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5 O CENÁRIO DO TBC EM COMUNIDADES TRADICIONAIS DA

5.2 A construção social da vida na comunidade Santa Helena do Inglês

5.2.1 Tecendo a voz no campo das relações Socioambientais e o Turismo

As narrativas orais permitem interpretar o cenário local e as experiências vividas dos comunitários tanto no passado quanto no presente. A linguagem e os símbolos funcionam como mediadores nas representações da realidade dos sujeitos (CASTORIADIS, 1982).

[...] Eu nasci no lago do Acajatuba, quando eu cheguei aqui ainda não existia a comunidade, só tinha apenas quatro casas. Quem fundou a comunidade foi meu pai Isaías Ferreira e eu. Depois a gente a começemos a trabalhar em roça e depois tirar madeira. Hoje sou agricultor e junto com a minha mulher e minha filha Lucimar a gente trabalha fazendo farinha, goma, mas, a grande dificuldade aqui é o ganho, porque como a senhora vê, é um paraíso viver aqui, mas, é dificultoso vender, porque não tem pra quem vender aqui, então, fica difícil, mas, se tivesse aqui quem comprasse a nossa farinha e o as outras coisas que a gente planta, aí seria muito bom porque ia melhor o ganho aqui. É um trabalho muito bom, pra mim é meio difícil porque eu não sei ler nem escrever né, mas, eu tenho filho, tenho filha, eu tenho neta que sabe né, então, se chegasse cursos pra gente era muito bom. Antes aqui a gente trabalhava tirando madeira pra vender. Hoje, agente não tira mais porque foi criada a reserva né, daí foi proibido de tirar madeira. Mas, aqui a gente faz o manejo de madeira, e quando a gente precisa pra construir casa, barco, rabetas ou outra coisa pra comunidade a gente pode pegar. A FAS trouxe o turismo, pra mim é muito bom, porque a comunidade ficou mais conhecida, aqui vem muito turista, nós temos aqui a pousada comunitária que dá emprego pro pessoal daqui da comunidade [...] (ENTREVISTADO 1, informação verbal).

50% 40% 10% Nativo Comunidade Acajatuba-AM São Luís-MA

Os modos de vida da população ribeirinha amazônica são assegurados por meio da história oral (FRAXE, 2000).

Como se pode observar nos relatos em que o entrevistado faz menção do passado como um período promissor em se tratando de poder econômico e ao mesmo tempo insustentável devido à prática da atividade de extração de madeira. Já por outro lado, afirmou que apesar da atividade de turismo ainda está recente em sua comunidade é mais promissora e benéfica por trazer em seu bojo os princípios da sustentabilidade.

[...] Eu sou agricultora, trabalho com roça, agricultura familiar né, fazendo farinha com meu esposo e minha família só pro sustento mesmo da minha família né, porque aqui não tem pra quem vender em grande quantidade. Mas, pra mim melhorou muito aqui na comunidade depois que a FAS começou esse trabalho aqui com a gente, porque antigamente era mais difícil assim as coisas quer dizer por uma parte né, por uma outra era melhor porque a gente vivia aqui na comunidade, nada era proibido, tudo dava dinheiro, meu marido podia trabalhar tranquilo tirando madeira para o sustento da nossa família, daí quando passou a ser reserva pra cá, tudo ficou mais difícil porque não pode mais tirar madeira. E agora com o turismo e o plano de manejo da floresta a FAS e o SEBRAE deram cursos pra nós, eu participo de todos os cursos que tem porque é bom né, principalmente pra mim que nunca tinha feito um curso, foi bom porque eu aprendi muita coisa que eu não sabia né, porque quando eu era nova eu não tive essa oportunidade que estou tendo agora né, então todo curso que tem eu faço. Porque a gente tem o saber tradicional que a gente aprendeu com nossos pais e avós né, mas, agora tem os cursos então eu faço. Pra mim a chegada do turismo melhorou né, a comunidade ficou conhecida, agora nós temos essa pousada aí que é também restaurante, então, quando chega turista aqui a gente trabalha na pousada e já dar pra ganhar um dinheirozinho [...] (ENTREVISTADO 2, informação verbal).

Para alguns a o TBC trouxe transformações significativas em termos de infraestrutura local, geração de renda e uma atividade social e empreendedora por envolver os comunitários e despertar neles a vontade de ser um empreendedor como menciona o entrevistado a seguir:

[...] Particularmente o Turismo de Base Comunitária pra mim é muito importante, porque faz com que as pessoas possam ganhar da aquilo que temos na floresta. O turismo sim gera renda pra comunidade. Tenho um sonho de me formar em turismo, ser turismóloga e tenho fé em Deus que vou conseguir realizar. Trabalhar com o turismo e ser uma empreendedora [...] (ENTREVISTADO 3, informação verbal). [...] Aqui na comunidade é muito bom de viver, aqui como a senhora tá vendo é um paraíso, aqui nós temos tudo. Temos peixe, farinha, plantações na roça, frutas, comércio, a gente não precisa sair daqui pra comprar as coisas em Manaus, aqui tem tudo, a gente vive bem. A grande dificuldade aqui é de conseguir emprego, porque não tem, essa é a maior dificuldade da gente que mora aqui. Mas, depois, que chegou o turismo aqui, melhorou muito, porque a gente vivia aqui esquecido, ninguém vinha visitar a gente, agora não, vem turista pra cá, ficam aí na pousada, quando tem a gente trabalha na pousada e já ganha um dinheirinho né, daí é bom [...] (ENTREVISTADO 4, informação verbal).

Com esse enfoque, o Turismo é compreendido como uma ação inovadora capaz de conciliar a proteção do patrimônio natural e cultural e ao mesmo tempo gerar emprego e renda.

[...] Na minha opinião, a comunidade melhorou muito com a chegada do turismo, porque antes aqui nós nunca tínhamos feito um curso de nada e a FAS, o SEBRAE, o CETAM e a AMAZONASTUR já deram cursos aqui pra nós, foi muito bom, aprendi muito. Melhorou também a qualidade de vida né, que antes a gente explorava a madeira agora com a reserva não pode mais, e isso é bom porque a gente preserva nossa floresta, não queimar, não jogar lixo na comunidade, porque nós aprendemos que temos que manter a comunidade limpa pra receber os turistas e pra nós mesmo vivermos num ambiente limpo. Vejo que até a questão da união aqui na comunidade melhorou, agora a comunidade é mais unida, sempre se reuni, a renda também melhorou com a criação da pousada dando oportunidade pras pessoas daqui trabalharem quando vem turistas pra cá, então isso é bom né, porque antes aqui não vinha ninguém nos visitar, a gente aqui era esquecidos. Mas, o que a gente vem lutando é para que o turismo se desenvolva aqui na nossa comunidade e deixe mais renda e emprego porque, quem traz os turistas pra cá são as agências, então, elas ganham mais e se a gente daqui da comunidade trazesse seria melhor pra nós né. Mas, aqui não tem internet, não temos um barco pra trazer o turista como lá o Roberto do Tumbira tem, a gente depende dele e das agências pra trazer turistas [...] (ENTREVISTADO 5, informação verbal).

Os depoimentos acima ilustram uma organização comunitária assimétrica, baseada nas relações de poder entre comunidade e iniciativa privada e entre as comunidades da RDS. Algumas têm a preferência e a estrutura para melhor atender ao turista, e nesse sentido outras apresentam limitações para a atividade turística, muito embora pretendam que a atividade seja desenvolvida na localidade. O empreendedorismo esbarraria nesses processos, cujos agentes começam a aparecer de forma desequilibrada no campo. As comunidades não tem a mesma importância no desenvolvimento do turismo, não tem o mesmo capital social e disputam as tais melhorias entre si, ao mesmo tempo em que cooperam.