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Smart-Power como intermediário de um novo paradigma de poder

II. Os instrumentos de acção política

1. O poder brando e a acção pela inteligência – Soft e Smart Power

1.2. Smart-Power como intermediário de um novo paradigma de poder

Mais recentemente, parece ter entrado em jogo uma nova variável de poder. O Smart Power, cuja definição sintética seria a soma do já referido Soft Power com o Hard Power ou segundo Joseph Nye, “a habilidade para combinar elementos de Soft e Hard Power para chegar a uma estratégia vencedora”. O termo surge na ressaca do fracasso da Guerra no Iraque e com a estratégia neoconservadora dos republicanos para dirigir a sua política externa.

Segundo a nova administração dos EUA, liderada por Barack Obama, o país estaria prestes a abandonar a ênfase colocada no Hard Power que teria caracterizado a era Bush e pronto a iniciar uma nova era, a ser dominada pelo Smart Power. Seria esta a chave para a recuperação do prestígio e da posição internacional dos EUA, delapidados nos oito anos de governo Bush.

Em 2008, o próprio Nye publicou “The Powers to Lead”105 onde advogava a necessidade da nova Administração de Barack Obama, pôr em prática uma nova estratégia, personificada no Smart Power, o que significaria dar mais ênfase à diplomacia e implicaria a habilidade de saber conjugar os recursos de Soft Power e de Hard Power. A disposição perfeita para se levar a cabo uma estratégia ganhadora, como diz o próprio autor, consciente da necessidade de adaptar os poderes aos diversos contextos com que se deparam à frente dos políticos, e passíveis de serem optimizados quando bem conjugados com o aspecto ideológico dos governantes. Como a própria secretária de Estado norte-americana terá afirmado a propósito da implementação do Smart Power: “cada caso será um caso” numa frase que representa bem a estratégia que se quer para a diplomacia106.

“A Smarter, More Secure America”, de 2007, um relatório da Comissão para o Soft Power do Center for Strategic & International Studies107 e do qual fazia parte o próprio Nye, aponta precisamente para a necessidade de os Estados Unidos criarem desde logo uma alternativa capaz ao Soft Power, independentemente do presidente e da ideologia do mesmo, defendendo-se a ideia de que o Smart Power seria de importância extrema no fornecimento de bens, pessoas e soluções de governo nos quatro cantos do mundo, ao mesmo tempo que esta estratégia era definida como sendo a melhor, face

105

Ver NYE, Joseph S., The Powers to Lead, Oxford University Press, Oxford, 2008.

106

Cfr. “Hillary Clinton Advocates Smart Power”, disponível em

http://www.youtube.com/watch?v=PNQQyKBml04, consultado a 11 de Janeiro de 2011. O cunho desta

expressão é obviamente de Joseph Nye mas a sua mediatização foi sobretudo com esta exposição de Hillary Clinton, ainda antes da tomada de posse como Secretária de Estado, tendo referido na altura: “We must use what has been called smart power — the full range of tools at our disposal — diplomatic, economic, military, political, legal, and cultural — picking the right tool, or combination of tools, for each situation. With smart power, diplomacy will be the vanguard of foreign policy.” O Smart Power foi na altura, a expressão / slogan para o primeiro mandato de Barack Obama.

107

Cfr. A Smarter, More Secure America, disponível em http://csis.org/publication/smarter-more-secure-america, consultado a 2 de Fevereiro de 2011.

Rui Miguel Rebelo Alves

aos desafios globais em curso. O uso de todas as ferramentas ao dispor da diplomacia que permitam proteger a imagem da América em pleno declínio na Europa, América Latina e mais evidentemente, no mundo muçulmano108, constituem o objectivo a assegurar.

A ascensão da China no panorama global, coincidiu com um ganho tremendo de novos instrumentos de defesa, o que permitiu que tal estado tenha permitido nos últimos vinte anos, desenvolver novos objectivos ao nível estratégico. Neste campo, os EUA precisam de lidar com o seu rival asiático de forma ponderada não se podendo dar ao luxo de criar uma quezília bélica numa área tão sensível do globo. Durante as últimas décadas, a China desenvolveu mecanismos de Soft Power estrategicamente localizados no Sudeste Asiático e que, pouco a pouco, se têm vindo a transformar em presença militar109. Neste sentido, os EUA têm forçado mecanismos de cooperação que provoquem a melhoria do ambiente naquela zona do globo participando nomeadamente em conferências da Association of Southeast Asian Nations (ASEAN)110 sem nunca mencionar os aspectos militares da rivalidade. Serve este exemplo prático para ilustrar aquilo que parece ser o envolvimento geopolítico dos EUA sem expressar a sua capacidade militar nem recorrendo expressa e unicamente às suas mais-valias culturais. Analisando o enorme potencial militar da China, os EUA, através do Smart Power111, parecem salvaguardar os seus interesses recorrendo à negociação e propondo sempre soluções favoráveis à paz, mas em caso de necessidade, sem abdicar dos seus objectivos, pelo menos aparentemente.

Potenciar o desenvolvimento económico ao mesmo tempo que não dispensa a sua acção militar, é em grande medida a caracterização do Smart Power numa altura em que a América ainda tarda em encontrar o melhor caminho para a sua diplomacia.

As abruptas mudanças ao nível mundial causadas em grande parte pela enorme crise financeira que o mundo atravessa, fizeram com que os próprios EUA retardassem toda a sua estratégia militar para proteger os seus objectivos económicos.

É com a China que os EUA, têm hoje alguns dos seus maiores problemas económicos para resolver numa difícil guerra cambial. É na economia que o presidente é mais atacado internamente e é na

108

Cfr. NYE, Joseph S., “The U.S. can reclaim 'smart power'”, in Los Angeles Times, diponível em

http://www.latimes.com/news/opinion/commentary/la-oe-nye21-2009jan21,0,3381521.story, consultado a 12 de

Janeiro de 2011. Sem nos determos em mais operacionalizações de um conceito ainda pouco desenvolvido na prática, Nye considera neste contexto que a América deve ser a curto-prazo uma “smart America”, “by again investing in global public goods, providing things people and governments of the world want but have not been able to get in the absence of leadership by the strongest country. Development, public health and coping with climate change are good examples. By complementing U.S. military and economic might with greater investments in soft power, and focusing on global public goods, the U.S. can rebuild the framework that it needs to tackle tough global challenges.”

109

Cfr. THAYNER, Charles A., China’s Soft Power vs America’s Smart Power, disponível em

http://www.eastasiaforum.org/2010/08/31/chinas-soft-power-v-americas-smart-power/, consultado a 12 de Janeiro

de 2011. O contexto desta “quezília” diplomática é obviamente muito específica no espaço e no tempo mas reflecte uma readaptação da diplomacia norte-americana à estrutura das outras super-potências.

110

Cfr. Idem.

111

Será óbvio que ao mesmo tempo que a China foi impondo a sua estratégia de Soft Power para os seus países satélite, os EUA também se impuseram no coração da cultura chinesa por via das suas mais-valias representativas. A este respeito consulte-se McDonald’s in Beijing: The Localization of Americana de Yunxiang Yan, Stanford, Stanford University Press, 1997.

economia que tem que encontrar as soluções para que possa vir a ser reeleito112. O lado militar que tem usado, confere-lhe principalmente o privilégio de poder acabar com guerras, como a do Iraque e a do Afeganistão, e que têm custado milhares de vidas americanas. O hard power é caro demais, e por isso será sempre necessário pensar e projectar novos mecanismos, mais eficazes.