Sentir-se “enternecido diante do mais ressequido calhau”,136é in-tuir o absoluto ontológico nele presente, é transcender a dualidade factícia e hipostática sujeito-objecto por meio, não de uma repre-sentação, sempre falsa e in-coincidente, mas através de um olhar de amor, que é a exacta aceitação da possibilidade de tudo connosco, criaturas de um mesmo acto, que tudo permeia, tudo sustenta. Este é o verdadeiro olhar contemplador do pobre: admirar a riqueza básica ontológica que tudo ergue, sem exclusão, sem discriminação. Ser po-bre é saber que toda a sua riqueza própria é este acto seu, dado, não dominável nem em si nem no restante da criação. Ser pobreé saber que é o mesmo acto que me ergue e ergue o outro, e que o que o outro é é-o consubstancialmente ao que sou e que, assim, toda a sua riqueza é minha também. O amor pelo outro é amor ao todo do ser e a mim também, para benefício comum; o amor por mim é amor pelo outro e benefício comum também. Só a ausência de amor é prejudicial ao outro e a mim.
Esta existência amante, “simples, monótona e grande”,137 é a única que permite o bem comum, pois é a única que assume a uni-dade ontológica do ser e de todos os seres neste, simpliciuni-dade
fun-136P, p. 177.
damental, é a única que não distingue os seres enquanto seres, numa santa monotonia ontológica, e é a única que, porfiando pelo bem, pelo incremento da positividade ontológica de cada ser, permite a manifestação da grandeza contida em sua mesma possibilidade. A simplicidade monótona da não distinção da dignidade ontológica do sersegundo o ser permite o engrandecimento da diferenciação pró-pria de cada um, a partir de um mesmo comum fundo ontológico. É esta pobreza da monotonia e simplicidade ontológica que permite o florescimento da riqueza potencial que encerra, numa atitude de não discriminação, a única que permite a diferenciação ontológica: o que a malvadez implica é, por meio da discriminação ontológica, a impossibilidade da diferenciação ontológica. Se começo por dis-criminar um qualquer ser, impeço-o de se diferenciar, segundo a sua possibilidade própria, mato a sua virtualidade ontológica positiva, à partida.
É o que acontece aos desgraçados presentes emOs pobres: seres, são constrangidos, pela discriminação dos malvados sem amor, a não diferenciar a sua ontologia potencial própria, ficando presos ao modo de ser a que a inicial discriminação ontológica os obrigou.
O que Raul Brandão bem compreendeu é ocarácter político desta malvadeze o seu alcance ontológico, o que mostra e demonstra que apolítica tem alcance ontológico. Deste modo, esta reflexão de Raul Brandão é uma demonstração poética, mas altamente racional,138 da etiologia política imediata do mal: este dá-se na e pela relação en-tre os homens. Mas, como a acção dos malvados tem um primeiro 138 Não é preciso ser especialista em alheia poesia para se perceber que o que faz a grandeza de um poeta não é a “originalidade” das imagens ou o arrevezado da linguagem, mas, exactamente, origorde ambas. O poeta é, precisamente, o que cria a linguagem porque é aquele que (único) diz exactamente o que é, como nunca foi dito, e este dizer cria o mesmo sentido que é o seu ser semântico, todo o ser de que humanamente podemos dispor. O poeta é divino neste seu dizer, tão exacto, que é verdadeiramente onto-lógico. Assim, o mais racional dos que intentam dizer o ser é o poeta e duplamente poeta é aquele que é poeta e filósofo (Platão, Nietzsche, por exemplo).
nível de radicação na sua mesma interioridade, por definição ética, serve a obra para mostrar que a origem do mal está na dimensão ética(ontológico-ética)do ser do agente político que pratica o mal.
Se o sofrimento dos homens se resumisse a algo provocado por “agentes” não humanos e estes fossem sempre apenas agentes de conforto e de auxílio perante aquele sofrimento, ele seria mitigado e nunca coincidiria com o mal. O sofrimento seria sempre sofrimento, mas existiria num horizonte de amor, amor que, não podendo elimi-nar o sofrimento, lhe pode conferir um sentido, sentido que o resgata, pois, a aproximação cordial que provoca enriquece o coração do que sofre com o bem do amor daquele que o apoia, consola, se interessa por si. Por isto, pode, em aparente escandaloso paradoxo, dizer Raul Brandão: “A desgraça é sempre boa – porque aproxima o homem dos desgraçados.”139
Aquela desgraça que, enquanto tal, não é de etiologia humana, não é boa ou má, é um pretexto para o exercício do bem, e tão só. Mas mesmo a desgraça, que é fruto da acção do homem sobre o ho-mem (desgraça ética e política e acto de mal), é, também ela, ocasião de bem. No entanto, quer uma quer a outra podem ser, e são, oca-sião de aprofundamento do exercício do mal, tal o caso exemplar do Gebo, continuamente maltratado, num crescendo constante, após a sua queda na desgraça.
“Ama, que sentirás a mão de Deus pousar sobre a tua cabeça.”140
Este afago divino não é a mão do dono acariciando a cabeça do fiel cão, mas a sagração do bem operado pelo amor, pelo bem absoluto, mas pelo bem absoluto presente no bem do acto de amor: não vem de fora este afago, é a mesma recompensa interior do acto, a sua mesma absoluta pura positividade, que resplandece. O milagre do amor tem de necessariamente passar pelo acto do homem. Deus não ama na vez do homem: o homem está condenado a amar ou não, mas num
139P, p. 178.
caso ou no outro é ele que é ou não o acto. A mão de Deus não interfere, consagra o que a mão do homem fez, o que o homem é.
Raul Brandão percebe, assim, o insubstituível papel do homem na construção do mundo semântico do homem, papel de cujo desem-penho depende a salvação ou a perdição deste mesmo mundo.141 É este o preço da liberdade humana, que não é fundamentalmente po-lítica, mas ética e ontológica, com consequências que também não são fundamentalmente políticas, mas éticas e ontológicas. A acção do homem é a salvação ou perdição do homem e a mão de Deus a sua consagração. Assim já em Job.