Roberto de Azevedo e SOUZA
Doutor pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), Mestre pela PUC/RS, duas vezes Presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento – IBP – e antigo diretor da Sociedad Interamericana de Planificación – SIAP, tendo sido Professor de Urbanismo da PUC/RS – Brasil.
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RESUMO
Neste artigo, o autor avança algumas das idéias contidas em sua tese de doutorado – Participação Popular, Uma Alternativa De Mudança Social – O Papel Da Universidade – , que versou sobre as desigualdades sociais que imperam no país. Assim, ela apontou as duas principais causas e as respectivas alternativas de superá-las. Uma das causas é a Dominação Externa, exercida pelo Hemisfério Norte sobre o Hemisfério Sul e, após a Segunda Guerra Mundial, principalmente pelos Estados Unidos da América do Norte; a outra é a Dominação Interna, exercida pelas elites locais,que estão muito mais vinculadas à Dominação Externa, do que à realidade local, sendo assim, a reprodução da primeira Dominação. A tese apresenta as seguintes alternativas de superação: Para o caso da segunda Dominação, ela recomenda a ação da Participação Popular em conjunto com a ação do Ensino, esta, em toda a sua extensão (todos os seus graus); Para o caso da primeira Dominação, o indicado é a formação de um único Bloco Sul-Americano ou, quiçá, Latino-Americano, de tal maneira, que tenha condições político-econômicas de dialogar em igualdade de condições com a União Européia e demais Blocos e, assim, escapar da malfadada ALCA.Todavia, a Direção desse Bloco não poderá ser constituída de somente políticos e empresários, mas deverá ter, também, representantes dos demais segmentos da sociedade civil, pois, além do desenvolvimento do comércio, ele visará principalmente, a melhoria da qualidade de vida da população latino-americana.
PALAVRAS-CHAVE: participação popular – dominação externa – dominação interna –
ensino – nova pedagogia – bloco latino-americano.
ABSTRACT
This article has the aim to propagate the ideas of the doctorate thesis Popular participation, an alternative of social change – the role of the university -, which has dealt with the terrible social inequalities that predominate in Brazil. So, it has pointed out the two main causes and the respective alternatives for overcoming them. One of causes is the External Domination, carried out by the Northern Hemisphere over the South Hemisphere and, after the Second World War, mainly by the United States of America. Another one is the internal Domination, which has been carried out by the local elites, which are more tied to External Domination, than to local reality, so it is the reproduction of external Domination. The Thesis presents the following alternatives of overcome: For the Second Domination case, it advises the action of popular participation along with the action of teaching in all the degrees. For the First Domination case, the indication is the formation of a single South-American Block, or perhaps, Latin-American, in a way that it can dialogue to the European-Union and other Blocks equally in terms of
E
ste artigo, inicialmente, foi escrito tendo em vista a Conferência pronunciada no Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade de Marília – UNIMAR -, no dia 31 de maio de 20071, com a finalidade de debater e difundir as idéias sustentadas na tese de doutorado - Participação Popular – Uma Alternativa De Mudança Social – O Papel Da Universidade, que versa sobre as nossas terríveis, cruéis e obscenas desigualdades sociais, e as respectivas alternativas de superá-las.Essa tese foi defendida na Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), no dia 18 de novembro de 1994. Desde então, temos nos empenhado em debater essas idéias e, ipso facto, divulgar o projeto de inclusão social, em todos os locais, e por todos os meios ao nosso alcance. O tema é bastante atual, não apenas por dizer respeito a uma problemática nacional, como também - vale lembrar - no ano de 2007, comemora-se, no Brasil 50, anos de Pedagogia.
Assim sendo, ela foi primeiramente publicada, parcialmente, - pelo seu Estudo de Caso -, em duas edições, em 1997 e 2000, pela Universidade Regional do Noroeste do Rio Grande do Sul - UNIJUI, com o título: Planejamento participativo microrregional – Uma ação de extensão da UNIJUI, versando sobre o seu Estudo de Caso, e, na sua integralidade, em 2004, com o título da própria Tese acima indicada.
Além disso, com esse propósito, publicamos ainda vários artigos, como é o caso presente, em inúmeras publicações, dentro e fora do país.
Citamos a data da defesa, por dois motivos: Primeiro, para destacar que estamos envolvidos nesse projeto há mais de 12 anos; Segundo, desde então, algumas coisas mudaram no País. Assim, é preciso assinalar que, entre elas, estão certas medidas indicadas na Tese, para a superação das dominações, como veremos mais adiante.
É oportuno salientar que esta Tese não é uma tese puramente teórica, como costuma ser a sua maioria, mas, sim, trata-se de uma tese teleológica, isto é, ela foi elaborada visando a sua imediata aplicação, ou seja, ela se constitui numa estratégia alternativa de mudança social, que implica, por sua vez, inúmeras outras mudanças.
Portanto, em função da importância do tema, não nos limitamos à sua elaboração e defesa num centro de prestígio e renome acadêmico, como é o caso da Sorbonne, mas também temos procurado, com persistência, debatê-la e divulgá-la, como acima descrito.
Não se trata aqui de enumerar dados estatísticos infindáveis a respeito dessas inomináveis desigualdades, que seguidamente aparecem nos jornais e em publicações acadêmicas, mas sem, contudo, conseguir demonstrar o alcance das suas implicações na vida de cada um. Todavia, não poderia deixar de lembrar, nesse momento, os seguintes contundentes dados estatísticos: 1% dos maiores proprietários rurais detém 44% de todas as terras agricultáveis do país ; 1% dos mais ricos do país, detém 13,30
% da sua renda ; Enquanto 50% dos mais pobres detém somente 13% dessa renda.
Por aí se pode constatar as diferenças abissais de renda e principalmente de propriedade, que ocorrem tanto na área rural como nas áreas urbanas do País.
Isso para não falar dos vergonhosos e escandalosos privilégios das nossas oligarquias e elites, referentes aos chamados “direitos adquiridos”, de políticos, ministros, juízes, desembargadores etc. As desigualdades são grandes. A clivagem, separando as classes sociais, abre uma fenda de injustiças sociais que não se sabe quando poder-se-á diminuir os sofrimentos dela resultantes.
Ultimamente têm-se tomado algumas medidas de combate à miséria, como é o caso do bolsa-família, sem, contudo, tomar maiores cuidados com o efeito maléfico que provoca, por incentivar a ampliação da família. Apesar disso, o país ainda é um dos dez piores do mundo, em desigualdade social.
Temos lidado, por décadas, com esse assunto, pois, teoricamente, começamos em 1982, quando iniciamos o Curso de Mestrado em Sociologia, na PUC/RS, e, na ocasião, fizemos uma releitura dos movimentos sociais. Todavia, já nas décadas de 70 e 80 do século XX, quando por duas vezes fomos encarregados de presidir, em nível nacional, o Instituto Brasileiro de Planejamento – IBP, e participamos da Direção da Sociedad Interamericana de Planificación – SIAP, já pregávamos a Participação Popular – como ocorreu em nosso pronunciamento, em 1985, na abertura do Congresso Cidades do Futuro, no Anhembi, em São Paulo, com a presença do Prefeito Mário Covas – como meio de mudança social e, inclusive, a incluímos no título da minha dissertação de mestrado em julho de 1988.
Contudo, ao chegar a Paris, para elaborar a nossa Tese, estudando os intelectuais da nossa Universidade, tais como Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Cristovam Buarque, Pedro Demo, Roberto Gurgel e tantos outros, pudemos constatar que a exclusão social faz parte da ação da nossa elite cultural, e, paradoxalmente, por incrível que pareça, a Universidade é um dos braços fortes dessa exclusão. Esse assunto diz, pois, respeito diretamente ao magistério, pois, como vereis, apresento uma visão nova e abrangente da Escola.
Nesta tese, tomei como referência teórica o bloco histórico de Antônio
Assim, a nossa preocupação na sua elaboração, além de descrever a miséria das classes subalternas, foi, principalmente, encontrar as suas duas principais causas, que são :
- Uma externa , que é a dominação do hemisfério Norte sobre o Sul ; a outra interna, que é a Dominação das nossas elites – reproduzindo em tudo a primeira Dominação, pois elas estão muito mais ligadas ao Norte – através do comércio, finanças, tecnologia etc. do que, à nossa realidade regional concreta.
Uma vez definidas essas causas, a Tese passa a apresentar as alternativas de superação das mesmas.
Começo com a segunda Dominação, que poderá ser superada, segundo o nosso estudo, pela união da Participação Popular com o Ensino. Nenhum deles sozinho poderá fazê-lo, como veremos a seguir. Ponto em que discordamos de Frei Betto, que, ao nosso ver, acredita demais na Participação Popular. Pois, alguns estudiosos, como Laclau 2, Calderon e Jelin 3, Sader 4 Jacobi 5 e Mammarella 6, estudaram os Novos Movimentos Sociais sob diversos aspectos. Sendo que JACOBI foi o que mais nos interessou, caracterizando esses Movimentos como basicamente locais, episódicos e facilmente cooptáveis. Dessa maneira, eles não conseguem, nem de longe, mexer na estrutura e relações sociais.
Não se pode ignorar que há, no País, algumas raras exceções, em Minas Gerais e São Paulo. Porém , atualmente, o único Movimento que tem uma estrutura e dimensão nacional é o MST, que prega a Reforma Agrária e mantém escolas próprias. O que é a Participação Popular? É a participação cidadã, quer isoladamente, participando em Conselhos municipais, Assembléias, audiências públicas etc., quer participando de Movimentos Sociais. Contudo, para que essa participação seja efetiva, é preciso que não haja pressão, que o cidadão tenha completa consciência do que se está debatendo e tenha prévio e suficiente tempo para poder deliberar com pleno conhecimento. Senão é um simulacro, uma farsa, como, aliás, costuma ser.
A Participação Popular é importante na constituição de uma Democracia Participativa, para complementar a Democracia Representativa, que está em crise em todo o Mundo, principalmente no Brasil. Poder-se-ia discorrer mais sobre esse assunto, mas desviaria do nosso foco.
Um exemplo típico de Participação Popular, sem mudança social, é o dos catadores e recicladores de lixo seco. O máximo que conseguem é fundar uma cooperativa e, assim, conseguir alguns empregos. Todavia, a sua situação de miseráveis não muda, salva as exceções acima referidas.
Por sua vez, o nosso Ensino não se dedica à reflexão sobre as práticas sociais; nesse sentido é teórico, porém sem nenhuma visão concreta da nossa realidade. A educação é elaborada pela nossa elite cultural, e, portanto, logicamente, sem nenhuma perspectiva de mudança social; pelo contrário, a escola é a reprodução constante da Dominação. O ensino a prega, sendo, portanto, uma Pedagogia da
Roberto de Azevedo e SOUZA As desigualdades sociais: uma proposta alternativa de mudança
Dominação. Os seus valores não são contestados e seus conhecimentos são aceitos passivamente e não fruto de uma reflexão e de um raciocínio crítico.
Portanto, se quisermos superar essa Dominação, precisamos adotar uma Pedagogia que seja crítica da realidade concreta, ou seja, a da Educação Popular.
O que pregava o eminente Paulo Freire. Essa é uma Pedagogia de grande força heurística, pois desenvolve a força crítica, imaginativa e intuitiva da população.
Na pregação e divulgação dessa Pedagogia, a Universidade tem um papel deveras importante, pois é ela que forma os professores do Ensino Médio.Em suma, se quisermos, realmente, alcançar uma Mudança Social, precisamos começar com essa troca de Pedagogia e, além disto, adotarmos uma Escola, com boa qualidade de ensino, magistério prestigiado e no mínimo, com as seguintes características:
- 8 horas de aula – tempo integral. Isso porque há muito que aprender além do que é ensinado nas atuais 4 horas de aula e, além disso, o aluno não pode ficar na rua; aberta à comunidade sete dias por semana, pois é imprescindível que ambos atuem juntos permanentemente. Um dos temas, que não poderá deixar de ser abordado, é o planejamento familiar, para evitar a gravidez precoce e evitar-se gerar mais miseráveis, muitas vezes, não desejados.
A escola de tempo integral não é novidade no Brasil, pois Darcy Ribeiro e Leonel Brizola já a adotaram no Rio de Janeiro, com os célebres Cieps. É fundamental juntar Família e Comunidade. Isso porque o Ensino e a Sociedade, através da Família, estão em crise – “o desaparecimento de limites, os excessos do imaginário consumista, a busca do prazer a qualquer preço, e a supervalorização da estética em detrimento da ética” 7 – e não vai ser nem uma e nem outra, sozinha, que poderá educar a nossa juventude. Não nos esqueçamos que o meretrício, o tráfego de drogas etc. começam pelo seu abandono, pela sua exclusão, agravado com o desemprego.
Em função dessas crises, estamos criando, no Rio Grande do Sul, a Universidade da Família – a UNIFAM, que abordará preferencialmente os problemas da Família, com profissionais nos campos da Antropologia, Sociologia, Psiquiatria, Pedagogia etc. sem nenhum viés religioso.
Segundo o nosso conceito da Nova Escola, que não o mesmo usualmente empregado, Ensino não pode ficar restrito aos alunos que conseguem acesso à Escola. É preciso que ele se estenda a toda a população do país, através do assessoramento aos Movimentos Sociais, através de um verdadeiro diálogo, de tal maneira que, através de um processo dialético, ambos mudem: práxis e ensino.
Nesse assessoramento, deve estar envolvido todo o sistema de Ensino, desde