4.5. Qualidade de Vida na Prainha do Canto Verde
4.5.14. A Teia da Qualidade de Vida Comunitária
A Teia da Qualidade de Vida Comunitária (Figura 38) trata-se da integração de todos os índices em um mesmo recurso gráfico (radar), o que nos permite a comparação entre diferentes dimensões (necessidades) da Qualidade de Vida, além de uma visão integrada da mesma, servindo também como instrumento de sensibilização para a atenção sobre diversos aspectos que dizem respeito à qualidade de vida comunitária.
Quanto maior e mais circular o aro que une os índices, melhor será a qualidade de vida da comunidade. Para uma melhor compreensão dos resultados, classificamos as necessidades quanto ao valor alcançado por seus índices, em três grupos:
Tabela 18 Necessidades
NECESSIDADE SIGLA Educação EDU Alimentação ALI Cultura & Lazer C&L
Saúde SAÚ
Trabalho TRA Organização ORG Tratamento do Lixo LIX Transporte TRS Água AGU Energia ENE Segurança SEG Moradia MOR Pesca PES
Figura 38. Teia da Qualidade de Vida Comunitária.
Grupo 1 - Baixa Qualidade de Vida ' em vermelho' (até 40):
Onde se enquadram as necessidades: Alimentação, com cerca de 32, sendo a necessidade com menor índice e Organização, cujo índice ficou em torno de 40.
Grupo 2 - Média Qualidade de Vida ' em amarelo' (de 41 até 60):
Neste grupo, em ordem crescente, encontramos o Trabalho com 47, Cultura & Lazer e Transporte, ambas com 54, Moradia com 57 e Água com 60.
Grupo 3 - Boa Qualidade de Vida ' em verde' (acima de 60):
Com um índice considerado como bom, encontramos, em ordem crescente, a Segurança, o Tratamento do Lixo e a Educação, todos com 62, a Pesca com 65, a Energia e a Saúde com 74, sendo estas as necessidades que obtiveram melhor resultado.
Assim, o conjunto dos índices revela que a necessidade de Alimentação, seguida da de Organização, são as que se encontram em situação mais crítica, segundo os indicadores escolhidos. Em relação à alimentação, lembramos que os indicadores que obtiveram menores resultados foram: a proporção de famílias que possuem canteiro e a proporção de famílias que fazem 5 refeições ao dia. Situação que pode ser revertida, através de campanhas educativas sobre a alimentação e a horticultura. Além disso, esta constatação reforça a necessidade da
escola utilizar melhor sua horta/farmácia viva, tanto na educação dos alunos, quanto como fonte de estudo e ensino, em cursos e oficinas sobre agroecologia.
Em relação à Organização, os indicadores que obtiveram menores resultados são aqueles que dizem respeito à participação das famílias nos Conselhos comunitários. Para reverter este quadro, cabe aos membros dos conselhos, à diretoria da Associação, à Igreja, à escola e a todos de modo geral, incentivarem maior participação das famílias nos conselhos. Além disso, acreditamos que seria importante criar um espaço unificador entre os Conselhos e a Associação, onde devem ser discutidos os papéis de cada um na comunidade, bem como devem ser articulados seus planejamentos, em torno de um projeto político-estratégico de desenvolvimento para a comunidade, que vise à melhoria da qualidade de vida de sua população, de maneira solidária e sustentável.
Este espaço unificador, que poderia ser chamado de Comissão Gestora, Fórum da Qualidade de Vida, Fórum da Agenda 21 ou qualquer outro nome que o grupo desejar, seria responsável pela Gestão Ambiental Comunitária e, conseqüentemente, pelo Monitoramento Participativo da Qualidade de Vida. Acreditamos assim, que a articulação entre a Associação, os Conselhos e demais grupos organizados da comunidade, se faz necessária e pode dar novo impulso à organização comunitária.
Apesar de termos classificado as necessidades em três categorias (baixa, média e boa QV), a partir dos valores dos índices, acreditamos que, dando continuidade ao monitoramento, tanto quanto ou até mais importante do que o valor alcançado pelos índices é a trajetória observada entre duas medições, ou seja, a tendência ascendente ou descendente dos mesmos. Assim, como o Desenvolvimento Humano Sustentável é um processo dinâmico, importa, tanto quanto alcançar um nível satisfatório para os índices, manter uma trajetória ascendente.
Por fim, a análise comparativa entre os índices pode ajudar na definição de prioridades para a ações que visem à melhoria da qualidade de vida comunitária, no entanto, é a partir dos indicadores que estas ações devem ser planejadas. Por tanto, o bom resultado do índice de determinada necessidade não significa que não se deva planejar ações que visem à sua melhoria. O planejamento de ações deste cunho, tem nos índices e indicadores uma fonte de informações que podem ajudar na tomada de decisões estratégicas, no entanto, o mesmo dependerá da negociação entre os atores sociais envolvidos, com base em sua compreensão, prioridades, recursos e tempo disponível.
Tendo como base o princípio da sinergia14, acreditamos que os recursos ambientais identificados, devem ser utilizados para a satisfação do maior número possível de necessidades, o que é condizente com um dos princípios da Permacultura, que diz que cada elemento de um sistema deve executar muitas funções. Assim, as ações planejadas devem buscar a satisfação do maior número possível de necessidades. O que MAX-NEFF, ELIZALDE & HOPENHAYN (1993) chamaram de escolha de satisfatores sinérgicos. Segundo os autores "os satisfatores sinérgicos são aqueles que, na medida em que satisfazem uma necessidade determinada, estimulam e contribuem para a satisfação simultânea de outras necessidades".
Desta maneira, por exemplo, a realização de campanhas, cursos e oficinas, que visem estimular a prática da horticultura, pode ser utilizada também para incentivar boas práticas alimentares, a compostagem (como forma de tratar o lixo orgânico), a educação (na medida em que estimulem a educação familiar, a partir de trabalhos conjuntos entre pais e filhos), o uso racional da água etc.