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Sociedade civil e Estado e as imagens da sociedade civil

6. OS ESPELHOS: ATORES DA SOCIEDADE CIVIL E O APARELHO DO

6.1 A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE SOCIEDADE CIVIL

6.1.1 Sociedade civil e Estado e as imagens da sociedade civil

Outras razões discutidas e que auxiliam na orientação deste estudo estão relacionadas à dicotomia sociedade civil e Estado. O dualismo sociedade civil e Estado encobre “[...] a natureza das relações de poder na sociedade”70

e “ [...] desencadeou uma relação dinâmica entre os dois conceitos que, em termos gerais, pode ser caracterizada como uma absorção recíproca e constante de um pelo outro” (SANTOS, 2013, p. 173-4).

70Poder, para Santos, “é qualquer relação social regulada por uma troca desigual. É uma relação social porque a sua persistência reside na capacidade que ela tem de reproduzir desigualdade mais através da troca interna do que por determinação externa” (SANTOS, 2013, p. 266).

Essa “absorção recíproca” da sociedade civil pelo Estado e vice-versa corresponde a dois processos: “ a reprodução da sociedade civil na forma de Estado e a reprodução do Estado em sociedade civil” (SANTOS, 2013, p. 174). Para Santos (2013), a contar dessa perspectiva pode ser observado como explicação, o apaziguamento ou apatia dos cidadãos quando é conferido o poder à sociedade. É mera aparência, porque o Estado permanece com a tutela “[...] apenas substituindo, na execução directa, a administração pública pela administração privada e, consequentemente, dispensando o controlo democrático a que a administração pública é sujeita” (SANTOS, 2013, p. 174). E isso ocorre, simplesmente, porque a lógica do Estado é uma lógica de trincheira, a ideia de fronteiras.

Para Boaventura de Souza Santos, a sociedade civil distingue-se em três tipos: “sociedade civil íntima, sociedade civil estranha e sociedade civil incivil” (2003, p. 26). Santos dispõe graficamente o pensamento dos três tipos de sociedade civil. Considera o Estado como centro. Na parte interna do círculo, ou seja, ao redor do Estado, a sociedade civil intima; logo em seguida, descreve o círculo intermediário ao Estado, a zona de poucos processos de inclusão dos direitos sociais e atribui a significação de sociedade civil estranha e, na parte externa ao círculo, insere aos totalmente excluídos dos direitos sociais, a que chama de sociedade civil incivil (SANTOS, 2003).

A sociedade civil íntima mais próxima ao Estado, abarca os “indivíduos ou grupos sociais caracterizados pela hiper-inclusão, ou seja, que gozam de um nível elevado de inclusão social”, portanto, são aqueles que “[...] pertencem a comunidade dominante que mantém vínculos estreitos com o mercado e com as forças que o governam” (SANTOS, 2003, p. 26). A partir dessa intimidade com o Estado, os membros pertencentes à sociedade civil íntima têm direito acima dos que os teriam normalmente, perante a uma política de direitos sociais. Santos, ao final declara: “Pode descrever-se esta relação da sociedade civil com o Estado como uma privatização do Estado” (SANTOS, 2003, p. 26).

Talvez fosse conveniente definir qual o grau de intimidade que Santos considera ou propôs ao concluir que a formação da sociedade civil íntima chega à “privatização do Estado”. Numa leitura rasa, “benefícios” ou “privilégios” é a conclusão sem distorção de imagens, em que entre dominantes e dominados, pode-se identificar pela distinção das relações sociais envolvidas. Todavia sabe-se que numa ótica de processos encontram-se imagens disformes pelas fases de composição dessas imagens, como o próprio processo de articulação, em que as decisões tomadas não são únicas, tendo em vista a constelação de

poderes envolvidos – políticos, social e econômico e a própria escala de espaço/tempo desenvolvida por Santos em que há tempo-instante e tempo-glacial71.

Por outro lado, são orientações que envolvem fatos do cotidiano. Algo da vivência da vida em que a sociedade civil íntima é um espaço de privilégios para alguns atores da sociedade civil. Nesse caso, há situações paradoxais a serem examinados: primeiro pela debilidade ou fragilidade da sociedade civil, a oportunidade é do Estado, com decisões monolíticas dirigidas e, segundo, o “fortalecimento” da sociedade civil, por consequência, o Estado é investido das vontades da “elite” ou dos grupos mais afortunados no sistema, realiza uma conexão personalíssima na articulação de interesses próprios, ou seja, trata-se de um jogo.

No que se refere à emergência e/ou intervenção dos atores da sociedade civil, por intermédio das chamadas públicas, à implementação de serviços públicos de Ater, pode-se perguntar: em que medida a relação estabelecida, via contratações públicas, entre prestadoras de serviços públicos e o Estado, configura sociedade civil íntima, em face das consequências advindas destas contratações? Embora tenha todo um arrazoado de prós e contras, a ideia das “meta-normas” em que as associações estão subjugadas a corpos de exigências administrativas e de cumprimentos de metas nessas contratações, as quais resultam, a priori, novas formas de articulação, entre elas a aproximação ao Estado. Convém ressaltar que os atores da sociedade civil, ao participarem de forma integrada nas relações de poder do Estado, são subjugados à dialética da “cooptação” ou de “contraposição de autonomia”.

No sentido inverso ao termo “cooptação” ou de “contraposição de autonomia”, na percepção frente ao Estado e dos próprios atores da sociedade civil, este “compadrio” e/ou “compartilhamento de vontades dirigidas” auxiliou dois lados, aparentemente antagônicos. Talvez seja necessário verificar-se o comprometimento dos agentes políticos dos entes estatais e dos atores da sociedade civil, ou mais especificamente, o que Santos chama de “politização do administrativo” e que expõe da seguinte forma:

[...] a politização do administrativo decorre da fraqueza deste e é essa fraqueza que está na origem do pluralismo jurídico interno. Em sua prática quotidiana, a administração pública não tem condições para garantir por si própria as condições de sua eficácia” (SANTOS, 2008, p. 65).

Em relação à sociedade civil “estranha”, Santos considera que “as experiências de vida” dos grupos sociais inseridos nela estão num processo “misto de inclusão e exclusão social”, cuja elevação da gangorra é atenuada nos dois lados, há momento em que a inclusão é “baixa moderada”; e, em outro momento, “a exclusão é atenuada por algumas redes de segurança e não é considerada irreversível” (SANTOS, 2003, p. 25). Os integrantes da sociedade civil estranha exercem seus direitos cívicos e políticos de maneira mais ou menos livre, vindo a ser escasso principalmente o exercício dos direitos sociais e econômicos.

E, por fim, a sociedade civil “incivil”. Segundo Santos, são quase invisíveis socialmente e estão no “círculo do fascismo social e, em rigor, os que o habitam não pertencem à sociedade civil, uma vez que são atirados para o novo estado natural” (2003, p. 25). O autor afirma que não há expectativas, “já que, na prática, não tem quaisquer direitos” (SANTOS, 2003, p. 25).

Entre programas, planos e propriamente políticas públicas estabelecidas para a agricultura familiar, a hora da vez aos beneficiários da Pnater constitui-se de dois programas o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que são mercados garantidos por compras institucionais com investimentos dos recursos federais, estaduais e municipais. Os contemplados desses programas, dentro do enquadramento previsto, entram num espaço de melhores oportunidades, como por exemplo: seus produtos orgânicos, além da entrega e pagamento garantido, são comercializados em outros locais. Portanto, ampliam as oportunidades. Esta é uma perspectiva.

Outra questão relevante aos produtores é a relação num espaço local, por exemplo, a implementação local do Pnae, a relação é horizontal e muito próxima, isto é, municipalidade, Emater-RS-Ascar e agricultor familiar, tendo em vista que o primeiro e o último têm o mesmo foco – produto orgânico –, portanto é uma necessidade. Para efetivação deste propósito entra a Emater-RS-Ascar assessora, busca melhoria de técnicas, entre outras atividades aos contemplados desses programas. Neste caso, o atendimento e a dedicação são para uma atividade focalizada nas exigências legais e que, na composição econômica, é rentável aos contemplados, mais especificamente, a todos por razões óbvias, mas e os outros agricultores ou beneficiários da Pnater que não estão no abrigo desses programas? Poderiam ser enquadrados dentro da sociedade civil ou eles ficam invisíveis e, portanto, considerados incivis dentro da sociedade civil?

Estou aqui na feira ... não podemos entregar para merenda escolar nossos produtos, porque a recém estamos plantando alguns produtos na linha dos orgânicos. Produzimos banana. Aqui na feira trouxe produto que eu faço: bolacha, pão e os demais produtos são dos colegas da Associação. Já falei com o B lá na Emater pra ver alguma coisa... feira a não ser essa daqui... não posso participar... (E.6, 2017).

Ainda sobre a sociedade incivil: “Gostaria de fazer umas compotas... sabe... trabalhar com isso, mas agora tudo é orgânico para entregar para merenda. Acho que não sai caro. O problema é o calor nas pernas... e depois é um serviço mais limpo (E.6, 2017).

Nota-se que não é o problema das pessoas e, sim a “absorção recíproca” defendida por Santos, em que o Estado absorve a sociedade civil por meio dos seus comandos e a sociedade civil reproduz o Estado no atendimento desses comandos e, novamente, a trincheira é estabelecida tornando invisíveis outras reivindicações e alternativas.

A mesma reflexão cabe sobre as aspirações ou desejos dos agricultores em relação às entidades prestadoras de serviços de Ater. Mesmo que se tenha implementação de políticas com foco em desenvolvimento rural, são orientadas e calculadas conforme a oferta e não conforme a demanda das necessidades específicas de cada região. Em outras palavras, em geral são políticas que vem no balaio grande e, dependendo do que está no balaio, pode-se atender a demandas de balaios pequenos.

6.2 OS CONTEXTOS CIRCUNSTANCIAS A PARTIR DA REFORMA DO APARELHO