• Nenhum resultado encontrado

Asdrúbal Borges FORMIGA SOBRINHO

Doutorando em Psicologia pelo IP-UnB e mestre em Comunicação pela FAC–

UnB.

Professor do curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília UCB - Brasília/DF

E-mail: [email protected] druasdruy.br

RESUMO

Este artigo apresenta uma reflexão sobre formas de cognição da linguagem da propaganda, caracterizada como infantilizadora do espectador. Como exemplo, foi escolhido o comercial Invisível, produzido para a fabricante de celulares Nokia e veiculado em 2003. A análise parte de uma abordagem cognitiva, baseada em Vigotsky e autores correlatos; e da semiótica da cultura de vertente russa, baseada em autores como Lotman e noutros mencionados por Machado. Foi trabalhado o caráter histórico da linguagem e da cognição, para contextualizar o pensamento do enunciador e do espectador. Para enriquecer as considerações, foram entrevistados um profissional responsável pela criação da propaganda analisada e dois jovens espectadores pertencentes ao público da mesma.

PALAVRAS-CHAVE: linguagem – propaganda – cultura – cognição

ABSTRACT

This article presents a reflection about some ways of cognition of advertisement language, characterized as infantile, towards the spectator thought. As an example, it was chosen the spot Invisible, created for Nokia cell phones industry and showed in 2003, in Brazil. The analysis begins by a cognitive approach, based on Vigotski (1987) and other correlate authors, with the objective of considering the historical of individual and social aspects of language and cognition; and follows by the cultural semiotics approach from Russia, based on authors like Lotman and others mentioned by Machado (2003), to analyze the codes of the chosen language – verbal, visual and sonorous – and its interactions with each other and with the spectator. It was considered the historical character of language and cognition in order to analyze the thought context of the emitter and of the spectator. To diversify the considerations, it was interviewed one professional involved in the ad creation and two young spectators pertaining to its

A

análise apresentada neste artigo parte dos seguintes questionamentos sobre o caráter infantilizador da linguagem da propaganda: que leis regem o pensamento do enunciador?; e o espectador, estaria pronto para receber uma mensagem que, quando impressa, aproxima a língua escrita da falada e, quando sonora ou audiovisual, também explora a oralidade, no sentido quase mágico de reconduzi-lo “a um estágio bastante antigo da linguagem, ao estágio dos provérbios, dos adágios, dos refrões, onde o dizer e o escrever, o poema e a prosa formam um todo único” (REBOUL, 1975, p. 25).

Retornando não apenas à história do espectador, mas à da humanidade:

No estágio pré-histórico e histórico, observa-se, segundo o autor [G.

Révész] uma redução da linguagem aos modos imperativo, indicativo e interrogativo, e uma diminuição da importância dos gestos. Quanto ao sistema de comunicação do homem primitivo, os deícticos, os gritos e os gestos ocupavam um lugar preponderante; essa linguagem limitava-se, ainda segundo Révész, ao imperativo, ao vocativo e ao locativo.

(KRISTEVA, 1969, p. 63)

Talvez com base em evidências como essas, Reboul tenha tratado o slogan da maneira como tratou. Há também outros elementos e exemplos da linguagem da propaganda que se apresentam em forma imperativa, vocativa ou locativa – muitas vezes, combinadas entre si e com outros elementos, para seduzir o espectador.

Mas de que espectador desejamos tratar? Segundo Bráulio Kuwabara, diretor de arte da agência Lew, Lara, que atende a Nokia, no Brasil, o comercial está voltado para o público jovem, com idade entre 18 e 29 anos. Trata-se de um público intermediário entre o infantil e o adulto e, por isso, com características ora de um, ora de outro, ora híbridas. Segundo pesquisa Ipsos-Marpla1, publicada na revista Carta Capital nº 365, o segmento é o mais interessado pela tecnologia da comunicação móvel, além de ser consumista e aberto a novidades.

A variável idade permite-nos tratar da infantilização, até mesmo em fases posteriores à infância e da forma como os profissionais de propaganda, aqui tratados como enunciadores, elaboram estratégias de persuasão e enredos como o de Invisível. O comercial começa em estilo optical art, com um jovem tentando confundir-se com um pano de fundo, de cor e estampa semelhante ao seu pijama.

Na cozinha e sem as peças inferiores do vestuário, ele passa em frente à família, sentada à mesa, gerando desaprovação. Num bar movimentado, durante a

Asdrúbal Borges FORMIGA SOBRINHO As diferentes idades do espectador de propaganda

transmissão de uma partida de futebol, posiciona-se em frente à TV, atrapalhando a maioria dos freqüentadores, que se queixam e nele atiram bolas de papel. Jogadores preparam-se para iniciar uma partida pública de tênis de mesa e começam a jogar.

Ele aproxima-se da mesa e, sobre a rede, pega a bola, pára o jogo e gesticula, tentando imitar os movimentos da bola e movendo-se entre um e outro jogador.

Invade um vestiário feminino e, quando as mulheres percebem, gritam e tentam esconder partes de seus corpos. Num parque, passa por trás de um banco onde duas amigas preparam-se para registrar a própria imagem, num celular. Ele aproxima-se, rapidamente, para observar o aparelho. Eles sorriem e tiram a foto, mas ao conferirem, perdem a graça, olham para ele, que se vira para trás, e olham-se, desapontadas. A dona do aparelho mostra a foto com a imagem dele inclusa e a outra a convida a ir embora. Ele fica chocado. Elas levantam-se e saem, pela esquerda. Ele olha para as próprias mãos e, ao lembrar-se dos momentos anteriores, põe a mão sobre a testa e sente-se ridículo, principalmente, diante do novo final de cada cena: insultos ensurdecedores, no bar; risos da família; quase enforcamento, realizado pela mulheres; e ele escondendo os órgãos genitais, de costas para a família. Em seguida, uma seqüência ainda mais rápida de trechos de constrangimentos termina com os jogadores de tênis de mesa prontos para trucidá-lo. Sentado no mesmo banco do parque, ele olha para a esquerda e acena, sem graça. No quadro de assinatura, uma mão com o nome da marca e o slogan tatuados, retira-se da frente do novo aparelho, cujo visor mostra a imagem de Renan com as duas garotas.

As imagens são acompanhadas por um solo de violino e pela locução: “Renan garante que é invisível. [...] E ninguém consegue convencê-lo do contrário. [...]

Renan acha divertido ser invisível, ... muito divertido! [...] É! Foi bom enquanto durou. Nokia 7250i. Fala por você.

A razão para abordarmos a maneira como fases anteriores do desenvolvimento cognitivo se refletem na linguagem e na comunicação justifica-se pelo fato de até mesmo muitas pessoas adultas queixarem-se da dificuldade de expressarem-se com palavras e assim colocarem em questionamento o nível de dependência entre o pensamento e a linguagem verbal (CROMER, 1983, p. 01).

Realizamos entrevistas com um profissional de propaganda, envolvido na criação do comercial, e dois universitários de classe média, com 22 anos de idade, para enriquecer nossa reflexão e considerar aspectos afetivos referentes: ao pensamento de um enunciador e um tipo de espectador, não apenas ao criar ou receber a mensagem. Outra intenção foi analisar a interação entre ambos, possibilitada por uma linguagem que, mesmo com aparente simplicidade, questiona

A natureza do próprio desenvolvimento se transforma, do biológico para o sócio-histórico. O pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser encontradas nas formas naturais de pensamento e fala. (VIGOTSKY, 1987, p. 63)

No que diz respeito à interação entre pensamento e linguagem, partimos também da hipótese Roger Brown (apud CROMER, 1983, p. 04): “linguagens não determinam pensamento, mas apenas predispõem pessoas a pensar de determinadas maneiras”. Vigotsky afirma (1987, p. 41): “O progresso da fala não é paralelo ao progresso do pensamento” e, de acordo com as experiências de Koehler, existe um intelecto nos animais que não depende da fala. Diante disso, o que diferencia os homens é o desenvolvimento cultural, que possibilita o pensamento durante a realização de outras atividades, já que “[...] o objeto básico da investigação psicológica, em geral, e do pensamento, em particular, é o pensamento como processo, como atividade” (RUBINSTEIN, 1964, p. 74). Ambos – processo e atividade – são fundamentais para a compreensão da linguagem e dos efeitos dela sobre o pensamento espectador ou vice-versa.