Pesquisa II Com os descritores Programa de Educação Tutorial (PET) e
SUB-EIXO DISCURSIVO: CONCEPÇÕES DE TUTORIA EXPRESSÕES-CHAVE IDEIAS CENTRAIS ANCORAGENS DSC
IV. Sub-eixo: Desafios e dificuldades da prática
A16: Desafio: Gestão de conflitos internos. A17: Dificuldade: Falta de formação.
A18: Dificuldades financeiras: custeio e bolsas.
A19: Dificuldade: Conciliar as atividades da tutoria do PET com as outras atividades docentes.
A20: Desafio: Pouco reconhecimento da universidade.
A21: Dificuldade: A rotatividade de alunos no PET dificulta os trabalhos.
No tocante ao sub-eixo IV que discute sobre os desafios e as dificuldades que os tutores enfrentam no exercício da sua prática. Foram apresentados como desafios: o pouco reconhecimento da universidade e do curso, além da gestão dos conflitos internos do grupo referentes às ancoragens A15, A16, A20.
Os desafios são muitos. Existe uma pressão normal e positiva do próprio curso em relação à atuação do grupo que existe para gerar benefícios na formação, não só dos próprios petianos, mas também de todos os alunos do curso ao qual o grupo está vinculado. Então, existe essa pressão, essa preocupação que a gente tem de estar sempre gerando atividades que possam contribuir para a formação, pra o engrandecimento da graduação. Então, essa relação com o próprio curso, com o coordenador do curso, é sempre um grande desafio! Você tem que fazer essa gestão, a gestão mais externa do PET, na conscientização da importância das atividades, com o corpo docente e com a coordenação. Existem exemplos que eu posso usar que são emblemáticos, quando você organiza uma semana acadêmica, por exemplo, você precisa convencer os colegas, professores, que aquele evento é importante, que é uma atividade acadêmica, para que eles liberem os seus alunos, para que a coordenação participe ativamente, estimule a participação não só do corpo docente, mas também dos alunos, então você tem ali uma gestão de interface entre o grupo e o meio externo, a própria universidade, o corpo docente, a administração superior, para que todos entendam a importância daquela atuação (DSC15).
Gerir pessoas, com seus interesses, suas individualidades em um grupo que tem uma convivência semanal como ocorre no PET é realmente um desafio para o tutor e para o grupo como um todo.
Um desafio interno é você tratar de todas essas características pessoais, esses interesses que são diferenciados, é a gestão efetivamente do grupo no seu dia a dia. Quando as pessoas estão começando, cada um tem o seu tempo de entrar. Às vezes eu tenho paciência de compreender porque eu sou mais velha, tenho até obrigação. Mas o grupo às vezes já está andando, aí a gente tem que arrumar, porque é gente do segundo, do terceiro, do quinto, do oitavo, e o tutor faz essa mediação. É que se nós nos enriquecemos enquanto pessoa, é uma aprendizagem, nós também temos dificuldades de conviver, discutir a questão que você exerce na prática, a questão da diversidade, essa relação, a exigência que a Universidade tem para você cumprir todas essas tarefas que você tem e ao mesmo tempo tem um grupo que você tem que acompanhar muito de perto. Você acompanha coletivamente, mas você acompanha individualmente também. Às vezes, nós desligamos bolsistas por conta de
incompatibilidade, por não se adequar, que é um dos princípios, quem não preserva o nome do PET, quem não cumpre as atividades, etc., está lá previsto como critério de desligamento. Então, a gente tem que gerenciar muito, muito “pepino” (DSC16). O DSC20 se refere ao pouco reconhecimento do programa dentro da instituição, o que reflete no não reconhecimento da própria ação tutorial que é apontada como um problema pelos tutores.
O não reconhecimento da Universidade! Não vou dizer o não reconhecimento, mas o pouco reconhecimento da Universidade em relação à tutoria enquanto atividade. A Universidade quer que a gente ajude a fazer projeto, quanto mais PET tiver, melhor, eu também acho, mas na hora de reconhecer a atividade do tutor! (DSC20).
Como dificuldades surgem a falta de formação, as questões financeiras, questões de tempo dos tutores para conciliar as atividades da tutoria do PET com as outras atividades docentes e a rotatividade de alunos no PET, o que dificulta os trabalhos, (ancoragens A17, A18, A19 e A21).
O problema que foi mais enfatizado nos discursos, tanto dos tutores quanto dos alunos, é a questão financeira, no que se refere às bolsas e ao custeio. Cada aluno que faz parte desse programa do governo federal recebe uma remuneração, uma bolsa98. O tutor também recebe uma bolsa,99 e o grupo recebe um custeio para as despesas. Esse custeio tem regras para ser utilizado.
De acordo com os discursos, há um atraso constante de bolsas dos tutorandos e isso de certa forma prejudica o trabalho e se torna um empecilho para a vida acadêmica daqueles que dependem desse recurso. Além disso, o custeio também demora a chegar, geralmente chega de uma vez só e geralmente está disponível no segundo semestre. Muito embora no Manual de Orientações Básicas o que está escrito é que esse custeio será semestral, a Portaria MEC nº 976, de 27 de julho de 2010, prevê que esse custo seja pago somente uma vez por ano, conforme expressa o artigo que se segue:
Art. 16°. O tutor de grupo PET receberá, semestralmente, o valor equivalente a uma bolsa por estudante participante, a ser aplicado integralmente no custeio das
98 Vide Portaria MEC nº 343, de 24 de abril de 2013. Art. 19. O estudante bolsista de grupo PET receberá
mensalmente uma bolsa de valor equivalente ao praticado na política federal de concessão de bolsas de iniciação científica.
99 Vide Portaria MEC nº 343, de 24 de abril de 2013. Art. 14. O professor tutor de grupo PET receberá
mensalmente bolsa de tutoria de valor equivalente ao praticado na política federal de concessão de bolsas de doutorado. § 1º A bolsa do professor tutor com título de mestre será de valor equivalente ao praticado na política federal de concessão de bolsas de mestrado;
atividades. 1º: Por conveniência operacional, o valor de custeio das atividades dos grupos poderá ser pago anualmente em uma única parcela100.
Muitas vezes as atividades de extensão e outras que exigem recursos financeiros são realizadas com o uso do dinheiro da bolsa dos alunos e dos tutores porque não houve o repasse do custeio pelo MEC. Também há um senso de responsabilidade muito grande do grupo e dos tutores quando afirmam que não é a universidade ou o MEC que estão à frente das atividades junto da comunidade, mas é o PET, por isso a atividade tem que acontecer!
Na maioria das vezes os alunos dependem da bolsa porque eles não são ricos. Agora tem muitos deles que estão sem conseguir nem vir pra aula porque há o atraso da bolsa. Esse é um problema seríssimo pra gente manter o resultado no curso. Isso tem sido um desgaste porque você vê a pessoa que tem um potencial sair porque não tem a bolsa. E assim já foram muitos. Isso dificulta muito as atividades. O financiamento dos eventos também tem sido uma dificuldade, nós não participamos porque nunca temos recursos para participar [...]. Então, tem essas dificuldades. Porque as regras do custeio diz que nós podemos financiar eventos científicos. Mas, por exemplo, não financia diária, financia a passagem. [...] Aí não funciona, não dá certo. Não tem transporte nem alimentação, tem única e exclusivamente a passagem. Então, fica muito complicado esse tipo de coisa. Tem gastos que a gente não pode fazer que são primordiais. [...] Mas hoje, às vezes mesmo com o custeio há coisas que têm que ser feitas e tem que sair do bolso, porque o custeio quase nunca chega, quando ele chega, ele chega atrasado. A gente tem que gerir os conflitos financeiros. [...] Então eu acho que a gente precisa ter muita paciência e muito sentido de previsibilidade. Eu, por exemplo, já tirei dinheiro do meu bolso, porque não tinha dinheiro em caixa e precisava comprar isso, isso, aquilo, aquilo outro... Não faz seis meses, eu doei X reais pra realizar a atividade, porque nós tínhamos nos comprometido com a comunidade e que precisava ser feito, porque não era o MEC! O MEC é distante. Não adianta dizer: “Olha, não aconteceu porque o MEC...” Nós somos a cara do MEC e da Universidade (DSC18).
A falta de formação é uma das queixas frequentes não somente dos tutores do PET, mas de muitos outros programas em que a tutoria está presente, muito embora esse quadro venha se modificando aos poucos, ainda há necessidade de formação, o que discutiremos no próximo eixo discursivo da Formação, evidenciando quais os elementos que os tutores consideraram como essenciais para a formação do tutor nesse programa. A seguir, mais um depoimento: “O exercício da tutoria é uma experiência que nós não somos formados para ela, você vai aprendendo no dia-a-dia, porque a universidade não dá, nem no ensino, nem na extensão, nem na pesquisa [...]” (DSC17).
100 Vide Portaria MEC nº 343, de 24 de abril de 2013. Art. 23. O repasse dos recursos referentes ao valor de
custeio das atividades dos respectivos grupos, de que trata o art. 16, será feito diretamente ao tutor pelo FNDE, mediante o repasse de recursos pela SESu/SECADI.
Parágrafo único. A prestação de contas da verba de custeio será efetuada pelo tutor, observada a legislação pertinente." (N.R.)
Além dessas duas dificuldades apontadas, ainda há a questão de que os tutores realizam muitas outras atividades dentro da universidade, e sentem dificuldade de conciliá-las com as da tutoria que requer muita atenção e disponibilidade. No DSC fica claro a insatisfação dos tutores, em relação às horas dedicadas ao PET, que não são contadas no Plano de Ação Docente na UECE, uma vez que todas as atividades realizadas pelo grupo é dedicada à graduação. Entretanto, também fica evidente no discurso que isso ainda está sendo discutido na universidade a fim de procurar uma solução.
As dificuldades na conciliação das demais atividades com o PET, que é ser um professor da UECE, pesquisador, ainda tem as questões com as atividades burocráticas que exercemos. Então assim, muitas vezes ficamos nessa dificuldade, acompanhando eles, mas o que me deixa muito impotente é querer acompanhar todo o processo e nem sempre a gente pode [...]. Principalmente agora que o PET não está mais contando do nosso PAD. Então essa é outra grande dificuldade, são X horas que eram contabilizadas no nosso Plano de Ação Docente e agora retiraram.[...] Então assim, é como se fosse uma atividade extracurricular do professor. Eles existem várias discussões sobre isso e até a Pró-Reitora está tentando voltar, resgatar essa contabilização no nosso PAD. Eu quero um pouco mais de disponibilidade, porque quando eu entrei aqui tinha redução de X horas, então, eu reduzia sempre minha carga horária para estar no PET, se envolvendo, porque o PET contribui diretamente para o curso. Então, por exemplo, os eventos que realizamos, passamos uns quatro meses de antecedência para planejar, reunir e nos debruçarmos mesmo, para que realmente tudo ocorra muito bem e sempre tem ocorrido, assim, muito bem, então sempre se destaca muito, são muitos elogios, mas conta, assim, é um esforço, um trabalho muito árduo, muito grande de envolvimento mesmo (DSC19).
Por fim, há uma preocupação com a rotatividade dos alunos que está aumentando a cada ano devido às mudanças na legislação e de acordo com o DSC21 o MEC está trabalhando na contramão da proposta de formação do programa.
O MEC tá trabalhando na contramão. Uma coisa que eu acho muito preocupante, era que antes a gente só podia pegar alunos de 2º, 3º, até no máximo 4º, porque para ter o certificado de PET ele precisava estar dois anos dentro do programa [...] agora você pode pegar até do 7º semestre. [...] Então isso para a formação é péssimo. Não vai nem entender a lógica. Não dá tempo construir coisa nenhuma. Tem gente que vai despertar com seis meses, outros com três, tem gente que com um ano, com mais de um ano é que começa a engrenar. Então, assim, esses dois anos no meu entendimento, são mínimos para gente, para formar realmente e não dá para fazer um trabalho decente. Já pensou você trabalhar um mês com uma criatura e ela ter o certificado de petiano? Então o MEC, ultimamente, tem trabalhado na contramão do que a gente espera (DSC21).
O DSC21 nos revelam que o rumo que vem tomando as Políticas Públicas para a educação brasileira estão na contramão de uma educação emancipatória. Quando o PET já se constitui uma Política bem estruturada, aparece uma lógica que atende aos padrões neoliberais
e capitalistas, entretanto, contradiz a continuidade do trabalho do tutor em relação à formação do petiano.
c) Eixo discursivo: A formação para exercer a tutoria no PET
O eixo discursivo da formação, é constituído por três sub-eixos conforme o gráfico abaixo:
Gráfico 4 – Eixo e sub-eixos da formação para o exercício a tutoria no PET com suas respectivas ancoragens
Fonte: Elaborado pela pesquisadora.
A seguir, trazemos cada sub-eixo com suas respectivas ancoragens e procuramos analisá-los trazendo alguns excertos dos discursos coletivos.