Como já discutimos em capítulo anterior, ela acreditava em uma educação para a transformação, especialmente capaz de levar o ser humano a reinventar ou criar algo novo. Sua preocupação não se limitava ao campo do conhecimento técnico, resvalava para o moral. Entendia que a missão da educação era formar pessoas mais íntegras, honestas e verdadeiras e, assim, uma sociedade de melhor qualidade moral e humana:
[...] a interface da educação com a ética é delicada. Digo ética, não moral, aliás, a moral corresponde a princípios formulados e pro- cura normas universais. A ética não é uma moral de obrigações e punições, ao contrário, uma maneira de viver; não um regulamen- to de vida, aproxima-se mais da experiência vivida e sentida e per- manece no plano individual sem pretender constituir leis ( Jesuino, 1991, p. 45).
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O seu conceito de ética é fiel à formação moral recebida, no sentido de não se estruturar na obrigação e no castigo, mas no crescimento individual e numa qualidade de vida melhor. Concei- to que difere de nossa herança cultural, que vem tratando a ética como moralismo ou legalismo, sempre visando o controle social. Ela tem consciência de que sua compreensão difere da comumente aceita e ensinada, tanto assim que, no mesmo artigo acima citado, registra: “[..] a ética é uma ciência ou uma arte que parece perdida, devemos tratar de merece-la e recupera-la. É necessário que se faça a escolha entre Eros e Tanatos, o amor ou a agressividade, o espírito da paz ou a combatividade”. (Jesuino, 1991, p. 46)
Evidencia-se sua compreensão da ética como uma forma de ser no mundo que depende da escolha do sujeito consciente. Não basta impor regras, vigiar sua concretização e punir pelos descaminhos, faz-se necessário trabalhar a consciência crítica e a responsabilidade dos indivíduos, pois essa consciência dará a direção para as escolhas a serem feitas, que devem seguir o amor em todos os seus aspectos: à verdade, à vida, ao outro, ao mundo, a Deus.
Seguindo essa orientação, ela sistematiza a moral em alguns princípios retirados tanto da herança Ocidental quanto do Orien- te. Dos orientais, destacava como um princípio que deveria fazer parte do manancial do educador, que: “quando apontamos um dedo para alguém, temos três apontados para nós mesmos” (Buda). Cor- roborava com esse principio outro que havia aprendido nos tem- pos do colégio presbiteriano, de Jesus Cristo, que ensina “não julgueis para não serdes julgados”. A forma como ela interpretava e aplicava esses princípios à educação consistia em um misto de teoria e moralidade, presente ao longo de sua vida, que consistia
71 em ensinar o educando a ser simples e sábio. Como registrou em um artigo de 1998, é próprio do sábio reconhecer a sua igno- rância, o que, para ela, já é uma grande sabedoria, enquanto o tolo sempre presume saber e nunca hesita em julgar. Convicta dessa orientação teórica moral, ela afirma que a criança precisa ser educada para compreender e não para julgar, no sentido de criticar e culpar, o que só acontecerá se o educador for orientado para essa mesma direção.
Essa convicção a fez, durante o período em que participou do Conselho Estadual de Educação, defender “ferrenhamente” a criação de escolas de formação de professores, em nível su- perior, em vários municípios do Estado. Seu empenho visava dar ao educador melhor preparo técnico, entretanto, mais do que isso procurava prepará-lo moral e emocionalmente para educar em um mundo materialista e hedonista, como o atual. Nesse contexto onde o ter tornou-se a meta, seria imprescin- dível ao mestre uma boa formação moral, sob pena dele vagar sem rumo, levando seus alunos na mesma onda.
Dentre os princípios orientadores do caminho de um mestre ela destaca um de cunho existencialista, que coloca no ser humano a responsabilidade por suas escolhas: “estamos no mundo, só e sem desculpas”. E explica o preceito não como uma ameaça ou um perigo, mas como uma forma de viver seguindo sua consciência, seu eu interior. A educação sob o seu ponto de vista deve procurar desenvolver nos discentes essa capacidade e a convicção da impor- tância de saber ouvir e confiar na sua voz interior; para que isso aconteça é preciso que os educadores tenham a mesma convicção e estejam preparados para ensinar e orientar os seus alunos.
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Como explicitou em um discurso proferido na cidade de Maricás, na Bahia, no ano de 1988, o professor poderá:
[...] através da leitura, das reciclagens constantes e das vivências, adquirir o saber e creio firmemente que estais convencidos de que o mergulho dentro de vós mesmos terá de ser feito para que possais compreender a beleza que se esconde no coração da criança, a verda- de deslumbrante que sua pequena mente poderá alcançar, e sobretu- do, poder dar-lhe o que ninguém ousará fazê-lo, o estar na escola capaz de sentir-se só e sem desculpas [...].
De Sócrates ela retirou outra orientação moral, traduzida pela palavra humildade. Preconiza que as crianças precisam aprender que não são melhores do que os outros, que não são as mais sabidas, pois as pessoas vaidosas ou orgulhosas não conseguem adquirir conhecimento profundo sobre o mundo. Afirma no referido dis- curso de 1998: “[...] quem conhece sua ignorância revela a mais alta sapiência. Quem ignora sua ignorância vive na mais profunda ilusão. Não sucumbe à ilusão quem conhece a ilusão como ilusão. O sábio conhece o seu não saber”.
A humildade pode, pois, ser entendida como um princípio moral e pedagógico. Nesse último aspecto, ela serviria para di- zer aos indivíduos que, por mais que tenham conhecimento, ainda têm muito a aprender, que o ser humano deve estar aber- to ao crescimento interior por toda a vida. Moralmente, ele poderia bastar-se, entretanto pode ser um indicador da dife- rença entre ser e saber, segundo a educadora:
[...] no Ocidente, admite-se o absurdo exagero de o saber e o ser serem confundidos. Pode haver, por exemplo, um sábio eminente, autor de grandes descobertas, um homem que faz progredir a ciência e
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ser, ao mesmo tempo, um egoísta, mesquinho, vaidoso, ingênuo e distraído. As pessoas não têm vergonha do nível inferior do seu ser. Não compreendem que o grande saber de um homem está na função do seu ser.
A formação filosófica da educadora sobressai, mais uma vez, na análise que faz a respeito do que poderíamos chamar de pro- gresso. Sob outra visão, não haveria dúvidas quanto ao valor do indivíduo possuidor de grande conhecimento, especialmente se ele é reconhecido na prática. A partir da perspectiva ética que ela está tomando, o progresso não se mede pelo desenvolvimento científico e tecnológico, por exemplo, mas pelo que ele repre- senta no processo de humanização. De nada adianta um grande avanço na descoberta de instrumentos e serviços, se não estiver a serviço do bem estar, da segurança, da dignidade da pessoa.
Voltando a influencia dos orientais, é Lao-Tsé quem é chamado para sistematizar sua compreensão da ética, resumida em termos que ela definia como “três tesouros”: a compaixão, a economia e a humildade. Em sua interpretação, a compaixão seria o caminho para o indivíduo tornar-se corajoso; pela economia, ele se tornaria generoso, e através da humildade, seria um líder.