III MARCO CONCEITUAL
3.1 Sustentabilidade dos recursos solo e água – enfoque integral
No cenário de crescimento da população mundial e a crescente demanda de produtos agrícolas e florestais, a pressão sobre os recursos hídricos e do solo intensifica-se ainda mais, o que leva a um mundo de extrema insegurança alimentar, nutricional e socioeconômica (FAO, 2015). Este problema se agrava ainda mais com as mudanças climáticas, como as crises de
água, seja devido à falta de água durante os períodos de seca, ou ao excesso de água durante a temporada de chuvas (FAO, 2019a). Somado a estas instabilidades, a falta de aplicação de práticas de conservação do uso e manejo do solo provoca a redução da infiltração e do armazenamento de água no solo, a perda de nutrientes do solo, o agravamento da poluição em diversos níveis, o assoreamento dos cursos de água, enchentes e a queda acentuada da produtividade agropecuária, ocasionando graves perdas, incluindo a perda dos diversos tipos de vidas, incluindo humanas (ANA, 2010). Como consequência destes fatos, nos períodos de menor intensidade de precipitação, acontece uma menor disponibilidade de água no solo não conservado (comparado ao solo no qual foi realizada uma boa gestão), o que leva a uma diminuição da tolerância dos cultivos nos períodos de falta de água nos solos sob manejo inadequado (OCDE, 2015). Ainda, seguindo o mesmo raciocínio da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2015), em situações de chuvas intensas ou depois de tormentas, o solo que foi degradado causa um processo maior de sedimentação dos corpos de água (em relação com o solo conservado), o que gera, além de outros problemas, as inundações e enchentes. A erosão acelerada da água causada pelo uso e manejo inadequado do solo é considerada como um dos problemas ambientais mais graves que a humanidade enfrenta na atualidade (Feng et al., 2010). Estes problemas causam a eliminação da camada de solo mais rica em termos de produção de vida e de alimentos, e com ela a consequente perda de nutrientes, de microrganismos benéficos, causando a contaminação e sedimentação dos cursos de água, inundações e a declinação da produtividade agrícola (Zhao et al., 2012; FAO, 2019a).
Diante deste quadro, urgem medidas para que seja desenvolvida uma agricultura próspera, inclusiva, sustentável, baixa em emissões de carbono e resiliente às mudanças climáticas (FAO, 2011). No mundo são diversas as iniciativas que estão seguindo este caminho, buscando uma produção mais resiliente e de formas mais sustentáveis, com princípios na conservação dos recursos naturais e ênfase na gestão integrada do solo e da água (FAO, 2021a), como exemplos na América Latina e no Caribe. Trabalhar para que elas possam acontecer é um imperativo para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) atrelados a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Para tal, é essencial que sejam identificados mecanismos que permitam os avanços de uma transformação dos sistemas produtivos, e desta forma, encontrar meios para uma produção de alimentos, energia e fibras de forma mais sustentável (FAO, 2011).
No entanto, ainda é necessário um amplo conjunto de ações, além dos sistemas de produção em si, para que seja possível aumentar a escala destas iniciativas. As ações de
conscientização para que a sociedade reconheça a devida importância da preservação e da recuperação ambiental tem aumentado, principalmente nas áreas mais críticas, por meio de legislações ambientais, programas de educação e conscientização, iniciativas sociais, dentre muitas outras (World Bank Group, 2018). Não obstante, o efetivo manejo adequado do solo e da água para a produção agropecuária e seus reflexos que vão além das fronteiras das propriedades rurais, esbarrando questões relacionadas a distintos interesses econômicos, políticos, socioculturais e jurídico-administrativos, questões cruciais e polêmicas inerentes à arena da governança ambiental.
Para alcançar este uso e manejo adequados dos recursos solo e água para a produção agropecuária sustentável no Brasil são requeridas uma série de habilidades, uma vez que o país ainda enfrenta graves problemas ambientais, como o aumento do desmatamento, a poluição dos recursos hídricos e do solo, a desertificação e outras calamidades ecológicas que afetam as diversas regiões (IPEA, 2016b). Segundo o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil é o quinto maior país do mundo em extensão territorial, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, com cerca de cinco milhões de propriedades rurais (IBGE, 2019). Embora aproximadamente 60% do território brasileiro seja coberto por florestas e deste percentual 98% é formado por florestas naturais protegidas por lei (SFB, 2019), ainda as áreas degradadas do país estão entre 16% (TCU, 2015) a 22% (Bai et al., 2008). Dentre estas áreas, segundo a Plataforma MapBiomas, a agricultura e a pastagem representam o principal uso do solo do país, ocupando aproximadamente 30% da superfície do território nacional, sendo que só a pastagem ocupa 154 milhões de hectares, uma área equivalente a todo o Estado do Amazonas (https://mapbiomas.org/).
O Relatório Ambiental das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (PNUMA, 2003) alarmou que a degradação ambiental tem piorado nas últimas três décadas, com impactos do desenvolvimento que estão longe de ser sustentáveis no Brasil, como: queima desenfreada de florestas, perda da biodiversidade, contaminação e deterioração da qualidade do solo e da água, avanço da desertificação, dentre outros, apresentando um alto grau de vulnerabilidade ambiental de grande parte dos recursos naturais do país. Na Amazônia e nos Cerrados centrais, existe um sério risco ambiental que vem se agravando com a expansão dos monocultivos, como a soja, e da pecuária extensiva, com o pano de fundo da derrubada ilegal das florestas nativas em um ritmo alarmante e descontrolado (IPEA, 2016b). Esses resultados também repercutem sob um efeito cascata desastroso, principalmente em regiões com ecossistemas frágeis, como as regiões semiáridas do Nordeste, provocando extremos meteorológicos, como a insolação aumentada, o calor excessivo, o ressecamento intenso e a erosão eólica, que provocam cheias
mais impetuosas e secas mais violentas, minguando as fontes de produção, diminuindo drasticamente a qualidade de vida da população (Duque, 1949).
Figura 2: Exemplos de solos degradados nos estados do Rio de Janeiro e do Maranhão, Brasil.
Créditos: Julia Stuchi e Portal ODS (https://portalods.com.br/), respectivamente.
3.1.1 Metabolismo social
O metabolismo social caracteriza-se por um processo que tem início quando uma determinada sociedade apropria-se de produtos e energias da natureza (denominados input), e termina quando os resíduos ou emissões desta apropriação são devolvidos para a natureza (denominado output) (Toledo, 2013). Segundo o autor, entre o input e o output, outros processos acontecem, por onde as energias e materiais que são apropriados circulam, transformam-se e são consumidos. Assim, o metabolismo social é composto por cinco fenômenos: 1) a apropriação; 2) a transformação; 3) a distribuição; 4) o consumo; 5) a excreção.
Por conseguinte, de uma forma geral, o processo metabólico social consiste em três fluxos de energia e materiais: fluxos de entrada (input); fluxos interiores (apropriação, transformação, consumo, distribuição e excreção); e fluxos de saída (output) (Figura 3).
Figura 3: Processo geral do metabolismo (de matéria e energia) entre a sociedade e a natureza.
Fonte: Adaptado de Molina y Toledo (2011).
Desta forma, de acordo com Molina e Toledo (2011), os cinco fenômenos que acontecem dentro do processo metabólico constituem-se em: 1) Apropriação – caracteriza-se pela relação mais simples entre as pessoas e a natureza, na qual os seres humanos se beneficia de todos os serviços ecossistêmicos (incluindo uso e manejo da água, do solo, da matéria vegetal, da biodiversidade, e da energia) que necessita para se manter, e para sobreviver como indivíduos biológicos e como conjunto social; 2) Transformação – são as formas de processamento dos produtos que não podem ser consumidos em sua forma original quando extraídos da apropriação (essas formas vão desde processos mais simples, como o preparo de alimentos, até os mais complexos, como a metalurgia, indústria nuclear, biotecnologia, petroquímica, nanotecnologia, etc); 3) Distribuição - é o intercâmbio econômico, quando os bens derivados da apropriação (transformados ou não) começam a circular. A distribuição vai ganhando incrementos conforme as distâncias que percorrem, os meios de transporte utilizados
para tal e os volumes desta circulação até os consumidores; 4) Consumo – processo que envolve toda a sociedade pois regula (perante o modo capitalista) a relação que existe entre as satisfações proporcionadas pela apropriação, transformação e distribuição, independentemente da posição da cadeia metabólica. Nessa lógica, o consumo acaba por determinar a demanda que incentiva e subordina os outros processos metabólicos; 5) Excreção – processo final de retorno de materiais e energias para a natureza, onde passa por todas as pessoas e todos os outros processos metabólicos. Diversas são as formas de mitigar os impactos, a qualidade e a quantidade destes resíduos quando lançados de volta na natureza, sendo importante ter em conta a capacidade de regeneração dos ecossistemas.
Existem, assim, duas transformações que acontecem no metabolismo social, de acordo com Toledo (2013): 1) “hardware”, a parte material do metabolismo e seus componentes, da natureza externa em relação à sociedade, que é a riqueza material trazida pela transformação da natureza para ser consumida, desfrutada e apropriada pelas pessoas (fluxo de energia e materiais); e 2) o “software”, a parte não material do metabolismo, a qual estrutura e ordena o funcionamento do fluxos de energia e materiais, que é a riqueza material convertida em riqueza social, de acordo com os critérios as sociedades irão estabelecer para uma determinação social para aquela transformação (os valores). Em outras palavras, segundo Burkett (1999), o ouro, quando passa por esta transformação, não é mais apenas o metal ouro, mas também é dinheiro;
uma pessoa, reconhecida pela sociedade não é apenas uma pessoa, mas um cidadão ou um escravo, posteriormente passa a ser um proprietário de terra, depois um trabalhador assalariado, e por aí afora. Isso significa que o mineral ouro que estava na natureza, quando passando por estes processos, converte-se em valores e agrega valores não somente para o seu metal físico, mas também para as pessoas que o extraem, transformam, comercializam e consomem.
Esta segunda transformação, a parte não material do metabolismo, contempla três importantes aspectos: a) Político-institucional, que está relacionado ao poder, às instituições, às regulações da relações sociais, dentre outros; b) Cosmovisão e conhecimento que ordena o manejo dos recursos e do meio ambiente, relacionados a toda uma bagagem com base na ciência e no empirismo de povos e comunidades tradicionais, bem como das tentativas de somar estes dois universos; c) Critérios éticos que guiam a ação e atuam como fluxos de informação (Toledo, 2013). Estes três pontos representam, de certa forma, a base da estrutura do presente estudo (com especial ênfase no primeiro deles), buscando compreender estes três aspectos componentes do “software” do metabolismo social relacionado à governança ambiental no Brasil.
Assim, de acordo com Molina e Toledo (2014), cada um dos processos que compõem o metabolismo social (apropriação, transformação, circulação, consumo e excreção), e que constroem estes valores sociais, estão sujeitos geração de conflitos dentro da dinâmica metabólica (guiados pela orientação, quantidade e qualidade dos fluxos de energias material).
Desta forma, segundo os autores, cada metabolismo social produz diferentes tipos de conflitos ambientais, que são gerados por três grandes princípios calcados na desigualdade: 1) entre grupos sociais, causando a disparidade da distribuição e apropriação dos recursos; 2) entre processos metabólicos, gerando diversos tipos de conflitos com relação aos regulamentos ou ausência deles para a organização dos fenômenos internos a cada metabolismo social; 3) entre os diferentes metabolismos social, os quais existem fundamentalmente três grandes grupos, sendo metabolismo industrial, metabolismo urbano e metabolismo agrário. O metabolismo agrário, por sua vez, está relacionado ao intercâmbio de energia, materiais e informação estabelecidos dentro do meio ambiente socioecológico do setor agrário de uma sociedade (Toledo, 2013). Funciona como uma parte do metabolismo social especializado na produção de biomassa e provisão de serviços ambientais (Molina e Toledo, 2011).
Diante do exposto, é de fundamental importância que haja uma atenção especial nos processos do metabolismo social no escopo da elaboração do Plano SoloÁguaBr, para que seja possível melhorar o fluxo dos seus fenômenos no sentido de mitigar os impactos causados aos recursos (como as perturbações ambientais), a quantidade e qualidade de resíduos gerados no processo metabólico. Desta forma, recomenda-se que a equipe de elaboração do Plano esteja debruçada nos processos de apropriação, transformação, distribuição, consumo e excreção, em cada ação para contribuir com a melhoria das formas de acesso e distribuição dos recursos para as sociedades que estão inseridos. Assim, a coevolução da sociedade com a natureza é afetada por nossas decisões individuais e coletivas (Caporal et al., 2006).
3.1.2 Ecologia política
A ecologia política estuda os conflitos ecológicos e conflitos de distribuição relacionados ao acesso, uso e distribuição socioecológica dos resultados positivos e negativos dos usos dos recursos naturais, mostrando que eles podem ser explicados e, ainda, previstos (Martinez-Alier, 2015). Segundo o autor, estes conflitos podem ser locais ou globais, e entre eles é possível estabelecer relações. A seguir veremos alguns destes exemplos das disparidades entre o uso desmedido dos recursos naturais, a devastação da biodiversidade, a demanda de extração dos recursos naturais geradas por estes conflitos ecológicos em uma perspectiva
mundial; por outro lado, as gritantes disparidades na desigualdade social, a devastação dos direitos humanos no que tange ao direito à alimentação e à nutrição, e a demanda desenfreada pela acumulação de riquezas nas bases capitalistas. Todos estes seguintes dados são importantes para que tenhamos em conta a forma responsiva e desafiadora de como devemos tratar as bases para a construção do Plano Nacional que estamos nos propondo a construir. Para que os conflitos ecológico-distributivos não se tornem invisíveis aos olhos da formulação da proposta do Plano, e principalmente, para que possamos compreender a responsabilidade de nossas ações frente aos impactos causados na apropriação dos recursos naturais, em especial o solo e a água, a distribuição e a conservação dos mesmos.
Entre os anos de 1970 e 2000, a biodiversidade mundial contava com 35% de extinção e a miséria seguia assolando um terço da população (Loureiro & Layrargues, 2013). Desde 1980, menos de 20% da população total concentrava os confortos materiais do modo de produção capitalista, e o padrão de consumo gerou uma demanda de recursos naturais em 25%
acima da capacidade de suporte do planeta. A acumulação de riquezas foi tamanha que em 2006 a classe dominante mundial concentrava, em 946 pessoas, o equivalente ao rendimento de 50% da população mundial; destas 946 pessoas, 20 eram brasileiros que detinham a renda líquida equivalente a riqueza de 80 milhões de brasileiros mais empobrecidos. Ainda em 2006, 218 milhões de crianças trabalhavam em condições de escravidão. Em 2009, a desnutrição crônica atingia 1,02 bilhão de pessoas; 884 milhões de pessoas no mundo não tinham acesso à água potável; 2,5 bilhões continuavam sem sistema de saneamento (Loureiro & Layrargues, 2013). Ainda de acordo com Loureiro & Layrargues (2013), o continente Africano representa apenas 1% do PIB global, 5% de todo o consumo mundial e 3% do total de emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global, com mais da metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza, além de um processo de degradação severo; enquanto que sozinho, os Estados Unidos da América (EUA), com menos de um terço da população do continente africano, são responsáveis por 30% de todo o consumo mundial. Seguindo na linha dos grandes contrastes, os cinco maiores países produtores de armas são do conselho de segurança das Nações Unidas (ONU).
Martinez-Alier (2015) seleciona e exemplifica estrategicamente estes conflitos ecológico-distributivos para que possamos identificar as disparidades dos beneficiados diante das (in)justiças ambientais. Para o presente estudo serão identificados os principais deles relacionados à conservação da água e do solo, objeto deste estudo, com a finalidade de confrontarmos estes conflitos às propostas dos seis eixos componentes propostos pelo Projeto SoloÁguaBr para que sejam atenuados com a nova proposta (Tabela 1). Estes conflitos,
presentes dentro de um país de tamanho continental como o Brasil, necessitam ser analisados e identificados no âmbito de elaboração do Plano Nacional, pois vêm sofrendo constantes pressões cada vez mais contundentes, e desta forma necessitam ser aprofundados e discutidos, com a propulsão das redes de resistência internacionais mencionados pelo autor, somadas às redes de resistência nacionais, para que sejam atenuados e mitigados.
Tabela 1: Principais tipos de conflitos, suas descrições e redes de resistência relacionadas.
Natureza do conflito
Tipo Descrição Rede de resistência
Extração de materiais e energia
1.Mineradora (carvão, cobre, ouro, pedras preciosas, etc)
Contra a contaminação do solo, ar, água; sobre a ocupação de terras por mineradoras (despejo de escórias)
Mines, Minerals and People (internacional)
2.Extração de petróleo
Contra a contaminação do ar, solo e água (ao despejar água salgada e contaminada da extração em corpos de águas locais e ao queimar gases)
Oilwatch (desde 1995)
3.Degradação e erosão das terras
Contra a distribuição desigual da propriedade ou pressão da produção exportadora sobre os recursos
Alerta contra o Deserto Verde (Brasil)
4.As plantações não são florestas
Contra as plantações de eucalipto, pinus e acácias destinadas a produção de lascas de madeira ou pasta de papel para a exportação
www.wrm.org.uy (internacional)
Alerta contra o Deserto Verde (Brasil)
5.Conflitos sobre a água
Contra as grandes empresas hidrelétricas e de irrigação pela defesa dos rios. Contra o uso e contaminação dos aquíferos de grandes empresas.
Contra a transposição dos rios (São Francisco, no Brasil)
International Rivers Network (internacional);
Movimento dos
Atingidos por Barragens (Brasil)
Resíduos e contaminação
6.Lutas tóxicas Contra os riscos de contaminação com metais pesados, dioxinas, etc
Associação contra os Poluentes Orgânicos (Brasil)
7. Insegurança de consumidores e cidadãos
Contra a incidência e a distribuição social dos riscos incertos das tecnologias como DDT, DBCP, pesticidas, energia nuclear, transgênicos que afetam ricos e pobres, produtores
Pesticides Action Network
(internacional); RAP-AL (América Latina)
8. Contaminação transfronteiriça
Contra as emissões de gases tóxicos que cruzam fronteiras e produzem chuvas ácidas. Contra contaminações radioativas pelo treinamento com armas nucleares no Pacífico. Contra as emissões de CFC que danificam a camada de ozônio.
9.Sumidouros de carbono
Contra o uso desproporcional dos sumidouros de carbono. Contra a deposição de gases tóxicos na atmosfera.
Dívida de carbono – Andrew Simms
Fonte: Adaptado de Martinez-Alier (2015).
No Brasil, a degradação do Cerrado e da Amazônia vêm se intensificando com a expansão do agronegócio e da soja. As plantações de monoculturas de árvores (como os eucaliptos, pinheiros e acácias), cultivadas para a produção de madeira, papel e celulose, cuja produção é sistematicamente exportada, traz a consequente exportação dos recursos do solo e da biodiversidade brasileira. Outros sérios conflitos em âmbito nacional estão relacionados com a extração dos materiais e da produção de energia, que além de gerarem inúmeros e trágicos problemas associados à ocupação de terras e à poluição causada por diversas atividades (como minas de ferro, bauxita e urânio; fundições, siderúrgicas e fábricas de alumínio; extração e refino de petróleo ou de gás; extração de material de construção), poluem e degradam o meio ambiente no qual estão inseridos. Os conflitos relacionados à água também são pontos importantes de destaque na conjuntura nacional, que vêm crescendo com o movimento de oposição oriundos das populações diretamente afetadas com a construção de grandes barragens para geração de eletricidade, para fins de irrigação, ou ainda a transposição de rios. Ainda, a problemática causada pelas contaminações do solo e água por resíduos perigosos no Brasil tem produzido vários conflitos socioambientais, como os casos da Rhodia e dos poluentes orgânicos persistentes que geraram movimentos populares representativos (Porto e Martinez-Alier, 2007).
Frente a toda esta disparidade, a ecologia política traz seu foco no contexto ecológico do estabelecimento das relações no que tange o compartilhamento e a disputa dos recursos naturais e ambientais feitos pelos agentes sociais, pelos processos econômicos, culturais e político-institucionais (Loureiro & Layrargues, 2013). O entendimento destas relações dentro do contexto brasileiro são de fundamental importância para que a proposta da construção do Plano Nacional seja capaz de servir à sociedade com base nos princípios dos movimentos existentes pela justiça ambiental, levando em consideração as possibilidades de redistribuição dos benefícios frente aos diversos tipos de desigualdades existentes, sobretudo sobre as populações mais pobres, discriminadas e socialmente excluídas, buscando a melhoria da qualidade de vida para todos.
A ecologia política surge na década de 1960 com o objetivo de gerar conhecimentos e a compreensão do funcionamento da sociedade com o direcionamento do modo que a natureza é qualificada, partindo do princípio que é prioritária para a existência humana e precisa ser conhecida e respeitada para compatibilizar o modo de produção com sua capacidade de suporte e regeneração (Foladori, 2001). Emerge assim com um apelo frente a estas gritantes desigualdades, argumentando que para que estas poucas pessoas com um padrão muito alto de vida possam seguir com este estilo, outros muitos terão que permanecer em um nível muito
baixo, com base no uso abusivo da natureza. Com relação ao exposto, com base em Gorz (1976), Loureiro (2012:19-20) também adverte:
“Isso é eticamente abominável e materialmente insuportável. A sustentabilidade da riqueza no marco da sociedade capitalista urbano-industrial traz o seu reverso: a sustentabilidade da pobreza”
Outro aspecto importante abordado pela economia política é que os tempos de produção e recomposição da natureza, em especial os materiais primários para o desenvolvimento econômico – como o solo, a água, a cobertura vegetal, os minérios, etc - não são compatíveis com a velocidade da produção e consumo das mercadorias. Isto porque não estamos falando de material de consumo para subsistência, mas sim na apropriação dos recursos naturais para fins de acumulação de riquezas e investimento no arsenal bélico.
Como um exemplo disso temos a fome no mundo, um gravíssimo problema de produção e de distribuição, e não um problema técnico. Segundo a FAO (2021), aproximadamente uma a cada três pessoas no mundo não teve acesso à alimentação adequada (representando 2,3 bilhões de pessoas), enquanto 811 milhões no mundo passaram fome em 2020. Do outro lado, mas paradoxalmente bem próximo, a alimentação básica do mundo conta com 15 espécies vegetais e 8 animais, com seu processo produtivo concentrado em grandes corporações, com monopólios de sementes e insumos na produção. Aliado a este lado estão os meios de comunicação colocando o agronegócio, os agrotóxicos e os transgênicos como alternativas para produzir mais alimentos para suprir a população (Loureiro & Layrargues, 2013). No entanto, ao longo do tempo, desde o princípio destes argumentos justificando a Revolução Verde nos anos 70 no contexto nacional, seguimos com a insegurança alimentar assolando 116 milhões de pessoas no Brasil, o que corresponde a mais da metade dos lares no país, e 33,1 milhões de brasileiros passando fome (Rede PENSSAN, 2022).
Toda esta reflexão trazida no contexto da ecologia política deverá ser levada em conta na construção da nossa proposta de gestão nacional dos recursos solo a água por meio do Plano SoloÁguaBr, considerando toda a reflexão aqui exposta no contexto da ecologia política, somada aos princípios da justiça ambiental abrangendo: 1) acesso justo aos bens ambientais do país; 2) amplo acesso às informações relevantes sobre as atividades poluentes; 3) fortalecimento e favorecimento de movimentos sociais e organizações populares capazes de interferirem no processo de decisão política e da economia; 4) maior equilíbrio na destinação
da carga dos danos ambientais para garantir a integridade da saúde ambiental e da reprodução social a grupos sociais de trabalhadores ou grupos étnicos discriminados e em estado de maior vulnerabilidade social e ambiental (Loureiro & Layrargues, 2013).
Seguindo as diretrizes da ecologia política para a distribuição e o acesso equitativo aos recursos naturais, e com uma perspectiva de sustentabilidade, considera-se oportuno que a elaboração do Plano Nacional tenha como base estruturante o respeito aos processos de regeneração e reprodução naturais frente às necessidades produtivas, atentos às alarmantes desigualdades sócio-políticas em todos os níveis, oportunizando o amplo acesso à informação, a escuta e a inclusão dos grupos menos favorecidos e marginalizados. De igual forma, o enfoque para este Plano deve procurar evidenciar o protagonismo dos movimentos sociais nas seguintes instâncias: suas lutas e projetos políticos, porque assim assumem as questões ambientais inerentes às suas realidades, uma vez que se referem à reestruturação da sociedade;
na incorporação do tema ambiental como elemento estratégico de lutas populares e democráticas, levando em conta que a propriedade privada capitalista opera na disputa e controle na apropriação e uso por bens naturais; as identidades ecológicas entre sujeitos e grupos, relacionados aos usos da diversidade do agroecossistema e do uso do solo, que representam uma categoria estratégica da identidade da prática política (Loureiro &
Layrargues, 2013).
3.1.3 Sistemas agroalimentares sustentáveis
Os sistemas agroalimentares que temos na atual conjuntura são complexas estruturas globalizadas com mercados globais, oligopólios de produção e distribuição intensiva, marcados por crises especulativas no mercado de matérias primas (Calle, Soler y Vara, 2009). O autor denuncia que as catastróficas consequências para o meio ambiente são agravadas pelo controle das empresas transnacionais agroalimentares, que vão desde a produção até a distribuição dos alimentos para a população. Estas e outras características inerentes às formas de produção de alimento da relação campo-cidade vêm causando descontentamentos na população, uma vez que sua maior parte vive nas cidades alheias à produção do campo, e funciona como um motor de crescimento e desenvolvimento, impulsionada pelos hábitos de consumo alimentares controlados por uma hegemonia de empresas transnacionais.
Estas tendências, impulsionadas pelo marco da revolução verde, culminam em uma industrialização da agricultura alastrando em uma forte erosão social, desvalorizando e tornando invisíveis as formas de agricultura e de desenvolvimento endógeno contrapostos aos
padrões homogeneizantes desta revolução; e a uma erosão ambiental, ultrapassando os limites de reprodução dos ecossistemas (Calle, Gallar e Candón, 2013). Os autores acusam que os produtos favorecidos para a implantação mercantil destes impérios favorecem dinâmicas especulativas, com base em poucos cultivos, como o milho, o arroz, e trigo, e mais recentemente a soja transgênica, em contraponto aos milhares de cultivos que existem ao redor do mundo. Outro contrassenso gritante é que se estima que a agricultura de subsistência e os cultivos tradicionais alimentam a 4.000 milhões de pessoas, em contraste aos 2.200 milhões provindo a agricultura de base da revolução verde (Fernández et al., 2006).
Tomamos por exemplo, em sentido figurado e literal, as sementes. Para que possamos conseguir fazer germinar, crescer, se desenvolver, florescer e frutificar uma semente, é de fundamental importância que ela encontre duas condições básicas para sua germinação, além da luz: um solo apropriado e água em quantidade e qualidade. Como uma analogia, Calle Collado et al (2012) identificam que a semente representa, biológica e simbolicamente, a reprodução do sistema agrícola, ocupando um lugar único da cadeia alimentar. No entanto, com a intervenção da indústria neste processo, a função reprodutora se mantém manipulada pela indústria (seja por mecanismos tecnológicos, por hibridação ou até pela transgenia), deixando o agricultor em uma posição de alta dependência deste mesmo recurso (Kloppenburg, 1988).
Dentro desta manipulação também estão inseridos mecanismos sociais que chegam pela imposição de normas e leis, que dificultam o desenvolvimento de uma agricultura sustentável, além da do desmantelamento das leis a favor da agricultura familiar, desatenção às variedades locais e/ou nativas, entre muitos outros Calle Collado et al (2012).
Calle, Soler e Vara (2009) reconhecem três grandes tipologias que podem representar aportes à construção do Plano SoloÁguaBr, nos quais em suas identificações apontam oportunidades e possibilidades grandiosas para posicionar o Plano em um papel inovador e de destaque frente às questões dos sistemas agroalimentares sustentáveis, sistematizados na Tabela 2.
Tabela 2: Tipologias das novas tendências aos sistemas agroalimentares.
Tipologias Representação Identificação 1) Novos estilos
agroalimentares
Campesinos e pequenos agricultores
Recuperação e recriação de outras formas de manejo dos agroecossistemas fundamentados na proximidade e no saber local, na democratização das relações de produção e de consumo.
Construir canais curtos de comercialização onde as relações de poder possam ser reequilibradas entre produção e consumo, seguindo os princípios da soberania alimentar e da agroecologia 2) Novos cultivos
sociais
Cooperativas de consumidores e produtores
Redes que se orientam nos princípios da economia solidária e ecológica criando espaços de socialização para a satisfação direta de suas necessidades básicas. Micro-sociedades centradas em outro tipo de modelo de gestão baseado na cooperação social, na participação, na democracia de base e em fluxos não mercantilistas. Praticam manejo agroecológico dos recursos naturais para obter uma produção distribuída e consumida pela coletividade que conforma as cooperativas, com a produção semanal repartida em grupos de consumo dentro de uma rede de distribuição local, evitando excedentes. Gestão conjunta e corresponsabilidade da produção e do consumo.
3) Novos movimentos globais
Redes sociais críticas, sindicalismo de agricultores (Vía Campesina)
Protestos e novas culturas de mobilização antiglobalização.
Iniciativas como dia sem compras, semana sem televisão, critérios de consumo. Manifestações contra os transgênicos envolvendo a falta de transparência na atuação, experiências e comercialização destes produtos. Campanhas por uma agricultura pública, para todos, para o mundo rural e pela soberania alimentar. Dar uma visão social ao mundo rural o qual fazemos uso dos seus recursos naturais.
Fonte: Adaptado de Calle (2009).
Considera-se assim oportuno que a elaboração do Plano Nacional vinculado de maneira sinérgica com os sistemas agroalimentares sustentáveis, fortalecendo os processos de transição agroecológica nas localidades rurais e nos demais elementos que compõem estes sistemas, por meio da gestão do solo e da água. Para tal, alguns caminhos podem ser apontados para que sejam desenhadas ações estrategicamente alinhadas às tipologias (Tabela 2) categorizadas por Calle (2009), para que seja buscar e fortalecer meios para que o Plano contribua neste tema tão vital à saúde humana, dos alimentos, e dos agroecossistemas que os provêm:
1) Novos estilos agroalimentares: incluir os diferentes grupos sociais, principalmente agricultores familiares e povos e comunidades tradicionais, na recriação do manejo de agroecossistemas, levando em consideração as ferramentas já existentes para o manejo integrado dos recursos naturais dentro das políticas públicas ambientais, valorizando as variedades, cultivos e saberes locais, fortalecendo a inclusão produtiva e a democratização das relações de produção e consumo (especialmente no fomento e incentivos diversos às de produção de base agroecológica); fortalecer a importância da soberania alimentar e nutricional das pessoas por meio de canais curtos de comercialização, reforçando a legitimidade das escolhas do consumidor como sujeitos políticos à uma melhor alimentação, permitindo também o acesso de compra aos menos favorecidos pela venda direta (como exemplos de mobilização
social os Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA, e Movimento de Mulheres Camponesas - MMC).
2) Aos novos cultivos sociais: com diversas oportunidades de proporcionar espaços de conscientização, promoção, troca de saberes e capacitações entre e com as diversas redes de organizações que orientam os princípios das bases agroecológicas como da economia local e solidária (como exemplos o Fórum Brasileiro de Economia Solidária, e as feiras de orgânicos em todas as 27 unidades da federação com atuação mais representativa das CPOrgs de cada uma delas); da cooperação e inclusão socioprodutiva com bases sustentáveis (como exemplos a Rede de Agroecologia Eco-Vida, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu no Pará - CAMTA); da soberania alimentar e nutricional com alimentos saudáveis (como exemplo a Junta Local no Rio de Janeiro); dos direitos dos povos e comunidades tradicionais (como exemplo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas - CONAQ), dentre muitos outros (Figura 4); que possam ser fomentados e viabilizados pelos envolvidos e parceiros externos de diversas naturezas (governos em todas as esferas, organizações da sociedade civil, setor privado, pesquisa e ensino) as diversas expressões de práticas do manejo agroecológico dos recursos naturais, buscando trazer mais luz à gestão conjunta e corresponsabilidade da produção e do consumo entre as cooperativas de consumidores e produtores.
3) E aos protestos dos novos movimentos globais e nacionais que contestam os mercados globais e suas formas de estimular o consumo (como o movimento social mundial Slow Food com atuação contextualizada também no Brasil); como as manifestações contra os transgênicos (como o fortalecimento da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos);
fortalecimento das experiências e comercialização dos produtos orgânicos (como exemplo os Sistemas Participativos de Garantia - SPG e Organizações do Controle Social - OCS em âmbito nacional); como diversas das bandeiras de luta da Marcha Mundial das Mulheres, dentre muitos outros.
Figura 4: Espaço de Troca de Saberes ocorrido na Universidade de Viçosa, Brasil.
Créditos: Marcio Gomes da Silva.
Trazer à luz deste estudo as formas de resistência à globalização agroalimentar são elementares para fundamentar um arcabouço ideológico contra hegemônico, com oportunidades de construir propostas para que seja possível oportunizar formas de acesso alternativas ao sistema agroalimentar (Calle Collado et al., 2013). Para nosso estudo, estes conceitos tomam uma importante significância, levando em consideração que, para a construção do Plano SoloÁguaBr, estas propostas de oportunizar formas alternativas ao sistema agroalimentar brasileiro podem ser desenhadas reforçando, integrando e fortalecendo as ações neste sentido que já acontecem no Brasil. Elas podem ser enxergadas por meio da ativação e interconexão de diversas legislações (sucateadas por distintos interesses governamentais); ou ainda pela integração com movimentos da sociedade civil organizada mais representativos como a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), dentre muitos outros; e pelo papel articulador e propulsor que o Plano SoloÁguaBr pode representar neste tema, buscando complementar e fortalecer as políticas e ações já engajadas, em especial a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO).
Com relação às potencialidades especificamente da PNAPO em impulsionar novas formas de contribuir com sistemas agroalimentares mais sustentáveis, cabe destacar algumas delas, segundo CIAPO (2013): o reconhecimento do seu papel integrador entre os diferentes órgãos governamentais para melhorar a gestão e operacionalização das diferentes políticas públicas, em especial o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); seu empenho na promoção de sistemas justos e sustentáveis de produção, distribuição e consumo de alimentos, que aperfeiçoem as funções econômica, social e ambiental da agricultura e do extrativismo florestal, e priorizem o apoio institucional aos beneficiários da Lei nº 11.326, de 2006; às propostas de mecanismos para atender à demanda por tecnologias ambientalmente sustentáveis, compatíveis com a diversidade dos sistemas culturais e com as mais diversas dimensões econômicas, sociais, políticas e éticas no campo que são parte do desenvolvimento agrícola e rural, apresentando também alternativas que visam assegurar melhores condições de saúde e de qualidade de vida para a população rural; suas propostas para incluir e incentivar a agroecologia e os sistemas de produção orgânica nos diferentes níveis e modalidades de educação e ensino, bem como atreladas ao contexto das práticas e movimentos sociais e das manifestações culturais; os incentivos aos os sistemas agrícolas locais e tradicionais, como reconhecimento de que são quem geram e mantêm a grande e maior diversidade genética in situ/on farm, e a possibilidade legal de guardar e trocar sementes (CIAPO, 2013); dentre outros.
3.1.4 Enfoque socioambiental
Para abordar este tema é necessária uma abertura para mudanças de paradigmas, na qual seja possível postular uma racionalidade alternativa com pilares de sustentação numa mudança moral e ética frente aos conflitos que vivemos fundamentados na dicotomia entre sistemas ecológicos e sociais. Essa mudança se faz necessária porque não coexistimos de forma satisfatória nos nossos modos de organizações sociais, muito menos na forma que usamos os recursos ambientais, e encontramos uma dificuldade alarmante de enxergar a problemática socioambiental libertos do paradigma colonialista, civilizatório, progressista e economicista que impera na atualidade (Fernandes e Sampaio, 2008).
Os metabolismos da sociedade na qual fazemos parte são assim insustentáveis, com fluxos de matéria e energia que se desenvolvem em torno dos fluxos sociais, econômicos e de trabalho, ancoradas em relações, em sua grande parte, conflitivas, direcionadas pela apropriação de recursos por parte de elites (Calle Collado et al., 2013). A partir da década de