Análise das contribuições
9.5 sOciedade inOvadORa e altaMente qUalificada
O capítulo Sociedade Inovadora e Altamente Qualificada apresentou a importância do ca-pital humano qualificado e criativo como um dos principais componentes estruturantes das cidades inteligentes. O tema inclui a educação superior, a força de trabalho qualificada (GIL-GARCIA; PARDO; NAM, 2015) e o incentivo para a permanência de uma classe criativa, no território das cidades inteligentes (FLORIDA, 2003). Caragliu et al. (2011) sintetizam, enfim, que a mistura de capital humano e classe criativa “determina a essência da cidade inteli-gente” (tradução nossa). Diante dessa constatação, trabalhamos com o conceito ampliado de cidades inteligentes, que não considera apenas questões estritamente tecnológicas, e inserimos a temática capital humano e criatividade como uma das dimensões das cidades inteligentes na PNCI.
Constatamos que, no Brasil, não basta o foco na educação superior e na qualificação da força de trabalho ou a simples inclusão digital, como acontece nos modelos de cidades inteligen-tes de países mais desenvolvidos. Pesquisas mostram como o país encontra-se aquém das suas potencialidades em razão dos resultados educacionais (GLOBAL INNOVATION INDEX, 2020; OECD, 2018; SAMANS, 2017). Isso nos levou a analisar mais detalhadamente os resul-tados das avaliações de aprendizagem com estudantes brasileiros, internacionais e nacio-nais (INEP, 2018; OECD, 2018). Essa análise nos mostrou a profundidade do problema de aprendizagem em leitura e matemática. Tomamos conhecimento também das deficiências de infraestrutura escolar. Decidimos, então, que é essencial um pacto nacional pela apren-dizagem. Para promover esse pacto, propomos:
a) envio de indicação ao Ministério da Educação para a definição de diretrizes básicas para a formação inicial e continuada dos professores e os sistemas de avaliação do rendimento escolar;
b) inclusão, como diretriz na PNCI, de compromisso com o cumprimento da Meta 7 do Plano Nacional de Educação, que trata da melhoria da qualidade da educação;
c) inclusão, como parte integrante do Plano de Cidade Inteligente, de uma política para a aprendizagem na educação básica, com as seguintes ações:
c.1) formação continuada de professores, com reciclagem do conteúdo do com-ponente curricular e da didática de ensino, treinamento em metodologias de ensino ativas, capacitação no uso de recursos tecnológicos em sala de aula;
c.2) adequação da formação dos professores ao componente curricular e etapa educacional da sua turma;
c.3) melhorias da infraestrutura de aprendizagem, tais como bibliotecas e salas de leitura;
c.4) melhoria da infraestrutura para uso de metodologias inovadoras de ensino, inclusive as mediadas por tecnologias, necessárias para incentivar o engaja-mento dos alunos e impulsionar a aprendizagem;
c.5) utilização de práticas de cooperação federativa, tais como arranjos de desen-volvimento ou consórcios, como forma de propor solução para os problemas dos itens anteriores;
c.6) foco inicial em leitura e matemática.
Entendemos também ser necessária, para as escolas dos estados e municípios, uma política de inovação e tecnologia na educação capaz de integrar diversas ações, como conectividade de alta velocidade, professores capacitados em metodologias de ensino mediadas por tec-nologia, salas equipadas para todos os alunos e um programa de uso de tecnologia com centralidade no currículo. Uma política de inovação e tecnologia na educação mostra-se relevante não apenas para melhorar a qualidade do ensino, mas também para permitir saltos de aprendizagem. Propomos, na PNCI, que o Plano de Cidade Inteligente não prescinda do planejamento de uma política como essa, que deve contemplar as seguintes ações:
a) implantação de infraestrutura tecnológica de rede e conexão com velocidade sufi-ciente para o desenvolvimento de atividades pedagógicas em salas de aula;
b) distribuição de ferramentas e dispositivos digitais para utilização de TICs à disposi-ção dos alunos nas salas de aula e demais ambientes;
c) capacitação de professores em metodologias de ensino mediadas por TICs;
d) disponibilização e uso de conteúdo digital;
e) publicação da visão do sistema de ensino sobre onde se quer chegar na sua política de inovação e tecnologia da educação;
f) cooperação com a União e estados para assistência técnica e financeira, de forma a viabilizar todos os insumos;
g) acompanhamento das metas previstas, com as respectivas revisões dos investimen-tos, garantindo-se a sustentabilidade.
Além dessas ações para consolidar a inovação tecnológica nas escolas, a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também deve estar presente no Plano de Cidade Inteligente na PNCI. A BNCC é apontada como uma das razões de sucesso de sistemas educa-cionais prestigiados, como o finlandês, por exemplo. Apesar do atraso, essa conquista deve ser festejada também como uma das metas do Plano Nacional de Educação que está sendo alcançada. Nesse sentido, as cidades inteligentes não podem perder esse desafio. A BNCC deve ser implementada com cuidado e persistência. Com relação à força de trabalho quali-ficada e o desenvolvimento da educação superior, ressaltamos alguns problemas: a maioria da população maior de 25 anos não completou a escolaridade obrigatória; as vagas para educação profissional e superior não são suficientes para o potencial do país; há elevado
número de jovens que não estudam nem trabalham, ou que apenas trabalham, por razões de origem socioeconômica, na idade em que deveriam estar também estudando; há déficit na formação de profissionais de nível técnico e superior na área de TICs; não há censo específico para a educação profissional; e há pouco interesse por parte dos jovens – maior entre as ga-rotas – para ingressar nas áreas vinculadas a ciências e TICs. Diante desse cenário, propomos:
a) inclusão, como diretriz na PNCI, do compromisso com o cumprimento do Plano Nacional de Educação, em especial com as metas 8 a 12, que tratam do aumento da escolaridade dos jovens de 18 a 29 anos, da educação de jovens e adultos, da educação profissional para jovens e adultos, da educação profissional técnica de nível médio e da educação superior;
b) envio de Indicação ao Ministério da Educação para a criação de um censo específico para a educação profissional;
c) envio de Indicação ao Ministério da Educação e inclusão de diretriz na PNCI para o incentivo à formação de profissionais na área de TICs.
Ao longo das reuniões, foi recorrente a discussão sobre a participação relevante da academia como um dos vértices da estrutura de resolução de problemas urbanos nas cidades inteli-gentes, em parceria com o governo, o setor privado e a sociedade organizada. Nas questões relacionadas à educação e à formação profissional dos munícipes, Martins (2007) e Camargo (2021) destacaram o papel que as universidades, por meio não apenas do ensino, mas prin-cipalmente da extensão, podem desempenhar para auxiliar os sistemas de ensino, tanto na qualificação profissional dos jovens e adultos quanto na formação continuada dos profes-sores. Por essas razões, incluímos como diretriz na PNCI as parcerias com as universidades, por meio de programas de extensão, para soluções, inclusive, da qualificação profissional dos jovens e adultos e na formação inicial e continuada dos professores.
Constatamos também a relevância de diversas habilidades, entre as quais a criatividade, para o desenvolvimento de cidades inteligentes, como destacado por Juruá (2020). Nos estudos referenciados no capítulo 4 – Sociedade Inovadora e Altamente Qualificada, há indicações de correlação positiva entre o desenvolvimento urbano e indústrias criativas, e a consequente valorização de uma classe criativa nas cidades. Essa habilidade é uma das diretrizes da BNCC em fase de implementação nos currículos escolares. Nesse contexto, propomos:
a) inclusão, como diretriz na PNCI, de incentivos à indústria criativa;
b) envio de Indicação ao Ministério da Educação para que, nos padrões de infraestru-tura das escolas, esteja prevista a alocação de espaços multifuncionais de criação (cultura maker ou mão na massa), que poderá ser desenvolvida em acordo com a diretriz sobre criatividade da BNCC;
c) inclusão, na PNCI, do apoio à criação de oficinas públicas para desenvolvimento e elaboração de produtos e processos inovadores (fab labs) e, preferencialmente nas bibliotecas públicas, de espaços multifuncionais de criação (cultura maker ou mão
na massa), para desenvolvimento de atividades curriculares ou extracurriculares de alunos da rede pública.
Por fim, identificamos que, no sistema federativo brasileiro, as cidades dependem dos es-tados e da União para a formação do seu capital humano. Dentre os problemas apones-tados por Martins e Abreu (2019), destaca-se a “pouca articulação e ação conjunta entre os entes federativos na formulação e na implementação de políticas educacionais”. Os autores de-fendem o “aperfeiçoamento do federalismo cooperativo na construção e implantação das políticas públicas”. Com base nas recomendações de Martins e Abreu, propomos:
a) apoiamento à aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 25/2019, que institui o Sistema Nacional de Educação (SNE), fixando normas para a cooperação entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios;
b) inclusão na PNCI de diretriz para a realização de arranjos de cooperação (consórcios públicos e arranjos de desenvolvimento), que podem ser utilizados, por exemplo, para a formação de professores e a adequação da formação docente;
c) inclusão de diretriz na PNCI para o estabelecimento de arranjos de cooperação para assistência técnica e financeira.