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“OBJETO” DA INTERPRETAÇÃO

2 EFETIVIDADE PROCESSUAL

2.8 O PRINCÍPIO DA EFETIVIDADE E SEUS SUBPRINCÍPIOS

2.8.3 Subprincípio da cooperação ou da colaboração

150 DINAMARCO, Cândido Rangel. A instrumentalidade do processo. 5. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 1996, p. 319.

151 BRASIL JÚNIOR, Samuel Meira. Justiça, direito e processo: a argumentação e o direito processual de resultados justos. São Paulo : Atlas, 2007. p. 32.

Atualmente, prestigia-se no direito estrangeiro – mais precisamente na Alemanha, França e Portugal – e já com alguma repercussão na doutrina brasileira, o chamado princípio da cooperação, que orienta o magistrado a tomar uma posição de agente-colaborador do processo, de participante ativo do contraditório e não mais a de um mero fiscal de regras.152

Essa participação não se resumirá à ampliação dos seus poderes instrutórios ou da efetivação das decisões judiciais (arts. 131 e 461, § 5º, CPC). O magistrado deveria adotar uma postura de diálogo com as partes e com os demais sujeitos do processo:

esclarecendo suas dúvida, pedindo esclarecimentos quando estiver em dúvidas e, ainda, dando as orientações necessárias, quando for o caso. Encara-se o processo como o produto de atividade cooperativa: cada qual com suas funções, mas todos com o objetivo comum, que é a prolação do ato final (decisão do magistrado sobre o objeto litigioso). Traz-se o magistrado ao debate processual; prestigiam-se o diálogo e o equilíbrio. Trata-se de princípio que informa e qualifica o contraditório. A obediência ao princípio da cooperação é comportamento que impede ou dificulta a decretação de nulidades processuais – e, principalmente, a prolação do juízo de inadmissibilidade. O princípio da cooperação gera os seguintes deveres para o magistrado (seus três aspectos): a) dever de esclarecimento; b) dever de consultar; c) dever de prevenir.153

O dever de esclarecimento consiste no dever do tribunal de se esclarecer junto às partes quanto às dúvidas que tenha sobre as suas alegações, pedidos ou posições em juízo, para evitar decisões tomadas em percepções equivocadas/apressadas.154

Por força do dever de consultar, não pode o magistrado decidir com base em questão de fato ou de direito, ainda que passível de ser conhecida de ofício, sem que sobre elas sejam as partes intimadas a manifestar-se. Logo, deve o juiz consultar as partes sobre

152DIDIER JÚNIOR, Fredie. Direito processual civil: tutela individual e coletiva, Vol. I. 5. ed. Salvador:

JusPodivm, 2005. p.59.

153 Idem, ibidem, p. 59-60.

154 Idem, ibidem, p. 60

esta questão não aviltrada no processo (e por isso não submetida ao crivo do contraditório) antes de decidir.155

Em decorrência do dever de prevenção, o julgador deve apontar as deficiências das postulações das partes, para que possam ser supridas. O dever em comento tem âmbito mais amplo, pois vale genericamente pra todas as situações em que o êxito da ação em favor de qualquer das partes possa ser frustrado pelo uso inadequado do processo.156

No direito brasileiro, esse dever de prevenção está consagrado no art. 284 do CPC, que garante ao demandante o direito de emendar a petição inicial, se o magistrado considerar que falta algum requisito; não é permitido o indeferimento da petição inicial sem que se dê a oportunidade de correção do defeito. Não cumprindo o autor a diligência que lhe fora ordenada, a petição inicial será indeferida (art. 295, VI, CPC).

Permite-se, contudo, uma nova determinação de emenda, se a primeira correção não foi satisfatória. E mesmo que efetuada a emenda após o prazo concedido, ainda assim não se justifica o indeferimento.157

Um outro exemplo muito instigante, ainda não enfrentado pela doutrina, diz respeito à extinção do processo sem julgamento de mérito em razão de irregularidade na representação.

Neste particular, é muito comum a prolação do seguinte despacho: “intime-se para regularizar a representação”.

Tal pronunciamento, que não indica o vício existente nem fixa prazo para o cumprimento da diligência, está em desacordo não só com o (sub)princípio da cooperação, mas também com a primeira parte do art. 13 do CPC, cujo teor estampa

155 DIDIER JÚNIOR, Fredie. Direito processual civil: tutela individual e coletiva, Vol. I. 5. ed. Salvador:

JusPodivm, 2005. p. 61.

156 Idem, ibidem, p.62

157 Idem, ibidem.

que “verificando a incapacidade processual ou a irregularidade de representação das partes, o juiz, suspendendo o processo, marcará prazo razoável para ser sanado o defeito”.

Não discorda de tal posição a jurisprudência contemporânea do STJ, segundo a qual “o juiz deve assinar prazo no despacho que ordena ao autor a regularização da representação processual (CPC, art. 13); sem a marcação do prazo, não pode extinguir o processo, ainda que o despacho judicial seja desatendido”.158

Em julgado recentíssimo, que analisou a incidência do art. 13 no âmbito do writ, o STJ se pronunciou no sentido de que “inexiste incompatibilidade entre o art. 6° da Lei n°

1.533/51 e o art. 13 do CPC, devendo-se oportunizar a regularização da representação processual em sede de mandado de segurança”159.

Ainda no caso de irregularidade na representação processual, o Superior Tribunal de Justiça vem exigindo a intimação pessoal da parte antes da extinção prematura do processo sem julgamento de mérito. Já se pontificou, por exemplo, que “é assente nesta Corte Superior que há possibilidade, nas instâncias ordinárias, de intimação pessoal da parte para sanar o vício de representação processual”160.

No caso de complementação de custas processuais prévias, com base no parágrafo primeiro (§ 1°) do art. 267 do CPC, o STJ também já entendeu necessária a intimação pessoal da parte autora. Da ementa do julgado, extrai-se que “na hipótese de complementação das custas iniciais do processo, o qual, inclusive, já se achava em etapa avançada de andamento, a intimação da parte deve ser pessoal para efeito de aplicação da regra do art. 257 do CPC”.161

158 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n° 499863. Relator: Ministro José Delgado. 1ª Turma. j.

17/06/2003. DJU 08/09/2003.

159 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n° 437.552. Relator: Ministra Eliana Calmon. 2ª Turma.

j. 24/05/2005. DJU 01/07/2005.

160 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Agravo Regimental no Recurso Especial n° 553213. Relator: Ministro Franciulli Netto. 2ª Turma. j. 01/09/2005. DJU 20/02/2006.

161 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n° 72376. Relator: Ministro Aldir Passarinho Júnior. 4ª Turma. j. 17/08/2000. DJU 09/10/2000.

Antes mesmo de se falar no princípio da cooperação, JOSÉ CARLOS BARBOSA MOREIRA162 já havia focalizado o tema em questão sob o prisma da efetividade, como bem retrata o trecho abaixo:

[...] tampouco a ânsia de extinguir quanto antes o processo é atitude que se harmonize, sempre e necessariamente, com o propósito de efetividade. Nada mais certo: bem se concebe que a precipitação cerceie de modo intolerável o exercício do direito de ação ou de defesa. Também no particular, contudo, o uso inteligente da técnica pode prestar serviços de grande valia. No despacho da inicial, v.g., o Juiz consciencioso e criativo encontrará ajuda inestimável na disposição do art. 284, caput, que lhe ordena abrir ao autor a oportunidade de emendar ou completar a inicial, sempre que ela apresente ‘defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento do mérito’. Inteligentemente explorada, permite a norma salvar do naufrágio imediato postulações malformuladas mas suscetíveis de correção.