Segundo CARMO (2000, p. 56), as opiniões a respeito dos impactos da informática sobre a política, a educação e a cultura são díspares e variam desde uma ingenuidade eufórica até previsões sombrias, que visualizam um mundo povoado por duas classes: a dos “ultra”-informados, detentores do saber acumulado por gerações, e a massa ignara, susceptível de ser manipulada. A sociedade contemporânea, segundo SILVEIRA (2001, p.425), seria dividida entre os “inforicos” e os “infopobres”. Este autor aponta que as sociedades humanas se organizam como “tecnodependentes”, pois “todo período histórico possui um conjunto de tecnologias que as sociedades dominantes e dentro delas, suas elites, utilizam como fonte especial de poder e de reprodução de riqueza” (ibid.).
Por um lado, a tecnologia informacional proporcionou um avanço à humanidade na sua capacidade de acumular e desenvolver conhecimento, agora guardado em bancos de dados. Tornou-se possível, pela primeira vez na história a distribuição de produtos culturais e conhecimentos para uma parcela significativa da população mundial, possível de ser feita até simultaneamente. Por outro lado, dentre as questões polêmicas que envolvem o processo de informatização da sociedade, uma das que causam preocupação é a instalação de bases de dados interligados em diversos continentes (CARMO, 2000, p. 43). O fluxo de dados transfronteiras é visto por alguns como uma ameaça, um fator que pode reforçar a dominação dos países ricos sobre o Terceiro Mundo. Para muitos, a tecnologia não passa de mais um instrumento capitalista colocado à disposição dos dominadores para exercer sua opressão (SILVEIRA, 2001; CARMO, 2000; LIBÂNEO, 2000).
CARMO (2000, p.86) acredita que a informática precisa ser considerada parte do acervo cultural da humanidade e não um produto de um sistema sócio-político específico. Entretanto, o modo como essas informações são utilizadas pode significar tanto maior liberdade de expressão para os indivíduos como também um
controle mais eficiente sobre a consciência das massas. Pode-se inferir que o país ou governo que tiver o maior controle sobre as informações terá também a maior parcela de poder. A discussão sobre políticas de Informática deve incluir a gestão dos bancos de dados oficiais ou privados e o acesso dos cidadãos às informações catalogadas nestes bancos de dados (CARMO, 2000 p.50 - 54). Controles de acesso aos bancos de dados são necessários, para garantir a qualidade e segurança dos recursos, redes e dados dos sistemas de informação da organização e de seus usuários finais. Os computadores provaram que podem processar grandes volumes de dados e executar cálculos complexos de modo mais preciso do que os sistemas manuais ou mecânicos. Entretanto, sabe-se também que ocorrem erros em sistemas computadorizados. Ainda, os computadores, muitas vezes têm sido utilizados para fins fraudulentos. Sistemas computacionais e seus recursos têm sido destruídos acidental ou deliberadamente com a criação dos chamados vírus de computador, que são programas projetados para espalharem-se e danificarem vários arquivos importantes do computador ou clonarem senhas e outros dados sigilosos. São necessários controles eficazes, para que os sistemas de informação funcionem com precisão, integridade e segurança, deixando-os livres de erros e fraudes (REIS, 2005, p. 20).
Nesta perspectiva insere-se o software livre4. Um programa livre é todo aquele que tem uma licença de uso que garante aos seus usuários os direitos de copiar o programa fonte, de alterá-lo livremente e de conhecê-lo, pois ele não pode ser escondido ou ter sua distribuição restrita (MELO et al., 2002, p. 68). Para Richard Stallman, criador da Free software Foundation, em 1985 (apud MERCADO, 2002, p.63), a livre circulação de idéias e de códigos fontes é imprescindível para a evolução da computação. Segundo SOUZA SANTOS (2002, p. 46).
O movimento de software livre é a maior expressão da imaginação dissidente de uma sociedade que busca mais do que a sua mercantilização. Trata-se de um movimento com base no princípio do compartilhamento do conhecimento e na
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A referência para acesso aos sites de software livre se encontra no anexo de nº. 10 desta pesquisa.
solidariedade praticada pela inteligência coletiva conectada na rede mundial de computadores.
Enquanto muitos desenvolvedores de softwares têm objetivos comerciais e financeiros, a filosofia do software livre é promover um intercâmbio de programas e experiências em busca da democratização do acesso à informação (MERCADO, 2002, p.65). SILVEIRA (2001, p.445) acredita que o software livre incentiva a desconcentração de poder, o desenvolvimento da autonomia, a liberdade e a diversidade em sintonia com o respeito à cidadania.
Essas reflexões nos remetem a relevantes questões, como a inclusão digital, a democratização do acesso às redes informacionais e a construção da capacidade crítica, que se configura como alternativa para se enfrentar a manipulação da informação e, por conseguinte, das consciências. Para SILVEIRA (2001, p.431), “[a] luta pela inclusão digital pode ser uma luta pela globalização contra- hegemônica, se dela resultar a apropriação pelas comunidades e pelos grupos socialmente excluídos da tecnologia da informação.” O autor (p.434) define inclusão digital como a “universalização do acesso ao computador conectado à internet, bem como ao domínio da linguagem básica para manuseá-lo com autonomia.” Um dos focos da inclusão, ao lado da ampliação da cidadania e da profissionalização, é voltado para a educação e inserção autônoma dos jovens na sociedade “diante do dilúvio informacional” (ibidem). Segundo SILVEIRA (2001, p.444), “é urgente e prioritário implantar laboratórios de informática em todas as escolas e conectá-las à rede informacional. [...] O acesso à comunicação em rede é a nova face da liberdade de expressão na era da informação”.
O reflexo desse cenário contemporâneo no campo da educação, especificamente da inserção das novas tecnologias no âmbito educacional, será abordado no próximo capítulo.