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8. PROPOSTAS DE BOAS PRÁTICAS 69

8.2. Simultaneidade de IRDRs

Como visto no subcapítulo 5.5, o IRDR é instaurado perante o tribunal local. Caso já exista um incidente em curso, aqueles apresentados após a decisão de admissão perante o mesmo tribunal e com o mesmo tema devem ser apensados e sobrestados, de modo que o órgão julgador analise todas as razões trazidas sobre a questão a ser decidida.278

Contudo, o que fazer se dois incidentes com conteúdo idêntico forem instaurados em tribunais diversos?

Desde o início deste estudo, falou-se sobre a associação entre o IRDR e a formação de precedentes, a uniformização da jurisprudência, a segurança jurídica e a gestão de processos múltiplos. Assim, pode-se dizer que a simultaneidade de incidentes nos moldes elencados acima é, ao menos, inusitada.

Nesse sentido, inexistindo hierarquia entre os diversos TJs e TRFs (isso sem levar em consideração a questão relativa ao IRDR perante os Juizados Especiais), qualquer um deles poderia fixar uma tese jurídica sobre determinada questão, que seria independente da tese jurídica fixada pelos demais. Haveria, contraditoriamente, um risco de quebra da uniformidade jurisprudencial por meio do próprio IRDR.

278 FÓRUM PERMANENTE DE PROCESSUALISTAS CIVIS. Enunciado 89: “Havendo apresentação de mais de um pedido de instauração do incidente de resolução de demandas repetitivas perante o mesmo tribunal todos deverão ser apensados e processados conjuntamente; os que forem oferecidos posteriormente à decisão de admissão serão apensados e sobrestados, cabendo ao órgão julgador considerar as razões neles apresentadas”.

Disponível em: https://diarioprocessualonline.files.wordpress.com/2022/03/enunciados-fpcc-2022-1.pdf. Acesso em: 05/05/2022.

75 Surgiria também outra contradição: o cenário descrito poderia levar à interposição de uma série de recursos especiais e extraordinários para debater as teses jurídicas conflitantes fixadas pelos tribunais inferiores, congestionando ainda mais o Poder Judiciário, ao invés de desafogá-lo.

Como resolver, então, essa questão?

No caso dos recursos repetitivos no âmbito do STJ ou do STF, o art. 976, parágrafo 4º, do CPC/2015 coloca expressamente que não cabe IRDR quanto já tiver sido afetado recurso para definir tese sobre questão de direito material ou processual repetitiva perante os tribunais superiores (vide subcapítulo 5.3). Aqui, a resposta é mais simples, uma vez que os TJs e os TRFs devem atender ao entendimento das Cortes Superiores.

Já no caso de dois ou mais IRDRs simultâneos – e não de IRDR versus recurso repetitivo –, ainda que inexista hierarquia entre os tribunais de segundo grau, é possível pensar em algumas soluções para evitar a fixação de teses jurídicas conflitantes.

A primeira delas é extraída dos arts. 982, parágrafos 3º a 5º, e 1.029, parágrafo 4º, do CPC/2015, que dispõem o seguinte:

Art. 982. Admitido o incidente, o relator:

I - suspenderá os processos pendentes, individuais ou coletivos, que tramitam no Estado ou na região, conforme o caso;

II - poderá requisitar informações a órgãos em cujo juízo tramita processo no qual se discute o objeto do incidente, que as prestarão no prazo de 15 (quinze) dias;

III - intimará o Ministério Público para, querendo, manifestar-se no prazo de 15 (quinze) dias.

§ 1º A suspensão será comunicada aos órgãos jurisdicionais competentes.

§ 2º Durante a suspensão, o pedido de tutela de urgência deverá ser dirigido ao juízo onde tramita o processo suspenso.

§ 3º Visando à garantia da segurança jurídica, qualquer legitimado mencionado no art. 977, incisos II e III , poderá requerer, ao tribunal competente para conhecer do recurso extraordinário ou especial, a suspensão de todos os processos individuais ou coletivos em curso no território nacional que versem sobre a questão objeto do incidente já instaurado.

§ 4º Independentemente dos limites da competência territorial, a parte no processo em curso no qual se discuta a mesma questão objeto do incidente é legitimada para requerer a providência prevista no § 3º deste artigo.

§ 5º Cessa a suspensão a que se refere o inciso I do caput deste artigo se não for interposto recurso especial ou recurso extraordinário contra a decisão proferida no incidente. [grifo nosso]

Art. 1.029. O recurso extraordinário e o recurso especial, nos casos previstos na Constituição Federal , serão interpostos perante o presidente ou o vice-presidente do tribunal recorrido, em petições distintas que conterão:

I - a exposição do fato e do direito;

II - a demonstração do cabimento do recurso interposto;

III - as razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão recorrida.

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§ 1º Quando o recurso fundar-se em dissídio jurisprudencial, o recorrente fará a prova da divergência com a certidão, cópia ou citação do repositório de jurisprudência, oficial ou credenciado, inclusive em mídia eletrônica, em que houver sido publicado o acórdão divergente, ou ainda com a reprodução de julgado disponível na rede mundial de computadores, com indicação da respectiva fonte, devendo-se, em qualquer caso, mencionar as circunstâncias que identifiquem ou assemelhem os casos confrontados.

§ 2º (Revogado).

§ 3º O Supremo Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justiça poderá desconsiderar vício formal de recurso tempestivo ou determinar sua correção, desde que não o repute grave.

§ 4º Quando, por ocasião do processamento do incidente de resolução de demandas repetitivas, o presidente do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça receber requerimento de suspensão de processos em que se discuta questão federal constitucional ou infraconstitucional, poderá, considerando razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social, estender a suspensão a todo o território nacional, até ulterior decisão do recurso extraordinário ou do recurso especial a ser interposto.

§ 5º O pedido de concessão de efeito suspensivo a recurso extraordinário ou a recurso especial poderá ser formulado por requerimento dirigido:

I – ao tribunal superior respectivo, no período compreendido entre a publicação da decisão de admissão do recurso e sua distribuição, ficando o relator designado para seu exame prevento para julgá-lo;

II - ao relator, se já distribuído o recurso;

III – ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal recorrido, no período compreendido entre a interposição do recurso e a publicação da decisão de admissão do recurso, assim como no caso de o recurso ter sido sobrestado, nos termos do art.

1.037. [grifo nosso]

Trata-se da possibilidade de expandir a suspensão dos processos em nível federal até que haja fixação do entendimento no âmbito das Cortes Superiores, evitando que, antes disso, sejam criadas teses jurídicas incongruentes. Pela leitura conjunta dos dispositivos, o pedido para que haja a extensão pode ser feito pelas partes, pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública (art. 977, incisos II e III, do CPC/2015) – pode-se refletir até mesmo na determinação de ofício pelo relator do STJ ou do STF.

Nessa linha de raciocínio, Heitor Vitor Mendonça Sica aponta que a criação desses dispositivos teve por objetivo justamente lidar com essa fragilidade do IRDR – ou seja, a ocorrência de incidentes simultâneos e o risco de fixação de teses incongruentes entre os Estados ou Regiões. Nas palavras do autor:

Uma das grandes apostas do CPC/2015, o incidente de resolução de demandas repetitivas tem um verdadeiro “calcanhar de Aquiles”, relacionado com o fato de ele ser cabível perante os Tribunais de Justiça ou os Tribunais Regionais Federais no tocante à análise de teses jurídicas que envolvem direito federal. Desse modo, pode-se imaginar que a mesma questão de direito federal poderia pode-ser afetada, em IRDR, perante 27 TJs e cinco TRFs simultaneamente. Cada corte poderia unificar o entendimento na área de sua competência territorial, mas obviamente não haveria

77 uniformidade em nível nacional, a qual só seria atingida mediante atuação dos tribunais superiores.

Ciente desse problema, o CPC/2015 previu, tanto no art. 1.029, § 4º, quanto no art.

982, §§ 3º ao 5º, que, em havendo IRDR sobre matéria federal (constitucional ou infraconstitucional), qualquer legitimado mencionado no art. 977, incisos II e III (e independentemente de sua sede ou domicílio coincidir com a do local em que o incidente foi instaurado), pode pedir ao STF ou ao STJ, conforme o caso, a suspensão de todos os processos (individuais ou coletivos) em território nacional mesmoantes de as cortes de sobreposição terem sido acionadas para examinar a matéria. A suspensão vigorará até julgamento de eventual recurso extraordinário e/ou especial contra a decisão que julgar o IRDR ou até o transcurso in albis do prazo para interposição desses recursos contra a decisão que julgar o IRDR. Nesse segundo caso, a suspensão de todos os processos no território brasileiro terá sido inteiramente em vão.279 [grifo nosso]

Uma outra possível solução sem envolver as Cortes Superiores seria a realização de reuniões conjuntas entre os órgãos julgadores, a fim de que o assunto fosse maturado entre os Estados. Ilustrativamente, se houver a instauração de dois IRDRs muito semelhantes perante o TJ-RS e o TJ-GO, os membros do Órgão Especial de cada tribunal poderiam discutir entre si a tese a ser fixada, de modo a chegar a uma solução comum, como se fosse um julgamento colegiado – ainda que inexista uma obrigação legal nesse sentido. Para facilitar, isso poderia ser feito de maneira remota, através de videoconferência.

Por fim, outra possibilidade seria julgar primeiro um dos IRDRs, suspendendo os demais. Para tanto, poderia ser usado um método cronológico – o incidente apresentado antes teria preferência – ou quantitativo – o tribunal que tivesse mais casos afetados pelo incidente seria o escolhido para fixar a tese jurídica. A comunicação acerca da existência de outros IRDRs poderia ser feita tanto pelas partes ou interessados, por petição, quanto pelos tribunais, via expedição de ofícios.

Sobre esse último ponto, é possível tomar como inspiração o art. 896-C, parágrafo 2º, da Lei nº 13.015/2014, sobre processo trabalhista, de acordo com o qual o Presidente da Turma ou da Seção Especializada que afetar processo para julgamento sob o rito dos recursos repetitivos deve expedir comunicação aos demais Presidentes de Turma ou de Seção Especializada. Uma vez comunicados, eles podem afetar outros processos sobre o tema para julgamento conjunto, “a fim de conferir ao órgão julgador visão global da questão”.280

279 SICA, Heitor Vitor Mendonça. In: TUCCI, José Rogério Cruz e; FERREIRA FILHO, Manoel Caetano;

APRIGLIANO, Ricardo de Carvalho; DOTTI, Rogéria Fagundes. Código de Processo Civil Anotado. OAB Paraná, 2019. P. 1700-1701.

280 Art. 896-C. da Lei nº 13.015/2014: “Quando houver multiplicidade de recursos de revista fundados em idêntica questão de direito, a questão poderá ser afetada à Seção Especializada em Dissídios Individuais ou ao Tribunal Pleno, por decisão da maioria simples de seus membros, mediante requerimento de um dos Ministros que compõem a Seção Especializada, considerando a relevância da matéria ou a existência de entendimentos

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