5. Análise e interpretação dos dados
5.2 Descrição e análise das categorias emergentes
5.2.1 Categoria 1 – Aprendizado lúdico do vídeo
5.2.1.4 Subcategoria 4 Cultura e Identidade Pomerana
Essa subcategoria surgiu a partir da análise das entrevistas e dos vídeos produzidos pelos alunos que identificaram que a produção de vídeo também possibilitou desenvolver a cultura e identidade dos alunos. No quadro abaixo foram selecionados alguns relatos que remetem à Cultura Pomerana dos alunos, como nos exemplos de ferramentas usadas no seu dia a dia, no trabalho do campo (Quadro 5).
Quadro 5 - Cultura Pomerana/Identidade constatada nas entrevistas. Alunos Cultura Pomerana/Identidade
A1 “A geometria no trabalho do campo, na plantação de fumo”.
A4 “Nosso vídeo é para ser sobre os colonos, na tradição pomerana. Aí foram procurar com os amigos, trabalhando na lavoura”.
A5 “A geometria nos vídeos: implementos, reboques, tratores, como abrimos os açudes, mostramos os ângulos”.
A17 “Está bem legal fazer as gravações, já fizemos duas cenas no campo e a outra queremos fazer tipo na aula‟‟.
A23 “Pensamos em mostrar no vídeo as distâncias, as cercas, os ângulos, as retas, vamos também filmar em pomerano”.
Os vídeos dos alunos evidenciaram claramente as características típicas de sua Cultura Pomerana, tanto em sons do cotidiano, costumes, tradições na lavoura, no seu modo de viver, bem como na Língua Pomerana que é a língua utilizada no áudio dos vídeos do G1 e do G6. É comum também em sua cultura a ajuda dos vizinhos, um exemplo de gentileza e educação como no relato do G5, que precisou de acolhida numa das cenas em que foram surpreendidos pela chuva. Outra forma de ajuda é na época das colheitas, essa troca de serviço de mão de obra é comum, como na cena do G1, em que o personagem oferece ajuda na colheita da batata e em outra cena, no fato de outro personagem segurar o ancinho para que o outro pudesse abrir a porteira (Quadro 6).
Quadro 6 - Cultura Pomerana identificada nos vídeos.
Grupos Cultura Pomerana identificada nos vídeos
G1
Vídeo com áudio na Língua Pomerana com legenda em Português.
Som de galinhas pondo ovos; “A gente ainda tem que arar”; “Quem vai buscar os cavalos”; “A gente vai capinar batatas”; “Hum, será que posso ajudar vocês? Eu não tenho trabalho”; “Senão as vacas vão sair”. “Vacas brabas”. “Velhos bois”; Personagem segura o ancinho para o outro abrir a porteira e após devolve.
G2 Algumas cenas são gravadas na quadra da igreja frequentada pelos alunos.
G4 Cenas do campo, dos açudes; som do pássaro Quero-quero em algumas filmagens.
G5
“Começamos a gravar às 1:30h. 1ª parte da gravação foi na estrada, o encontro. 2ª parte no K., com os dois amigos falando no Messenger. 3ª parte era na igreja, mas no momento em que estávamos indo para o local da gravação começou a chover e nós nos molhamos completamente. E a família que nos acolheu foi A. T”.
G6
Vídeo com áudio na Língua Pomerana com legenda em Português.
Diálogos do vídeo: lavoura de aveia, plantio do “fumo”, continuar plantando ou não, em virtude do preço baixo; classificação que o fumo alcançou, representando a ideia de média. Uso de herbicidas na lavoura, agrotóxicos que os pais costumam usar para “limpar” a lavoura para o plantio.
“A gente queria fazer das plantações, dos canteiros, as curvas do canteiro, as leras do fumo, e tudo mais”.
Qualidade do milho em decorrência do granizo que atingiu a lavoura, uma situação muito comum em suas propriedades.
Cena final com a imagem de um trator com reboque que utilizam nas lavouras, sendo o principal apoio para transporte das ferramentas de trabalho, bem como da colheita realizada no dia.
Fonte: Elaborado pela pesquisadora.
Além dos cenários do G1 serem todos típicos das moradas dos descendentes da Cultura Pomerana, apareceu nos diálogos palavras que remetem também a sua
cultura, como: arar, buscar cavalos, capinar batatas, vacas brabas, velhos bois, ancinho, porteira. Outras particularidades dos vídeos que evidenciam a cultura dos alunos são as galinhas pondo ovos como som de fundo e patos passeando tranquilamente no último cenário.
Outro aspecto percebido pela professora/pesquisadora foi em relação a predominância na Cultura Pomerana da religiosidade. Atividades de final de semana são frequentes nas comunidades das igrejas que os pais e alunos frequentam, como torneios de futebol, festas da igreja, aniversários e nas missas, como casamentos, batizados e confirmações.
Em uma das atividades o G2 gravou algumas cenas, como o treino de futebol e a narração da história na quadra da igreja e a cena da elaboração da planta do minimercado nos muros da mesma. No G4 as cenas foram gravadas num cenário típico da vida rural dos pomeranos: campos floridos, arados, açudes, bela paisagem e com sons do Quero-quero, muito comum nesses campos. No G6 a narrativa dos alunos mencionou vários aspectos da lavoura, do que aprenderam com seus pais, de seu cotidiano, de seu modo de viver pomerano.
Nos debates realizados na exibição dos vídeos, em vários deles apareciam palavras de sua cultura, tais como: lavouras de milho e fumo, plantações, preço baixo e classificação do fumo, uso de herbicidas nas lavouras, canteiros, granizo, palavras comuns de seu cotidiano que utilizam e ouvem de seus pais. Como defende Pereira (2014c) percebe-se que na Produção de Vídeo Estudantil o aluno leva a sua cultura para dentro do espaço escolar.
Os vídeos, portanto, possibilitaram aos alunos, além de desenvolverem habilidades, desde o preparo das gravações até a finalização dos mesmos, expressarem sua cultura e identidade, resultando numa ação conjunta, envolvendo todos os integrantes dos grupos e a professora. De acordo com Freire (2003, p. 42):
Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar. […] A questão da identidade cultural, de que fazem parte a dimensão individual e a de classe do educandos cujo respeito é absolutamente fundamental na prática educativa progressista, é problema que não pode ser desprezado.
Desta forma, a atividade com a produção de vídeos também possibilitou que os alunos utilizassem seus celulares como resgate de seus costumes e tradições dentro do espaço escolar, fazendo uso das tecnologias não só para ouvir músicas ou se comunicar pelas redes sociais, mas como um meio de expressar sua identidade. O que corresponde ao pensamento de Ferrés (1996) que elucida que o ideal seria os alunos expressarem-se também com os meios de comunicação e não só usarem para assistir o que já foi produzido.
A primeira categoria, Aprendizagem lúdica do vídeo e suas subcategorias, referem-se à produção do vídeo como atividade lúdica e, para Moran (1995, p. 31), a produção de vídeo é: “Lúdica, pela miniaturização da câmera, que permite brincar com a realidade, levá-la junto para qualquer lugar”. Sendo assim, de acordo com os dados coletados a produção de vídeo pode ser uma atividade que desenvolve aprendizagens, promove a cultura e identidade do sujeito de maneira divertida, diferente, nova e criativa. Todos estes aspectos observados nesta categoria remetem ao lúdico e ratificam a produção de vídeo como uma ferramenta lúdica.
A seguir, os dados coletados referem-se aos aspectos observados e analisados em relação à aprendizagem matemática de Geometria com a produção de vídeo estudantil nas aulas de matemática, o que resultou na segunda categoria, Geometria no cotidiano.