3. A INFLUÊNCIA DOS SISTEMAS ELEITORAIS SOBRE A SOCIABILIDADE
3.1 SISTEMA ELEITORAL BRASILEIRO: BREVES NOTAS
Diante do cenário de competição por votos, faz-se necessária a apresentação dos sistemas eleitorais, abordando principalmente as eleições proporcionais. De acordo com Nicolau (2004, p. 11), “sistema eleitoral é o conjunto de regras que define como em uma eleição o eleitor pode fazer suas escolhas e como os votos são contabilizados para serem transformados em mandatos (cadeiras no Legislativo ou chefia no Executivo)”.
Os sistemas eleitorais podem ser: majoritários – o candidato que receber a maioria ou a maioria absoluta (50% + 1) dos votos é eleito; proporcionais – as vagas eleitorais são distribuídas de acordo com os votos recebidos pelos partidos e suas representações; e mistos – são modelos que utilizam os sistemas majoritário e proporcional (LIJPHART, 2003; NORRIS, 1997; NICOLAU, 2004).
FIGURA 1 – SISTEMAS ELEITORAIS
Fonte: NICOLAU (2004, p. 12).
No sistema majoritário, em que a eleição se dá pelo recebimento da maioria dos votos, existem basicamente três variantes: maioria simples; dois turnos; e voto alternativo. O sistema de maioria simples é aquele em que para ser eleito, basta ao candidato receber mais votos que seus concorrentes. Os Estados Unidos e Reino Unido adotam este sistema. A eleição por dois turnos é semelhante ao modelo de maioria simples, no entanto, para ser eleito, o candidato necessita receber a maioria absoluta dos votos válidos (mais de 50%). Este sistema geralmente é utilizado para a disputa de cargos para o executivo, porém países como a França também o utilizam para cargos legislativos. No sistema de voto alternativo, o candidato também necessita ter a maioria absoluta dos votos, no entanto em um único turno. Isso acontece devido à transferência de votos dos candidatos menos votados para os mais votados, sendo a Austrália um dos países que adota este sistema (NORRIS, 1997; NICOLAU, 2004).
O sistema proporcional, por sua vez, procura atender a duas preocupações: a primeira de garantir a diversidade de opiniões e a segunda, a de assegurar uma correspondência entre os votos recebidos pelo partido e sua representação. As duas divisões do sistema proporcional são através do voto único transferível e através de listas. No sistema de voto único transferível, calcula-se uma fórmula de votos a qual o candidato deve atingir para ser eleito. No sistema por lista, é calculada uma cota a qual o partido deve alcançar para garantir sua representatividade. As listas podem ser fechadas, nas quais o partido decide antes das eleições, a ordem na qual os candidatos aparecerão na lista. Assim, os eleitores votam no partido e não declaram preferência a um determinado candidato, e, portanto, as cadeiras destinadas ao partido são direcionadas aos candidatos em ordem da lista. Já no sistema de lista aberta, o partido apresenta uma determinada lista de candidatos e o eleitor escolhe
o candidato. As cadeiras destinadas ao partido são preenchidas pelos candidatos que receberam a maior quantidade de votos (NICOLAU, 2004).
O sistema de lista aberta é utilizado no Brasil para os cargos de deputados e vereadores desde as eleições de 1945, porém até 1962, o voto era direcionado unicamente ao candidato, não sendo possível o voto na legenda do partido (NICOLAU, 2004).
Já o sistema eleitoral misto é aquele que combina o voto majoritário e proporcional, e que tem entre suas variantes a superposição e a correção. No sistema misto de superposição, o eleitor elege seus representantes através de duas fórmulas, sendo que o eleitor vota no candidato que está concorrendo pelo distrito e em outro candidato que concorre por lista partidária. O sistema misto de correção também utiliza duas fórmulas, que visam corrigir distorções causadas pela parte majoritária, isto é, o eleitor vota no candidato e no partido, sendo que o voto no partido é que determina quantas cadeiras cada partido terá direito (NICOLAU, 2004). No sistema eleitoral brasileiro, as eleições adotam o sistema majoritário para a escolha de presidente, governadores, senadores e prefeitos. Já o sistema proporcional de lista aberta é utilizado para a escolha de deputados federais, estaduais e vereadores. No primeiro sistema, a escolha ocorre através do voto da maioria absoluta da população votante (mais de 50%), com exceção a disputa para o cargo de senador, na qual a eleição ocorre em turno único, com maioria simples dos votos, e para o cargo de prefeito, nas cidades com mais de 200 mil eleitores, onde se tem a necessidade de alcançar a maioria absoluta dos votos. As eleições para os cargos nas Assembleias Legislativas (deputados e vereadores) se dão através do sistema proporcional com lista aberta (BRASIL, 1988; 1965).
Como dito anteriormente, as eleições para vereador ocorrem através de sistema proporcional de lista aberta, na qual os eleitores votam em um candidato específico ou na legenda do partido. Desta forma, os candidatos são eleitos de acordo com a proporcionalidade dos votos que recebem. No entanto, não são todos os candidatos mais votados que são eleitos, mas sim os candidatos de acordo com a divisão das cadeiras legislativas entre os partidos, buscando-se uma maior diversidade de opiniões na legislatura (KINZO, 2004).
Para compreender de que forma ocorre a divisão das cadeiras entre os partidos é necessário entender o que significa o quociente eleitoral e o quociente partidário. O código eleitoral em seu artigo 106º define “[...] o quociente eleitoral
dividindo-se o número de votos válidos apurados pelo de lugares a preencher em cada circunscrição eleitoral, desprezada a fração se igual ou inferior a meio, equivalente a um, se superior” (BRASIL, 1965, art. 106), conforme fórmula abaixo:
𝑄𝐸 =𝑛ú𝑚𝑒𝑟𝑜 𝑑𝑒 𝑐𝑎𝑑𝑒𝑖𝑟𝑎𝑠𝑣𝑜𝑡𝑜𝑠 𝑣á𝑙𝑖𝑑𝑜𝑠 (fórmula 1)
E o artigo 107º define que “[...] para cada partido ou coligação o quociente partidário, dividindo-se pelo quociente eleitoral o número de votos válidos dados sob a mesma legenda ou coligação de legendas, desprezada a fração” (BRASIL, 1965, art. 107), conforme fórmula abaixo:
𝑄𝑃 =𝑣𝑜𝑡𝑜𝑠 𝑣á𝑙𝑖𝑑𝑜𝑠 𝑟𝑒𝑐𝑒𝑏𝑖𝑑𝑜𝑠 𝑝𝑒𝑙𝑜 𝑝𝑎𝑟𝑡𝑖𝑑𝑜𝑞𝑢𝑜𝑐𝑖𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑒𝑙𝑒𝑖𝑡𝑜𝑟𝑎𝑙 (fórmula 2)
Para exemplificar como ocorre na prática a distribuição das vagas na legislatura, toma-se como exemplo a cidade de Curitiba, com suas 38 vagas para vereadores. A cidade possui um total de 1.289.204 eleitores, sendo que destes, compareceram para votar no primeiro turno de 2016 um percentual de 83,56%. Portanto, o quociente eleitoral é obtido a partir do número de votos válidos divididos pelo número de cadeiras no legislativo. Assim, a cidade teve um total de 880.869 votos válidos para vereador17, ou seja, o total de votos menos os votos brancos e nulos. Aplicando a fórmula (1), tem-se:
𝑄𝐸 =880.869
38 = 23.170
Portanto, o quociente eleitoral foi de 23.170 votos. Isso significa que, para ter direito a uma vaga para vereador, o partido ou coligação, deve atingir no mínimo 23.170 votos recebidos, somados todos os votos dos candidatos que compõem a coligação ou partido. Diante do quociente eleitoral é possível determinar quantas vagas cada partido terá direito, através do quociente partidário, aplicando a fórmula
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As informações referentes a números de eleitores, seções eleitorais e votos válidos podem ser acessadas no site do Tribunal Superior Eleitoral, no seguinte endereço: http://divulga.tse.jus.br/oficial/index.html. Acesso em 07/04/2017.
(2). No entanto, nem sempre o número resultante da fórmula coincide exatamente com o número de vagas disponíveis, resultando em sobras de cadeiras. Estas sobras são redistribuídas entre os partidos e coligações pelo sistema de média eleitoral (BRASIL, 1965).
Diante do exposto, para um candidato a vereador ser eleito, é necessário que o seu partido/coligação atinja o quociente eleitoral e o candidato em questão seja o mais votado dentro de sua coligação. Desta forma, o candidato não precisa atingir a maioria dos votos da população, mas somente uma proporção que lhe garanta a eleição. Assim, o cargo em disputa irá formatar a forma pela qual o candidato se comunica com seu eleitor, ou seja, se ele precisa da maioria dos votos ou somente uma proporção deles.