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1 A SOCIEDADE PROTETORA DOS DESVALIDOS: UMA IRMANDADE DE COR

Concordância X Não Ambíguos Ambíguos; 50;

1 A SOCIEDADE PROTETORA DOS DESVALIDOS: UMA IRMANDADE DE COR

Apegando-se ao que disse Petrucci (1999, p. 30) sobre os diálogos que a história da escrita deve manter com outras áreas do conhecimento, destacam-se, para este item, dois deles. O primeiro foi travado com um texto da linguista Rosa Virgínia Mattos e Silva – Para a história do português culto e popular brasileiro:

sugestões para uma pauta de pesquisa – de 2002, e o segundo, com um do historiador

João José Reis, intitulado Identidade e diversidade étnicas nas irmandades no tempo da

escravidão, de 1997. Mas o que um tem a ver com o outro? “Vamos devagar com o

andor!”.

No texto de Mattos e Silva, acima dito, aparece a defesa da autora a favor da hipótese de que, no Brasil passado, foram os africanos e seus descendentes os mais prováveis utentes do português popular brasileiro. Mas esses indivíduos, como demonstram vários estudos de história social, se encontram, via de regra, na base da pirâmide da sociedade, ou seja, parece não haver restrições a enquadrá-los como compósitos de classes sociais subalternas e, deste modo, estariam dentro daquele grupo que não encontraram na escrita um lugar para registrar as suas vozes. Além disso, informação bastante relevante saída do texto de Mattos e Silva (2000, p. 457) diz respeito ao fato de que, para a reconstituição do passado histórico do português popular brasileiro, a via a ser seguida terá de ser indiciária, nos termos em que põe Ginzburg, no seu artigo clássico Sinais: raízes de um

paradigma indiciário (1988, p. 143-206). É exatamente aqui que entra em cena o texto

de Reis (1997), sobre a história de irmandades negras na Bahia, a desdizer Mattos e Silva (2002).

A criação de irmandades ou confrarias no Brasil foi profícua ao longo do período colonial e pós-colonial. Aqui encontraram terreno fértil e espelharam, na constituição dos seus membros, as tensões de toda natureza que prevaleciam na

sociedade. Observem-se as palavras de Reis (1997, p. 12) a respeito do que se conta:

A sociedade formada na colônia escravocrata estava estruturada em moldes corporativistas que refletiam diferenças sociais, raciais e nacionais. As irmandades são um exemplo disso. Muitas fizeram as vezes de corporações profissionais típicas do antigo regime. Algumas poucas abrigavam a nata da sociedade, a ‘nobreza’ da colônia, os senhores de engenho, altos magistrados, grandes negociantes. Mas o principal critério de identidade dessas organizações foi a cor da pele em combinação com a nacionalidade. Assim, havia irmandades de brancos, de mulatos e de pretos. As de branco podiam ser de portugueses ou de brasileiros. As de preto se subdividiam nas de crioulos e africanos. Estas podiam se fracionar ainda de acordo com as etnias de origem – ou, como se dizia na época, as ‘nações’ – havendo as de angolanos, benguelas, jejes, nagôs etc.

O que interessa para este texto é tudo, ou quase tudo, que se relaciona com as irmandades negras e pertencer a

uma delas tinha o seu preço: frequentemente, exigia-se dos associados uma quantia, designada por jóia, com a qual se davam às órfãs dotes, se hospitalavam os doentes, se visitavam os indigentes, se emprestava dinheiro para alforria, se ofereciam, aos seus membros, enterros decentes nos seus cemitérios etc.

Dada acima a moldura em que se estampavam as irmandades

negras, é chegada a hora de subir ao palco a informação mais preciosa fornecida por Reis (1997, p. 12). Segundo o historiador, “os estatutos das confrarias, chamados compromissos, e outros documentos constituem uma das poucas fontes históricas da era escravocrata escritas por negros ou pelo menos como expressão da sua vontade. As irmandades, aliás, produziram muita escrita”. De posse da “vara e da isca”, a pescaria começou, mas ela se mostrou mais penosa do que se imaginava, na medida em que, pouco a pouco, as irmandades negras foram fechando as suas portas, sobretudo depois da Abolição da Escravidão, e saber o

Figura 1: Sociedade Protetora dos Desvalidos Cruzeiro de São Francisco – Salvador/Bahia

paradeiro da documentação produzida no âmbito dessas instituições é tarefa das mais difíceis de se empreender.

As conversas com profissionais de outras áreas, as leituras extensivas sobre o tema, a busca incessante para atingir um propósito e, talvez, uma pitada de sorte fizeram com que se chegasse à Sociedade Protetora dos Desvalidos, doravante também SPD, uma irmandade fundada por homens de cor, africanos, na cidade de Salvador no ano de 1832. Ganha, “de cara”, destaque a SPD por continuar de pé até os tempos que correm, o que possibilitou a conservação de um acervo documental que se circunscreve dentro de um arco temporal que vai de 1832, data da sua fundação, até os dias de hoje. Parte desse acervo, apenas documentos do século XIX, compôs a parte filológica da tese de doutorado de Oliveira (2006). Acontece, no entanto, que a conservação do acervo documental a que se fez referência carece de alguns “poréns”.

O primeiro deles alude às péssimas condições em que se encontram os livros em que constam variadas tradições discursivas: atas, circulares,

relatórios, livros de contas, livros de requerimentos etc. O tempo deixou marcas: fortes em alguns livros, fracas em outros; por sorte, resolveu deixar em paz muitos exemplares. É bem- vindo um fato a ilustrar o que se diz: para a feitura da tese de doutorado de Oliveira (2006) estava nos planos representar, na parte referente à edição filológica, documentos de todas as décadas do século XIX, mas a de 50 não pode dar o seu quinhão, porque os livros em que residem os textos da década mencionada não deram nenhuma possibilidade de margem à leitura. Completamente estragados e sem a menor chance de recuperação, não sobrou, para ser lida, uma folhinha sequer para contar a história.

Figura 2: Livro de Termos – 1850 Acervo SPD

E não é só isso: mesmo os livros aparentemente bem conservados, sabe lá Deus como esse milagre aconteceu, exibem em seu interior fólios danificados, seja pela qualidade da tinta utilizada, que está se esvaindo com o devir do tempo, seja porque a tinta se intrometeu no lado oposto do fólio, seja porque os papirófagos se depararam com material para um banquete farto etc, o que exigiu, por parte do editor, um esforço em trazer à tona aquela escrita que, a todo custo, teimava em se manter escondida. Editar documentos com esses desamores é pedir, literalmente, para entrar em uma partida de queda, ou quebra, de braços.

Mas lidar com documentação preservada em acervos de irmandades negras pode fazer com que se esbarre em outro desafeto: é que a escrita dentro dessas instituições caritativas, compostas por homens de cor, nem sempre foi por eles redigida e, sim, por brancos que procuravam delas participar como estratégia de controle, embora, algumas vezes, até o fizessem por devoção sincera. Os negros aceitavam a participação dos brancos por diversos motivos: para que cuidassem dos livros era um deles, uma vez que não tinham instrução para escrever e contar e certos cargos, como o de escrivão e tesoureiro, por exemplo, exigiam as referidas habilidades. Ao estudar a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, nas Minas Gerais do século XVIII, esse aspecto mereceu a atenção de Scarano (1978, p. 130):

Determinados cargos poderiam ou, às vezes, deveriam ser ocupados pelos brancos, conforme consta de vários compromissos. Também no distrito diamantino essas funções são reservadas aos brancos, pois, não tendo personalidade jurídica, o escravo não as poderia exercer. Por outro lado, tratando-se de cargos que exigiam maior nível cultural, era normal que se reservassem aos que tivessem melhores requisitos para ocupá-los. Muitas vezes os compromissos acentuam a exigência de ‘conhecimentos’, a fim de mostrar a necessidade de se colocar o branco nessas funções, consideradas difíceis e complexas.

É fácil compreender que a alfabetização era indispensável para determinados cargos. O de tesoureiro, por exemplo, pedia conhecimentos que ficavam acima do alcance de pequena instrução. Mesmo os brancos apresentavam não raro deficiências nesse particular, o que explica a confusão com que são redigidos muitos livros.

Desde modo, é preciso saber, de maneira vertical, a história que cada irmandade carrega sobre si, porque se pode incorrer no risco de atribuir a mãos negras produtos caligráficos executados por mãos brancas. A emergência desse

risco, no entanto, parece mais provável de acontecer com irmandades negras cuja fundação antecede os oitocentos, como é o caso, por exemplo, da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, tanto em Minas como na Bahia.