Considerações Metodológicas para a
5.1 Instrumento para Coleta de Dados
5.1.1 Sistema de Classificações Múltiplas (SCM)
O Sistema de Classificações Múltiplas é um processo que utiliza as classificações das pessoas para explorar seus sistemas conceituais. As vantagens desse processo foram reconhecidas há bastante tempo. Essa técnica, no entanto, evoluiu da grade de repertório criada pelo psicólogo norte americano George Kelly, em 1955, que possibilitou examinar a natureza dos conceitos das pessoas ou seus constructos pessoais,basicamentevendocomoelasatribuíamcategoriasavárioselementos.Tal estrutura conceitual das construções e categorias pessoais que são definidas pode ser vista como ponto de partida para compreender as ações das pessoas no mundo.
A partir de uma abordagem mais recente, estabelecida por Canter, Brown & Groat (1985), as potencialidades do Sistema de Classificações Múltiplas foram estendidas para explorar o conteúdo de fenômenos específicos. Na mesma direção, sua aplicabilidade também tem sido ampliada pelo desenvolvimento de métodos de análises que permitem examinar o domínio do conteúdo gerado pelas classificações, pois as evoluções nos processos de computação tornaram possível operar análises alternativas que preservam a riqueza e a diversidade dos resultados obtidos.
O SCM promove várias vantagens, especialmente quanto à qualidade da coleta de dados, além de exigir pouco dos entrevistados. O próprio ato de classificar é facilmente compreendido pelos participantes, pois é um mecanismo simples e frequentemente utilizado pelas pessoas na sua vida cotidiana. Assim sendo, é possível trabalhar diretamente com os indivíduos em sua própria linguagem, respeitando as suas capacidades para formular a maneira como eles pensam o mundo, assim como as suas experiências. Caso isso seja considerado, o SCM permite ao participante liberdade para expressar seus conceitos.
Por essa razão, difere de outros procedimentos de coleta de dados, uma vez que é realizado com poucas limitações e quase nenhuma restrição quanto à maneira de realização das classificações. Uma justificativa para essa versão menos restritiva do Sistema de Classificações Múltiplas, a partir das visões de Canter, Brown & Groat (op. cit.), é a crença de que os significados e as explicações associadas ao uso das categorias individuais propostas são tão importantes quanto a distribuição efetiva dos elementos dentro dessas categorias.
O Sistema de Classificações Múltiplas também tem outra qualidade relevante para esta Tese; o fato de não depender inteiramente de declarações verbais – que só ocorrem depois das classificações serem realizadas – possibilitando que as imagens e percepções das pessoas sejam determinantes em suas respostas.
De acordo com Monteiro (1989), quando os participantes começam a classificar os eventos ou objetos usam imagens, símbolos, valores e conceitos que estão em suas mentes. Eles só verbalizam após completarem as classificações, explicando os conceitos e as categorias que utilizaram e os motivos para fazê-las. As pessoas, frequentemente, comunicam suas ideias e fazem declarações sobre os objetos classificados, fornecendo uma rica fonte de informação. Tais informações não são formalmente solicitadas pelo pesquisador, mas resultam do pensamento delas.
O Sistema de Classificações Múltiplas consiste em pedir aos participantes para classificar os mesmos elementos diversas vezes, a fim de compreender suas ideias sobre eles. Os elementos devem ser agrupados pelas similaridades de forma que elementos de uma mesma categoria tenham algo importante e distinto das demais. Os elementos de estímulos dependem da questão da pesquisa e podem ser gerados tanto pelo entrevistado como pelo entrevistador. É possível ter grandes variações nos tipos de elementos classificados como atividades, objetos, imagens ou qualquer outra coisa. Tal procedimento tem sido largamente utilizado em pesquisas sobre o ambiente construído, pois é um dos poucos que permite o uso de material visual.
No procedimento de “classificações livres”,o participante pode produzir quantas classificações quiser, estando relacionadas com o número de vezes que ele puder imaginar dividir os elementos utilizados para classificação. Dependendo do interesse da pesquisa, pode-se solicitar que o entrevistado classifique os elementos conforme critérios preestabelecidos, essas são as chamadas “classificações dirigidas”.
Vários estudos têm utilizado o método das classificações múltiplas no campo da avaliação de ambientes. Segundo Canter, Brown & Groat (1985), Oakley usou etiquetas de lugares de estada como hotel ou hospital, para examinar as visões dos moradores sobre o Albergue do Exército da Salvação, onde ele estava vivendo. Grainger solicitou que arquitetos e seus clientes classificassem as atividades que um determinado edifício deveria abrigar, buscando definir os diferentes entendimentos sobre as funções de um edifício. Fotografias de edifícios foram utilizadas por Groat para testar hipóteses sobre as concepções de estilo dos arquitetos. Bishop realizou
classificações livres, utilizando fotografias de diversos prédios para testar o papel que a idade dos edifícios tem nas visões das pessoas sobre as suas vizinhanças.
O Sistema de Classificações Múltiplas também tem sido utilizado para explorar conceitos ou representações que as pessoas formulam sobre lugares e as suas experiências ambientais, além de empregarem os mais diversos tipos de imagens. Monteiro (1989) utilizou uma série de pictogramas rotulados com diferentes ocupações, assim como um conjunto de fotografias de diferentes padrões de casas para entender como moradores de diversos bairros representavam a vida e qualidade de outros bairros da cidade. Já Figueiredo (2001) empregou fotografias de edificações para estudar os conceitos e representações da preservação de um sítio histórico, na visão de habitantes e arquitetos especialistas em patrimônio.
Existem evidências, portanto, de que o Sistema de Classificações Múltiplas é confiável para a exploração empírica de conceitos e representações sociais dos entrevistados. A abordagem adotada por Moscovici, a partir de Monteiro (op. cit.), analisa o que as pessoas dizem, nas conversações e nas interações sociais em geral, comparando esse conteúdo com aquele que é transmitido pelos meios de comunicação, para revelar se os conceitos das pessoas e as representações de qualquer evento ou objeto são essencialmente sociais. De modo semelhante, o Sistema de Classificações Múltiplas permite identificar o conteúdo das categorias individuais para verificar se elas são socialmente compartilhadas.
A partir das vantagens acima relacionadas, esta pesquisa explora a viabilidade de investigar os conjuntos de categorizações socialmente compartilhados, usando o Sistema de Classificações Múltiplas, um procedimento que parte das categorizações individuais, e através das técnicas analíticas propostas pode combiná-las, a fim de avaliar tanto a existência de representações sociais, como também a análise do nível de consenso dos entrevistados.