Por outro lado, cerca de 50% delas destacam processos problemáticos, conflituosos e/ou dolorosos com os homens da família, como pais agressivos e violentos ou completamente ausentes, por exemplo; ou abusos e assédios sofridos, sobretudo por parte de primos; ou mesmo incompreensão, distanciamentos, silenciamentos e submissões femininas. Os outros 5% das fotógrafas relatam situações familiares atípicas, como homens muito tímidos e/ou ditos “femininos” e/ou parceiros.
O casamento com homens é uma instituição historicamente complicada e confusa para as mulheres, principalmente por conta de como os papéis de gênero se estabelecem nas relações. Assim concluímos ao escutarmos as fotógrafas entrevistadas. Ao partilharem suas vivências e histórias familiares, podemos traçar um perfil sobre o que implicam certas escolhas posteriores. Veremos que muitas histórias são fundamentadas em casamentos que aconteceram sem amor, por exemplo:
Então, no caso, por exemplo, da minha tia mais velha: um cara quarenta anos mais velho se apaixonou por ela e jogou um pacote de bombom pela janela. Na época ela tinha catorze anos. E aí o meu avô entendeu que, se ele jogou o pacote de bombom, é porque ela tinha dado “cabimento”, e fez ela casar com ele. Tá entendendo? Ela conta uma história que o primeiro ano de casamento era ele tentando transar com ela e ela correndo. Eu nunca ouvi uma versão do meu pai sobre o casamento dele com a minha mãe. A versão que eu sei é a da minha mãe: ele tinha sido um oficial de justiça que foi trabalhar na cidade dela. E sempre existia essa cultura de encanto das pessoas pelo forasteiro, pelo homem da lei, né? Ele era colocado no perfil sócio- cultural-econômico, como uma figura interessante. É aquele cara que vai prover as necessidades básicas de uma moça de interior, que precisa se casar. Então, o que ela diz é que ele cortejava ela e que ela não levava a sério. E que, um belo dia, ela chegou para trabalhar e descobriu que estava casada no civil com ele. Ela ganhava na época um salário que era quase equivalente ao dele, se não fosse maior [depois de casada, ela deixou o emprego]. E aí o que ela diz é que a minha avó entregou a ele os documentos dela para fazer o casamento. Ela foi casada antes de saber. Entendeu?
A avó de outra fotógrafa também diz ter se casado em um “casamento surpresa”, no qual, o noivo, o avô da fotógrafa, também tinha o perfil do “forasteiro”:
Não posso dizer que é verdade, nem dizer que é mentira. Mas existe aí essa conversa. Ele era caixeiro viajante comerciante. Eu sei que vovô era bem mais velho que vovó, uns cinco anos no mínimo, e aí tem uma história de que eles fizeram um casamento surpresa. Ela disse que naquela época tinha uma tradição de casamento surpresa, que era assim: suas amigas chegavam na sua porta e diziam: “fulaninho está te esperando lá no altar pra casar contigo”. Vê que história! Tu já ouvisse falar de casamento surpresa?
Casamentos arranjados e indesejados não eram incomuns às mães e avós das fotógrafas entrevistadas. “Na época dos meus pais, as famílias é que se conheciam, né? Apresentavam os filhos e os filhos se casavam. Era uma coisa meio arranjada. Meu pai talvez, não fosse o homem que minha mãe escolheria pra casar, entendeu? É tanto que eles se separaram. Mas ela teve quatro filhos com esse homem”, relata uma das entrevistadas.
Nota-se também uma resistência histórica à separação por conta de uma suposta obrigação social de manter-se casadas, mesmo que infelizes. O divórcio era tido como um fracasso. Muitas mães e avós das fotógrafas se separaram, porém tardiamente, depois de um longo processo de sofrimento e até mesmo encarceramento dentro de casa. “Minha avó sofria muito. Ela pensava muito por causa dos filhos. Tanto que, pra sair de casa, ela sentou com os filhos e perguntou se queriam que isso acontecesse. Só que meu avô era rico e não deixava minha avó estudar nem trabalhar”, conta outra. As mulheres não foram socializadas para serem as próprias condutoras de suas escolhas.
A avó de uma das entrevistadas, quando estava morrendo, chegou a pedir para a sua irmã casar-se com o próprio marido. E, para que o homem, que era cunhado, não ficasse “desamparado, sem mulher para cuidar dele, para servi-lo”, a irmã casou-se.
Já a avó de outra teve que mudar de cidade e casar-se com um desconhecido porque havia engravidado quando ainda estava solteira:
O meu bisavô não é o meu bisavô. Minha bisavó teve quatro filhas. Só que a primeira, que é a minha avó, não é filha do meu bisavô. Em 1920, minha bisavó achou por bem engravidar de um namorado que engravidou várias mulheres na mesma época. Eles moravam em uma outra cidade. Na época, era uma coisa muito feia a mulher engravidar fora do casamento. Era uma desonra enorme pra família. E ela tinha 3 irmãos, ela era a única mulher. E aí, minha tataravó disse: “a gente vai embora daqui” e foram. Meus tios, os irmãos da minha bisavó, foram antes para tentar conseguir um casamento pra minha avó, que ela já estava grávida e ela não podia ter o filho sem estar casada. Arrumaram um que estava querendo casar e aí pronto. Ela já casou grávida e meu bisavô sabia. Minha avó odiava meu bisavô. Ela não fala sobre o assunto. Inclusive, ela fica super ofendida se tocar nesse assunto, porque para ela é uma desonra ela não ser filha de um casamento. Ela não chamava ele de pai, mesmo tendo sido criada por ele. E aí eu não sei se ele fazia alguma distinção ou se a maltratava.
Outras fotógrafas contam que suas mães, antes de viverem o casamento com seus pais, viveram romances com outros homens, com quem nunca se casaram. Uma delas conta:
Mamãe foi apaixonada por uma outra pessoa, e os pais desse homem se separaram. Aí vovô não queria esse namoro. Então, ficou um amor proibido. Mas foi uma paixão enorme e proibida. E papai era bonitão e começou a paquerar mamãe, que já estava desiludida. Aí pronto. Começou a namorar, casou, mas não casou apaixonada.
Os pais dessa fotografa também acabaram se divorciando.
A mãe de outra fotógrafa foi cortejada sempre por homens muito mais velhos, inclusive o pai da fotógrafa. Não era incomum casos de relacionamentos que hoje configurariam como pedofilia ou como abuso sexual de menores, sempre com homens muito mais velhos e mulheres novas demais.
“Eu não via amor. Eu via uma mecânica do casamento”, define uma das fotógrafas ao falar das histórias de sua avó e de sua mãe. Essa mecânica, que não preza pelo afeto, pelo
desejo e nem pelas livres escolhas das mulheres, é a base de muitas das construções familiares na realidade nordestina das fotógrafas entrevistadas.
Também há relatos de histórias de amor familiares, de casamentos que trouxeram felicidade, de parcerias que deram certo. Porém, eles são a exceção. E vale destacar que mais de um deles envolvem uniões que aconteceram após uma primeira separação, de um casamento infeliz.
Quando perguntamos às fotógrafas entrevistadas, o que elas acham do casamento enquanto instituição, os depoimentos são muito variados. Contudo, há um entendimento em comum no que diz respeito ao rompimento com a estrutura normativa, ao menos na cultura padrão recifense (de forte influência católica). Todas as entrevistadas fogem à compreensão tradicional, que estabelece o casamento na compreensão patriarcal como fórmula a ser seguida.
Algumas entrevistadas, em consequência a um (ou mais) relacionamento danosos que tiveram, preferem evitar compromissos. Além disso, as cobranças sociais também provocam uma certa aversão. Uma das fotógrafas diz que seu primeiro namorado de adolescência hoje já é pai de muitos filhos, enquanto ela não tem nenhum. Para ela, ver que ela não seguiu aquele caminho ao lado daquele homem é um alívio. Outra fotógrafa comenta que sente uma pressão por parte da família: “Com a minha idade, a minha irmã já tinha filha e a minha mãe já era casada. Sinto muito essa cobrança”, desabafa. Uma terceira entrevistada, por exemplo, me relatou que seu primeiro namoro durou muito tempo. “A gente achava que ia envelhecer junto. Com vinte anos, eu pagava apartamento”, conta. Ela diz que, ao romper com esta primeira relação, ela rompeu também com uma certa idealização do casamento. “As famílias ficaram muito sentidas, tanto a minha quanto a dele. Foi um rompimento, assim, com essa estrutura mais normativa”, complementa. Depois deste primeiro namoro, ela se envolveu em uma relação que tinha uma dinâmica oposta: “pareciam dois hippies, a falta de limite dele me soava como muita liberdade. Só que essa falta de limite e essa liberdade que eu experimentei, tão intensa, virou minha prisão”, diz, ao narrar como viveu um relacionamento, segundo ela mesma, extremamente abusivo.
Uma das entrevistadas, diz que em um primeiro momento, resistiu a se envolver e se relacionar, depois de algumas decepções dentro do seu próprio núcleo familiar: “Quando meus pais se separaram, eu fiquei adolescente meio revoltada com esse papel do homem na concepção de família, sabe? Adolescente, eu botei na cabeça que eu nunca casaria, nunca teria filho e fiquei um ano sem falar com o meu pai”. Depois de um tempo, tudo mudou e ela também se viu dentro de um primeiro namoro muito longo e idealizado: “a gente pensava em
casamento, a gente tinha um roteiro bem ‘comercial de margarina’. Família. Tinha os nomes dos ‘pirralhas’. ‘Vamos ser felizes para sempre’. Era bem o ideal romântico dos relacionamentos”. Hoje ela se sente mais tranquila: não há ansiedades nem para estar só e nem para estar acompanhada.
A vivência de relações não só frustrantes, mas violentas, com homens, é muito comum nos relatos. Porém, há aquelas que acreditam, acima de qualquer instituição, em uma parceria que pode ressignificar o casamento: “eu acredito em união, eu acredito em cumplicidade. Acredito que a pessoa pode achar outra com quem as ideias batam. Eu acho que deve nascer de uma amizade.”, diz uma delas. A ideia, segundo elas, é que o que aprendemos historicamente sobre casamento, enquanto instituição (sobretudo religiosa), deveria se tornar outra coisa, mais leve e amorosa:
Meus pais se casaram no religioso. Existem essas fotos. São muito singelas, muito bonitinhas mas que, pelo menos eu, que analiso as fotografias hoje, vejo ali nitidamente uma execução de um papel social. Tá entendendo? Eu não acredito que você vai na frente de um padre fazer uma promessa de parceria com alguém, quando, na verdade, essa parceria é uma construção diária. E outra: o que é esse cerimonial do casamento, né? O pai entregando a filha pro marido, quase transferindo uma titularidade. Eu não me vejo nesse lugar. Eu nunca quis casar. Porém, eu achava que a minha existência se potencializaria muito se eu tivesse alguém com quem eu pudesse dialogar, alguém que fosse quase cúmplice. Entendeu? Alguém que lhe entendesse e que você entendesse.
Essa entrega a uma tentativa de parceria, de modo geral, é frustrada, não porque as relações podem ter fim, mas porque os parceiros não entendiam a relação da mesma forma. O machismo e o controle predominam nas relações heteroafetivas experimentadas pelas mulheres fotógrafas do Recife, que costumam ser abusivas. As histórias positivas de casamento relatadas envolvem homens de fora do Recife (muitas vezes, de fora do Brasil).
Uma entrevistada, que está casada, diz que a sua experiência positiva envolve amizade e colaboração com o marido: “a gente já era amigo antes, melhores amigos, a gente se gostava como pessoas”. Todas que mencionaram o desejo de construção de uma estrutura familiar baseada no casamento, esperam que esse seja um lugar de respeito e diálogo, de flexibilidade e confiança, mesmo que sempre haja diferenças.
Por outro lado, muitas entrevistadas deixam claro que não simpatizam com a ideia de casamento em si. Uma das fotógrafas que nega o casamento enquanto instituição, inclusive, nunca casou-se:
Vê que coisa: eu, muito criança, ia visitar os meus avós, e existia o quarto da minha avó e o quarto do meu avô. Eles não dormiam no mesmo quarto. Eram super educados um com o outro, sabe? Mas não havia carinho. Meus pais também. Então, achava o casamento, já ali, criança, uma coisa totalmente falida, uma coisa antiga. E até hoje. Quando eu tinha oito anos, eu dizia que, quando eu fosse adulta, casamento seria uma coisa de antigamente. Eu sou romântica até demais. Só essa instituição, o
casamento, que eu acho ultrapassada. Eu sou amadora demais em termos de relação. Todas as minhas relações foram muito pequenas. A relação mais recente que eu tive foi de um ano. Um ano em que, no final das contas, não ficou configurado nada.
Outras atualmente acham que o casamento não é uma boa ideia após vivenciarem algumas experiências. Uma das entrevistadas, por exemplo, casou-se ainda muito nova sem ter uma boa compreensão do que estava fazendo:
Eu não quero casar e não quero ter filhos. Essa foi a primeira questão que me afastou muito das mulheres da minha família. Eu me “ajuntei” – como a gente diz aqui, né? – por 14 anos. Mas eu não fiz porque eu amava. Hoje eu tenho total consciência. Eu fiz porque eu queria sair de casa, como muitas meninas fazem. E, quando eu percebi que eu não tinha mais vida, e minha vida estava completamente submetida a um homem. Ele era muito mais velho do que eu. Eu tinha 17 anos, ele tinha 32. Foi absurdo.
A fotógrafa Mila Souza, diz, brincando, que, desde que conheceu o laboratório fotográfico, decidiu que vai “casar com um pote de nitrato de prata”, ou seja, o trabalho é a prioridade da vida dela. Há quem, mesmo tendo casado mais de uma vez, diga que sempre rejeitou o casamento e continua rejeitando:
Eu sabia que eu não ia casar. Era uma coisa que eu sabia. Desde criança. Tinha uma escola chamada Escola Doméstica, onde as mulheres iam pra se preparar pro seu esposo. E eu tinha medo de passar até na frente dessa escola. Eu não aprendi nem a bordar nem a costurar por conta dessa escola, porque eu tinha medo de me tornar uma dona de casa. Eu casei quatro vezes, mas nunca de papel. Aí já começam as cobranças, já não é mais essa liberdade toda. Dá muito trabalho casar! Deus me livre!
Outra fotógrafa narra, com bom humor que, após acompanhar por anos o seu ex- marido, pautada principalmente nos planejamentos dele, foi traída de forma dramática: “no meio da minha depressão, rolou um ‘chifre clássico’, em que eu fui encontrar ele sem avisar e eu peguei ele com outra na cama. Na época, eu escrevia muito. Aí ele começava a chorar e dizia: ‘isso vai virar um curta!’. E eu: ‘vai!’”, conta, aos risos, mesmo destacando que o ocorrido desencadeou uma série de situações traumáticas. Ela percebeu que o casamento a tinha deixado em uma espécie de solidão e dependência emocional: “eu não tinha pra quem ligar. E eu ligava pra ele, pra me consolar. Muito por conta dessa história, até hoje eu tenho uma certa dificuldade de me relacionar por mais tempo com pessoas, porque foi muito traumatizante eu perceber que eu não tinha vida. Eu não sabia o que eu queria da minha vida”. E conclui: “eu não acredito em casamento. Felizes para sempre não é algo de que eu comungue. Até porque eu trabalhei muitos anos com fotografia de casamento e é uma grande farsa. Eu acredito em viver um dia após o outro. Eu acho que pode durar muito e acho que pode durar muito pouco”.
Assim como ela, outras fotógrafas entrevistadas possuem suas experiências no ramo da fotografia de casamento e não pretendem se casar. Uma delas diz: “nunca tive vontade de
casar. Desde que comecei a fotografar casamento que todo mundo pergunta: ‘e, quando tu vai casar, quem vai fotografar?’ Não aguento mais ouvir isso. Nunca pensei, eu nunca tive vontade”, diz.
Várias fotógrafas, ao falarem sobre casamentos, abordam a experiência de trabalhar fotografando as cerimônias. Maíra Erlich e Carol Pires, as mais especialistas no ramo, falam das suas relações com os clientes. Ambas ficam amigas das noivas que fotografam. Carol já teve festa de aniversário surpresa organizada pelas “ex-noivas” que fotografou. Maíra conta que, durante eventos, já foi surpreendida, por exemplo, por uma refeição vegetariana feita exclusivamente para ela, que não come carne, e por um bolo personalizado no dia do seu aniversário.
Quase todas as fotógrafas que participaram da pesquisa fotografam ou já fotografaram casamentos. A experiência desta prática está vinculada ao modo de compreender a instituição. A cerimônia possui uma carga social muito significativa, que as faz rever e repensar seus lugares dentro desse sistema familiar em que fomos postas. Uma das entrevistadas conta:
Se eu chorei nos casamentos? Milhares de vezes. Todas as vezes. Seis meses antes de eu me separar, meus pais se separaram. Então, eu chorava por tudo. Eu chorava porque minha família tinha acabado, eu não tinha mais pai com mãe, não tinha mais marido, não tinha nada mais. Me sentia completamente sozinha em Recife. Tinha as minhas amigas, mas eu me sentia muito só. Meu pai estava com outra mulher e minha mãe com ciúme e machucada, com razão. Eu digo que eu não fotografava casamento, eu fazia terapia. Eu ia lá fazer terapia nas igrejas. Fotografar casamento era uma cura e foi uma cura muito importante pra mim, porque casamentos dão certo e não dão certo, depende das pessoas, depende das histórias. Depende de muitas coisas, né? De boa vontade, paciência, de os dois quererem que funcione, essas coisas. Mas eu acredito em casamento, tanto que eu casei de novo.
Contudo, a maioria das fotógrafas, mesmo gostando de fotografar cerimônias, destaca que é difícil manter-se positiva ao notar que muitos noivos e noivas ainda estão se casando como exercício de um papel social, atuando como um personagem. Quando isso acontece, essa mecânica influencia diretamente (de forma negativa) na prática fotográfica e nas imagens. Além disso, há também quem destaque os limites postos pelos protocolos do cerimonial. Uma das entrevistadas diz que deixou de fotografar casamentos porque: