3 REVISÃO DA LITERATURA
5.5 SINTOMAS/CARACTERÍSTICAS
Pode-se dizer que as pessoas com dislexia apresentam “problemas no reconhecimento preciso ou fluente de palavras, problemas de decodificação e dificuldades de ortografia” (AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION, 2014, p. 67). Esta é a definição ampla que o DSM 5 utiliza para descrever quem tem este transtorno. Para que seja emitido o diagnóstico de dislexia, o qual deve ser realizado por equipe multidisciplinar, é necessário que sejam descartadas as hipóteses de deficiência intelectual, problemas de acuidade visual ou auditiva não corrigida, outros transtornos mentais ou neurológicos e educação escolar inadequada. No quadro a seguir, apresentam-se algumas características que podem ser observadas desde a Educação Infantil.
Quadro 7 – Características da dislexia
Educação infantil
- atraso na linguagem;
- omissões, trocas de sílabas e fonemas; - dificuldade em perceber rimas;
Período escolar
- deficiência fonológica; - falta de interesse por livros;
- esquece o nome de objetos, pessoas, lugares; - memória verbal de curto prazo deficiente;
- dificuldade em aprender sequências (dias da semana, meses do ano);
- leitura incorreta ou lenta e hesitante, frequentemente adivinha palavras, tem dificuldade de soletrá-las;
- adição, omissão ou substituição de letras durante a escrita;
Vida adulta
- dificuldade com a ortografia e a produção textual; - tendência de leitura lenta;
- evitam atividades de leitura e escrita;
- dificuldades para fazer inferências a partir de leitura de textos;
Fonte: Autora, adaptação a partir de Shaywitz (2006), Moojen; França, (2006), American Psychiatry Association (2014).
Além das características descritas acima, outra característica importante é o rendimento acadêmico abaixo da média para a idade, apesar da inteligência estar preservada. Os adultos, embora se esforcem ao longo de sua trajetória, não conseguem automatizar o processo de reconhecimento de palavras, demandando mais tempo e energia nas tarefas que envolvem leitura (MOOJEN; BASSÔA; GONÇALVES, 2016).
Entretanto, ressalta-se que nem todas essas características manifestam-se nas pessoas com dislexia e que os níveis de intensidade das dificuldades também são variáveis e podem ser influenciados por fatores externos (Figura 7).
Figura 7 – Intensidade das dificuldades na dislexia
Fonte: Autora, a partir de American Psychiatric Association (2014).
Além disso, a dislexia pode estar associada a outros tipos de transtornos. Segundo Moraes et al. (2015), estudos comprovaram que há uma incidência maior de comorbidade entre transtorno de déficit de atenção (TDAH) e dislexia sendo que, em 55% dos casos, o TDAH é do subtipo desatento. Além disso, também há registros de comorbidade da dislexia com a hiperatividade, sendo a incidência maior nos casos em que a dificuldade de aprendizagem é mais grave.
Outra comorbidade mencionada pelos pesquisadores é a ansiedade, a qual influencia o desempenho de cada estudante. Sintomas depressivos também podem acompanhar a pessoa com dislexia, pois dependendo da forma como ela lida com
suas dificuldades e também do contexto em que está inserida, pode ficar mais vulnerável psicologicamente por causa do transtorno.
É importante mencionar que, apesar de estudos evidenciarem as causas orgânicas para a dislexia do desenvolvimento, também não se pode esquecer que o desenvolvimento das redes neurais, que fazem parte do processo de aquisição da leitura, ocorre a partir da interação entre o cérebro e o ambiente (LIMA; CIASCA, 2015). Desse modo, a forma como as pessoas com dislexia irão desenvolver suas habilidades com a leitura e a escrita, apesar das dificuldades que são próprias do transtorno, dependerá também dos estímulos e interações realizadas no meio em que estes sujeitos estão inseridos.
De acordo com Sampaio e Freitas (2014), como a pessoa com dislexia não apresenta nenhum tipo de comprometimento aparente, os professores costumam atribuir as dificuldades a outras causas antes de pensar em dislexia, e isso acaba postergando o diagnóstico, causando grande sofrimento para o indivíduo.
5.6 CLASSIFICAÇÃO
Desde o final do século XIX, foram desenvolvidos estudos sobre crianças inteligentes que não conseguiam aprender a ler e também casos de pessoas adultas que perderam tal habilidade após alguma lesão cerebral. Nesse sentido, em relação à origem, pode-se conceituar a dislexia da seguinte forma:
a) Dislexia genética ou do desenvolvimento: o transtorno é genético, é uma condição inata. “Estima-se que 40 a 70% dos casos de Dislexia tenham origem genética” (SARTORARO, 2015, p. 294). Estudos de identificação dos genes responsáveis pela Dislexia ainda estão sendo realizados. Através da investigação envolvendo famílias de pessoas com Dislexia, encontraram-se nove loci41, mas os
estudos ainda não são conclusivos;
b) Dislexia adquirida: quando a habilidade de leitura é afetada por alguma lesão, malformação do SNC, privação ambiental; também chamada de alexia (ROTTA; PEDROSO, 2006);
c) Dislexia multifatorial: associação de causas genéticas e adquiridas (na mesma obra).
Existem diferentes subtipos de dislexia com diferentes etiologias, sendo possível encontrar teorias tradicionais e também contemporâneas (SNOWLING, 2004). Algumas dessas teorias classificam a dislexia de acordo com diferentes critérios, como, por exemplo, a memória visual e auditiva, os resultados em testes psicológicos, pedagógicos e fonológicos e também avaliações neuropsicológicas (ROTTA; PEDROSO, 2006, LIMA; CIASCA, 2015).
A classificação que tem sido mais aceita e difundida entre estudiosos e profissionais da área, utiliza como referência as rotas de reconhecimento da palavra ou rotas de leitura. Um leitor fluente usa duas rotas: a lexical e a fonológica.
O uso da rota lexical ocorre quando a leitura das palavras é feita de forma global. Através da análise visual, a palavra é reconhecida por sua imagem que, por sua vez, é associada ao sistema semântico do leitor. Esta rota é utilizada na leitura de palavras familiares, as quais são lidas como se fossem imagens, de forma mais rápida. Já a rota fonológica é um processo mais complexo de decodificação grafo fonêmica, ou seja, durante a leitura, ocorre a conversão de letras em som (CAPOVILLA, F.C.; CAPOVILLA, A.G.S.; MACEDO, 2001). Na leitura de pseudopalavras ou de palavras desconhecidas, o leitor utiliza a rota fonológica para reconhecer, identificar, ler. Seguindo a referência das rotas de leitura, a dislexia é classificada em três tipos:
a) Dislexia fonológica, sublexical ou disfonética - caracteriza-se pela dificuldade de utilizar a rota fonológica durante a leitura. Desse modo, o comprometimento está centrado na conversão dos grafemas em fonemas. Entretanto, o sujeito pode utilizar a rota lexical e assim, ter melhor desempenho com palavras mais familiares;
b) Dislexia morfêmica, semântica, lexical ou diseidética - como a utilização da rota lexical está comprometida, torna-se difícil a leitura de palavras irregulares, pois a pessoa precisa ler lentamente para decodificar a palavra, o que muitas vezes dificulta o entendimento do que está sendo lido;
c) Dislexia mista – as pessoas com este tipo de dislexia têm comprometimento das duas rotas, caracterizando-se como um quadro mais grave do transtorno.