• Nenhum resultado encontrado

Slams - Microesferas e Micropolíticas Sociais

No documento São Paulo (páginas 29-33)

2 SLAMS E A MICROPOLITICA URBANA

2.2 Slams - Microesferas e Micropolíticas Sociais

Estes espaços que possibilitam e criam um fluxo, seja do corpo ou da palavra, um chamado de liberdade no ambiente urbano. Para Foucault (2006) e Deleuze (1995), essa microesfera – o Slam, opõem-se a sociedade da maneira como acontece atualmente. Seria o Slam Resistência a possível máquina de guerra, a potência ativa no espaço das possibilidades não dadas, não ofertadas?

Esse espaço seria aquele que construímos para o nosso habitar, e onde, para Foucault, ‘sempre nos tornamos algo diferente do que somos’, ou para Derrida, ‘onde se criaria a possibilidade de chegada de algo que não nos deixaria os mesmos’, ou ainda, para Gilles Deleuze, ‘onde se daria a possibilidade de ocorrência do “virtual”, ou seja, a realidade da qual ainda não possuímos o conceito’. Em suma, seria no espaço, não no espaço pré-determinado, mas nos “entres”, nos espaços livres de pré-configurações, que vivenciaríamos estes “momentos de invenção” e criaríamos condição para o devenir autre, indo além dos limites impostos pelo natural [é possível afirmar o que seria próprio e essencial de cada “lugar” ou espaço?], pela história construída por discursos dominantes. (GUATELLI, 2008, 094.00) O sujeito criativo no mundo contemporâneo cria possibilidades de ecossistemas. Os coletivos que existem e subsistem nas cidades são rizomas, de

acordo com o filósofo Gilles Deleuze (1995). O conceito de rizoma ou de situações rizomáticas resiste a algo instável e difícil de ser mapeado, uma estrutura de multiplicidade (DELEUZE, 1995).

A propriedade e identidade do lugar é deturpado nos instantes em que acontece a competição de poesia, o evento, manifestação. Um lugar não reconhecido, ilegítimo. No momento do evento se torna um jogo no espaço, entre os indivíduos. A deturpação do uso na arquitetura em Tschumi (1996), pode ser considerada uma construção impermanente de territorialidades.

Em 1720, o filósofoLeibnizescreve em “Princípios da Filosofia - Monadologia” sobre as mônadas que são como bolhas ou esferas. Leibniz disserta sobre a mônada ser um mundo completo simples e indivisível. Compostas por partes simples, as mônadas são auto suficientes, ou seja, perfeitas e é assim que a bolha, no caso, o Slam, torna-se uma esfera de compartilhamento.

Uma esfera, um acontecimento, que não pré existe ao compartilhamento onde estão as subjetividades múltiplas dos indivíduos. Na monadologia de Leibniz, tudo que é compartilhado no espaço ocupa espaço, existe uma troca nas bolhas, no espaço onde acontece o Slam.

Figura 20: Slam Resistência, Praça Roosevelt, São Paulo, 2017. IMAGEM: Vitor Villaça Campanario, em: 04 de setembro de 2017.

O uso horizontal e vertical daquele lugar, pelo indivíduo sem distinção, acorda com Passetti (2008, p. 112-113) em “Michel Foucault e os Guerreiros Insurgentes - Anotações Sobre Coragem e Verdade no Anarquismo Contemporâneo”, no livro Cartografias de Foucault que “Todavia, a anarquia não é um movimento linear. Sua singularidade está em produzir diversos anarquismos e não ser apanhada por um modelo.” Seria então o momento de observar o que as heterotopias de Foucault (1984) têm a ver com as cidades contemporâneas.

De que maneira a arquitetura poderia auxiliar a construção das microesferas que ocupam o espaço urbano? “O anarquista não habita um território, inventa percursos e distribui as pessoas num espaço aberto.”, como disse Passetti (2008, p. 115-116), “O seu espaço é localizado, mas não delimitado, e é onde acontece uma máquina de guerra diante de um Estado”.

Os indivíduos descartados como aglomerados tomam força quando sujeitos reunidos pelo Slam, apresentado aqui neste trabalho. Desencadeiam situações rizomáticas, instáveis e difíceis de serem mapeadas – desde o início da divulgação dos próximos eventos pela Internet, até o momento em que acontecem.

Para os anarquistas, as liberações de costumes no amor, na educação, na arte, no aprendizado, nas comemorações festivas, antecedem e acompanham a revolução como fator libertador. (PASSETTI et al., 2008, p. 111)

Figura 21: Slam Resistência, Praça Roosevelt, São Paulo, 2017. IMAGEM: Vitor Villaça Campanario, em: 04 de setembro de 2017.

Em outro momento, pode-se citar o livro “Esferas II”, de Sloterdijk (2017), que acrescenta o fato de que nas esferas, se foge da razão histórica, as mônadas de Leibniz passam a possuir aberturas. Microterritorializações, como para Deleuze (1995), de codificações instáveis onde as ações espontâneas como os Slams são diferentes das ações induzidas. Como, em relação à arquitetura e o espaço urbano, potencializar essas ações considerando o Slam Resistência como hipótese ou uma ponta solta intencional no espaço público?

Os Slams surgem contra uma fonte de autoridade e em um espaço urbano intermediário. Essa estrutura múltipla faz com que esses indivíduos possam ser uma coisa e outra, tornando-se outra coisa; entendendo-se coisa aqui como o papel do sujeito no espaço intermediário. Lugar onde existe na sociedade o entendimento do outro indivíduo no momento em que acontece, a maneira como o sujeito se expressa é seu próprio reconhecimento, quando se torna protagonista da própria história:

Não somos, enfim, governados por ideias, mas por efeitos de lutas. O anarquista é o combatente das grandes e pequenas desigualdades, e das imediatas e transcendentais hierarquias, quando permanece rebelde (PASSETTI et al., 2008, p. 119).

Figura 22: Slam Resistência, Praça Roosevelt, São Paulo, 2017. IMAGEM: Vitor Villaça Campanario, em: 04 de setembro de 2017.

Inventar a vida é mais que resistir aos efeitos de dominação e contrapropor maneiras de ultrapassar a exploração e a dominação. É preciso recusar o soberano sobre si e promover a vida libertária por miríades de associações. Restrita ao movimento social, a anarquia

estará reduzida à posição resistente, a compor um fluxo alternativo, a reescrever uma polêmica com o Estado e à economia atual; quem sabe até assujeitada ao marxismo ou mesmo a uma contraordem organizativa interna que julgue o que é anarquismo e o que não é, segundo um modelo, uma doutrina. Limitado ao movimento social o anarquismo é somente utopia de revolução, risco de restauração de um soberano, iminência do terror. O parresiasta não desaparece, atinge. (PASSETTI et al., 2008, p. 121)

No documento São Paulo (páginas 29-33)

Documentos relacionados