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Tambaqui Colossoma macropomum (Cuvier, 1818)

No documento O USO DA BIODIVERSIDADE AQUÁTICA NO BRASIL: (páginas 144-146)

O tambaqui, segundo Santos et al. (2006), é um peixe de grande porte, até 100 cm de comprimento, e mais de 45 kg, correspondendo ao segundo maior peixe de escamas da América do Sul, depois do pirarucu; tem corpo alto, romboidal, lábios grossos, dentes molariformes; ausência de espinho pré-dorsal; nadadeira adiposa com raios. No decorrer de seu desenvolvimen- to, o tambaqui sofre grandes variações tanto no padrão de coloração quanto na forma do corpo. Nos juvenis, com até 10 cm de comprimento, ocorre uma mancha escura arredondada na região mediana do corpo, ao nível da nadadei- ra dorsal, desaparecendo completamente a partir desse tamanho. Nos jovens com até cerca de 30 cm o corpo é bastante alto, tornando-se mais alongado na fase adulta. A coloração nos adultos é também bastante variável com a cor da água, sendo mais escura nos indivíduos que vivem em rios de água preta e mais clara nos de água barrenta (Figura 98). É uma espécie endêmica das bacias do Amazonas e do Orinoco, sendo muito comum em lagos de várzea.

Segundo esses autores, é uma espécie onívora e os adultos conso- mem basicamente frutos e sementes, tendo zooplâncton como complemen- to. É o único peixe de grande porte na Amazônia que possui rastros branquiais longos e fortes dentes molariformes, sendo essa característica anatômica singular, o que lhe permite alimentar-se tanto de zooplâncton quanto de frutos e sementes. A atividade alimentar dessa espécie é baixa no período de vazan- te e seca, quando empreende migrações ascendentes, de dispersão, e utiliza suas reservas de gordura acumuladas no fígado e cavidade abdominal; a ativi- dade alimentar é muito alta por ocasião da enchente/cheia, quando ocupa as florestas inundadas nas margens dos rios e lagos, e onde há maior disponibili- dade de itens alimentares. O estômago é bastante volumoso e na fase de in- tensa alimentação chega a consumir uma quantidade de alimento correspon- dente a cerca de 9% do peso de seu corpo; no período de seca permanece no leito dos rios; penetra nos afluentes de menor porte para explorar as matas alagadas na enchente e na cheia, e desloca-se para os rios de águas barrentas para desovar; o comprimento-padrão médio da primeira maturação é de 61 cm, estando o total da população adulta aos 76 cm; o tamanho mínimo encon-

trado para fêmeas maduras foi de 45 cm; a proporção sexual é de aproxima- damente 1:1 na Amazônia Central, e um número relativamente maior de ma- chos na Bacia do Rio Mamoré. A massa de ovos é de aproximadamente 2% a 8% do peso corpóreo da fêmea e se desenvolvem mais acentuadamente du- rante o período de seca, quando o peixe consome menos alimento, mas pos- sui grande quantidade de gordura estocada, que chega a cerca de 10% do peso corpóreo; a idade média dos indivíduos sexualmente maduros é de 3,5 a 4 anos, quando atinge 6,3 quilos.

Figura 98TambaquiColossoma macropomum(Cuvier, 1818). Fonte: Santos et al. (2006).

É um peixe que apresenta ciclo de vida longo, de pelo menos 13 anos, tendo sido calculada uma expectativa de vida de aproximadamente 17 anos; para cada ano de vida, há a formação de um anel nas escamas e otólitos for- mado durante o período de vazante e seca que, na Amazônia Central, geral- mente ocorre entre outubro e dezembro; peixes de idade conhecida apresen- tam o mesmo padrão de anéis sazonais e diários, quer estejam em condições naturais ou confinados, evidenciando que há um ritmo endógeno para a sua formação. Fecundidade bastante alta, aumentando com o tamanho e o peso das fêmeas. Indivíduos com tamanho médio de 80 cm produzem cerca de 1,2 milhão de óvulos; cada um, quando maduro, mede 1,3 mm de diâmetro; o número médio de ovócitos por grama de peso corpóreo é de aproximadamen- te 78; desova total, na enchente, em rios de água branca; as larvas são carreadas pela correnteza durante 4 a 15 dias, percorrendo de 400 km a 1.300 km; depois, nadam em direção aos lagos de várzea, onde passam as fases juvenil e pré-adulto; peixes jovens, entre 1,3 cm e 15 cm de comprimento, são encontrados exclusivamente entre capins aquáticos tanto enraizados quanto flutuantes, localizados nas margens de rios de água branca e em lagos ou enseadas próximas a esses mesmos rios; as larvas começam a se alimentar de fontes externas ao atingir entre 5 mm e 7 mm de comprimento, quando

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passam a consumir zooplâncton, sobretudo cladóceros, rotíferos, copépodes e larvas de insetos, que são muito abundantes nos lagos de várzea. A presen- ça de maior quantidade de gordura estocada na cavidade abdominal no perío- do de seca é interpretada como uma adaptação para a manutenção do esto- que de reserva energética, utilizada no período de reprodução que ocorre no início da enchente (SANTOS et al., op. cit.).

A pesca do tambaqui é realizada, dominantemente, com redes de emalhe, tanto por barcos de pesca como por canoas motorizadas, e não há diferenciação marcante entre as macrorregiões da Bacia Amazônica. Existem dois picos de safra: o primeiro entre março e maio, e o segundo, menos evi- denciado, na vazante/seca, variando os meses com a macrorregião considera- da (BATISTA et al., 2012).

Segundo Santos et al. (2006), o tambaqui é o peixe mais importante na pesca e na piscicultura da Região Amazônica. Acrescenta-se que, em 1976, foram comercializadas, somente em Manaus, cerca de 14.000 t des- sa espécie, e que a produção diminuiu consideravelmente a partir daquele ano.

Além do estado do Amazonas (historicamente, o maior produtor), o tambaqui é importante para o Pará e o Amapá (correspondendo aos três esta- dos com maior participação na produção, nos últimos anos). O comportamen- to da produção total, no período de 1980 a 2010, é ilustrado na Figura 99, onde pode ser verificado que a produção total de 1980 a 1995 apresentou grandes oscilações, iniciando com 10.106 t, no primeiro ano da série, e crescendo no ano seguinte (12.381 t). Depois caiu para 7.808 t em 1986; em 1987, foi re- gistrada a maior produção do período: 15.264 t; retornou no ano seguinte para 10.275 t; entre 1989 e 1995 ficou entre 11.000 t e 12.000 t; em 1996, foi re- gistrada grande queda na produção; diminuiu ainda mais nos dois anos seguin- tes, quando chegou a apenas 2.760 t em 1998 (a menor do período); ocorre- ram recuperações e decréscimos nos anos seguintes, podendo, entretanto, observar-se tendência de estagnação das produções entre 2000 e 2010, sen- do que as dos últimos anos ficaram um pouco acima de 4.000 toneladas.

Comparando a evolução das produções com a relatada por Santos et al. (op. cit.), quando somente a produção desembarcada em Manaus foi de cerca de 14.000 t, pode-se inferir que as produções da década de 1970 foram superiores às registradas nas décadas de 1980 e 1990.

Figura 99 Comportamento da produção total nacional (t) de tambaqui no período de 1980 a 2010.

Os autores citados mostram preocupação com o grande crescimento da produção oriunda da piscicultura no estado do Amazonas, registrando em 2001 e 2002 a produção da pesca extrativa, que foi de 2.663 t e 2.929,5 t, respectivamente, enquanto a do cultivo foi de 3.000 t e 3.500 t no mesmo período. Esses dados indicam estar ocorrendo problemas com o controle es- tatístico das produções da pesca e da piscicultura, e exemplares da espécie sendo vendidos com tamanho muito inferior ao permitido, em muitos casos, abaixo de 20 cm de comprimento total. Comercialização, portanto, fora dos parâmetros estipulados pela legislação.

É possível, ainda, que parte dos tambaquis capturados abaixo do ta- manho mínimo de captura esteja sendo colocada no mercado como produto da piscicultura, o que contribui para reduzir a produção da pesca e incremen- tar a oriunda do cultivo, além, é claro, de servir para encobrir a ilegalidade do produto da pesca, capturado à revelia da legislação específica.

Batista et al. (2012), ao considerarem que o tambaqui sempre repre- sentou a espécie-chave na pesca da Amazônia, por ter elevada apreciação por parte da população regional e possuir demanda de outros centros, afirmam que a espécie entrou em regime de sobrepesca de crescimento ainda na dé- cada de 1970. O diagnóstico de sobrepesca já havia sido feito por várias ou- tras avaliações, conforme Freitas et al., apud Petrere Junior. (2007), que, em conclusão sobre análises do estado de explotação da curimatã, dos jaraquis, do surubim e do tambaqui, na Bacia Amazônica, afirmam que este apresenta

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a situação de exploração mais crítica. Continuando, adiantam que o caso é agravado com o crescente mercado de exemplares imaturos cuja presença nos locais de comercialização tornou-se rotina há mais de uma década.

O tambaqui está incluído no Anexo II da IN MMA n° 05/2004, que rela- ciona as espécies brasileiras sobrepescadas ou ameaçadas de sobre-explota- ção.

A pesca do tambaqui deve respeitar as regras gerais para as pescarias em águas continentais no Brasil, sujeitas às seguintes medidas específicas de gestão:

• Tamanho mínimo de captura (comprimento total – CT): para a Bacia

Hidrográfica do Rio Amazonas é definido em 55 cm (Portaria Ibama n° 8/1996).

• Defeso (proibição da pesca): na Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas

é proibida a pesca, o transporte, o armazenamento, o beneficiamento e a comercialização, anualmente, no período de 1° de outubro a 31 de

março (IN MMA n° 35/2005).

A proibição excetua produtos oriundos da piscicultura, devidamente registrados e acompanhados de comprovante de origem, bem como os da pesca realizada em lagos, autorizada pelo Ibama. Não contempla, também, a proibição dos métodos de pesca direcionados para a pesca do tambaqui, o que, na prática, anula o objetivo da proibição, pois continuar capturando ou- tras espécies no mesmo ambiente e com os mesmos métodos de pesca, é continuar capturando a espécie. Deve ser acrescentado o fato de até hoje não existir um sistema eficiente que possa servir de comprovação da origem do pescado: se de ato legal (da pesca de lagos autorizados ou da piscicultura) ou da pesca clandestina. Esses aspectos, na prática, dificultam enormemente ou, mesmo, inviabilizam uma fiscalização eficiente.

Esses aspectos são, provavelmente, os responsáveis pelo elevado desrespeito quanto ao cumprimento da medida, conforme relatado na biblio- grafia especializada. Como exemplo, cita-se o caso apontado por Batista et al. (2012), que consideram que mesmo os defesos tendo sido adotados a partir de 1989, 48% da produção desembarcada em Manaus, em 2002, ocorreu no período em que a pesca era proibida

Em função do exposto, a medida, tal como adotada (com elevada possibilidade de inutilidade), passa a ser, no máximo, paliativa. Agravada, é

claro, pelo insuficiente comprometimento dos que atuam na pesca e na ca- deia produtiva, o que, no conjunto, certamente explica a grande depleção dos estoques na década de 1990 e, mesmo, a crítica situação em que se encontra a pesca de tambaqui nos últimos anos.

Os problemas abordados, entre outros, devem ser objeto de profunda análise por parte dos gestores, para que encontrem saídas para tornar as medidas de gestão efetivas e possa ser revertida essa crítica situação de ex- plotação do recurso. Nesse sentido, as sugestões a seguir objetivam melhorar o sistema de gestão, para recuperar os estoques de tambaqui e manter a ex- ploração sustentável:

• Implementar um sistema eletrônico de certificação da origem dos tam- baquis disponíveis no mercado, de forma a identificar, em todos os elos da cadeia produtiva, se o produto teve origem na pesca legal ou na aquicultura.

• Avaliar se o tamanho mínimo atual está compatível para assegurar a desova da maioria dos reprodutores e, assim, contribuir para a reposi- ção dos estoques.

• Associar a definição de tamanho mínimo a parâmetros de seletividade dos principais aparelhos de pesca.

• Definir áreas permanentes de exclusão para a pesca ou, até, uma mo- ratória de alguns anos para toda ou parte da pesca, ou em todas as áreas de ocorrência da espécie na bacia.

• Se continuar a pesca no todo ou em parte da área, proibir as pescarias que utilizam os mesmos métodos direcionados para a captura do tam- baqui.

• Melhorar o sistema de controle e de fiscalização da pesca e da aquicul- tura.

No documento O USO DA BIODIVERSIDADE AQUÁTICA NO BRASIL: (páginas 144-146)

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