De maneira geral, as análises das respostas apresentadas pelas professoras para o significado de conhecimento tradicional antes do curso revelaram diferenças e semelhanças com relação aos conceitos apresentados pela literatura específica da etnobiologia. Para Diegues e Arruda (2001), por exemplo, os conhecimentos tradicionais são aqueles produzidos e transmitidos dentro das comunidades tradicionais, grupos humanos que vivem em contato e dependência direta da natureza. Em contraste, algumas professoras definiram o conhecimento tradicional como os conhecimentos que são oriundos de diversos meios sociais, podendo ter relação direta com as escolas e seus métodos de ensino, como é possível perceber no exemplo abaixo:
... pra mim é o conhecimento que aborda mais assim, que se preocupa mais com o conteúdo, né, que é aquela questão mesmo de aula expositiva, de o aluno recebe aquela informação depois reproduz a informação e depois reproduz numa avaliação escrita... (PE4).
Como é possível observar, PE4 confundiu o significado de conhecimento tradicional com ensino tradicional. O ensino tradicional constitui uma forma de ensino na qual o foco incide na transmissão de conhecimentos escolares pelo professor, que tem os estudantes como meros receptores desses conhecimentos (ARANHA, 1998).
Outra concepção apresentada pelas professoras antes do curso foi a de que o conhecimento tradicional é aquele construído individualmente. Para PE5, os conhecimentos tradicionais são “... conhecimentos pessoais de cada um individualmente. Não é uma coisa assim coletiva...”. Outra diferença importante em relação à compreensão usual de conhecimento tradicional na etnobiologia, na qual ele é tratado como uma construção sociocultural (DIEGUES e ARRUDA, 2001).
Ainda para PE5, esses conhecimentos apresentam grande
mutabilidade, não sendo claramente seguidos nem logicamente organizados:
[quando] fala tradicional, parece que foi aquela coisa assim que foi regida passo a passo, não, eu acho que o conhecimento se faz de várias formas, então, é muito
mutável, não é aquela coisa claramente seguida, ou seja, a formação do conhecimento ele não é, não tem aquela coisa de sequencia lógica. Ele se dá por vários tipos de caminhos (PE5).
Esta concepção da PE5 se afasta da compreensão sobre conhecimento tradicional encontrada na literatura, na medida em que percebe nele um grau de mutabilidade que se afasta da própria concepção de “tradição”. A palavra “tradição” vem do latim tradito, que significa entregar, passar de uma geração à outra (BORNHEIM, 1997). É verdade que o fato de o conhecimento tradicional ser transmitido de geração em geração não significa que ele não muda através dos tempos. Os conhecimentos tradicionais não são estáticos, possuindo dinâmicas de transformação ao longo dos anos, nas sociedades onde foram gerados (ELISABESTKY, 2003; PERRELLI, 2008), podendo sofrer influências diversas, dentro de seus contextos socioculturais de produção. Contudo, esse caráter dinâmico não significa que estes conhecimentos não sejam claramente seguidos e não tenham organização lógica.
As respostas dadas pelas professoras sobre o conceito de conhecimento tradicional após o curso de formação continuada se revelaram mais condizentes, se comparadas com as concepções apresentadas anteriores ao curso. Como exemplos, podemos citar os casos de PE1, PE3, PE5, PE8 e PE9. Antes do curso, PE1 apresentou uma definição mais generalista (embora parcialmente condizente com a literatura da etnobiologia), sem especificação de que o conhecimento tradicional é produzido e transmitido dentro de uma determinada cultura que vive em contato direto com a natureza. Antes do curso, o conhecimento tradicional era por ela entendido como segue:
É o conhecimento que a gente já traz... é... adquirido do diálogo com as pessoas da nossa família, entre as pessoas que fazem parte daquela sociedade. Do convívio social dos nossos alunos, ou do nosso convívio social... É, é como se fosse a cultura daquela sociedade (PE1).
Após o curso, PE1 tratou do conhecimento tradicional como resultante de uma cultura específica de uma determinada sociedade que vive em contato direto com a natureza:
O conhecimento tradicional é o modo específico de vida de uma sociedade, de uma cultura específica em contato com a natureza e esses conhecimentos tradicionais se refletem no comportamento de alguns indivíduos e seria, assim, um conjunto de canções, o conjunto de crenças, o conjunto de artesanais, coisas artesanais, conhecimentos que eles produzem e os cultos que praticam dentro daquela tradição (PE1).
Antes do curso, PE3 definiu o conhecimento tradicional como “…
aquele conhecimento que a pessoa já traz moldada, dentro de si, dentro do indivíduo, já vem pré-moldada...”. Já após o curso, PE3 definiu o conhecimento tradicional como “... conhecimentos que são produzidos e transmitidos de geração em geração ...”.
Sobre as falas de PE3, é importante salientar que a concepção de que os conhecimentos tradicionais já estão pré-moldados dentro das pessoas não se mostra condizente com a literatura da etnobiologia, contudo, a concepção de que os conhecimentos tradicionais são transmitidos de geração em geração se mostra condizente com essa literatura, uma vez que as comunidades tradicionais perpetuam os seus saberes e as suas práticas, na maioria dos casos, na coletividade, através da oralidade, em processos educativos que são estabelecidos de pais para filhos e/ou das relações com os demais membros de suas comunidades (TOLEDO e BARRERA-BASSOLS, 2010).
Uma das professoras, PE5, após sua participação no curso, estabeleceu relação entre os conhecimentos tradicionais e os conhecimentos
prévios: “Conhecimento tradicional é um conhecimento prévio… que o aluno já
traz das suas vivências em culturas, em localidades, de um grupo cultural específico, em espaços que não são a escola, da família” (PE5).
Antes do curso, o conceito de conhecimentos tradicionais apresentado por PE5 foi incompatível com a literatura da etnobiologia, pois atribui a sua origem aos diversos espaços sociais nos quais os estudantes transitam, como é possível observar na sua fala que segue:
Conhecimento tradicional é o que o aluno adquire com a formação básica, é aquele conceito de o que é, como é e por que é. Básica na escola, não só o que ele traz da escola, mas também o conhecimento que ele traz ao longo do nascido dele, né? Ele traz primeiro o conhecimento familiar, né, a família, o primeiro passo é a família e
depois ele traz o social. Então, dentro desse conhecimento social ele adquire também alguns conhecimentos tradicionais...
Sobre a resposta de PE5 - de que os conhecimentos tradicionais são conhecimentos prévios que os estudantes levam consigo para as salas de aula, resultantes das suas vivências em determinados meios sociais - é importante destacar que, de fato, os conhecimentos tradicionais podem ser incluídos entre os conhecimentos prévios dos estudantes, possuindo grande importância por serem construídos pelos estudantes nos contextos sociais e culturais em que tem lugar seu desenvolvimento (SEPULVEDA, 2003). Porém, há também outros tipos de conhecimentos prévios, como aqueles oriundos do senso comum ou mesmo da ciência escolar.
Antes do curso, PE8 apresentou uma definição para os conhecimentos tradicionais incompatível, na medida em que considerou que esses
conhecimentos são transmitidos entre grupos sociais: “Bem, a minha
concepção de conhecimento tradicional é aquele conhecimento que é passado entre grupos, de maneira que ele é...”. Após o curso, PE8 definiu os conhecimentos tradicionais como aqueles conhecimentos que emergem de
comunidades específicas e que têm uma validação local: “… é o conhecimento
que emerge de grupos de comunidades ... Isso seria o conhecimento tradicional. Teria uma validação local.... ele, inclusive, ele é testável dentro daquele grupo (PE8). De fato, entende-se que o conhecimento tradicional segue critérios de validação local, porque são provenientes das experiências e necessidades cotidianas dos indivíduos, dentro das comunidades tradicionais. Como discute Bandeira (2001), os conhecimentos tradicionais são produzidos com base na multiplicidade de situações e contextos de vida de tais comunidades e obedecem a uma lógica própria de construção e de validação.
Por fim, antes do curso, PE9 definiu o conhecimento tradicional como “… o conhecimento adquirido no contexto familiar por um indivíduo, através dos pais, parentes, amigos, enfim, pessoas que estão ao seu redor e que compartilham conhecimentos adquiridos nas gerações familiares”. Após o curso, entretanto, ela definiu os conhecimentos tradicionais de forma mais condizente com a literatura da etnobiologia, como sendo “... o conhecimento que as pessoas têm do seu meio cultural, de uma cultura. Do convívio com o
ambiente natural e cultural...”. Tal conceito mostra compatibilidade com o que encontramos na literatura da etnobiologia. Toledo e Barrera-Bassols (2010), por exemplo, afirmam que os conhecimentos tradicionais são produtos das relações do ser humano com a natureza, com os seus processos, dinâmicas e com o seu potencial utilitário. Entretanto, é importante atentar para o fato de que esses saberes tipicamente não versam apenas sobre o mundo natural,
mas também acerca do sobrenatural17.
Após o curso, as professoras citaram algumas comunidades tradicionais que podem ser consideradas condizentes com a literatura da etnobiologia (ARRUDA, 1999), como, por exemplo, “... caiçaras, ribeirinhas, pescadores artesanais, índios” (PE1), “... agricultores etc.” (PE3).