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Sobre o “corpo mole” e a produtividade no trabalho

RELAÇÕES DE PROPRIEDADE E APROPRIAÇÃO DO TRABALHO EXCEDENTE

6.3.4 Sobre o “corpo mole” e a produtividade no trabalho

É uma constatação geral que o trabalho das pessoas no coletivo decai em termos de tempo e ritmo quando comparado com o trabalho executado nas unidades de produção individual-familiar. São vários testemunhos pessoais de membros do próprio coletivo que confirmam essa questão. Trabalha-se menos tempo e em um ritmo muito mais lento do que no trabalho individual. E ainda assim muitas pessoas rendem pouco nesse tempo trabalhado (corpo mole).

O “corpo mole” tem efeito direto e indireto sobre a produtividade geral do trabalho no coletivo. Direto porque a pessoa que faz “corpo mole” produz menos e contribui para rebaixar a média produzida no conjunto dos associados. E indireto porque gera dois efeitos desestimulantes: o desestímulo a outros trabalhadores que reduzem seu ritmo para adequá-lo à média do grupo (o que leva a um auto-reforço negativo) e pelo fato de gerar atritos entre as pessoas que criticam a atitude do “corpo mole”, gerando desconfiança mútua e inimizades, etc.

Some-se a isso o fato de que a preocupação com o “corpo mole” desvia a atenção do coletivo para questões secundárias110, deixando de lado aspectos mais importantes para a sobrevivência do grupo a longo prazo.

Na COOPTAR, porém, pôde-se observar um padrão diferenciado em relação aos demais coletivos111, ainda que também constate-se a reclamação sobre a existência de corpo mole no serviço. Na COOPTAR era muito forte essa lógica do “corpo mole” e de “fazer hora”

segundo um dos entrevistados. “Isso mudou a partir do momento em que se decidiu fixar o anteriores. Aparentemente esse movimento de ajuste ocorreria sempre que gradualmente, dentro de um coletivo, fossem sendo criadas condições objetivas de produção e/ou ocorresse

110 O secundário aqui se refere a que, uma vez atingida uma produtividade socialmente média do trabalho pelo coletivo, essa questão deixa de ser a central para a sobrevivência do grupo (passando por exemplo a ser a estratégia econômica o aspecto chave a ser equacionado). Porém no caso do grupo estar com a sua produtividade média em níveis abaixo do socialmente necessário, ela permanece sendo uma questão importante para o equacionamento e para a sobrevida do grupo.

'1' Apesar desse padrão diferenciado não ter sido detectado pelo questionário (o que parece indicar a limitação do mesmo para captar certas nuanças dos coletivos) o “clima organizacional” na COOPTAR aparentou ao pesquisador uma certa mística diferenciada em relação aos outros coletivos no que toca à disposição e os problemas relacionados com a organização do trabalho. Será isso derivado principalmente da melhor remuneração?

associados, porém sem adotar a fixação do teto de horas, e aparentemente sem uma conseqüente redução na problemática da soma de horas e do “corpo mole”. Em certo sentido, esse caso parece sugerir que também deve fazer parte dessa equação o nível de ganhos monetários propiciados pelo coletivo, sendo este bem maior na COOPTAR do que na COPAVT (ainda que não haja diferenças estatisticamente significativas entre os dois coletivos quanto às queixas sobre o nível de remuneração que o coletivo oferece).

Várias cooperativas estabeleceram metas que vinculam diretamente aumentos na produção e produtividade com a melhoria das condições de vida das famílias, via aumento no valor monetário distribuído mensalmente. Elas definiram que a renda obtida em parte ou na totalidade por um dos produtos comercializados (o caso mais comum é o do leite) seria distribuída aos associados. Nesse caso, a cada aumento de produção corresponde um incremento real na renda monetária mensal familiar. O efeito dessa medida é em geral uma melhor programação das famílias em tomo dessa renda monetária mensal e em geral uma melhora na compreensão renda familiar versus produtividade do trabalho.

As crises ocasionadas pela saída de membros dos coletivos parecem também em parte representar e refletir uma necessidade de “ajuste natural” à capacidade de geração de renda e de sustentação de famílias pelo coletivo em um dado momento. O ajuste dar-se-ia em função de que existem descasamentos entre o número de pessoas (que seria excessivo) e o número de postos de trabalho que assegurem geração de produção e renda suficientes para assegurar a sobrevivência das mesmas.

Como esse processo não se dá de forma “racional”, no sentido de ser pensado e de se calcular o número de pessoas excedentes, ele ocorre em muitos casos de forma traumática.

Porém, após o “trauma inicial”, o ajuste tende a tomar melhor a existência dos que permaneceram, por recolocar de forma melhorada a relação “número de pessoas para sustentar” versus “recursos produtivos e capital disponível” e, portanto, altera a composição orgânica do capital. Isso é visível na grande maioria dos coletivos que passam por essa situação (são raros os casos em que isso não ocorre).

O “ajuste” na mão-de-obra e no número de pessoas existentes surge como um efeito secundário que a crise provoca. Mesmo nos casos em que há redução abaixo do ponto de equilíbrio entre a demanda de postos de trabalho e a força de trabalho disponivel, e desde que

haja uma administração eficiente dessa “melhoria relativa” dos indicadores, é possível assegurar ganhos na qualidade de vida e na efetividade econômica do coletivo.

Ao ocorrer o ajuste entre a força de trabalho e o número de postos de trabalho existentes, o resultado é o surgimento de uma “pressão objetiva”, que conduz as pessoas a ganhar produtividade no trabalho112. Como exemplo pode-se citar o ocorrido na COPAVI: no setor de suinocultura e avicultura a atividade era realizada por três pessoas. Com a saída de pessoal do coletivo, ajustou-se para que somente uma pessoa se responsabilizasse pelas atividades11“'. Esse exemplo pode ser buscado em praticamente todos os coletivos que enfrentaram defecções de pessoal.

6 .4 C o n c l u s ã o d o c a p í t u l o

Em relação ao trabalho assalariado, constatou-se uma situação paradoxal em que duas das cooperativas estudadas utilizam-se do expediente da contratação de trabalhadores assalariados a fim de suprir a escassez de força de trabalho, ao passo que outros dois coletivos enfrentam sérias dificuldades, em grande medida pelo excesso de força de trabalho relativamente aos meios de produção disponíveis e, portanto, pela necessidade de alocar uma parcela maior ou total dos seus excedentes (quando houver) a fim de assegurar a subsistência das famílias.

Um dos objetivos do presente capítulo era o de identificar se já se configura em algumas das cooperativas estudadas a existência de trabalho coletivo capitalista. Com base na maioria dos critérios elencados, em duas das cooperativas (Cooptar e Copavi) pode-se considerar que já se verifica essa condição em que o coletivo ultrapassa a simples contratação eventual, para uma situação de dependência da contratação sistemática do assalariamento. Há,

1,2 Em geral, com a saída de pessoal do coletivo, a sua capacidade produtiva, determinada pelos seus meios de produção, não é alterada significativamente. Como a maioria dessas crises se dá nos períodos iniciais do coletivo, em que o desenvolvimento econômico é menor e onde as dívidas de investimentos ainda não foram pagas (e portanto o capital ainda é predominantemente de terceiros, cabendo pouco a cada associado) as pessoas que saem levam uma pequena fração do capital produtivo implantado ou em implantação. É esse fator que provoca um ajuste e melhoria relativas: uma mesma capacidade produtiva deve ser tocada agora por um número menor de trabalhadores e. principalmente, gerar produção para alimentar um número menor de bocas (é bom frisar que isso geralmente é temporário, tendo em vista que posteriormente essas famílias terão de ser substituídas por outras no caso de áreas totalmente coletivas devido a exigências legais quanto à capacidade de assentamento da área que é determinada pelo INCRA - o que pode demorar vários anos)

porém, uma importante exceção nos critérios definidos para o enquadramento na categoria do assalariamento sistemático e que não é cumprida em nenhuma dessas CP As. Na análise, esse critério mostrou-se essencial para diferenciar as duas situações de trabalho coletivo (capitalista versus não propriamente assalariado). É o que busca caracterizar a estratégia intencional de obtenção de lucro através da apropriação da mais-valia gerada pelos trabalhadores assalariados contratados pelo coletivo.

Contudo, apesar desse atenuante, há que se analisar que objetivamente ambos os coletivos enfrentam hoje uma contradição gerada pela presença do assalariamento em seu seio e, portanto, como componente indispensável para a manutenção de seu padrão produtivo atual. O fato de não haver uma proposição intencional de extração de mais-valia, não significa que ela não seja extraída. O gesto neste caso vale mais do que a intenção.

Essa contradição poderá se desenvolver tanto no sentido de sua superação pela supressão do assalariamento como, ao inverso disso, pelo crescimento do mesmo e a gradual transformação dos coletivos em unidades capitalistas (trabalho coletivo capitalista).

Outro aspecto essencial para a sobrevivência e crescimento das experiências coletivas é a produtividade do trabalho. De forma geral constatou-se baixa produtividade do trabalho dos associados, aliada a manifestações de desestímulo e falta de empenho nas atividades. A distribuição dos resultados, que é feita com base no número de horas trabalhadas pelos associados, nas condições concretas em que se situa o desenvolvimento das forças produtivas (meios de produção e qualificação/experiência da força de trabalho) estaria levando a um desvio de foco. Um indicador criado para traduzir a contribuição de cada associado no processo de trabalho - e portanto sua fração correspondente na produção total resultante - acaba se tornando um fim em si mesmo. Muitas pessoas preocupam-se em “somar horas” e acabam tendo pouco empenho no trabalho, produzindo como resultado uma média bastante baixa de resultados.

Constatou-se haver dois tipos de limites para a superação dessa situação. O primeiro e principal seria a necessidade de maiores investimentos em capital produtivo (elevação da composição orgânica do capital) que empregue de forma economicamente sustentável a grande parcela dos trabalhadores que hoje estão sendo ocupados em atividades de pouca produtividade e rentabilidade.

113 Esses dados sobre aumento da produtividade podem ser melhor visualizados no capítulo 7.

O segundo limite seria a necessidade de alteração de elementos subjetivos ligados à forma de remuneração do trabalho, através da alteração do sistema atual para uma lógica que vincule mais diretamente o tempo atribuído e a produtividade física obtida no processo de trabalho. Alterações nos procedimentos de planejamento das atividades, alocação de pessoal em atividades mais rentáveis (dentro da composição atual do capital fixo disponível ou em atividades externas geradoras de renda) e controle dos resultados tenderiam a trazer ganhos de eficiência (exemplo: redução na porosidade - em termos de tempo) e ganho de eficácia (alocação da força de trabalho em atividades mais rentáveis) que resultariam em melhoria de competitividade global.

O certo é que sem a constante elevação na produtividade do trabalho toma-se impossível obter melhorias sustentáveis e duradouras nas condições de vida das pessoas e também competitividade frente à concorrência com os produtores capitalistas.

Um importante quadro que emerge da pesquisa é a constatação da existência de três situações básicas em torno do ajuste entre o número de postos de trabalho existentes e a força de trabalho disponível entre os membros do coletivo. Sendo a priori fixo o número de membros do coletivo - condicionado pelo número de famílias membros e da força de trabalho disponível em cada uma delas - e portanto da oferta de trabalhadores, o grau de desenvolvimento do coletivo é condicionado pelo número de postos de trabalho existentes, que por sua vez é uma função do volume de capital constante aplicado e do seu nível tecnológico114.

Nesse sentido, tem-se uma primeira situação em que nem o coletivo como um todo e nem as atividades (linhas de produção) desenvolvidas pelo mesmo encontram-se ajustadas, ou seja, em que em todos os setores, e portanto no conjunto da cooperativa, há excesso de trabalhadores em relação ao número de postos de trabalho (que representam a necessidade real e sustentável de força de trabalho naquelas condições). Essa situação é mais característica dos primeiros anos de desenvolvimento dos coletivos115.

114 E que por sua vez implica em uma composição orgânica do capital “ótima" e que portanto define o nível de emprego real de força de trabalho que poderia ser sustentado pelo coletivo. Esse ótimo é relativo, pois deveria necessariamente se referir à composição orgânica do capital em termos médios de mercado capitalista, para o segmento produtivo em que a cooperativa se insere. Um maior aprofundamento dessa discussão será realizado no capítulo 7.

1,5 Obviamente essa afirmação refere-se aos coletivos surgidos na mesma lógica que ocorre no MST, qual seja:

o número de famílias e portanto de pessoas a ser envolvidas e sustentadas é definido antes mesmo de começar a

Uma segunda situação é onde uma ou algumas atividades encontram-se ajustadas mas no conjunto, há força de trabalho excedente. Por exemplo, empregam-se tratores e colheitadeiras na lavoura e consegue-se alcançar a produtividade e custos médios (ou melhores que os médios) comparáveis às empresas capitalistas competidoras. Porém, nas outras atividades, há mão-de-obra excedente obtendo baixíssima produtividade no trabalho.

A terceira situação se dá quando todas ou a maioria das atividades encontram-se ajustadas e há pouco excedente marginal de força de trabalho ou mesmo verificam-se déficits ocasionais, levando à necessidade de contratação de mão-de-obra assalariada.

Ao que parece resultar da análise, somente os coletivos que se encontram na terceira situação é que têm condições de sustentar um padrão de vida adequado116 e também ter competitividade para permanecer no mercado.

Existe um outro aspecto em que aflora uma contradição secundária em relação à política de qualificação e atribuição de tarefas aos associados. Em todas as CP As pesquisadas, a rotatividade das pessoas nos diferentes postos e frentes de trabalho tem sido vista como resultando em queda de produtividade (ou ao menos em bloqueio à melhoria da mesma) e em que o investimento insuficiente - em termos de resultados alcançados - na capacitação técnica da pessoas para o exercício das funções também tem limitado o alcance de melhorias na produção. Constatou-se uma tendência à adoção de políticas de fixação do trabalhador ao posto de trabalho como medida para melhorar os resultados. Em paralelo a esse aumento no tempo médio de trabalho no mesmo posto, algumas funções chaves - normalmente as de tipo gerencial - têm seguido a mesma lógica, trazendo de fato a curto prazo uma melhoria no desempenho das mesmas. O aspecto contraditório reside em dois aspectos: o primeiro na geração de uma dependência do coletivo em relação a poucas pessoas habilitadas a exercer funções chaves. O segundo tem a ver com a opção de escolha dos indivíduos e as possibilidades de seu desenvolvimento individual como ser humano completo. Como as pessoas não se preparam para outras funções de forma a assegurar a manutenção de um patamar mínimo de produtividade, não se toma possível efetuar alterações. Com isso, pessoas

funcionar o coletivo. Um coletivo que suija com um '‘figurino'’ mais ajustado entre o número de trabalhadores e o número de postos de trabalho não passaria pela situação descrita neste ponto.

116 Essa parece ser uma condição necessária, porém não suficiente, para assegurar a sustentabilidade, que dependeria de outros fatores adicionais.

que gostariam de mudar de função não podem fazer isso porque não existem substitutos para a função que exercem atualmente.

Parece que o primeiro aspecto é mais grave em termos estratégicos e o segundo desde um ponto de vista da satisfação e desenvolvimento pessoal dos membros do coletivo.

CAPÍTULO 7

GRAU RELATIVO DE EFICIÊNCIA DO TRABALHO COLETIVO