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4 DA ANÁLISE

4.2 PRA CASAR? | SEXUALIDADE E MATERNIDADE

4.2.4 Ser sexual

A autonomia em relação à dependência emocional e financeira de parceiros influencia diretamente no trabalho das mulheres, assim como na forma de conduzir sua sexualidade. Perguntei no questionário sobre a orientação sexual das fotógrafas. Metade delas se afirma objetivamente como heterossexuais e apenas uma fotógrafa se define como homossexual. Ou seja, há, por parte de muitas delas (quase a outra metade), um interesse em demonstrar certa fluidez no quesito sexualidade. As orientações são nuançadas e estão atravessadas por uma teia de questões, inclusive relativas à afetividade e ao desejo por experimentações.

25% entre todas dizem possuir uma orientação heterossexual, porém de forma não objetiva, destacando ressalvas: reforçando a falta de preconceito com outras práticas, por exemplo; ou demonstrando abertura – “a princípio, hétero”, disse uma – e inclinações declaradas à bissexualidade; ou mesmo usando expressões que sugerem um contexto possivelmente mutável – “atualmente, hétero”. E mais de 20% entre todas declaram exercer

outras formas, menos normativas, de sexualidade: algumas se dizem bissexuais; outras dizem gostar de “todas as orientações” ou se definir como “curiosa”; outra fala em uma orientação simplesmente “afetiva”; e uma se diz literalmente “confusa”, por exemplo.

Entre as entrevistadas, a sexualidade possui um perfil similar a este traçado através do questionário: a maioria se afirma heterossexual, porém muitas se mostram abertas a experimentações ou já experimentaram outras práticas. Uma delas menciona que teve duas namoradas mulheres, mas que não costuma paquerar ou se relacionar com pessoas do mesmo gênero. “Eu acho que eu tive tesão por essas duas mulheres em especial, sabe?”, diz, justificando que de modo geral se relaciona afetiva e sexualmente com homens. Outra narra que se relacionar com mulheres fez parte de um processo de descoberta, de explorar possibilidades: teve uma namorada na adolescência por curiosidade. “Foi uma fase, bem pontual”, diz. “A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina”, comenta Muraro (2015, p.17).

Da mesma maneira com que algumas fotógrafas ditas “hétero” já passearam por experiências “homo”, uma entre as que se declaram como lésbicas diz que também esta não é uma categoria estanque para definir sua sexualidade: “Não sei se eu sou homossexual. Eu acho que eu sou bissexual, na verdade. Mas aconteceu de as pessoas interessantes terem sido mulheres. Eu não me considero ‘gayzíssima’. Acho que, se tivesse aparecido algum homem muito interessante, provavelmente, eu teria namorado, casado, tanto quanto com qualquer mulher”, conta. O problema, segundo ela, é que todos os homens, olhados mais de perto, decepcionam com posturas machistas.

Sobre o desenvolvimento da sexualidade, as entrevistadas relatam o início de seus processos e suas experiências. A virgindade ainda foi um tabu para muitas. Há uma “dinâmica de vigilância, essas estratégias de controle”, como diz uma delas. A pedagogia é proibitiva e se reforça através do medo: medo de ficar grávida, medo de adoecer, medo de ficar mal falada na vizinhança e na família. Muitas entrevistadas, por mais que o perfil da fotógrafa seja desbravador e aventureiro, que preza por autonomia, como abordado em vários momentos nesta tese, consideram que tiveram um início tardio da vida sexual, geralmente com o ingresso na vida universitária.

Uma das entrevistadas contextualiza:

Essas coisas de sexualidade, eu sou uma pessoa que descobriu muito tarde. Até mesmo para perder vergonha. Isso foi muito tarde, porque a educação era muito rígida. Eu sempre fui muito observadora e sempre gostei de olhar capa de disco,

desde criança. Então, eu passava horas olhando essa contracapa108. Esses beijos, que são superintensos, né? E aí minha mãe estava passando pano na casa, esse disco estava tocando e eu olhando a contracapa. Eu cheguei para ela e disse: “mãe, isso aqui é que é sexo, é?”. Aí levei uma bronca. E uma vez, também, eu fui muito repreendida porque eu passei o batom da minha mãe. Ela veio dar um tapa em mim, né? Aí meu pai: “tá parecendo uma meretriz!”.

Figura 9 – Contracapa do disco Álibi (de 1978), de Maria Bethania

Outra fotógrafa diz que, apesar de ser muito “descolada”, nunca colocou as questões de sexualidade em lugares muito centrais da sua vida. Há, por parte de muitas, o entendimento de manter uma vida sexual um tanto preservada da vida social, além da tentativa de encontrar prazer em outras atividades (como o próprio trabalho, para muitas delas). “Às vezes eu passo uma época meio louca, mas eu sou muito discreta. Quando eu dava aula, um amigo achava que eu era lésbica. Ele disse: ‘é porque eu nunca te vejo com ninguém’. Então, eu tenho essa coisa de ‘meu mundo, minhas relações’”, conta uma das entrevistadas.

Do mesmo jeito que é preciso considerar questões interseccionais ao falarmos sobre o lugar particular da mulher negra109, por exemplo, como tentamos mencionar ao longo desta tese, é preciso destacar também que, as causas das mulheres, além de serem atravessadas por

108 Do album Álibi (1978), de Maria Bethania

109 E, apesar de não terem sido relatadas especificamente pelas fotógrafas negras que fazem parte desta pesquisa

(provavelmente por falta de uma pergunta mais direta da minha parte enquanto pesquisadora), questões com abordagens próprias à sexualidade da mulher negra são temas de grande importância dentro do debate feminista, como a objetificação sexual, o estigma da promiscuidade e a solidão.

questões étnicas, raciais, regionais, culturais como um todo110, etc., elas também passam pela complexidade que envolve as próprias questões sexuais e de gênero não normativas. Mulheres lésbicas e pessoas trans, por exemplo, partilham processos que destacam reflexões importantes dentro do feminismo. Não é o foco desta tese abordar essas questões específicas. No corpus de análise principal desta pesquisa, por exemplo, não há a presença de pessoas trans, o que pode (e deve), enquanto ausência, ser um dado de análise e crítica contundente a ser trabalhado em outro momento.

Eu desconheço homens trans no meio fotográfico do Recife. A única mulher trans, com quem tive contato através desta pesquisa, Mel Castro, deixou a fotografia durante o processo de transição. Ou seja, ela era um fotógrafo homem (homossexual), mas, hoje, enquanto mulher (heterossexual), trabalha em outra área. Em nossa conversa (que não configurou uma entrevista no mesmo molde das outras), ela me informou que a mudança na profissão se deu atrelada à sua transição.

Mel, antes de iniciar a transição, fez faculdade de Fotografia e trabalhava na equipe de fotógrafos de um jornal, quando entendeu que sua identidade de gênero era feminina. “Eu já era um gay afeminado”, conta. Assumir sua identidade de gênero enquanto mulher trans, naquele contexto, a deixou com medo. No início da transição, com o processo hormonal, ela tentou disfarçar, mas a necessidade de se assumir “sem máscaras” falou mais alto. “E eu não conseguiria estando naquele ambiente”, complementa. Mel, então, deixou a fotografia por conta dos receios que a atravessavam trabalhando na redação do jornal, que, como já abordado no capítulo 4.1., é considerado um ambiente hostil em relação às questões de gênero. “Naquele momento eu ainda não tinha a confiança necessária”, diz.

O medo não era injustificado, pois aconteceram episódios claros de homofobia, como o dia em que exigiu-se que ela (na época, ele) fotografasse uma modelo de biquíni para um conteúdo de apelo sexual. “Era constrangedor. As coordenadas de como as fotos deveriam ser feitas me foram passadas da pior maneira possível, exigiam, com palavras obscenas, os ângulos que eu deveria usar. Foi bem traumático. Eu sabia que estava naquela situação porque seria um motivo de chacota”, relata, “foi quando eu saí de lá que pude ser quem sou”. A família e os amigos acolheram o processo. Quando ela deixou a empresa, ainda trabalhou como freelancer com pós-produção de fotografias, mas não durou muito tempo. Deixar a fotografia para trás fez parte de se entender dentro da sua nova identidade. “Eu exclui anos de

trabalho de fotografia dos meus arquivos digitais, apaguei tudo. Hoje em dia o que eu tenho foi o que consegui recuperar de uns CDs que achei. Me arrependi muito”, confessa.

Não conhecer nenhuma outra pessoa trans na fotografia, para ela, gera uma insegurança. Recomeçar em outra área pareceu mais fácil do que ter que resgatar um portfólio assinado com seu antigo nome, por exemplo. Mel diz que, hoje, sete anos depois, amadureceu muitos medos: “acho que conseguiria me ver dentro da área”. Vasculhando gavetas, achou algumas fotografias reveladas em processos analógicos, o que despertou nela uma vontade de voltar a fotografar e, no caso, de passar a existir enquanto fotógrafa mulher.

Sobre a sexualidade, Mel diz que tem dificuldade de se relacionar publicamente com homens cis héteros. “São muito machistas. Os dois namorados que tive, me colocaram a condição de não revelar aos seus amigos e família sobre minha situação de pessoa trans”, conta. Mel hoje não pensa em casar-se, mas já pensou. Também já pensou em adotar uma criança, mas a maternidade deixou de ser um plano. “Eu não sei se conseguiria ser mãe e mulher trans. Eu precisaria de alguém para dividir o peso psicológico disso tudo e penso que provavelmente não conseguiria isso com um homem cis hétero. Eles não dão conta. Talvez com um homem trans”, analisa. Neste momento, ela quer focar em si mesma, pensa em estudar fora do País. “O Brasil anda a passos lentos nos direitos das pessoas trans: é extremamente burocrático e somos tratados como doentes”. Há três anos ela deu entrada no processo de mudança de nome, por exemplo, e até agora não teve resultados. Até para assinar os documentos que autorizam seus depoimentos nesta tese, houve o constrangimento (violência) de ter que usar seu nome antigo, masculino.

Já a questão das mulheres lésbicas tem uma presença mais marcante entre as fotógrafas que compõem o corpus de análise desta tese. Assim como uma fotógrafa anteriormente citada mencionou que seu amigo supôs que ela era lésbica, simplesmente porque ela não se relacionava publicamente com homens (nem com mulheres, vale destacar), é comum que, muitas mulheres (independentemente da orientação sexual), no meio fotográfico, por terem um perfil que rompe com os padrões de feminilidade (gestos e figurino, por exemplo), sejam constantemente tomadas por homossexuais, conclusão que desconsidera grosseiramente a complexidade das questões de gênero e as de sexualidade. Nem toda mulher que foge às normativas patriarcais (como vida doméstica, casamento e maternidade) é lésbica, assim como nem toda mulher lésbica vai necessariamente assumir uma postura que rompe com as estruturas normativas dos papéis de gênero. Há muitas lésbicas dentro da performatividade visível do feminino, assim como muitas mulheres hétero que atuam dentro do padrão aparente da masculinidade.

Lembro que quando entrevistei uma das fotógrafas, que é lésbica, ela brincou comigo dizendo que eu iria encontrar muitas “sapatões”111. E, na verdade, juntas, ali mesmo, descobrimos que ela caiu na armadilha do senso comum. A fotografia não é um reduto de mulheres lésbicas. Mas, sim, ela existe enquanto um lugar de mulheres que batalham pela sua própria liberdade. E essa liberdade inclui, também, uma liberdade sexual, o que atravessa, mas também transcende, a questão da orientação homoafetiva.

As experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo fazem parte da experiência de muitas mulheres que participam desta tese, independentemente de possíveis rótulos:

Eu pensei que pudesse ser homossexual. Eu sempre tive uma admiração muito grande pelo corpo feminino. Eu tinha uma referência de corpos de mulheres. Sempre gostei muito de ver mulher nua. É uma coisa, até hoje, que eu acho linda. Então, teve uma época que eu comecei a me questionar sobre isso. E eu estava frustrada com os meus relacionamentos com homens. Mas não tentei nada, acho que eu tinha um certo medo. Também não senti encantamento por ninguém e nem tesão. Aí, quando passou essa dúvida, eu fiquei com uma menina. Já foi bem depois. Não estava pensando, não estava achando, não estava nada. E aí também não fiquei me questionando depois. Estava muito segura. Não me fez entrar em crise.

Aquelas que se dizem lésbicas (e assumem a importância do rótulo principalmente como uma postura política identitária de enfrentamento, transcendendo a questão pura e simples da materialidade de uma orientação sexual-afetiva) possuem experiências de descobertas muito variadas. Algumas anunciaram em casa, outras nunca precisaram. Algumas foram acolhidas pela família, outras menos. Mas todas elas já sentiam atração por mulheres desde crianças, além de uma forte resistência aos homens, seja por acharem eles, de forma geral, desinteressantes, seja por terem passado por experiências muito negativas com eles, sobretudo dentro de casa e principalmente com os próprios pais.

Algumas entrevistadas, independentemente da orientação sexual, relatam que o início da vida sexual se deu de forma traumática, por conta de abusos sofridos na infância. Uma das lutas dos movimentos feministas é desassociar a ideia de estupro à ideia de sexo, por exemplo, no intuito de que não se confundam práticas de violência/assédio com práticas do desejo/afeto. “Eu fui abusada na infância. E aí eu comecei a ter ódio de homem, por uma fase. Depois eu fui trabalhando nisso, sabe? De superar mesmo. Eu já não tenho raiva de homem. Hoje é tranquila a minha relação. Até demais, na verdade”, relata uma fotógrafa.

Outra diz que demorou para entender os assédios sexuais que sofria quando criança e que, depois de entendê-los, passou a ter nojo de homens.

Eu me dei conta do que estava acontecendo e aí fechei. Eu não queria brincar, comecei a jogar meus brinquedos pela janela. E aí era muito doido pra mim, porque eles [os abusadores] estavam lá, sempre presentes. O conflito maior: eu achava que

eu tinha culpa. Por um tempo, eu não quis me relacionar com homem nenhum: não vou casar nunca, não vou ter filho. Mas eu comecei a viver as coisas meio que na pressão da sociedade. Só que, talvez eu não percebesse, eu estava passando por cima das coisas. Era a forma que eu estava usando pra superar. Foi um começo de vida sexual meio traumático.

Por mais que muitas fotógrafas viessem de famílias menos conservadoras, que tivessem liberdade para trazer parceiros e parceiras para dentro casa, por exemplo, falar sobre sexualidade com os pais, não é fato frequente. Numa cultura em que as mulheres são constantemente cobradas e oprimidas, forçadas a se encaixar em padrões, o mal estar com o próprio corpo e com as práticas sexuais é comum. “Eu não me sentia segura, eu não me sentia bonita, eu não me sentia bem”, diz uma das entrevistadas, sobre a dificuldade de despertar a sua sexualidade. Várias trazem depoimentos parecidos. Outra fotógrafa fala da escola como ambiente castrador e da libertação que foi o contato com a cultura mais alternativa da cidade:

Quem me salvou foi o Recife Antigo, salvou minha vida ao ver que existia beleza lá fora. Eu ganhei o concurso de menina mais feia do colégio. Como é que eu ia me apaixonar por alguém? Só que eu achava que o mundo era o colégio, né? E aí a coisa da sexualidade, pra mim, por um lado, tinha uma atração por um masculino, e uma aversão. Porque o masculino pra mim era um mistério, né? A figura masculina sempre foi coisa que faz mal. Assim: homem tá aí pra fazer mal. O mundo dos meninos, da paquera, era tão estranho pra mim. Porque eu era tão excluída, tão maltratada no colégio, sofria tanto bullying112, que eu não sabia paquerar. Até eu

descobrir o Recife Antigo. Aí, foi quando eu conheci um menino e eu fiquei apaixonada por uns bons dez anos. Ele foi super importante, uma pessoa, assim, muito “abridora”, muito importante na minha vida. Foi ele que me apresentou um outro masculino, de certa forma.

Os enfrentamentos das fotógrafas das primeiras gerações foram ainda maiores. Gleide Selma fala como o processo de busca por liberdade (inclusive sexual) na sua vida passa pela busca por autonomia, logo, pela profissão que escolheu.

Eu era atleta, jogava handebol. Então, conheci o Brasil muito cedo, pois jogava pela seleção do Rio Grande do Norte. Com dezesseis anos eu fiz uma viagem do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, de ônibus. Com dezoito, dezenove anos, eu vim fazer o vestibular aqui em Recife. Eu comecei a trabalhar com quinze anos de idade, eu acho. Eu trabalhava num escritório de arquitetura, eu atendia telefone. Com dezessete, eu queria trabalhar em jornal. Então, eu era uma pessoa muito ocupada, porque eu trabalhava, eu estudava e eu jogava. E ainda ia à praia todo dia. Mas, de noite, eu vivia na rua. Eu estudava no colégio estadual, porque o meu negócio era sair daquele colégio de freira. E aí eu fui expulsa. E eu me lembro que eu fiz o exame de admissão para essa escola, e eu tive que estudar. Pela primeira vez na minha vida, eu tive que estudar muito, para poder ir pra escola pública. Eu comecei a namorar muito cedo. Eu namorava muito escondido, né? Eu não queria me casar e, quando fosse maior de idade, eu ia sair de casa, viver independente. Aí eu tinha uma grande amiga que vinha fazer o mestrado aqui [no Recife], a irmã dela era da minha idade e veio fazer o vestibular também, como eu. Moravam as três. Eu cheguei aqui e no outro dia eu estava trabalhando no Diario de Pernambuco. E eu fazia crochê. Eu fazia uma bolsa entre a minha ida da Várzea até o Recife [centro da cidade]. E aí eu vendia a bolsa, que era uma forma de tomar cerveja, fazer uma

112 Atos intencionais e repetidos de agressão física ou psicológica, exercidos visando a destruir a autoestima da

gracinha. Eu não tinha quase dinheiro nenhum! Comecei a trabalhar no Diario, depois eu fui pro Jornal do Commercio. Até hoje, tudo o que eu tenho a agradecer é à fotografia, porque ela me trouxe tudo na vida, sabe? Essa liberdade! E eu percebi logo que eu não podia ser funcionária de ninguém. Fui ser freelancer. 1978, 1980, era uma vida muito tranquila. Se fazia super8, teatro, tudo... Tá entendendo? Era uma efervescência muito grande, culturalmente. Eu me lembro que Pernambuco, Recife, sempre foi um polo cultural e artístico muito forte. Eu me lembro que eu sai de Natal muito por conta disso, né? Aqui aconteciam as coisas e eu queria viver isso, queria participar disso. E aí tinha a coisa do movimento estudantil, dos protestos... Eu era muito engajada. Eu levei cantada, mas eu também dei cantada, né? Eu acho que eu tinha um negócio que era assim: eu que escolhia as pessoas que eu queria. Eu não era escolhida, eu escolhia.

A trajetória de Gleide é um exemplo de como a profissão de fotógrafa sempre atraiu um perfil de mulher que foge às normas, inclusive às normas sexuais. O modo com que ela se colocou na fotografia me lembra um depoimento de Madame Yevonde, em que ela afirma que se meteu com fotografia para se tornar independente, nem mais nem menos. Ela dizia que queria apenas ganhar a vida (YEVONDE, 1940, p.283). Na Europa e nos Estados Unidos, durante o modernismo, era basicamente este o perfil das fotógrafas: “a maioria dessas mulheres trabalham como fotojornalistas para pagar seus aluguéis... e para poder mostrar ao público seus objetivos artísticos, menos comerciais”113 (BRANNAN, 2015, p.216).

A independência que buscam as mulheres fotógrafas funciona como um passaporte também para a liberdade sexual. Mergulhamos nessas histórias porque esses são fatores bastante atrelados à realidade de uma mulher. Assim como o tipo de profissão que ela exerce. Então, a prática fotográfica passa por tudo isso, seja de forma direta ou indiretamente. A sexualidade dialoga com a autonomia, o que coloca as mulheres face a face com os modelos patriarcais de esposa e mãe, todos temas discutidos neste capítulo. Este debate nos leva, então,

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